sábado, 29 de outubro de 2011

Airton Monte - Inútil Paisagem - 14 de Outubro 2011



Nessa tarde chocha, chata feito uma chuva indesejada, que não merece nem mesmo um soneto ruim, capenga, de pé quebrado, quanto mais um poema ensolarado de Vinícius de Moraes, vejo-me absolutamente sem nada para fazer a não ser esperar que o tempo passe em sua marcha lenta como um trabalhador cansado ou um bêbado retardatário esperam um ônibus que demora a chegar na alta madrugada. Então, eis-me ora sentado numa cadeira de balanço olhando, por ente as grades de um verde desbotado da varanda da frente, o movimento da rua onde atualmente habito. É uma rua estreita, de curto percurso, que vai da Jovita Feitosa à Avenida Bezerra de Menezes. Chama-se José de Barcelos, que no passado deve ter sido um personagem deveras importante para ter seu nome gravado numa placa azul com letras brancas, mas que ainda não tive a curiosidade de saber quem foi e o que fez nos anais de nossa alencarina história. Pouco importa, mas me vem uma vontade narcísica e ridícula de um dia vir a ser um nome de rua que nem esse, para mim, desconhecido personagem.
Um casal de jovens namorados passa diante de mim montado em suas bicicletas. O rapaz carrega, sem demonstrar esforço, uma prancha de surfe no braço esquerdo. A mocinha, até bem bonitinha, leva uma mochila cor de rosa dependurada num dos ombros. Ambos vão pedalando devagarinho, pois o amor não tem pressa, trocando lânguidos olhares lentos e demorados, alheios aos perigos habituais do trânsito, esquecidos, de tão enlevados, que podem ser colhidos a qualquer momento por um automóvel ou uma motocicleta que dobrem a esquina de modo inesperado e numa velocidade assassina. O rapazola é negro, a pele curtida pelo sal do mar e ostenta uma basta cabeleira de cantor de reggae. A moçoila é branquinha, veste uma bermuda jeans, uma blusa curta, com o umbigo de fora, o cabelo preso num rabo de cavalo quase louro. Fazem um belo par, penso comigo mesmo, e enfeitam e suavizam a rudeza do dia com a sua álacre presença.

Bem em frente à minha casa, há uma lojinha de conveniências que vende artigos variados como salgadinhos, refrigerantes, créditos para telefone celular e cópias xerox. As pessoas entram e saem de lá incessantemente, comprando essas pequenas inutilidades úteis de que todo mundo precisa de vez em quando. Até eu já usei seus préstimos e o faço com certa frequência, pois ocasionalmente sou acometido por um desejo irrefreável de comer bagulhos feito um menino na hora do recreio. Agora mesmo, uma menina de uns dez aninhos, de ar espevitado, caminha na minha calçada, passeando alegremente com seu diminuto cachorrinho, mas logo some do meu restrito campo de visão. Passa um homem jovem, carregado de pacotes, andando apressado, se liquefazendo debaixo do sol forte. O homem só olha pra frente, seguindo um rumo determinado, como se não existisse nada mais a seu redor. Suas longas pernas se movimentam feito os pistons de um motor. Um homem determinado, esse que passa à minha frente.

Cansado de minha tamanha pasmaceira, levanto-me da cadeira, vou até o portão e o abro. Desço o batente, olho mais longe para um lado e para o outro, tentando ver alguma coisa que ainda não vi. Porém, nada observo que me pareça interessante o suficiente para prender, despertar minha atenção. Iludo-me, engano-me. Nada há que eu já não tenha visto em outras tardes iguais a essa. Apenas diviso o rotineiro, o habitual, o corriqueiro acontecendo no entardecer suburbano. Trata-se apenas do idêntico cenário de sempre tal e qual um capítulo repetido de novela. Entanto, permaneço parado no portão, imóvel como um poste. Passados alguns tantos minutos, que bem poderiam ser horas, eu me pergunto o que estou fazendo ali, parado no mesmo lugar, olhando o nada, fitando o vazio, sem nenhuma ênfase no ato de olhar. Que tarde mais besta, meu Deus, que tarde mais besta. E muito mais besta sou eu que me deixo aqui parado vigiando o coisa nenhuma, o nada de interessante ou de inesperado. Fecho o portão, volto pra dentro de casa com o sentimento de quem perdeu a viagem simplesmente por não haver nenhuma viagem a fazer.


