segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Conto - O preso - Moreira Campos

Que belo e bem trabalhado conto desse excelente literato cearense chamado  MOREIRA CAMPOS - Ele não deve nada a nenhum dos escritores da literatura universal - o conto se chama " O Preso" - percebam o paradoxal desfexo desse conto : 







José Maria Moreira Campos

Dr. Antero, charuto na boca, em mangas de camisa e suspensórios, derramava-se na espreguiçadeira naquela tarde de sábado, os braços para cima, no alto da calçada. Já a sombra das casas deitava-se larga sobre a praça da estação. Viera até ali para uma questão de terras e hospedara-se na casa do próprio tabelião, conhecido velho. Estudara o processo, arrazoara, a pedido seu o do cartório antedatou um documento, e o Dr. Antero deveria voltar na manhã seguinte.
Ao lado, o tabelião, na blusa de pijama e chinelos, jogava gamão com o farmacêutico, figura seca e encurvada, num grande nariz.
- Quina, compadre! - disse o serventuário, esfregando os pés um no outro embaixo da cadeira. - Dou-lhe uma, dou-lhe duas. Tire esta.
O farmacêutico recolheu a pedra num silêncio concentrado. Homem de poucas palavras, quando perdia ficava mudo e aborrecia as expansões do outro.
Dr. Antero tornou a estender a vista sobre a praça. Tirou o charuto melado da boca, cuspindo peles de fumo:
- Há vinte anos que conheço esta terra, e não muda! Já vinte! A mesma coisa. Agora pior, parece.
O do cartório, que era do situacionismo, guardou silêncio. O da farmácia aproveitou-se:
- Falta de um homem na Prefeitura.
- Ah!, isso não, compadre, que ele até tem se esforçado.
- Aonde? Quer dizer a mim?
Dr. Antero escarrou:
- A falta de administração é geral. Uns irresponsáveis!
- Muito bem!
- Cinco e três. Casa de novo, compadre. Tira a sua pedra.
Dr. Antero falava por fado. Mas no momento até aprovava aquela falta de progresso: saturado da capital, todo ele repousava na paz dormente do lugarejo.
A estação em frente. Carros de carga no desvio. Um empregado da estrada de ferro passou firmado na muleta, a lanterna apagada na mão. Um carro de boi esquecido à sombra de velha mangabeira. Perto da cerca, mais à distância, na grama verde, porque era fim de inverno, crianças se divertiam com uma bola de meia, possivelmente. Trecho de serra em frente, saindo por trás da estação, onde as nuvens caíam em grandes manchas na tarde.
O tabelião lembrou-se de que estava na hora do café, e dali mesmo, curvando-se um pouco, gritou para dentro de casa através do corredor úmido e escuro:
- Belinha, um cafezinho aqui, nega.
- Vai já.
Foi aí que Dr. Antero resmungou na cadeira:
- Lá vem gente presa.
Os olhos ergueram-se do gamão e o dono da casa girou a cabeça para ver melhor:
- Vem mesmo.
Um velho mirrado e de pele escura puxava um jumento pelo cabresto, entre dois soldados do destacamento. Atrás vinham alguns moleques, guardando distância, já enxotados pelos soldados.
Ao aproximarem-se da casa, Dr. Antero levantou-se:
- Que há?
O grupo estacou. Os moleques tomaram chegada e se postaram de braços cruzados e escorados nas pernas.
- Ele estava na feira... - iniciou-se um dos soldados.
- Doutor, me solte pelo amor de Deus! Eu peço a vosmecê pela sua bondade. Não fiz nada, acredite.
Esqueceu-se o jogo. Já havia gente nas calçadas e janelas das outras casas. Dona Belinha trouxe a bandeja com café e ficou esquecida também, nas pontas dos pés, para olhar por cima do ombro de Dr. Antero. Alguém derrubou o tabuleiro de gamão: bozó, pedras e dados por baixo das cadeiras.
- Um momento. Mas, afinal? - tornou Dr. Antero.
- Ele tem um apelido. Caroço.
- Mas me chamo Inácio! Que eu não posso atender por um nome desses...
