terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pais e professores, uma relação difícil - 31 de Janeiro 2012

Pais e professores, uma relação difícil


São comuns os conflitos acerca da responsabilidade de cada um na formação das crianças. A solução está na aproximação entre as partes


A relação entre pais e professores inclui, já faz algum tempo, boa dose de tensão. O assunto voltou à tona com força no fim do ano passado, quando um professor americano chamado Ron Clark resumiu as reclamações de boa parte dos mestres da seguinte maneira: professores não são babás de alunos, ao contrário do que pensam seus pais. Ele acusa os pais de repassar à escola suas responsabilidades, recusando, contudo, as regras impostas pela instituição educadora. Seu artigo, chamado "O que os professores realmente querem dizer aos país", tornou-se o segundo mais compartilhado no Facebook em 2011 (o primeiro trata do desastre da usina de Fukushima, no Japão), trocado mais de 630.000 vezes – prova de que a discussão é, no mínimo, pertinente. O texto ecoou em outros países e também no Brasil. "Por aqui, os pais perderam a habilidade de impor limites a seus filhos. Agora, tentam impor limites à escola, interferindo na atividade dos professores", diz a educadora Tânia Zagury, autora do livro Escola sem Conflito: Parceria com os Pais. De acordo com uma pesquisa realizada pela escritora, 44% dos professores apontam a ausência de limites como causa principal da indisciplina em sala de aula: um quinto dos profissionais responsabiliza a família pelo problema.
Do outro lado da linha, os pais também reclamam de intromissões da escola em disposições que acreditam justas. É o que vive a empresária Marcela Ulian, de 34 anos, mãe de um garoto de 6 anos – o nome dele, assim como o da instituição, um renomado colégio privado paulistano, serão omitidos a pedido da empresária. Há alguns meses, Marcela contesta uma determinação da escola que proíbe alunos de portar dispositivos eletrônicos, como celular ou tablet, no interior da instituição. "As crianças não podem ficar alheias às novas tecnologias. Acho inclusive que os professores podem ensinar que aqueles aparelhos podem servir como material educativo", diz Marcela. Não houve acordo. Para a escola, é em casa que as crianças devem aprender a fazer uso dos aparelhos. "Continuo não concordando com a escola e seguirei tentando provar que estou certa."
Não raro, as queixas de um lado e de outro são mais severas; outras revelam exageros flagrantes. Há, por exemplo, relatos de professores contestados por pais porque atribuíram uma nota baixa a um aluno, ou por tê-lo repreendido por comportamento inadequado. Preocupados com as reclamações de parte a parte, educadores se debruçaram sobre a questão. Descobriram duas razões principais para os desentendimentos. A primeira é uma transformação sofrida pela engrenagem familiar, fruto das mudanças sociais dos últimos 50 anos. Um exemplo disso: nesse período, as mulheres, tradicionalmente encarregadas de acompanhar o crescimento das crianças em casa, ganharam definitivamente o mercado de trabalho, distanciando-se da antiga função. "A consequência disso é que as escolas passaram a ser responsáveis também pela educação moral das crianças. A família moderna demandou isso delas", diz Maria Alice Nogueira, educadora e especialista em sociologia da educação.
A segunda razão envolve um movimento em sentido oposto: a intromissão dos pais em assuntos sobre os quais as escolas antes mantinham monopólio. À medida que as famílias perceberam que a ascensão nos bancos escolares é sinônimo de ascensão social e econômica, passaram a cobrar mais de instituições e professores, que antes davam as cartas na sala de aula – não por acaso, "mestre" é uma designação que quase não se aplica mais a professores. "O êxito proveniente da educação formal levou a família a interferir nos assuntos escolares", diz Maria Alice.
Excetuados os exageros, os educadores de olho na questão alertam que a nova realidade exige nova atitude. "O que ouço dos docentes em momentos como esse é aquela velha história de que, antigamente, eles eram mais respeitados", diz a educadora Elaine Bueno. "Esse é um discurso velho, pois os tempos mudaram: os pais não enxergam mais o professor e a escola como autoridades inquestionáveis. Eles precisam aceitar isso e prestar contas de seu trabalho."
O caminho da convivência harmoniosa exige trabalho intenso de pais e professores, garantem escolas que já o perseguem. Entre as lições aos professores (confira o quadro abaixo), estão orientações como jamais desqualificar ações dos pais diante dos filhos. É o que prega Sylvia Figueiredo, sócia-fundadora do colégio Castanho Lourenço, de São Paulo. Certa vez, ela descobriu que uma mãe fazia o dever de casa do filho. "Em nenhum momento, desmereci a atitude da mãe diante do menino, apesar de estar certa de que a conduta dela interferia negativamente no desempenho dele", conta. O assunto foi tratado em uma conversa a portas fechadas, cara a cara, entre a educadora e a mãe. "É preciso muito treinamento para lidar com os pais. A relação é uma bomba-relógio e pode explodir a qualquer momento se você puxa o fio errado na hora de desarmá-la." Aos pais, em situações como essa, cabe a lição de ao menos ouvir atentamente a posição do educador.
O esforço vale a pena. A harmonia entre as partes é valiosa para a educação – é o que apontam estudos na área. Uma pesquisa encabeçada pela Fundação Getulio Vargas, por exemplo, mostra que os efeitos da presença dos pais na vida escolar se fazem notar por toda a vida adulta. Na infância e na adolescência, a participação da família está associada a notas até 20% mais altas e riscos de evasão até 64% inferiores. "Gostamos de deixar claro aos pais que a interferência deles no processo educativo é saudável. Mas ambas as partes precisam estar abertas ao diálogo", diz Celina Cattini, diretora geral do Colégio Visconde de Porto Seguro. "Muitos professores sentem saudade do tempo em que os pais respeitavam a autoridade da escola. Mas é preciso lembrar que aqueles eram tempos em que havia respeito, mas não havia interação entre escola e família: isso não é bom para as crianças." Celina tem razão.
Com reportagem de Renata Honorato