Airton Monte - Encanto quebrado - 13 de Outubro 2011


Ah, esses súbitos e ferozes vendavais de outubro que fazem as janelas tremerem nos caixilhos e as portas baterem estrepitosamente de encontro aos encaixes com o soar estalado de um tiro. Vou caminhando lentamente pelas ruas dessa que ainda considero minha cidade (não sei até quando) a favor do vento, carregando nos bolsos alguns documentos e nas mãos apenas aquilo que o poeta Drummond chamava de sentimento do mundo. Ao meu redor, a cada rajada da ventania, revoam papéis, folhas secas, além dos pequenos sacos plásticos que se alçam mais alto feito pássaros de asas cobertas de imundície. Protejo como posso os meus olhos morrendo de medo que sejam invadidos por um cisco a qualquer momento. Os ferozes ventos de outubro levantam a poeira do chão e espalham resfriados e alergias sazonais a torto e a direito, nos cercando de micróbios variados às mancheias.
A cidade está fervilhando de grevistas como há tempos não acontecia. Greve dos professores, dos carteiros, dos bancários. Greves que parecem infindas, intermináveis que atrapalham e atubibam o já sofrido cotidiano dos cidadãos comuns, como eu, que estamos vendo urso de gola para receber dinheiro, a correspondência, pagar as contas do mês. É tanta gente fazendo greve que só nos falta mesmo as mulheres entrarem em greve de sexo por essa ou aquela razão. E do jeito que as coisas vão nesse Brasil de Mãe Preta e Pai João, eu particularmente de nada mais duvido. Entanto, tentando manter-me alheio à confusão reinante, continuo a minha caminhada rumo à amada Gentilândia para matar as saudades que são muitas e visitar o meu compadre Chico Newton, recém-saído do hospital devido haver sofrido um piripaque no coração, quase tomando assento na barca de Caronte antes do tempo. É, ao que tudo indica, a saúde de nossa geração já não é mais a mesma, pois envelheceu junto conosco.

Felizmente, o velho amigo de tantas jornadas boêmias em nossa tresloucada juventude vai passando muito bem, se recuperando do susto e com o motor cardíaco devidamente recauchutado nos conformes. Mais um condenado à abstenção etílica, exilado da ronda dos bares gentilandinos por tempo indeterminado. Menos mal. Pior seria se houvesse sido banido da vida e agora fosse só saudade no coração da gente. Demorei pouco, porém conversamos bastante. Falamos de tudo que nos vinha à cabeça, menos doença, é claro. Lembramos de nossas aventuras do passado, das noites alegres, das madrugadas bêbadas, seresteiras, das paixões vividas e acontecidas, dos festivos amanheceres em que pegamos o sol com a mão incansavelmente, da pressa que tínhamos de sugar todos os prazeres possíveis da vida como se adivinhássemos os males que nos acometeriam no futuro. Todavia, o importante é que ambos sobrevivemos para contar nossas histórias.
 
Na volta pra casa, como a tarde inda era jovem, parei numa sorveteria, pedi um creme de maracujá e lá me fui degustar a guloseima pacificamente aboletado num dos bancos da pracinha. Observando os arredores, vi que a Gentilândia pouco mudou nas aparências, porém perdeu demasiado em sua essência de lugar calmo, tranquilo. A violência, a criminalidade ali já cravaram as suas garras implacáveis. Li nos jornais que por aquelas bandas houve dois assassinatos dentro de uma única semana. E que o bucolismo da praça foi quebrado pelos traficantes de drogas que vendem seus malditos produtos na cara de todo mundo. É, meu bom Deus, realmente esta cidade mudou para pior. Nem a Gentilândia é mais um lugar seguro. Tornou-se um território perigoso demais para meu gosto. Então, recordei de uma frase de Guimarães Rosa: ”Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto”. E eu acordei. Quão triste foi.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Airton Monte - Livre Viver - 12 de Outubro 2011

Airton Monte - Livre Viver - 12 de Outubro 2011

Pois então: depois de passar praticamente uns tristes dois meses sem botar os pés fora de meu suburbano tugúrio, a não ser para resolver compromissos e pendências de cunho burocrático referentes à minha oficial pessoa física, além das já tradicionais perambulações pelos consultórios médicos, no azafamado preparo de minha operação de catarata, confesso que estava prestes a sucumbir de um insuportável tédio. Sem exagerar no que digo, virei um prisioneiro de minha própria casa, com datas e horários regulados, cronometrados, marcados para tudo. E assim tornei-me uma espécie de meu carcereiro pessoal, impondo-me regras rígidas e intransigentes. Para a fantasia ficar mais completa, só me faltaram as algemas nos pulsos, uma bola de ferro presa às magérrimas canelas por uma corrente enferrujada e um uniforme zebrado de presidiário. O resto estava segundo manda o figurino dos infelizes encarcerados, apear de usufruir de um certo caseiro conforto para dar-me, pelo menos, um pouco de alívio.

Finalmente, no sábado passado, os amigos do peito, condoídos de minha miseranda situação, generosamente uniram-se em um bendito bando imbuídos da intenção precípua de resgatar-me do meu solitário e infeliz enclausuramento e me proporcionarem algumas horas de divertimento que eu, pra ser o mais sincero que posso, considerei por demais merecido e do qual andava bastante precisado, do contrário minha higidez mental certamente terminaria indo para as cucuias. Desse modo, armados de carinho e de fraternal amizade, arrebentaram as grades de minha prisão e me devolveram a mais que preciosa liberdade, quem sabe a tempo de impedir-me de cometer uma possível insensatez. Como de habitual, fui levado para o restaurante do Ideal, um dos locais de que mais gosto nesta cidade, depois que a Praia de Iracema transformou-se em uma lírica abstração em meu saudoso imaginário poético, inesquecível, romântica habitante de minha memória.