Houve risos em volta e os olhos se detiveram num lobinho que quase cobria a vista esquerda do velho.
- Como? - fez Dr. Antero, pondo a mão em concha no ouvido.
- Caroço. É um apelido. Brincadeira de menino. Começaram a aperrear ele na feira. Zangou-se, deu com o cacete pra trás e pegou no menino na altura da testa.
- Mas só foi na pele. E eu mesmo fiquei agoniado e procurei estancar o sangue. Um vexame, doutor. Frecham em riba de mim todo o tempo. Empurram, atiram casca de banana, toda porqueira que dão de garra (com licença de vosmecê). Vem isto de anos. Já quis até me mudar de canto, se pudesse. Apelo para vossa senhoria.
Dr. Antero irritou-se:
- Isto vale nada! Soltem o pobre homem!
Inácio tomou-se de grande esperança, enquanto olhava para os que o detinham:
- Muito bem, muito bem, doutor!
- Não pode. O menino ferido é filho de Dr. Targino - falou o soldado.
- De quem?
- É filho do juiz de direito - esclareceu o farmacêutico ao lado.
- Meu velho, pra que você fez isso! - disse Dr. Antero, já sorvendo o café e perdendo um pouco do primeiro entusiasmo.
- Não 'tava no meu propósito. Eu peço aos senhores. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Nunca fui. É o que eu digo aos meninos lá em casa. Não tenho paciência de ser preso.
Riram muito com a frase. O tabelião divertia-se, vermelho e todo sacudido pela novidade. Sungava as calças com os cotovelos e comentava em volta de um para outro:
- Hein? Hein? Que tal? Esta é boa! "Não tenho paciência...". Como é que ele diz?
- Eles soltam logo, meu velhinho - adiantou Dona Balinha, fazendo sinal ao marido para conter-se.
- Soltam não, dona. Eu sei o que é isso.
velho apanhava numa das mãos o chapéu de palha desfiado nas abas, o cabresto do jumento enrolado na outra. Pés descalços. Os cotos de unhas negros, comidos pela terra, lembravam nós. Calcanhares gretados. As calças de morim ralo e sujo, curtas nas pernas e com joelheiras. No pescoço fino e de pele engelhada, uma medalha barata num cordão sebento. Os olhos miúdos e escuros confundiam-se com a pele, lá dentro, um deles diminuído pelo lobinho.
Era grande o seu ar de aflição, dirigindo-se a todos os lados, com apelos gerais:
- Vim vender banana nesses caçuás. Antes não tivesse vindo.
Repetia-se, pedinte:
- Moços, vosmecês todos, me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso.
Voltavam a rir:
- Ora, veja!
O jumento, de quando em quando, soprava forte nas narinas, baixando a cabeça, ou dava com a pata traseira para tanger as moscas que lhe mordiam a pisadura na cilha.
O soldado mais novo insistia em que a prisão fosse feita. O outro quase não falava. Limitava-se a soltar cusparadas de lado: nariz vermelho, gordo, o casquete colocado ridiculamente no alto da cabeça, o cinto frouxo na barriga. Piscava e comia os beiços, num tique comum aos que bebem. Dava a impressão de que tudo aquilo para ele era uma grande maçada. Obedecia.
- Toca! - falou o mais novo.
O grupo retomou a marcha.
- Eu não tenho paciência de ser preso.
Já iam distantes, e aqui na calçada o tabelião rindo, enquanto procurava pelo chão um dos dados:
- Como é que ele dizia mesmo?
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
- Aparece cada uma!
- Isto é uma judiação! - falou Dona Belinha.
- É assim mesmo. Talvez ele tenha bebido, e foi violento - concluiu Dr. Antero, derramando-se na espreguiçadeira.
Era frente à cadeia, amarraram-lhe o jumento no tronco da mangueira e o meteram na primeira cela, com grades para a praça. Ele ainda se agarrou às barras de ferro da porta, numa súplica:
- Me soltem... eu peço ao senhor.
O soldado girou o molho pesado de chaves e os seus passos se perderam ao longo do corredor.