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Frei Betto - Feliz 2012

Que texto mais humano esse!! Esse texto deveria ser traduzido apra todas as línguas e dialetos para que toda HUMANIDADE conheça a HUMANIDADE desse belo texto do nosso FREI BETTO - Maravilhoso texto!!


Desejo um Feliz Ano-Novo onde, se Deus quiser, todas as crianças, ao ligarem a televisão, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; e durmam após fazer suas orações.

Quero um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra. Na cidade, um teto sob o qual haja um fogão com panelas cheias.


Desejo um Ano-Novo em que a cada um sejam assegurados o direito ao trabalho, a honra do salário digno e as condições humanas de vida.


Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social.


Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.


Desejo um Ano-Novo em que o governo evite que o nosso povo seja afetado pela crise do capitalismo, livre a população do pesado tributo da degradação social e tome no colo milhões de crianças condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.


Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais nenhum ser humano sequer se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.


Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação, à partilha; a agressão, ao respeito; a idolatria por dinheiro, ao espírito das Bem-Aventuranças.


Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto é escritor, autor de ‘Mística e Espiritualidade’, em parceria com Leonardo Bof




quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Airton Monte - O espelho de Alice - 1 de Dezembro 2011

Esse negócio de que amanhã será outro dia por vezes me soa como a mais lídima das verdades contidas nos ditados populares que crescemos ouvindo da boca de nossos pais e que o futuro a Deus pertence. De outras, me parece não passar de uma pura balela que inventamos para amenizar os nossos problemas e as nossas humanas dificuldades. Para mim, que sou naturalmente dotado de um certo ceticismo em relação à sabedoria do sofrido canelau, o dia é sempre hoje. Porque é impossível parar o correr da ampulheta do tempo, este nosso implacável inimigo íntimo. O amanhã vai nos vai exigir outras soluções e novas atitudes diante do que nos aparecer pela frente, ora para nos alegrar, ora para nos afligir, enquanto estivermos vivos. É justamente para evitar inúteis mortificações causadas pelo se e pelo talvez, duas palavrinhas que detesto, que procuro de todas as maneiras focar, concentrar minha atenção e minhas forças no hoje, porque não sou peru para morrer de véspera.

Falando nisso, hoje tive que ir ao banco, uma viagem que me irrita de todo coração, para tentar resolver algumas financeiras pendências, negociando na medida do possível o prazo para o pagamento de papagaios que já estão quase vencidos. Sei que quanto mais dilato o solver das minhas dívidas, mais fico devendo, eternamente preso num círculo vicioso que inferniza a vida dos indigitados insolventes feito eu. Mas, fazer o quê? Deve-se pagar o que se deve por cima de pau e pedra, nem que seja apelando para o velho jeitinho brasileiro, aprendido desde que nascemos e para a boa vontade do gerente desses entrepostos da agiotagem oficializada dentro dos ditames da lei. E assim, saio de asa sobraçando a pasta com os imprescindíveis documentos necessários à postergação dos juros, que certamente me deixarão com as calças na mão. É por isso que dizem ser mais lucrativo fundar um banco do que assaltá-lo e tal afirmativa não se trata, em absoluto, de uma mera figura de retórica nem piada de salão.

