quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Airton Monte - Perguntas 21 de Novembro 2011

Por mais que eu esteja habituado a ler, ver, presenciar coisas e acontecimentos os mais estapafúrdios que ocorrem pelo mundo, pelo meu país, pela minha cidade, pela minha rua, felizmente ainda não perdi a maravilhosa capacidade de me espantar e de querer saber o porquê, as causas, as razões que jazem ocultas por trás de todos eles. Há em mim uma curiosidade insaciável de perguntar e obter respostas que me satisfaçam nem que sejam incompletas. Gosto de tentar cada vez mais conhecer as motivações que levam o ser humano a agir, a se comportar assim ou assado, como santos e pecadores, anjos e demônios. Somos tão imprevisíveis, tão profundamente plenos, repletos de segredos e mistérios, que verdadeiramente penso que por sermos assim é que somos tão fascinantes e o mundo cheio de descobertas à nossa espera. Sabemos demasiado pouco a respeito de nós mesmos, de nossos semelhantes, do mundo em que vivemos.

Aprendi nos livros e com a experiência de viver que somente obtemos conhecimento através das perguntas que fazemos do que com as respostas que porventura conseguimos. Cada resposta obtida nos leva inapelavelmente a fazer novas perguntas cada vez mais difíceis, mais profundas e assim vai caminhando a velha humanidade. E é bom que permaneçamos sempre transformados em máquinas incansáveis de fazer perguntas, desde que passamos a nos entender por ente até a hora de bater as botas. Ninguém precisa ser um cientista para perguntar, querer saber aquilo que desconhecemos sobre nós mesmos e o universo que nos cerca. Foi exatamente desse modo que evoluímos das cavernas, da invenção da roda aos mais modernos e sofisticados avanços da tecnologia, tanto para o bem quanto para o mal. Nos tornamos capazes de destruir o mundo num piscar de olhos e de inventar remédios que salvam tantos milhares de vidas.

Nesse momento, interrompo o fluxo dos meus pensamentos atraído por um bêbado que passa aos cambaleios na calçada, se amparando, entre um passo e outro, nas grades da frente da minha casa. Meu Deus, mal começou a manhã e este homem já está completamente embriagado, a calçada vai ficando cada vez mais estreita para o seu caminhar balouçante e tenho a impressão de que ele pode desabar no chão a qualquer instante. Inevitavelmente eu me pergunto, feito no samba de Noel: “por que bebes tanto assim, rapaz/ isso já é demais”. Depois penso que talvez não seja demais para esse homem que nunca vi mais gordo, estar embriagado a esta hora do dia. Será um alcoólatra inveterado, um pobre e infeliz dependente extremado do álcool, um contumaz “papudinho” como costuma a língua ferina do implacável canelau apelidar tais desamados da vida. Ou não passará somente de alguém que exagerou na dose ao divertir-se ontem à noite?
 
E agora, banhado pelos primeiros raios de sol, tenta encontrar o caminho de casa mergulhado num estado deveras lastimável? O homem dá uma parada, balança que balança, agarra-se em meu portão como se estivesse refazendo as últimas forças do corpo combalido e nem sequer percebe minha presença a poucos metros dele. Aliás, parece não perceber a presença de ninguém, nem mesmo dos atletas madrugadores que passam a seu lado, olhando-o com um certo ar de nojo, de reprovação. Eu já o olho com uma discreta piedade, enquanto ele balbucia baixinho uma algaravia incompreensível com a íngua embolada. O que o leva ou levou a beber dessa maneira desesperada? Algum drama, alguma tragédia pessoal ou simplesmente começou a beber aos poucos, como muita gente, até chegar nesse estágio degradado do vício? Finalmente, o homem se desprega do portão e vai embora rumo ao seu destino. Quem sabe aonde vai? Talvez nenhum lugar tenha para ir e seja um pária dos muitos que povoam a cidade.

Airton Monte - Um dia triste 18 de Novembro 2011

Não é porque se trate de uma segunda-feira, um dia pelo qual nutro e alimento uma visceral ojeriza, muito embora em sua essência, não passe de um dia aparentemente igualzinho a todos os outros da semana. Entanto, hoje amanheci cheio de um cansaço que, paradoxalmente, não é físico nem mental. Quem sabe não seja somente um circunstancial enfado ou para ser mais sincero, um provisório tédio dessa vida besta, tão carregada de rotina que ando levando ultimamente. Claro que, como a esmagadora maioria dos meus semelhantes, que se esfalfam, se desgastam cotidianamente tentando garantir a sobrevivência, longe está de mim, de meu alcance, desfrutar de uma existência charmosa, de variegados encantos com que todos nós sonhamos, ansiamos, desejamos ter. Tal exclusivo privilégio pertence a muito poucos que gozam da segurança de uma polpuda conta bancária.