Vindo da luz, Inácio enxergava pouco ali dentro. Apertava os olhos, pondo a cabeça de lado para orientar-se. Acocorou-se a um canto, onde os olhos miúdos brilhavam. Por fim, foi-se acostumando à sombra: a cela era espaçosa e alta, chão de tijolo úmido, em cima um travejamento forte e antigo. Passou o dedo no tijolo e provou o barro vermelho, supondo que ali tinham guardado sal noutros tempos. Descobriu um caixão de querosene perto da janela, e acomodou-se melhor. Revia os seus: a filha, a mulher e os meninos. Dizia-lhes sempre: "Nunca fui preso, e filho meu não me dá esse desgosto. Está no bom comportamento de cada um". Não sabia porquê, insistia o rosto da filha, que tinha os seus pequenos olhos, o cabelo apanhado num cocó. Encarregava-se de levar-lhe o prato de comida ao roçado, enrodilhado num pano, a colher de latão de través. Ficavam os dois no canto da cerca, sob a sombra do cajueiro, enquanto ele almoçava. O rosto da filha agora encarava-o de perto, em cima, sem compreender o olhar espantado.
Levantou-se e deu várias passadas na cela. Parou em frente à janela. Os olhos ficavam no plano do peitoril e podia avistar o jumento, que cochilava paciente, o cabresto muito curto, os caçuás ainda na cangalha. De quando em quando dava com a pata traseira para frente, tangendo varejeiras.
Ao fundo, a calçada alta, com batentes, de um trecho do mercado. O sol cambava, filtrando-se horizontal e vermelho na luz branda da tarde, e punha na parede da cela os retângulos da grade.
Inácio aproximou o caixão de querosene da janela e alçou-se até a soleira.
O menino que ia passando em frente à cadeia assustou-se vendo aquele braço escuro a acenar-lhe entre as barras de ferro:
- Tenha medo não, meu filho.
- Hem?
- Ouça. Aí mesmo da ponta da calçada.
- Que e?
- Olhe, solte ali aquele jumento. Ele é meu. Quer se deitar e não pode. Tire o cabresto e me dê.
- Vai embora.
- Faz mal não. O menino obedeceu e entregou-lhe a corda pela janela.
Quando no outro dia pela manhã o soldado empurrou a porta pesada, Inácio pendia enforcado da grade da janela, o nó apertando-se no terceiro varão, o caixão de querosene caído de lado.
- Oh!
O rosto estava arroxeado e intumescido, a língua de fora, os pés esticados para baixo, roçavam a parede. O lobinho parecia tragicamente maior.
- Que coisa! Aqui, aqui! Ora, vejam!
Presos, soldados, gente das casas vizinhas, e, dentro em pouco, uma grande multidão à porta da cadeia.
A frase tomou conta das consciências. Pelas nove horas, o tabelião, ao assinar uma escritura, ainda a repetia, arrastando a pena no papel:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Dona Belinha misturava-a com o caldo na cozinha, enquanto girava a colher de pau. 0 farmacêutico triturava-a com o pó que mexia no almofariz.
Já o trem de Dr. Antero partira. Tentou a leitura de uma revista, que atirou de lado. - "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Ergueu-se, foi ao carro-restaurante, tornou à sua cadeira. Olhou pela janela. Um açude, bois que pastavam, carnaubeiras e, logo a seguir, a ponte de ferro. As rodas do carro matraqueavam nos trilhos num ritmo que reproduzia a frase inesperada:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".

("Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro" – Editora Cultrix)

4 comentários:

  1. Infelizmente, muito atual este conto. Cada vez pior continua Senador Pompeu. Walter Lima - Youtuber, radialista, repórter

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  2. Essa frase é muito intrigante. O que ela nos revela é o grito dos excluídos.

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  3. Essa frase é muito intrigante. O que ela nos revela é o grito dos excluídos.

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