Até hoje, juro que me foge à racional compreensão o fato de alguns companheiros das lutas de outrora e de determinados membros da literária confraria alencarina encararem com um tolo preconceito as minhas esporádicas idas ao Ideal, que classificam reducionistamente como um simples reduto de granfinos, e que, por frequentá-lo, tornei-me um legítimo exemplo de ex-intelectual de esquerda, tendo me rendido de armas e bagagens ao irresistível charme da alta burguesia. Ora pílulas, eu não sei bem como eles chegaram à conclusão de que frequentar o Ideal seja capaz de provocar tão radicais e extremadas mudanças em minhas ideias socialistas. Talvez pensem dessa pífia maneira porque ainda não entenderam que meu maior sonho jamais foi o de socializar o lixo, mas sim, o luxo, a riqueza e não a pobreza. Na minha opinião, todos têm o direito, se assim o quiserem, de misturar a paçoca e o caviar, a champanhe e a cachaça, porque simplesmente não são incompatíveis.

Não estou sendo irônico, sarcástico, muito menos hipócrita quando escrevo o que realmente me vai na teimosa cabeçona chata. Engana-se redondamente quem de mim assim pensar. O que estou sendo é ferrenhamente verdadeiro, pois sou incapaz de trair, alugar ou vender minhas mais profundas convicções. Será tão difícil entender isso? Claro que tenho entranhadas no meu pensar as minhas contradições. E quem não as possui neste mundo povoado de seres tão falíveis quanto nós? Engraçado, quando revelo meus botecos preferidos, percebo que nenhum espanto provoco e recebo uma aprovação geral por ser um boêmio que não foge às suas raízes suburbanas e, digamos assim, supostamente proletárias. Mas no que isso me impede, me proíbe de também gostar do Ideal? Ah, ninguém vai me tirar o enorme prazer de sentar naquela mesa dos amigos, de ouvir o violão do Robston, o piano de Wanda Tahim ao entardecer, de embevecer meus olhos com a visão do mar do Meireles.

Airton Monte - Falando sério - 11 de Outubro de 2011

Airton Monte - Falando sério - 11 de Outubro de 2011

Por volta das sete da manhã de um domingo, que oscila entre o claro e o escuro, com o sol brincando de esconde-esconde com as nuvens de chuvosa aparência, sou subitamente despertado pela zoeira infernal do espoucar de fogos de artifício. Irritado, enraivecido, entre imprecações e impropérios, eu me pergunto que tipo de quadrúpede, de besta quadrada cisma de soltar rojões e bombas tão cedo da matina. Estará festejando a incômoda descoberta de sua própria e irretorquível imbecilidade, roubando o sossego alheio? Ergo-me do leito ainda de olhos sonolentos, estremunhados, procurando atarantado os meus chinelos. Como o foguetório me parece ter uma duração incessante, o melhor a fazer é desistir de vez do conforto dos lençóis, mesmo a contragosto, e ir cuidar das minhas abluções matinais antes da hora. E preparar-me devidamente para encarar o dia que já começou adiantado.

Adentrado nas velhuscas biqueiras dos meus sessenta e dois verões, começo a concordar com o que pensa o jornalista e escritor Lustosa da Costa a respeito do tal de envelhecer. Durante a última vez em que nos encontramos, faz algum tempo, no restaurante do Ideal, me dizia o grande Lustosão, enquanto bebericava o costumeiro uísque, que não havia vantagem alguma em se ir ficando mais velho, a não ser uma acirrada, incontida impaciência em perder o nosso cada vez mais precioso tempo, desperdiçando-o com bobagens. Afinal, se refletirmos bem sobre o assunto, chegaremos à inevitável conclusão que já não dispomos de tanto tempo de sobra e se faz necessário dar um chega pra lá nas concessões às quais podíamos nos dar ao luxo quando éramos jovens. Enquanto desfrutamos despreocupadamente a juventude, o tempo não passa de uma abstração. E cremos que podemos deixar pra depois de amanhã o que devemos fazer hoje.

O poeta Drummond também afirmou ser a vida curta, mas a velhice longa, o que não deixa de ser uma irrefutável verdade, principalmente quando ela começa a fazer em nós o seu trabalhinho sujo e lento, pouco a pouco nos afastando de uma grande parte de nossos prazeres. A velhice é uma espécie de implacável bedel do hedonismo, a vigiar e punir nossas eventuais extravagâncias em matéria de comer e de beber. Qualquer peraltice mais ousada dificilmente permanece sem o seu respectivo castigo. Claro, meus conterrâneos leitores, que o iniciar a velhice não me tornou, por completo, um velhote rabugento, ranzinza, dedicado a encher o saco e torrar a paciência dos meus semelhantes. Tenho cá as minhas manias de quase idoso, mas que não chegam ao extremo de muito incomodar a seu ninguém e que tornem a convivência comigo um porre de cachaça barata. Felizmente, percebo que minha presença ainda agrada a muita gente sem que eu me esforce demasiado para tal. Ainda bem, diz meu coração agradecido.