Como pontificaria o inesquecível Sérgio Porto, mais conhecido pelo seu nome de pena, Stanislau Ponte Preta, viver até que é fácil, saber viver é que é dureza. Por não ser um pessimista profissional, desses que cultivam a amargura como se ela fosse uma flor rara no seu ácido jardim de rancores e que costumam pensar em suicídio de dez em dez minutos, para mim é um fato demasiado incomum começar o dia enfarado com tudo e com todos que me cercam. Detesto ser assolado, acometido por sentimentos negativistas, de ar funesto, o coração abandonado pela minha natural alegria de viver, sejam lá quais forem os problemas a me afligirem. Todavia, hoje tenho a mais clara consciência que não sou, pelo menos nesse momento, uma agradável companhia para ninguém. Nem para mim mesmo.

Bem, como o dia ainda está no começo, talvez meu atual estado de espírito vá melhorando durante o transcorrer dessas vinte e quatro horas e eu volte a me tornar o homem alegre que costumo ser, apesar dos inevitáveis percalços enfrentados no dia a dia. Quiçá, o telefone toque a qualquer momento e do outro lado da linha alguém me dê de presente uma boa notícia, como, por exemplo, que minha cadelinha não está infectada pelo maldito e desgraçado calazar, que já me levou implacavelmente outros de meus cachorros nas diversas casas onde morei. Perder uma das minhas mais fiéis amigas é, para mim, que amo os animais, um tantálico sofrimento. Porém, até agora meu Graham Bell permanece numa mudez de estátua, o que é uma espantosa raridade em meu tugúrio suburbano. Mas, nada de perder as esperanças de que me venham bons augúrios a qualquer instante.

Sim, é-me totalmente impossível ignorar, fazer de conta que desconheço que há outros atravessando momentos mais duros e mais difíceis do que eu, que possuem todas as razões possíveis e imagináveis de estarem mais infelizes do que eu. Diante desses que sofrem gravemente, essa minha passageira crise existencial não passa de uma grande besteira sem a menor importância. Contudo, inda tenho a coragem e a cara lisa de me perguntar o quanto o penar dos meus semelhantes é capaz de me trazer conforto e alívio para o meu. Pode parecer egoísmo desmesurado de minha parte, mas a infelicidade alheia não me serve de remédio para os meus males íntimos, minhas mazelas pessoais, que considero as mais importantes do planeta. Antecipadamente, antes que me condenem por tal indiferença, peço as minhas mais sinceras desculpas. Sou apenas um homem triste mergulhado num dia infausto. E um homem triste somente se preocupa e só se importa com a sua própria tristeza.

Airton Monte - Amar e Odiar - 17 de Novembro 2011

Puxa vida, que crônica!!!! Perfeita!!!


Foi assim que a viu. Ali, do seu lado, o vento forte da manhã assanhando verdejantes cabeleiras ao longo da estrada estreita. Ela ao seu lado. O cheiro dela ao seu lado. O vento sacudia-lhe os negrilongos cabelos e havia neles um estranho perfume. Sentia fome dela. Coqueiros à beira mar e pequenas pousadas freqüentadas por casais discretos em sua talvez clandestinidade. Turistas gordos, balofos, com cara de gringo, disparando suas câmeras, capturando, quem sabe, o único instante mágico de suas vidas. Ele pensava, vendo-a quieta, calada, distante, mesmo estando ali do seu lado que, a princípio, percebeu alguma coisa de diferente, de intangível na mulher que já tinha sido dele. Uma parede invisível que o dia foi erguendo com a argamassa da solidão a dois. Um muro que o separava dela, o impedia de falar-lhe com a intimidade de antes, de tocá-la no calor da noite cheio de um desejo maciço e permanente. Nem se sabe quando o fim de tudo começa, por que? Como foi?

Ainda tinha fome dela, que agora mudou-se para o banco traseiro, as pernas bronzeadas saltando fora da bermuda apertada, lendo um romance de Gabriel Garcia Márquez. Um livro que ironicamente fala da eternidade do amor. Quando uma mulher deixa de amar um homem, ele pensava, a primeira diferença que o sujeito percebe é no beijo. Ela beija com os lábios entrefechados, os dentes vedando a intimidade da boca. Da última vez em que se amaram, ele recorda dolorosamente, foi de pé como inimigos. Também desapareceu aquela onda de eletricidade quando, por acaso, o corpo dele roçava no dela na confusão noturna dos lençóis. Ele não mais procurava o corpo daquela mulher que já não o amava, que também não mais ama, embora inda a deseje. Entanto, custava a reconhecer aquela fêmea que se mexia irritada no leito, incomodada pelo toque dele e que se encolhia diante de sua proximidade física, fechando-se como uma ostra.