Percorrendo o meu caminho rumo ao meu monetário calvário, vou andando pelas ruas prestando atenção em tudo como se houvesse nascido exatamente hoje, agora, nesse justo minuto. É uma sensação que posso descrever como sendo ao mesmo tempo magnífica e inquietante que nem o primeiro coito (eu bem me lembro e como esquecer?) quando o corpo da primeira mulher possuída com uma feroz voracidade aparece aos nossos olhos deslumbrados como um espantoso abismo de luz, de medo e descoberta. A cidade por onde transito, nesse comecinho nebuloso de tarde, num estado de plena iluminação, nem me parece ser a minha, onde nasci, cresci e à qual estou acostumado a conviver desde a mais tenra meninice. Tudo nela é revelação, encantamento, fascínio, estranhamento, espera. Uma canção imaginária solta pelo ar, uma cidade a cantar seus cânticos de guerra e de paz numa fascinante mistura de amor e ódio.

E partindo do ilusório princípio de que nasci hoje, aqui, agora, nesse instante inesquecível, a cidade inteira me surge como nova, embora velhas e caóticas lembranças me perpassem o pensamento de um recém-nascido já adulto. Sou tudo isso que meu deslumbrado olhar observa, constata, confirma e testemunha enquanto rumo em direção ao banco onde reside a mais dura e cruel das faces da realidade. Palavras ainda não escritas dependuram-se em minhas mãos, peixes debatendo-se na ponta de um anzol, pescados por onde passo e vou, pois sei que estou no que mais tarde escreverei, sem nenhuma dúvida. Uma profusão de personagens me acompanha os passos, em meu febril furor de tudo registrar no cofre da memória. Sinto-me um tanto quanto onipotente. Uma onipotência infantil, escandalosamente ingênua, nesta cidade em que me perco e me encontro. Entro no banco. A cidade perde a graça. Transforma-se numa miragem e rescende ao impossível. A porta giratória do banco é o espelho de Alice visto e atravessado pelo avesso.

Airton Monte - O direito de errar - 30 de Novembro 2011

Apesar do meu parco talento como escritor, geralmente costumo tomar muito cuidado com tudo que escrevo, seja com o que pretendo publicar em futuros livros, seja com estas cotidianas mal traçadas impressas nesse meu cantinho de página de jornal. Sou até um tanto obsessivo quanto a isso. Depois de digitar a crônica, antes de enviá-la ao editor, faço questão de pentear cuidadosamente o texto em busca de possíveis erros cometidos, ou por falha na digitação ou oriundos de minha crassa ignorância da nossa Flor do Lácio inculta e bela, sempre contando com a indispensável ajuda do popular “Pai dos Burros”, porque nunca sei quando vou precisar de seu precioso adjutório. Porém, por mais precauções que se tome, por vezes torna-se impossível evitar algumas falhas e atentados contra o vernáculo, que a gente só vem perceber depois do texto publicado. E aí, não tem mais jeito, porque no meu ofício vale o que está escrito tal e qual acontece no jogo do bicho.

Outro dia, perpetrei dois erros imperdoáveis e dos quais me penitencio antes que algum leitor mais atento me lance a primeira pedra. Não sei onde estava a minha cabeça quando grafei a palavra paçoca com dois esses e parêntese no singular com um esse no final. Sei que errar é próprio da humana condição, mas que direito eu tinha de maltratar tão duramente a nossa já tão maltratada língua pátria? Bons tempos aqueles em que ainda existia a figura do revisor, nosso mais costumeiro bode expiatório e que era sempre o imperdoável culpado pelos nossos erros como os mordomos dos romances policiais eram sempre os primeiros suspeitos do crime. Entanto, com a entrada em cena dos computadores, o revisor acabou sendo extinto pela tecnologia e adeus nossa mamata, nosso salvador muro das lamentações. Sem o indigitado revisor, ficamos entregues à nossa própria sorte não há mais como escapar de nossas aberrações linguísticas.

Ainda me restava uma biológica alternativa, que seria jogar a culpa na minha catarata iniciante, mas logo cheguei à conclusão de que nenhuma doença, por pior que seja, pode ser responsabilizada por nossa obtusidade, nosso desconhecimento da gramática. Portanto, só me resta assumir a minha responsabilidade e ser honesto com meus raros leitores e comigo mesmo. Eu errei de um modo fragoroso, indesculpável e mereço justificadamente todas as críticas que me forem dirigidas, por mais acerbas que sejam. E nem me adianta esconder-me atrás da manjada desculpa de que todo mundo erra, aqui e ali, por que não eu? É agindo dessa maneira covarde que contribuímos para perpetuar, justificar nossos erros e deslizes com os erros e deslizes alheios, mesmo que, muito raramente se concretize a premissa popular de que o errado é que está certo. Todavia, é errando que se aprende, muito embora pessoas haja que jamais aprendem com seus erros e seguem errando vida afora ostentando uma olímpica indiferença pelos prejuízos que vão deixando no rastro de sua passagem.