Permaneço sempre aberto a novas experiências existenciais, desde que não sejam abusivamente radicais e de mim venham a exigir uma tolerância que não mais tenho nem pretendo ter daqui pra frente. Acampar em praias longínquas, desertas, em rincões inóspitos, sem o conforto que mereço, nem pensar sequer. Passar uns dias ecológicos em paisagens ignotas, entre besouros e mosquitos, passo batido. Posso até fazer uma sacrificada exceção, porém somente com a aprazível condição da Patrícia Poeta assim me pedir de joelhos para fazer-lhe companhia, me prometendo, em doce compensação, a carnal satisfação dos meus libidinosos desejos. No mais, sou dado a frequentar os mesmos restaurantes, os mesmos botecos, os mesmos amigos. Tirante mulher, coisas novas só encaro sob recomendação de gente de minha estrita confiança. Depois dos sessenta, há pouco a perder e muito a ganhar. Um belo dia, todo homem encontra, por fim, a sua Pasárgada e o seu Waterloo.

Airton Monte - O Farsante - 10 de Outubro 2011

Airton Monte - O Farsante - 10 de Outubro 2011

Como todo sujeito que escreve regularmente em jornal, recebo, com certa assiduidade, mensagens de quem me lê de maneira frequente ou mesmo ocasional. Algumas me agradam sobremaneira, elogiando estas cotidianas mal traçadas, massageando meu ego, espicaçando a minha fútil vaidade. Outras, entanto, repletas de críticas acerbas, leves ou pesadas, mui naturalmente não me soam agradáveis porque tendemos, por mais que nos vigiemos, a achar que dificilmente erramos e que a certeza, a correção anda de mãos dadas conosco e jamais com os nossos semelhantes. Todavia, ultimamente alguns leitores passaram a me dizer que ando demasiado chegado ao pessimismo, que só falo de minhas doenças e uns chegaram até a desconfiar que estou ficando um tanto quanto hipocondríaco e que já está mais do que na hora deste humilde cronista começar a variar os seus assuntos, mudando o rumo da conversa para evitar tornar-me chato, repetitivo, sem graça. E eu ora me pergunto: será que eles não estão cobertos de razão?

Por onde andará o meu senso de humor? Em que estrela, em que universo se esconde nestas tardes claras e vazias de outubro? Cadê o Airton Monte de riso fácil, de alma alegre, de croniquetas suaves, que só parecia ver o lado bom da vida, cujas palavras estavam plenas de luz, transparências, amenidades, de temas otimistas, nos quais lugar sequer havia para queixumes, lamúrias, lamentações infindáveis? Pois é, quem diria que um autor de crônicas tão digestivas, tão saborosas de se ler em qualquer lugar, qualquer hora, viesse a se transformar num paulificante pessimista profissional a esta altura do campeonato. Ah, leitores meus, humildemente lhes peço, lhes suplico que me perdoem se, por vezes, eu findo por lhes encher o honorável saco ao chorar o leite derramado da minha vaquinha de estimação que acabou indo pro brejo nestas últimas semanas.

Juro por todos os santos e prometo modestamente genuflexo que de hoje em diante encetarei um esforço inaudito para escrever palavras álacres, mais garridas, cheias de um frescor juvenil de quem conseguiu, enfim, fazer as pazes consigo mesmo, com Deus e o mundo. Chega, basta de desabafos íntimos sobre minhas dores e minhas agruras. Darei, com certeza, um chega pra lá nas confissões públicas das minhas aflições existenciais. Ao invés de entoar boleros plangentes, tangos amargurados, passarei a cantar frevos rasgados, marchinhas de carnaval, sambas de gafieira e de vez em quando, ao chegar do anoitecer, uma doce canção de ninar. Tentarei somente escrever crônicas de amores bem sucedidos, de paixões também apaixonadamente correspondias. Nada de tragédias nem de desgraças, mas que impere a mais carnavalesca alegria em tudo o que eu escreva. Que chovam serpentinas e confetes e, aqui e ali, uma discreta gota de lança-perfume para odorizar os corações e euforizar as mentes só um tantinho assim, sem dar muito na vista.

Claro que contarei histórias engraçadas pra desatar risadas em quem as ler. O existir tem um lado cômico, um viés humorístico que é preciso demonstrar a qualquer custo e que só não vê quem não quer. No fundo, eu sou mesmo é um palhaço de circo, mambembe ou de luxo. Sim, trata-se da minha verdadeira essência: tenho cara de palhaço, pinta de palhaço, um jeitão inegável de palhaço, embora minha natural timidez procure esconder esse perfeito palhaço que existe em mim, escondido inutilmente debaixo da minha falsa pose de intelectual. Este indivíduo, ocasionalmente lamuriento, de quem tanto reclamam a incômoda presença, não passa e nunca passou de uma grande e lamentável farsa. Engana-se redondamente aquele que pensar que sou um triste, um deprimido crônico. Caso exista nesse mundo um homem feliz, com camisa ou sem camisa, na urbe ou numa ilha deserta, esse homem sou eu. Sem fingimentos nem mistificações.