O homem observa a mulher pelo espelho retrovisor. Ela, nem te ligo, deitada no banco de trás. Que cheiro bom o dela. Uma cruciante tortura deitar todas as noites ao lado de uma mulher para quem seu corpo não passa de um peixe morto e cujo desejo já não acende o desejo dela. Baixa um certo ar de desespero dentro da atmosfera densa do quarto de casal, um ódio morno começa a pulsar no coração do homem inquieto. Que sensação esquisita essa de não mais amar e permanecer desejando essa mulher tão intensamente. Parece coisa de doença, de mandinga. Abjeta rotina de trancar-se no banheiro no meio da madrugada e aliviar-se feito um adolescente. Depois, ir até a sala, ligar a tevê, beber um uísque, acender mais um cigarro. Agora, no carro, janelas abertas, o cheiro dela se confunde com o odor salgado da maresia. Começa a odiar Gabriel Garcia Márquez, esse simpático rufião colombiano por quem ela anda apaixonada ultimamente. Ele sente que odeia tudo que o separa desta mulher agora e sempre.

Ela é uma mulher que desperta ferozmente a sensualidade dele, o sátiro embuçado, oculto por dentro dele, o instinto primitivo do predador cujo destino é caçar sua presa, caçar sua presa. Os dois agora são seres estranhos um ao outro, íntimos inimigos. As mulheres não costumam ser piedosas em seu desamor. Vão despachando o sujeito como quem arranca um esparadrapo de uma ferida purulenta. Tijolo após tijolo, eles dois foram erguendo seus guetos separados nas angustiantes, tensas noites de silêncio. A presença dela é um incômodo. A presença dele um purgante. Daí, ficam brincando de casinha enquanto mentem descaradamente um pro outro adiando o inadiável. Ele pensa na moça bonita que viu numa barraca da Praia do Futuro. A mulher que ele não mais ama continua imersa na leitura. Ele sabe que nenhum dos dois terá coragem de dar o primeiro tiro nesse duelo inacabável. Eu a odeio, falou com a voz do pensamento. Continuou dirigindo o carro com uma doida vontade de fazer uma inútil besteira fatal.

Airton Monte - Um Mundo sem Mulheres - 16 de Novembro 2011

E pensar que há cerca de dois mil anos, a população que povoava esse mundinho de meu Deus era apenas de trezentos milhões de habitantes. Havia espaço demais e gente de menos. Podia-se ainda afirmar que o globo terrestre não passava de uma imensa vastidão deserta, praticamente desabitada e ainda não conspurcada, não poluída pela ganância humana. Em 1959, quando eu tinha dez primaveras de vida, a quantidade de primatas, digamos assim, pensantes, atingiu a marca de três bilhões. E hoje, quando vou levando meus sessenta e dois outonos nas costas, o número de moradores do planeta saltou para a gigantesca quantidade de incríveis, inacreditáveis sete bilhões de residentes, que estão fazendo de tudo para maltratar, degradar cada vez mais esta nossa pequena, insignificante bolota de barro em que, bem ou mal sobrevivemos, indiferentes ao fato inegável de que ela é a nossa única moradia dentro desse universo sem tamanho que nos rodeia.

Nos países pobres, a grande maioria das nações, a desenfreada falta de controle da natalidade contribui decisivamente para aumentar a população mundial em uma quantidade nada desprezível de oitenta bilhões de viventes a cada ano que passa. Isso apesar da pobreza, da miséria, das guerras fratricidas, das doenças eliminarem ainda no nascedouro um número incontável de pessoas. Nos países ricos, os verdadeiros donos e senhores de todos nós, dos nossos destinos, o mercado de trabalho vai se fechando para os mais jovens, provocando revoltas, crises econômicas, políticas se sucedem em cadeia uma após a outra e, pelo menos eu, desconheço a que tudo isso nos levará nessa nossa caminhada ao futuro. Sabemos que nossos recursos naturais não são inesgotáveis, mas pelo andar da carruagem, aqueles que detêm o poder pouco estão se importando com os que virão depois de nós.

Os que estão situados na faixa etária abaixo dos vinte e cinco anos de idade representam, nos dias atuais, quase a metade da população terráquea e, mesmo assim, estamos lentamente nos transformando num planeta povoado de velhos, pois os chamados idosos já chegaram à gloriosa cifra de oitocentos milhões e lá vai pedrada e haja recursos dos sistemas de previdência social para garantir a merecida aposentadoria de quem já deu tanto para o desenvolvimento do seu país. No Brasil, não demora muito, o aumento da idade para o cidadão se aposentar deve crescer tanto que o sujeito só vai conseguir aposentar-se na hora de baixar à sepultura e dele não se puder extrair mais nenhuma gota de produtividade. Entanto, a grande verdade a ser reconhecida é que o porvir de jovens e velhos neste louco mundo globalizado vai se tornando um poço sem fundo de incertezas e desagradáveis surpresas.