Alguns amigos escritores, a quem envio minhas croniquetas antes mesmo de mandá-las para o jornal, me telefonaram sem detença, me alertando para meus ortográficos escorregões, tentando me consolar afirmando que tenho um certo crédito junto aos meus leitores mais assíduos, que me perdoarão com generosidade meus desacertos últimos. Agradeci penhoradamente a solícita cumplicidade dos afáveis companheiros, mas lhes dizendo, em resposta, que escritor não tem crédito nem na bodega da esquina. E que escritor é como os goleiros, que podem passar noventa minutos fazendo milagres, mas se derem o azar de engolir um frango no encerrar das luzes da partida, saem do campo tratados que nem um Judas de semana santa. Escritores também são solitários como os artilheiros, aos quais dificilmente se perdoa um gol perdido em horas decisivas. Nosso destino é viver na corda bamba, feito os equilibristas de circo.

Airton Monte - Meu Oásis - 29 de Novembro 2011

Dos pequenos acontecimentos se fazem as maravilhas. Das coisas mais prosaicas que nos rodeiam no dia a dia, se as observarmos com um pouco mais de atenção em nosso olhar, podem nascer sutis descobertas que jamais imaginamos. Sei que as inadiáveis obrigações e os implacáveis compromissos naturais do cotidiano exigem de nós uma pressa que nos cega e turva a nossa percepção, só nos fazem enxergar o óbvio que nos transforma em pobres máquinas sonâmbulas, presas à uma enfadonha realidade onde não há lugar para o sonho, o deslumbramento, uma revelação que nos torne maiores do que somos, mais plenos de humanidade do que pensamos. O mundo, meus amigos, não é só isso que comumente vemos em meio à talvez inútil azáfama pragmática em que vivemos mergulhados por uma questão de garantir a nossa sobrevivência como meras peças da engrenagem produtiva enquanto fazemos parte do mercado de trabalho.

Minha mulher encheu nossa varanda e a estreita faixa de cimento armado que eu, num doce exagero, chamo de jardim, de vários jarros e jardineiras dos mais diversos tamanhos, onde florescem plantas de variadas espécies e até mesmo algumas flores e dois ou três pés de rosas vermelhas que dão um brilho, um colorido todo especial ao nosso suburbano refúgio. Geralmente, no começo das manhãs e no finzinho das tardes, os passarinhos vão se chegando e pousando, descansando de seus passeios alados. Eis a razão porque a varanda enfeitada dessa humilde, mas de todo modo bela flora é o lugar da casa em que mais gosto de escrever, de ler, ouvir música, receber os amigos, de conversar à noite com a amada nossos assuntos, trocando impressões sobre o dia que passou. Além do mais, através das grades posso ver a rua e as pessoas que por ela passam, anônimos personagens do cenário citadino.

Vez em quando, para refrescar o ambiente, sopra uma brisa mansa que nos acaricia o corpo e ameniza o calor do verão. Posso admirar o sol quando ele nasce e as estrelas refulgindo lá no alto do céu e namorar a lua cheia se é noite de lua cheia. Nesse momento, um passarinho aterrissou a poucos passos de mim e me fitou sem medo algum, pois seu instinto certamente já lhe sinalizou que aquele homem ali sentado naquela mesa, com um radinho de pilha grudado ao pé do ouvido, mal nenhum lhe fará nem oferece qualquer perigo. Os passarinhos já sabem que o meu jardim é um local seguro para eles, onde estão protegidos provisoriamente da maldade humana. Acho que a beleza se resume nisso: em aproveitar as pequenas dádivas que nos são ofertadas graciosamente pela natureza. E é nessa varanda florida que me alivio das tensões que me acometem e limpo a minha alma e minha cabeça fica leve e meus pensamentos voam livres pelo território da mente.

E estar assim cercado do meu pedacinho de verde me faz lembrar, com uma alegre saudade, da infância na casa paterna, onde havia um grande jardim povoado de plantas, roseiras, moitas de jasmim e uma vetusta mangueira que dava sombra o dia inteiro. Havia dois oitões que circundavam o Solar dos Monte e bem em frente à janela do meu quarto vicejava um pé de siriguela, sempre repleto de frutas de cujo sabor minha memória jamais esqueceu. E havia o quintal enorme, cheio de árvores frutíferas, com uma cacimba no centro, um galinheiro sempre prestes a nos servir o almoço dos domingos. Se existe uma época da minha vida da qual não posso me queixar é da infância, da minha agora tão longínqua meninice. Uma lembrança que se vai tornando cada vez mais preciosa à medida que envelheço. E é neste meu pedacinho de verde, isolado como um oásis na paisagem desértica da cidade, que a recobro de vez em quando. O menino que ainda não morreu em mim viaja, passageiro perpétuo da imaginação, em busca de um tempo que não foi perdido.