Airton Monte - Vida. minha vida - 7 de Outubro 2011

Puxa vida que crônica bem escrita !!


Claro que a vida é boa, embora tenha lá a sua cota de inevitáveis percalços e nos dê, como um capoeirista mal humorado, uma ou outra rasteira e nos faça beijar o chão, meio nocauteados, quando menos esperamos. Mas com um pouco ou um muito de esforço, usando nossas reservas de resistência, que por ocasiões imaginamos esgotadas, vemos que somos capazes de nos erguer da lona antes de soar o gongo anunciando o fim da luta. Lamúrias, choramingos são mui naturalmente comuns, pois afinal ninguém é forte o suficiente nem fraco o bastante para jogar a toalha no centro do ringue desistindo de continuar lutando, aceitando a derrota como se ela estivesse escrita nas estelas. Nada disso. Nessas horas o melhor a fazer é exilar os pensamentos derrotistas, banindo-os para o mais longe possível da mente atordoada, porque acredito que nenhuma derrota pode ser considerada definitiva, pronta, acabada. Não somos invencíveis, mas por outro lado, também não somos uns eternos perdedores.

Há quem passe avida se queixando dela num chororô sem fim feito um menino a quem botaram de castigo. Não nasci com tal pessimista vocação para a amargura, porque aprendi nos meus sessenta e dois anos de janela que depois da tempestade sempre vem a ambulância com a sirene ligada a todo vapor, nos trazendo o ansiado socorro. Olho o relógio. As duas horas da tarde chegaram e até há pouco mal amanhecia. Pois é. Nada como o tempo para passar, leve, rápido, sorrateiro que nem um batedor de carteira. Por incrível que pareça, em meio à selvageria que nos cerca e atormenta no cotidiano da cidade, chego mesmo a sentir uma certa saudade dos lunfas que tinham ojeriza a atacar com violência desmedida as suas descuidadas vítimas. Pensando bem, sinto saudades de tantas coisas do passado que me custa enumerá-las. O diabo é que ninguém vive do que passou. O que passou está passado e na maioria das vezes, expele um odor insuportável de mofo. A gente vive é do aqui e do agora, sem mistificações.

O domingo estaria perfeito, não fosse a ausência, apesar de provisória, dos entes que amo. Depois do almoço, foram todos ao cinema assistir a uma película da moda. No que, aliás, fizeram muito bem. Os domingos não foram feitos para se restar trancado em casa, perdendo um precioso tempo dormindo a tarde inteira ou sentado diante da televisão como se mergulhado num transe hipnótico. Domingos são para espairecer, divertir-se como bem quiser e puder, esquecendo benditamente as paulificantes preocupações do dia a dia. Aos domingos, só ficam em casa, acorrentados ao trabalho, os pobres cronistas, ocupados em caçar palavras. Porém, o que se há de fazer, senão cumprir laboriosamente a minha sina? Todavia, não me queixo nem direito tenho de fazê-lo. Essa foi a vida que escolhi ou por ela fui escolhido por minha própria vontade ou à minha revelia.

No meu quintal, a natureza, generosa como nem sempre, me oferece uma brisa mansa, agradável, enquanto a claridade solar se reflete incandescente, cegante no alumínio do portão. Ao meu lado, da vitrolinha digital sai a voz baixinha de João Gilberto cantando eternos clássicos da Bossa Nova que não me canso de ouvir, enlevado de deleite. Ah, que saudosa falta me faz uma cerveja de verdade, uma garrafa de vinho do Porto, uma cachaça de cabeça. Contudo, os médicos que de mim cuidam afirmam em coro e peremptoriamente que eu já bebi a minha cota e devo permanecer insossamente abstêmio se quiser viver por mais alguns verões. Quando me bate um discreto desencanto, dou de pensar se vale mesmo a pena viver mais com menos prazeres. Porém, essa ideia fugidia logo desaparece-me da mente e mato a vontade da boemia sorvendo uma insípida cervejinha sem álcool. Aumento o som, leio um poema e a felicidade volta a bater à minha porta.


Airton Monte - Prazer e Poder - 6 de Outubro 2011

Airton Monte - Prazer e Poder - 6 de Outubro 2011

Como não sou de ferro nem fui generosamente aquinhoado com uma paciência de Jó, juro que estou ficando, a cada dia que passa, cada vez mais cansado, aborrecido e sumamente entediado com o quase cotidiano, repetitivo e insistente peditório de certos camaradas que vivem a me aperrear o juízo na busca desesperada de comprimidos para turbinarem os seus desempenhos ao celebrarem no altar de Vênus. Do jeito que vem crescendo o número de pedidos dos milagrosos remedinhos, nem que eu me multiplicasse por setenta vezes sete, acho que não daria conta de atender as crescentes necessidades dessa verdadeira multidão de suplicantes. Faço o possível e o impossível junto aos sempre solícitos representantes dos laboratórios fabricantes de tais remédios, na vã tentativa de conseguir mais amostras grátis do que eles podem me ofertar, por maior que seja a boa vontade que demonstrem e tenham. E a razão é muito simples. É que a oferta é muito menor do que a demanda e nada me resta fazer quanto a isso.