Para piorar a situação, como infelizmente nascem mais espécimens do gênero masculino que do feminino, alguns renomados especialistas no assunto profetizam uma catástrofe inimaginável, prevendo uma masculinização alarmante do nosso ensandecido planetinha. Pode ser muito provável que daqui a cinquenta anos, grassará por todos os cantos do mundo uma terrível e cada vez maior escassez de mulheres. Esse desequilíbrio demográfico entre os sexos é bem capaz de fazer surgir no mapa países inteiros de homens solteiros à procura de uma companheira. Alguns desses estudiosos mais pessimistas preveem a volta da velha e ancestral poliandria, com uma mulher casada com vários maridos e o sentimento de posse masculino se esvanecerá diante da lei da oferta e da procura. O chifre será abolido da face terrestre, virando coisa de museu. Todavia, como tal fenômeno só acontecerá dentro de cinco décadas, certamente estarei morto. Felizmente. Porque o mundo sem mulher perderá definitivamente a graça.

Airton Monte - Crônica Confusa - 15 de Novembro 2011

Há em mim uma sensação dilacerante que parece querer me cortar em dois. Eu e eu mesmo. Eu e o outro que dentro de mim habita. Minha alma é como se fosse um espelho múltiplo como os olhos de uma mosca. Na mente uma aranha tece um pesadelo. Resta-me acordar. Acordar? Pergunto-me atarantado. Mas de que sonho? De quem será este rosto em sombras mergulhado e que meu consciente desconhece? Ah, se eu pudesse abrir todas as cortinas do meu íntimo e assim transfigurar-me, transfigurando o onírico em realidade. Esticar os véus do real e, se possível, rompê-los, rasgá-los qual se estraçalha um tecido demasiado gasto e roto. Mergulhar tão dentro do que ainda sou e ir tão fundo, despido de qualquer medo de que esse mergulho não tenha volta. Ir além, arriscar-me descendo às profundezas do meu próprio precipício. Sim, ir-me. Retornar carece de importância, apesar de tantas advertências que me faço. Ou importaria realmente voltar dessa viagem através de mim mesmo?

Bate-me um horror do cotidiano comezinho em que sou forçado a viver. Estarei ficando mais louco do que já sou? Ensandeço só porque procuro uma outra face da beleza? Lembro-me de que na UTI pareceu-me divisar, por dentre as névoas da anestesia a indescritível face da morte. Nesse instante de momentânea epifania, enfrentar o horror que me assola, os anjos e demônios lutando em meus pensamentos um tanto quanto surrealistas. Aprender a suportar ausências. Inclusive a minha. Estarei ficando louco? Novamente me pergunto envolvido nesse emaranhado confuso de idéias que me povoam a cabeça. Há toda uma explosão de sentimentos vitais saltando de minhas mãos e se transmutando numa torrente de palavras escritas quase que á minha revelia. Palavras que aparentemente vão brotando do nada, mas sei que na verdade brotam é de mim, embora num fluxo incompreensível, talvez, para quem ora me lê.

Eu, cavaleiro do inefável. Eu, viajante provisório do que agora penso ser o insondável. E nada mais poderei saber, decifrar até que esse texto finalmente se complete. Eu quero avistar a margem oculta do que penso. Achar a ponte, o caminho que tanto busco sem saber por onde ir no rumo certo. Sei que na escuridão soturna da madrugada, dessa madrugada que ora atravesso, imagino que as coisas se transfiguram e no entanto permanecem as mesmas. Este é o mundo em que habito e sobrevivo pleno de uma lucidez tamanha, embora chegue a pensar, aqui e ali, entre uma palavra e outra, eu posso estar ficando doido. Doido de pedra. Que grande besteira. Não me acometem delírios nem alucinações, continuo distinguindo claramente o real do imaginário. Dualidade. Encontro pessoal, jamais uma despedida porque não vou partir de mim mesmo, vestir outra personalidade, usar outra identidade. Permaneço sendo eu mesmo. Disso tenho a mais absoluta certeza. Ainda.