Airton Monte - Lição de Vida - 28 de Novembro 2011

Ontem, estava eu posto em relativo sossego, debruçado sobre a mesa de trabalho, escrevendo, ou melhor dizendo, tentando por no papel algumas palavras esparsas no afã cotidiano de fabricar o obrigatório pão de mais uma croniqueta das tantas que já perpetrei nesses treze e poucos anos de jornal. Súbito, batem à minha porta três distintas senhoras interrompendo o meu labor. Vou até o portão e as atendo com toda a educação e gentileza de que sou possível. A princípio, pensei que as três inesperadas personagens que me apareceram do nada eram simples vendedoras de algum produto, dessas que vão, incansáveis, de casa em casa, oferecendo suas mercadorias com que garantem a sobrevivência e alimentam o mercado dito informal, tão comuns nas grandes e pequenas cidades desta nossa Taba de Alencar. Porém, enganei-me redondamente em minha vã suposição a respeito do que realmente desejavam de mim aquelas três distintas senhoras.

Após trocarmos os cumprimentos de praxe, foi que observei que cada uma delas trazia uma bíblia nas mãos e vários pequenos panfletos que sacaram de uma sacola. Uma delas, aparentemente a líder do simpático grupo, delicadamente perguntou-me se eu dispunha de alguns minutos para ouvir a palavra de Deus. Calmamente, respondi que naquele momento não poderia atender a seu pedido, pois estava demais atarefado, porque muito embora não parecesse, encontrava-me até a tampa de trabalho, apesar de ser um sábado à tarde, quando a maioria das pessoas começa a gozar a bendita folga do fim de semana. As três distintas senhoras insistiram em seu pedido, me oferecendo mil razões de caráter espiritual. Todavia, permaneci firme em minha gentil recusa, explicando-lhes que a palavra de Deus era sempre benvinda, mas que me desculpassem em não poder satisfazer o seu pedido por absoluta falta de tempo e que, se não fosse pedir muito, deixássemos para outra vez e outro dia mais apropriado a nossa metafísica conversa.

Finalmente, mesmo inconformadas por não conseguirem o seu bem intencionado intento de salvar mais uma alma, quem sabe até trazer de volta ao sagrado redil uma ovelha negra perdida do rebanho, as três senhoras distintas se foram embora, certamente à procura de ouvidos mais atentos. Antes de partirem em sua jornada de catequese, percebi um ar de reprovação no olhar manso de cada uma delas. Veio-me um discreto remorso e uma pontinha de culpa por não haver perdido ou ganho alguns minutos escutando o que elas tinham a me falar. Quem sabe, escutar a palavra de Deus não me fizesse um bem danado à alma naquele instante e eu houvesse perdido uma boa oportunidade de aliviar meus pecados, embora seja eu um homem de pouca fé. Talvez, aquelas três senhoras distintas, tão convictas, tão empenhadas em sua peregrinação de missionárias de alguma crença, não me tivessem algo de suma importância para me revelar, uma mensagem que eu deveria ter ouvido.

Contudo, para nada servem os arrependimentos tardios, pois o que está feito está feito e jeito não há de se voltar atrás em decisões tomadas por nossa própria vontade. Passado é passado e se, por acaso erramos, só nos resta aprender a lição dada por nossos erros, com os quais nos tornamos um pouco mais sábios do que com nossos acertos. Todavia, em verdade vos digo, com toda pureza d’alma, que aquelas três senhoras distintas me causaram uma admiração por sua perseverança em seguir espalhando pelo mundo, muitas vezes a ouvidos moucos feito os meus, a fé no Deus em que acreditam sem desistir um só minuto, plenamente convencidas de ser esta a sua missão no planeta. Ah, quem me dera ser possuidor de um mínimo resquício de sua força de vontade, de nunca desistirem diante das portas que se fecham ao seu bater. Aquelas três senhoras distintas me ensinaram, percebo agora, uma grande lição de vida que jamais esquecerei.

Airton Monte - O Hoje - 25 de Novembro 2011

Pois muito bem, bem, bem. Hoje, acordei pensando na vida, cogitando sobre a dura e ao mesmo tempo maravilhosa condição de ser, de existir, de estar no mundo como há tempos não fazia. O habitual é que a gente só se dedique, só se preocupe em pensar na vida quando nos encontramos afligidos pela tristeza ou, então, transidos de angústia porque ela(a nossa vida)não vem dando muito certo e as coisas não estão saindo do modo que desejamos. Devo avisar aos meus conterrâneos leitores que esse não se trata do meu caso em particular. Apesar dos pesares, acho-me relativamente em paz comigo mesmo. Não carecem de tanta importância os percalços, pois já estou deveras acostumado a enfrentar os que me aparecem pela frente, nem me assustam com feroz ansiedade alguns sinais de negras nuvens toldando meu conturbado horizonte existencial. Vou levando o barco do jeito que dá e posso, como sempre o faço, sem jogar a toalha no meio do ringue.