Bem sei, após tantos anos de experiência, a observar atentamente as diversas nuances do comportamento humano, tanto entre as quatro paredes do consultório como na convivência pessoal com meus imprevisíveis semelhantes, que nós, os chamados bípedes pensantes, por vezes muito mais bípedes que pensantes, trazemos uma infinidade de medos trancafiados nos cafundós da nossa alma e que a vida é um desafio constante e uma luta interminável para encará-los de frente e vencê-los. Acaso desistamos dessa briga, estamos literalmente fritos, condenados eternamente ao divã dos psicoterapeutas e ao cuidado dos psiquiatras. O que não é lá um bom negócio nem num caso nem no outro. Ouso afirmar isso mesmo correndo o risco de desfalcar a minha já parca clientela, prejudicando um dos meus indispensáveis meios de ganhar a vida, botar o de comer na mesa, garantir o aluguel, o saldo das contas.

Por ser pertencente ao gênero masculino, é que sei que o homem vive atormentado, em geral, por três grandes medos desde que as galinhas ciscavam pra frente por entre as patas dos dinossauros. O primeiro, exatamente o maior e mais antigo, é o medo da morte, desde que nosso intelecto tomou o fatal conhecimento de nossa finitude e de que, feliz ou infelizmente, não nascemos pra semente. Um certo dia, chega a nossa vez e tudo acaba quando menos esperamos e até agora não sabemos qual o nosso destino final após esticarmos as frágeis e mortais canelas. Há aqueles que acreditam piamente existir outra forma de vida após passarmos desta para pior. Outros há cuja crença se resume ao fato de que depois da nossa terrenal existência, apenas nos tornamos comida dos vermes e pronto, o que era doce acabou-se. E assim, nosso fim último é nos desfazermos em pó, espalhando os átomos que nos formam aos quatro ventos.

O segundo medo que acompanha o macho por toda sua vida é o de ter a cabeça enfeitada por um par de chifres, pespegado cruelmente pela mulher que supomos nossa, seja lá qual for a relação que com ela mantivermos. Sempre provocou um imenso pavor nos homens a terrível e desmoralizante possibilidade de ser corno, mais por causa dos comentários alheios que por orgulho próprio e pela tal de honra pessoal, que alguns de caráter mais primitivo creem que só pode e deve ser lavada e enxaguada com sangue. O terceiro medo que nos assombra a existência é o de falhar sexualmente na hora agá da onça beber água. Não há como negar ser a impotência um constante e inextinguível terror masculino. Nessa sociedade do espetáculo, o desempenho, a performance, principalmente na cama, funcionam como provas cabais, incontestáveis de uma vencedora superioridade sobre os outros homens. Há muito, o falo deixou de ser um instrumento de prazer para tornar-se um viril símbolo de poder. Que pena eu tenho de todos nós.





Airton Monte - Divagações sabatinas - 5 de Outubro 2011


Uma Viagem!!! Genial crônica 

Há dias que se afiguram tão inopidamente estranhos, tão esquisitos, tão diferentes dos habituais aos que se está acostumado, que mais parecem um forasteiro, um visitante desconhecido que inesperadamente achou de bater à sua porta sem um aviso antecipado. É, justamente em dias tais quais esses que, súbito, lhe vem um impulso de fazer coisas esdrúxulas como cair na gargalhada, derramar torrentes de lágrimas, cantar um bolero antigo arrancado dos esconsos desvãos da memória(e que você havia esquecido por completo), contar histórias fantásticas em voz alta para uma plateia inexistente, dançar um frevo rasgado vestido à caráter, mentir desbragadamente, gritar em praça pública os seus segredos mais inconfessáveis. As pessoas que, por acaso, estiverem ao seu redor, decerto poderão pensar que você endoideceu de vez, quando na verdade você se sente sangrar de tamanha lucidez. Uma lucidez incomparável e indescritível.


Um dia como esse é especialmente favorável aos pensamentos vastos, libertos da costumeira escravidão da lógica, das razões plausíveis, das motivações racionais, das equações exatas, do dois mais dois igual a quatro, do pão, pão, queijo, queijo. O que agora aparenta ser de uma pétrea solidez pode se desmanchar no ar subitamente sem que tal fenômeno lhe pareça incoerente. Em dias assim tudo é possível e a palavra espanto sumiu misteriosamente do seu dicionário pessoal. E você torna-se incapaz de se assombrar com qualquer coisa que aconteça em torno de sua singularíssima pessoa. Você para por alguns instantes, olha, observa demoradamente o mundo e logo lhe vem a percepção de que o mundo já não é o mesmo, que algo nele sofreu uma inefável mudança. Ou será que foi você quem verdadeiramente mudou? Não, nada de perder tempo procurando respostas que são, pelo menos por enquanto, decididamente inexistentes no aqui e no agora. A hora é de considerar que tudo ocorre dentro da mais incontestável normalidade, por mais inconcebível que lhe seja.