Desejo gastar esse momento de revelação até nada mais restar por revelar. Ah, eu caçador de mim, como gritam os versos da canção popular. Ousar enfrentar o vazio que inevitavelmente sobra quando tais descobertas se findam tão inexplicavelmente como começaram. É madrugada. Faz escuro, mas eu quase vejo a longe aurora que se anuncia, que virá certamente, porque não estou morto nem o mundo acabou. Ah, corpo meu de longas, lentas lutas para manter-me lúcido enquanto as sombras adejam, avoengas a meu redor. Sei que sou o meu princípio e meu fim. Eu existo em mim e me basto, apesar de me completar nos outros. Pouca gente ou ninguém será capaz de entender o que escrevo agora sem uma ordem lógica, linear. Parece não ter nenhum sentido, nenhum significado a não ser para mim. Parece longe do entendimento alheio. Porém não está. Somente quis escrever ao fluir das ideias, seguindo o bordão famoso do velho Chacrinha: eu vim para confundir e não para explicar. Aquele abraço!

Airton Monte - Estranha Frase - 14 de Novembro 2011

As mulheres já não cuidam, já não tomam de conta dos homens como antigamente, por vezes, dando-lhes mimos de filho único. Essa frase me veio repentinamente à cabeça entre tantas outras que fervilhavam em minha mente, sem eu saber exatamente por que. Bem que poderia nascer do meu aperreado bestunto outra completamente diversa. Todavia, como nosso inconsciente possui lá as suas razões que nosso consciente desconhece em meio às regiões mais esconsas de nossa quase indevassável psiquê, foi essa que me escorregou pela caneta e se derramou, de súbito, na folha em branco do papel. Eu não estava no momento pensando em nada que, por um mecanismo de associação, me trouxesse à tona do pensar essa frase que até me pareceu meio boba, fora do território das minhas cogitações costumeiras. Mui simplesmente a tal frase me escapou como um ladrão que invade uma casa pela janela entreaberta, sorrateiramente feito uma sombra na calada da madrugada.
Entanto, o fato concreto é que ela chegou sem avisar e ficou boiando em meu juízo que nem um barco à deriva em águas revoltas. E chegou sem fazer alarde, sem aviso prévio como aquelas incômodas visitas que batem à nossa porta numa noite chuvosa de um domingo e não tem vassoura colocada atrás da porta, virada de cabeça pra baixo, que as faça ir embora tão cedo. A frase assim me chegou insidiosa, num adejar silencioso de ave noturna, voando em busca de uma presa. E a presa, infelizmente, era ninguém mais, ninguém menos do que eu. Aliás, para ser mais preciso, mais claro, mais exato, sou eu a caça dessa frase que me embaça, me turva as ideias, me paralisa os dedos que permanecem por ora imóveis, pousados sobre as teclas do computador, criativamente inúteis, momentaneamente desprovidos de sua função primordial de escrever um texto, por mais simples que seja.
 
O que posso dizer, em última instância, é que a frase foi descendo lentamente camada após camada da mente feito alguém que se debate antes de afundar tragado por redemoinhos. Outrossim, coisa rara não é que me acometam, de maneira esporádica, inexplicável à luz da razão e de uma coerência lógica, tais frases misteriosas surgidas de não sei onde, mas que não me provocam grandes incômodos nem agoniadas aflições. Apenas despertam, atiçam a minha já natural curiosidade, pois afinal, não se é psiquiatra e escritor impunemente. Em verdade, eu há muito, depois de tanto tempo no lidar praticamente cotidiano com as palavras, deveria estar acostumado a sofrer essas molecagens inofensivas da minha imaginação e aceitar um tanto quanto filosoficamente, imbuído da paciência e tolerância necessárias que uma frase é somente uma frase e acabou-se.
 
Acreditar, sem alimentar qualquer dúvida, que uma frase é apenas uma frase que talvez nem sequer tenha importância alguma e fim de papo. Deixar a mente livre, disponível para outros pensares muito mais frutíferos, produtivos. Não sei bem como aconteceu desse ajuntamento, que suponho aleatório, de palavras escorregar pelo tobogã dos meus neurônios qual um bando de crianças se divertindo longe do controle dos pais, numa brincadeira inocente, sem maiores consequências. Talvez seja por causa da proximidade do natal, da virada do ano, épocas em que me sinto meio desamparado, desprotegido, sentimentos capazes de me tornarem mais fácil de ser sensibilizado por essas frases que me nascem como se fossem psicografadas por um espírito de porco desocupado. Quem sabe, saudades de quando as mulheres ainda me paparicavam como se eu fosse o último homem sobre a Terra. Hoje, sou um órfão dos femininos cuidados e o que me resta é um nostálgico tédio de tudo isso.

Airton Monte - Celebração - 11 de Novembro 11

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Um dia. Um belo dia. Não é apenas um dia a mais derramado pela ampulheta inefável do tempo. É mais um dia em que, ao abrir os olhos, verifico que estou vivo e estar vivo, para mim, é uma grande e maravilhosa vitória, não importa o que ocorrer de bom ou de ruim durante o seu transcorrer. Abro, escancaro de par em par a janela até então fechada do meu quarto de dormir, ergo os olhos para o céu como se o estivesse vendo pela vez primeira, como se fizesse uma magnífica descoberta. Sim, nada melhor do que estar ainda vivo em um novo dia que nasce e me é ofertado feito uma generosa dádiva da natureza. Sei que a maioria dos meus semelhantes acha bastante natural despertar após a passagem da noite e simplesmente continuar vivendo. Parecem não pensar no fato de que são felizes sobreviventes e que muitos devem haver morrido ontem e nunca mais verão mais um dia surgir no horizonte de nossa frágil existência.