Somente despertei pensando na vida como bem poderia haver acordado matutando nas dezenas mágicas da loteria, movido por um sonho que me soprasse, benfazejo, um inacreditável palpite. Controlar completamente meus pensares é uma tarefa impossível para este pobre ser pensante como para todo mundo, desse modo suponho e acredito. Meus pensamentos são dotados de autonomia e liberdade para ir e vir dentro de minha cabeça desprovida de currais e de porteiras. Meus pensamentos são cavalos selvagens, infensos à qualquer tentativa de doma, a cavalgarem soltos pelas campinas, sem rédeas nem freios. Talvez o livre pensar seja só pensar, tal e qual afirmou o genial Millôr Fernandes. E com ele concordo sem pestanejar. Entanto, o que pensei sobre a existência num rápido instante da manhã, entre o banho e o desjejum, juro que não me lembro agora. Foi um pensamento tão veloz feito um cometa e que vestígios não deixou em minha frágil memória.

Quem sabe, tenha pensado, com inusitada alegria, num gol de letra que marquei num prosaico bate-bola de várzea no último minuto do segundo tempo, eu menino, gozando um pequeno instante de efêmera glória, mas que as crianças guardam para todo o sempre em suas mais doces recordações. Quiçá, haja vindo ao meu bestunto, ainda quase adormecido às primeiras horas da matina, um delicioso, porque proibido, beijo de língua que roubei ousadamente de uma esplêndida morena fantasiada de sensual odalisca no carnaval de 1964, nos salões do Maguary. Ou talvez na primeira e inesquecível carreira levada da polícia marchando numa passeata nos idos de Sessenta e Oito. Ou, ainda, no ósculo redentor, amoroso que minha filha me deu ontem de noite, fazendo as pazes depois de um quebra-pau entre nós dois. Ah, os filhos, que jamais esquecem os nossos pecados paternos durante o resto de suas vidas. E nos relegam à eterna condição de heróis e de bandidos.

Pensando melhor e com o necessário vagar, usando a lógica e a razão, deixando um pouco de lado a cumplicidade confusa dos sentimentos e emoções, concluo, de maneira indubitável, que penso mais na vida quando estou alegre do que enfiado na concha da tristeza, pois enquanto em estado sorumbático, imerso em melancolia, só tenho tempo de pensar em recuperar a alegria o mais rápido que me for possível. A muito custo, forcei-me a aprender a não chorar o leite derramado, a morte da bezerra, o tudo acabado entre nós, porque tal atitude negativista a nada nos conduz de bom nem nos traz a desejada redenção do pessimismo em nós instalado mesmo que circunstancialmente. O negócio é bola pra frente e é preciso reconquistar a vida dia após dia. Hoje, me coube pensar no existir de um jeito perfeitamente natural. Depois, saí pra luta, pois o cotidiano me aguardava pronto para ser vivido. Às vezes, pensar na vida nem sequer nos rende uma crônica decente.

Airton Monte - Eles Venceram - 24 de Novembro 2011

Quer a gente goste ou não, seja a favor ou contra, é impossível negar que este mundo velho está passando por incríveis mudanças, até há pouco tempo inimagináveis para aqueles que ainda cultivam renitentemente um mais que ultrapassado saudosismo que, no meu modesto entendimento, perdeu quase por completo a sua razão de ser e perdurar. A verdade é que o novo sempre vem, o que não significa que o novo somente pelo fato de ser novo seja compulsoriamente bom. Eu, por exemplo, não consigo suportar alguns desses novos cantores e compositores que pululam no cenário artístico nacional, enchendo meu saco com suas músicas de melodias paupérrimas e letras de um mau gosto a toda prova. Nesse caso, nem se trata de queixas, de lamentações próprias de um saudosista incurável, mas precisamente de uma simples questão de padrões estéticos, dos quais me recuso a abdicar, só para não ser chamado de antigão.

Claro que passa bem longe de mim a intenção de querer ser o dono absoluto da verdade e impor aos que gostam desses astros passageiros as minhas artísticas preferências. Acredito firmemente que cada geração tem os ídolos que merece, como a minha possuiu os seus e ainda hoje, mesmo já velhuscos, os continua idolatrando tal e qual fazíamos antes, quando eles iluminaram a nossa adolescência e abriram nossas jovens cabeças para a percepção de tantas descobertas que certamente mudaram nossa vida, nosso jeito de pensar o mundo. Apesar de saber que estou correndo um sério risco de sofrer severas críticas dos ideológicos patrulheiros, para mim grassa em todas as formas de arte uma pobreza generalizada, salvo algumas honrosas exceções. A literatura está cheia de escritores que não sabem escrever um prosaico bilhete de suicida, uma cartinha de amor, um recado eletrônico nas redes da internet. Quanto mais um romance, um conto, um poema.