Chega uma hora em que se faz poeticamente preciso procurar no seu baú de guardados, aparentemente de uma inutilidade à toda prova, o seu maravilhoso fantascópio, com o qual você, na infância, viajava livremente para outras dimensões imerso no bojo da fantasia e da imaginação, porque todo menino sabe que o mundo não se resume a só isso que se vê através das lentes tacanhas da realidade. Por que não mergulhar de cabeça em seus devaneios e extasiar-se com os prodígios que deles nascem, sem colocar-lhes empecilhos? Nada demais nem de mal existe no território do imaginário, do ilusório, do irreal, do fantástico, do incrível, do extraordinário, da fantasquice. Isto é, desde que você tenha a consciência de saber por onde está pisando, seguro de que não vai perder o caminho de volta quando bem o desejar. Sim, porque fantasiar, libertar o sonhar acordado trata-se de uma brincadeira muito perigosa para aqueles que não conseguem deixar de ser extremamente racionais o tempo todo.


Quem quiser arriscar-se a brincar dessa maneira, sem ter a mínima experiência, carece de um pouquinho de cuidado e começar devagarzinho como quem entra pé ante pé nas águas de um rio cuja profundidade desconhece. Lembro-me, agora, como o traçado de um mapa, de uns versos de Cecília Meireles: “Lá na distância, no fugir das perspectivas, por que vagueiam, como o sonho sobre o sono, aquelas formas de neblinas fugitivas? Lá na distância, no fugir das perspectivas, lá no infinito, lá no extremo, no abandono. Aquelas sombras, na vagueza da paisagem, dão-me a impressão de vir de outrora, de uma viagem”. Entanto, vez em quando, se lhe assaltar um dia fantasmal, é preciso abandonar, com certa urgência lírica, um livro de Kant no fundo da mais escura prateleira das estantes e esquecer que nada existe se não tiver uma razão de ser e que não seja inteligível. Perder a crença, por alguns momentos, na razão e na evidência das demonstrações empíricas, sem medo de ensandecer, pois ninguém enlouquece de lirismo.





Airton Monte - Ideia de jerico - 4 de Outubro 2011


Boa muito Boa a crônica!!!

Que alevante bem alto o braço e atire a primeira pedra aquele que, dentre os poucos que ora me leem, nunca pensou em fazer alguma tremenda besteira na vida ou concretamente não a fez? Pois eu, coberto da mais franciscana humildade, sinceramente confesso que durante o meu breve existir muitas besteiras pensei em perpetrar e tantas delas cheguei a cometer que as esqueci de contar. Afinal de contas, apesar de ser um modesto psiquiatra, por força e experiência de ofício, deveria manter o mais possível a cabeça no lugar, também sou filho de Deus. E, portanto, estou sujeito a falhas variadas, a deslizes sem conta no meu humano comportamento. Não é de espantar, então, que eu traga no rol dos meus pecados mortais e veniais algumas piramidais bobagens perpetradas quando me encontrava movido por certos impulsos que até hoje, para mim, carecem de uma razoável explicação, de um motivo que me satisfaça a contento a razão.


Sim, por que hei de negar os meus malfeitos presentes e passados, na vã e inútil tentativa de enganar, iludir, ludibriar os meus parcos leitores passando uma falsa, mentirosa imagem de bonzinho, de santinho do pau oco, coisa que absolutamente não sou? Melhor contar logo a verdade sem abusar de meias palavras, de desnecessários eufemismos. Prefiro que os meus leitores me conheçam de verdade, saibam de mim do jeitinho que eu sou, sem que a sombra da dúvida venha toldar o nosso conhecimento antigo ou recente. Realmente, sou o que sou, tal e qual penso e escrevo, pela simples razão de que me é impossível assim deixar de sê-lo. Nada de fingimentos, de ilusionismos baratos, de representar um papel para o qual dotado não sou de vocação. Quero aparecer aos olhos de quem me lê sem fantasia, de cara limpa. Se de mim gostarem como me apresento, minha satisfação será imensa e meu ego agradecerá penhorado, com discreta vaidade.


Quanto aos que me rejeitarem, aceito sua abalizada opinião humildemente, e é bom que assim seja, pois a unanimidade me assusta com sua burrice esférica, além de uma inutilidade sem par. Sem querer filosofar como se estivesse numa mesa de botequim, acho que a unanimidade é o legítimo túmulo da inteligência, a moradia preferida da legião incontável dos cretinos fundamentais e dos chatos de galocha. Gosto de escrever como se estivesse cara a cara com o leitor, sentados frente a frente, olhando-o diretamente dentro dos olhos, contando-lhe uma história qualquer, triste ou alegre, uma lembrança que me veio de repente à tona da memória, falando-lhe sobre uma experiência que vivi e que pode muito bem ser um tanto parecida com alguma que ele também possa haver vivido. Dizer-lhe, com uma sinceridade quase suicida, o que me vai na alma, o que penso sobre certos assuntos polêmicos e que, talvez, ele nem esteja disposto a escutar.