Penso que amanhecer vivo trata-se de um verdadeiro milagre para todos nós que hoje abrimos os olhos e continuamos partícipes sortudos dos movimentos habituais do mundo, mesmo considerando a realidade de que somos minúsculas partículas de um infinito universo que rodeia esta pra lá de insignificante bolota de barro que, por enquanto, continuamos a habitar. Agradeço penhoradamente a bênção de existir porque não existe nada mais belo do que a vida. Talvez eu assim pense porque já vivi mais da metade da minha e o implacável relógio de Cronos há muito já deixou de correr a meu favor. Porém, o que me interessa isso? O importante mesmo é estar sentindo o pulsar da vida dentro de mim nesse dia recém-nascido e que posso ter a bendita graça de desfrutar. Que seja benvindo este novo dia, pois faço questão de recebê-lo, de saudá-lo com toda a pompa e circunstância de que é merecedor.

Outros podem não ligar a mínima para o ilustre visitante e achar que as coisas são desse jeito mesmo e podem ser tolamente simplificadas, reduzidas numa única frase: quem está vivo está vivo, quem está morto está morto. E pronto, ponto final, nada mais a acrescentar. Enganam-se redondamente, pois quem está vivo é um felizardo, ganhou o prêmio maior na loteria do acaso, pois bem poderia ter se mudado repentinamente para a indesejável, porém inexorável cidade dos pés juntos e encontrar-se nesse momento comendo capim pela raiz com a boca cheia de formiga. Parecem nem se dar conta de eu já nascemos condenados à morte e ser ceifado pela Bela Dama Sem Piedade trata-se somente de uma questão de tempo. Portanto, estar vivo há que ser comemorado a cada dia que testemunhamos, como se fizéssemos aniversário a cada vinte e quatro horas que permanecemos neste mundo, quer estejamos felizes ou infelizes.

Pensando bem, talvez eu esteja mergulhado na euforia da celebração da vida, tentando escrever uma ode capenga em seu louvor, por hoje ser Dia de Finados. Logo mais, os campos santos estarão cheios de gente visitando seus entes amados que já encetaram a longa viagem sem retorno para os desconhecidos territórios do além. Levarão braçadas de flores e de saudades aos que jazem no eterno repouso das tumbas. Como de habitual, não farei minha romaria aos túmulos de meu pai e de minha mãe. Sofro de uma incurável ojeriza a cemitérios e todas as vezes em que me arrisquei nestes passeios mórbidos, voltei pra casa cheio até a tampa de uma cava tristeza. Por isso, decidi fazer de um verso de Drummond meu lema particular gravado com todo amor de que sou capaz no porta-estandarte do meu coração: “Do lado esquerdo carrego meus mortos, por isso ando um pouco de banda”. Os meus mortos estão para sempre vivos no relicário sagrado de minhas mais felizes recordações.

Airton Monte - Ilusão à toa - 10 de Novembro 2011

Pela segunda vez em minha vida, estive mais perto do que longe de conseguir comprar, enfim, a tão sonhada casa própria. E mais uma vez, o destino, azar ou sorte acharam por bem me dar uma cruel rasteira. Ontem, minha mulher recebeu um agourento e implacável telefonema do banco onde pedimos crédito, avisando que nossa renda familiar não era suficiente para obter o empréstimo pedido. O que fazer? Nada, a não ser ficarmos imersos na tristeza inconsolável de um sonho desfeito. É por demais doloroso chegar tão perto de realizar o que se vem sonhando anos a fio e de repente sentir tudo desabar e mais uma ilusão cruelmente implodida. Pois é, o jeito é continuar morando de aluguel e mais uma vez mudar de rua, de bairro, do endereço costumeiro.
Minha mulher é de têmpera forte, se recupera dos golpes muito mais rápido do que eu. Enquanto me deixo levar pelas correntes do amargor, afundado num mar de pessimismo e autocomiseração inúteis, ela de pronto já está de pé outra vez, com os castanhos olhos plenos de uma força invencível e de imediato começa a pensar em outras soluções, outros caminhos a seguir e acaba me pegando pela mão e me soerguendo do chão como tantas vezes já o fez. Minha mulher é forte. Eu sou um fraco, confesso. Principalmente quando se trata de sonhos subitamente dissolvidos quando estão a um passo de sua realização. Hoje estou feito um menino de quem acabaram de roubar a primeira bicicleta, a primeira bola de couro.
 