Nas artes plásticas, proliferam autores incapazes de desenhar um simples ó com o adjutório de uma quenga de coco. Em minha modesta e desimportante opinião, o cinema, talvez, seja o último bastião da resistência em que se pode encontrar alguns vestígios de beleza, de inovações tecnológicas que me agradam, me oferecem raros instantes de prazer, de desfrute estético. Ah, sim. Ia me esquecendo de falar sobre o teatro, que tirante o besteirol caça-níquel protagonizado pelos artistas tornados famosos pelas telelágrimas globais, resiste bravamente devido ao talento e à persistência das pequenas companhias regionais. Até o futebol, que considero uma nobre arte, anda mergulhado numa indigência de talentos e num oceano de incontestável mediocridade. E eu, que sou um apaixonado pelo ludopédio, ando assistindo cada vez menos jogos, principalmente os da seleção brasileira para evitar morrer literalmente de raiva.

O que mais me provoca uma profunda irritação, por vezes chegando a despertar-me um instinto assassino, é a extrema facilidade com que qualquer pé-rapado, qualquer cretino fundamental, qualquer besta quadrada passa a ser chamado de gênio ao fazer um meteórico sucesso nos programas televisivos. Como se o gênio fosse um produto banal de se encontrar, mais barato do que bolo em fim de feira. Do jeito que as coisas vão, parece que o mundo está repleto de gênios e há uma genialidade parada em cada esquina à espera de ser descoberta por um esperto empresário. Desse modo, tudo vai se tornando deletério, impermanente, circunstancial, provisório que nem as chuvas de verão. Hoje em dia, cumpriu-se ao pé da letra a profecia do poeta Maiacovsky: “O gênio não passa de uma longa besteira”. Para mim, confesso, está cada vez mais difícil suportar tamanha avalanche de medíocres. Nelson Rodrigues estava absolutamente certo ao afirmar que os cretinos fundamentais dominariam o mundo por absoluta superioridade numérica.

Airton Monte - O Biquini - 23 de Novembro 2011

Há duas coisas que você deve, por medida de precaução, confiar desconfiando, sempre com um pé atrás, duvidando de sua possível veracidade. Os horóscopos e as previsões do tempo. Hoje, ao passar uma rápida vista nos jornais do dia, li que em Fortaleza reinaria um tempo ensolarado. No entanto, amanheceu chuviscando uma chuvinha discreta, mas que logo cessou e o céu se abriu em radiosa claridade. Já no meu horóscopo, estava escrito para os nativos de Touro agirem com mais amor, pois só assim conseguiriam superar algumas dificuldades de cunho profissional. E sugeria aos teimosos taurinos que mantivessem, por cima de pau e pedra, um rígido controle sobre as suas emoções, pois em assim se comportando, atrairiam uma bem-vinda serenidade durante a semana que começa, livrando-os do indesejável assédio da ansiedade. Pois muito bem, o dia permanece nublado e garanto que nada mais difícil do que passar sete dias sereno diante das aflições cotidianas.

O diabo é que apesar de minhas muitas dúvidas sobre os horóscopos e as previsões climáticas, todos os dias me pego lendo o que dizem. Às vezes, acredito piamente no que afirmam seus autores, em outras, não creio em uma só palavra escrita nessas duas seções dos matutinos. E assim, vivo oscilando entre a crença e a descrença, de acordo com meu estado de espírito. Se acordo de bom humor, costumo seguir à risca suas recomendações. Mas se desperto com a pá virada, não ligo a mínima nem lhes dou a menor importância. E sigo meu rumo como se delas nem houvesse sequer tomado conhecimento. Deixo que o dia me aconteça como tiver de acontecer, me trazendo bons ou maus acontecimentos, calmarias ou tempestades segundo a imprevisível loteria do acaso. De qualquer jeito me viro, seja lá o que vier ao meu encontro. O que posso resolver, resolvo. O que não posso, faço de conta que esqueço até que se tornem inadiáveis.

Aprendi (sempre estou aprendendo alguma coisa com tudo que me sucede) que viver, pelo menos para este escriba, é resolver problemas e encontrar soluções seja lá como for. Um dia, estava eu a beber e conversar com meu velho amigo, o poeta Ralph Waldo Emerson e ele, já um tanto quanto truviscado, mas sem perder a sabedoria, me falou com a voz engrolada dos bêbados uma frase da qual tentei olvidar sem conseguir. Pousou suavemente a mão em meu ombro e disse-me compassadamente: “Meu caro parceiro, fazemos o que não podemos deixar de fazer e depois o rotulamos com os mais belos nomes”. Visto isso, partamos para a ação, se quisermos veramente modificar, nem que seja um pouquinho, a nossa realidade. Façamos o que temos de fazer, por obrigação ou devoção, com prazer ou sem prazer, mas façamos o que deve ser feito, o que não pode deixar de ser feito. É assim que as coisas funcionam nesse mundo.