Tornar-me de um simples estranho em um conhecido, como se minhas pobres palavras tivessem esse poder que tolamente suponho e imagino. Asneiras, repito sem medo de errar, as obrei de montão, na juventude e na velhice. Talvez seja o moleque safado que habita em mim a impelir-me continuamente a praticá-las, vez em vez, aqui e ali, quando ele me flagra com a guarda baixa e as defesas desprevenidas. Só para dar um tímido exemplo dessa minha peralta faceta, um dia desses, com o juízo desocupado e superego na vadiagem, me veio à mente uma espantosa parvoíce. Criar um perfil falso na Internet, inventar um avatar protegido pelo anonimato esconso das redes sociais. Transformar-me em um ser virtual, inexistente na vida real, totalmente diverso do que sou. Não me seria difícil construir um personagem até deveras interessante. Contudo, logo desisti da parva ideia graças a meu narcisismo, que me fez ver, a tempo, que o personagem mais interessante que eu conheço sou eu mesmo.


Airton Monte - O Ceguinho - 30 de Setembro 2011


A semana que passou não foi, para a minha triste figura, uma semana fácil de ser vivida. Bem sou experiente sabedor de que, em verdade, é ilusório pensar que haja semanas fáceis nem difíceis de serem vividas ou sobrevividas. Todas, como todos os dias de nossa curta existência, se alternam entre o claro e o escuro feito o amanhecer e o anoitecer. E aqui cabe muito bem o tão manjado refrão: esse constante ir e vir faz parte da condição humana a que todos nós, sem exceção alguma, estamos naturalmente sujeitos. E nem adianta reclamar, cair na mais cava depressão, debulhar-se ininterruptamente em um infindável quanto inútil rosário de lamentações. Pelo simples fato de que o destino é soberano em suas deliberações e não admite tergiversações. As coisas simplesmente acontecem e pronto: estão acontecidas quando menos esperamos aqui, alhures, algures e nenhures. A nós só nos resta tentar encará-las de frente e resolvê-las, mesmo que o medo e a raiva possam tolher um pouco as nossas ações.

Entanto, os infaustos e desagradáveis sete dias que, graças a Deus, enfim tomaram seu rumo, deixando-me finalmente em paz, indo cantar noutra freguesia, trouxeram em seu agourento bojo um punhado de aflições de todos os tamanhos. E encheram, até mais não poder, o meu pobre cotidiano das mais paulificantes preocupações. Pra começar, meu par de óculos novinho em folha quebrou-se misteriosamente e lá me vi eu tateando pela casa feito um morcego velho com o sonar em pane, perdido em meio às sombras que emanavam de meus gastos olhos míopes. E assim, cego de guia, tive que permanecer nessa miseranda situação até que uma alma caridosa(felizmente ainda as há neste mundo cruel)fizesse a caridade de levar-me à ótica mais próxima, onde fui misericordiosamente socorrido e retornei ao confortável estágio de cegueira parcial. Ah, vocês nem imaginam o quão agoniadamente desamparado resta um infeliz míope destituído de seus binóculos, a vaguear feito uma alma penada por entre um mundo feito de aparências enganosas, formas, cores e silhuetas imprecisas.

Como praticamente eu já nasci portando óculos, fui aprendendo, por dura experiência própria, à custa de muitas topadas, muitos esbarrões e de me perder nas ruas por não conseguir ler correta e claramente os dizeres das placas, que ser míope em alto grau é ser um modesto órfão da luz. Na escola, lutar diariamente, titanicamente para arrumar um lugarzinho na primeira fila e mesmo assim não conseguir enxergar quaisquer das letras escritas pela professora no maldito quadro- negro e isso por maiores e mais garrafais que fossem. Ser obrigado a ler com a cara enfiada no livro, aspirando mofo e cocô de ácaro, o que só contribuía, ao fim do dia, para que à noite eu recebesse a diária, incômoda e torturante visitinha da inseparável chiadeira. A bendita descoberta do primeiro par de óculos foi para mim, sem tirar nem por, tenho certeza, muito mais importante e maravilhosa do que a descoberta do telescópio pelo grande Galileu.

Uso óculos desde os meus tenros cinco aninhos de idade e findei por ganhar da molecada da rua o previsível apelido de “Cego Aderaldo”, epíteto que tinha a insultuosa e humilhante capacidade de me tirar do sério, de me enfurecer, deixando-me violento e furioso feito um cachorro doido, babando de ódio, disposto a atacar o primeiro desgraçado que se pusesse ao meu alcance com qualquer coisa que me viesse às mãos. Furei muito quengo de menino atrevido na base da pedrada e da baladeira. Isso sem contar a inesgotável torrente de palavrões os mais cabeludos que faziam parte indispensável do meu sortido dicionário de impropérios e nomes feios. Todavia, de nada adiantava a minha fúria nem a minha incontrolável agressividade. Era-me de todo impossível calar completamente a língua solta da infante patuleia. Depois, fui crescendo e tudo aquilo perdeu sua importância. Hoje, os meus amigos mais chegados e antigos me chamam carinhosamente de “Ceguinho”. E o pior é que eu gosto.