Dentro em mim, tudo se reveste de cinzento e sou um monte de escombros de uma ilusão derruída. Um ácido corrói a minha alma e há um coro de lamentações estéreis ressoando nas batidas mais lentas e descompassadas do meu agoniado coração. Se não foi é porque não era pra ter sido, agora, dias melhores virão – ela costuma me dizer em tais sofridos momentos de desencanto e aflição. Eu fico remoendo as minhas mágoas que nem um cão roendo um osso que acabou de desenterrar. Sim, claro que sei que restar num canto, de ombros curvados e olhos sombrios, a queixar-me da vida, sempre é a rota mais fácil para fugir dos dramas que, de quando em vez, passam pela nossa vida feito um inesperado temporal.
 
Sim, eu sei muito bem de tudo isso. Porém, demoro a me levantar e dar a volta por cima, partir para outra, deixar para trás o leite derramado, esquecer a vaca que foi para o brejo. Entanto, só me dá vontade de cantar aquele samba do Adoniram e do Vinícius:”se chegue, tristeza, se sente comigo aqui nesta mesa de bar, beba do meu copo, me dê o seu ombro que é para eu chorar”. A voz do gerente do banco era de uma frieza profissional a me dizer que eu não tinha renda pra comprar a minha casa. Talvez eu preferisse a mudez dos carrascos. Caminho pela casa onde moro há dezesseis anos e cada passo é um gesto de adeus, um toque de despedida. Ah, vida, minha vida. O que resta agora é começar de novo, recomeçar do nada, restaurar os fragmentos partidos do cotidiano e tentar fazer com que tudo o mais valha a pena.

Airton Monte - Qualidade de vida - 9 de Novembro 2011

Claro que como sou psiquiatra, bem sou sabedor que nada como uma boa e repousante noite de sono a todos nós se apresenta feito uma imprescindível e necessária garantia de qualidade de vida, seja qual for a idade que se tenha. Todo aquele não agradavelmente acolhido pelos saudáveis braços de Morfeu, passando suas noites em claro, torna-se um infeliz devedor do sono durante todo o resto do dia. E não adianta tentar tirar o atraso hípnico enquanto reina o sol, mesmo que se tranque, se isole hermeticamente em um quarto à prova de som e completamente mergulhado na escuridão mais profunda. Coberto de santa, sapiente razão estava o autor dos meus dias ao afirmar peremptoriamente que a noite foi feita para dormir. Por isso ele costumava se definir como um boêmio diurno, pois chovesse ou fizesse sol, sua peregrinação pelos bares inadiavelmente se findava por volta das seis horas da tarde, só abrindo exceção para as noites de natal e virada do ano.

Infelizmente, não consegui seguir seu hígido exemplo, por haver me transformado num incorrigível boêmio noturno, trocando a luz do dia pela luz da lua desde muito cedo em minha vida. Lembro que, inda menino, costumava ficar gastando precocemente minha visão lendo até altas horas ao lume de uma vela ou de uma lamparina. Ou então, pulava sorrateiramente a janela do quarto e rumava, tomando cuidado para não quebrar o silêncio, pelo oitão até a paisagem cheia de mistérios do quintal nas noites de lua cheia. E lá chegando, deitava-me sobre a tampa da cacimba de barriga para cima, deixando-me a olhar fixamente o céu, perscrutando estrelas, talvez na esperança que nutria em meu infantil imaginário que me aparecesse um disco voador com homenzinhos verdes como acontecia nas aventuras do Bolinha na revista da turma da Luluzinha, um dos meus magazines em quadrinhos preferido.

Para minha terrível frustração, os discos voadores tripulados por homenzinhos verdes jamais me deram o prazer de sua presença. Acredito haver sido por causa dessas fugas noctívagas iniciadas na infância que meu relógio biológico começou a desregular seu natural funcionamento e fui virando, de maneira lenta, quase imperceptível um animal insone, me habituando a trocar a noite pelo dia. Ao adentrar os portais da universidade, os plantões médicos contribuíram sensivelmente para agravar a minha condição de insone profissional. Que me recorde e minhas contas estejam pelo menos parcialmente corretas, foram mais de vinte anos trabalhando à noite não sei quantas vezes por semana. Como todo médico plantonista, cheguei a viver mais tempo nos hospitais do que em casa e fui desenvolvendo meus indigitados hábitos de coruja que até hoje me perseguem como indesejável companhia, que só me deixam em paz se os afugento na base dos tarjas pretas, coisa que procuro evitar a todo custo, só apelando para seu sonífero adjutório quando meu corpo e minha mente não mais suportam o peso das noites em claro.