Domingo, fui à praia para aliviar o cansado bestunto das habituais preocupações do dia a dia e principalmente em busca de beleza, que é uma das minhas razões de viver. Passeei pela areia de pés descalços, mergulhei nas pequenas ondas, sem me arriscar a ir mais longe porque não sei nadar e considero morrer afogado um final indigno para um aprendiz de poeta. Observando o ambiente, percebi que os biquínis estão cada vez mais curtos. Alguns tão diminutos que neles não sobra espaço nem pra etiqueta. Que bom. As mulheres estão cada vez mais lindas, cheias de perigosas curvas. Sim, estou com sessenta e dois anos, porém não estou morto. Nem eu, nem minha idosa libido. E lembro que a encantadora peçinha do feminino vestuário foi criada há cerca de 65 anos, para o gáudio e o deslumbre dos masculinos olhares. E pensar que ao ser inventado, o biquíni foi considerado um atentado contra a moral e os bons costumes. Ah, que mau gosto tinham os nossos moralistas antepassados.

Airton Monte - Verdades Verdadeiras - 22 de Novembro 2011

Sei que todo homem, por mais bafejado pelos ventos aprazíveis da fortuna com que seja agraciado, anda sujeito ocasionalmente a que muita coisa ruim e acontecimentos desagradáveis desabem-lhe sobre a cabeça de um modo inesperado. É inevitável. Nenhum de nós está a salvo de tais percalços, por mais que se esteja protegido por um anjo da guarda de extrema competência, dotado de asas do tamanho de um Concorde. Abrindo um pequeno parênteses, confesso que, apesar das minhas tendências a não acreditar no sobrenatural, digo-lhes que, por vezes, ao escapar de uma rasteira do destino, incólume, são e salvo, chego a crer que também tenho um anjo da guarda a me cuidar com inusitado desvelo desde que nasci. Claro que, circunstancialmente, meu quase sempre protetor alado esquece de vir bater o ponto e me deixa ao desamparo provisório, entregue aos meus próprios cuidados e à minha própria sorte e eu que me vire sozinho do jeito que puder.

Muita gente pode até achar um tanto quanto paradoxal que este escriba, que se diz um ateu confesso, seja capaz de crer nessas entidades etéreas como os anjos da guarda. Todavia, sou assim mesmo, um poço sem fundo das mais incríveis e estapafúrdias contradições. Ora digo uma coisa para no momento seguinte desdizê-la com a maior cara de pau. Em algumas ocasiões, discutindo, abordando os mais diversos assuntos, sou de uma coerência pétrea. Já em outras, demonstro uma incoerência da qual eu me espanto, após cessado o calor das tergiversações. Afinal só não muda de ideia e de opinião quem não possui nenhuma nem outra. E cuja cabeça só tem serventia para separar as orelhas. Claro que não vivo mudando de opinião o tempo inteiro como quem troca de roupa. Não alugo nem comercio, visando meus interesses pessoais, o meu pensar, pois não nasci com vocação para a hedionda prática da prostituição intelectual.

Fechando o parênteses aberto linhas acima e retomando o tema já iniciado, escrevia eu que todo homem anda sujeito a que muita coisa ruim lhe caia sobre o tampo do quengo subitamente. Entanto, meus perclaros leitores, sinceramente creio que, com toda convicção de que sou capaz, uma das piores desgraças que pode suceder a um indivíduo do sexo masculino é ver-se na terrível condição de ser obrigado a comer mal no sagrado recesso do seu lar, doce lar. Mui principalmente quando se gosta de comer não apenas para prosaicamente encher o bucho de qualquer tipo de ração alimentar, para unicamente matar a fome. Mas há aqueles, dotados de bom gosto, para quem o de comer significa um ato do mais puro prazer. Que vil desgraça e supremo infortúnio suar-se duramente a camisa na cotidiana labuta, chegar em casa com a barriga roncando e ser condenado a papar um rango escroto, com perdão da má palavra.

A maior prova de amor que uma mulher pode dar ao seu homem não é entregar-lhe a virgindade como nos tempos d’antanho. Mas saciar-lhe a fome com perita competência. Tem mulher a esquecer-se que o caminho mais curto para o coração do amado ainda é o estômago. Que me perdoem as feministas de plantão, se ainda as há. Todavia, um homem precisa nascer, crescer, viver sendo alimentado condignamente por uma mulher, desde a primeira mamada no seio materno. Isso me falava um amigo, por sinal protético de profissão, que padece do suplício de Tântalo de comer porcamente em casa. O pior é que sua doce esposinha foi educada em colégio de freiras, diplomada com louvor em prendas domésticas. Um homem mal alimentado, dizia-me ele, perde a força do homem, torna-se um fracasso nos jogos de Vênus. Certo que somos animais omnívoros, mas nem tanto. E passando fome, comendo de quentinha sua paçoquinha com banana, acaba por passar a comer em outra mesa e em outra cama.