Uma atitude extrema essa de tomar remédio para dormir, esses viciantes emissários do grego deus do sono, dos quais procuro fugir como o diabo da cruz, mas por vezes não há mesmo outro jeito. Além disso, nos raros momentos de folga, nessa época em que labutava como médico de emergências psiquiátricas, ao invés de guardar o merecido e preciso descanso do labor extenuante, mergulhava de cabeça na esbórnia, me esbaldando em farras homéricas, bebendo em quantidades industriais levado pelas más companhias da alencarina boemia no território livre de Iracema e dos bares gentilandinos. Fui um típico exemplar de estróina da saúde e hoje sofro as consequências desse período maravilhoso que vivi com intensidade. Não tenho distúrbios da memória nem padeço de depressão, males próprios da insônia. Pensar em suicídio já pensei, como tanta gente que dorme bem, uma vez ou outra na vida. Pra ser sincero, o que realmente piora a minha qualidade de vida é a falta de dinheiro, mais nada.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Airton Monte - O Caçador de Fantasmas - 8 de Novembro 2011

Genial Crônica!!!


Estou sozinho em casa. Todos arribaram do caseiro ninho em busca de outros lugares mais aprazíveis para desfrutar as delícias de um feriadão. Eu, como não sou chegado a encetar viagens nem de longa nem de curta duração, preferi restar no aparente sossego do suburbano tugúrio na ilustre companhia de meus discos, meus livros, meu caderno de escrever e da televisão. Há ocasiões em que me apraz mergulhar numa solitude consentida e, por vezes, para mim decididamente necessária e até mesmo desejada, apesar de ser um sujeito dotado de uma natureza gregária, que gosta de viver arrodeado de gente. Fui criado assim, numa família grande, numa casa grande onde os vizinhos entravam e saíam a todo instante como se fizessem parte da família. Afora as visitas constantes dos amigos, dos tios e da verdadeira multidão de primos que vinham nos dar o ar de sua graça no vetusto Solar dos Monte.

Como os hábitos e costumes da infância em nós permanecem indeléveis mesmo ao ficarmos adultos, está grudado em mim este gosto de viver em grupo com todos os seus incômodos e suas vantagens. Entanto, ficar a sós comigo mesmo em determinadas ocasiões faz um bem danado à alma, Isto é, desde que você aprecie sua própria companhia como acontece no meu caso. A casa me parece maior do que realmente é, embora a ausência das vozes conhecidas, dos passos da mulher e dos filhos faça brotar, de maneira inevitável, um muito de saudade em meu velho coração. Nesses momentos, bendigo a invenção do telefone, essa máquina de encurtar distâncias e aproximar os afetos entre quem se foi e quem ficou. Enquanto permaneço sob o reinado do dia, suporto melhor a falta dos que amo, principalmente quando não chove e a luz, a claridade entram pelas janelas num festival de brilhos e cintilações.

Porém, ao começar a escurecer e o fim da tarde anuncia a noite que chega trazendo as suas sombras indesejadas, é que a ausência dos seres queridos se torna mais dolorida e a solidão me bate com mais força e intensidade. Não que eu tenha um medo infantil das trevas noturnas e me deixe assombrar pela possível aparição de fantasmas e visagens. Afinal, sou um adulto. Além do mais, não acredito em assombrações nem em almas do outro mundo, em espíritos perdidos de caráter malfazejo, cujo esporte preferido é atazanar os vivos com suas imateriais brincadeiras de mau gosto. Os meus fantasmas amados só costumam me aparecer em sonhos, apaziguando meu sono, espantando os pesadelos. Os meus fantasmas prediletos são doces frutos da minha imaginação e como tal, são alegres fantasminhas camaradas que me tornam o adormecer mais fácil, mais suave, mais tranquilo.
 
Ah, Deus sabe e compreende em sua infinita bondade o quanto eu desejaria que os ectoplasmas de meu pai e de minha mãe se materializassem diante de meus olhos incrédulos e comigo falassem, me dessem conselhos tão sábios quanto os que me deram enquanto estavam vivos. Isso sem falar de minha avó Maroca, que foi uma exímia praticante do jogo do bicho, para me soprar ao pé do ouvido as seis dezenas da mega sena, me transformando num milionário da noite pro dia. Todavia, o que deles eu queria mesmo é que me dessem as suas bênçãos e me falassem palavras que me confortassem a alma angustiada e me garantissem que minha vida vai melhorar daqui pra frente e que coisas boas irão me acontecer quando menos esperar. Ah, por que não me vêm visitar os meus fantasmas amados nas noites em que mais me são precisos? Talvez porque jamais me abandonaram e suas presenças, eles sabem, permanecem para sempre vivas na minha lembrança.