Perci Coelho de Souza é coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Poder Local, Políticas Urbanas e Serviço Social da Universidade de Brasília (UNB)
Não há cadeia suficiente para Lula, não há construção erigida que suporte tamanha pena, que dê conta de tanto pecado. Haja grades de ferro e de aço que sejam capazes de segurar, de reter e de trancafiar tanta coisa numa só, tanta gente num só homem. Não há cadeia no mundo que seja capaz de prender a esperança, que seja capaz de calar a voz. Porque, na cadeia de Lula, não cabe a diversidade cultural Não cabe, na cadeia de Lula, a fome dos 40 milhões Que antes não tinham o que comer Não cabe a transposição do São Francisco Que vai desaguar no sertão, encharcar a caatinga Levar água, com quinhentos anos de atraso, Para o povo do nordeste, o mais sofrido da nação. Pela primeira vez na história desse país. Pra colocar Lula na cadeia, terão que colocar também O sorriso do menino pobre A dignidade do povo pobre e trabalhador E a esperança da vida que melhorou. Ainda vai faltar lugar Para colocar tanta Universidade E para as centenas de Escolas Federais Que o ‘analfabeto’ Lula inventou de inventar Não cabem na cadeia de Lula Os estudantes pobres das periferias Que passaram no Enem Nem o filho de pedreiro que virou doutor. Não tem lugar, na cadeia de Lula, Para os milhões de empregos criados, (e agora sabotados) Nem para os programas de inclusão social Atacados por aqueles que falam em Deus E jogam pedras na cruz. Não cabe na cadeia de Lula O preconceito de quem não gosta de pobre O racismo de quem não gosta de negro A estupidez de quem odeia gays Índios, minorias e os movimentos sociais. Não pode caber numa cela qualquer A justiça social, a duras penas, conquistada. E se mesmo assim quiserem prender – querer é Poder (judiciário?), Coloquem junto na cadeia: A falta d’água de São Paulo, E a lama de Mariana (da Vale privatizada) O patrimônio dilapidado. E o estado desmontado de outrora Os 300 picaretas do Congresso E os criadores de boatos Pela falta de decência E a desfaçatez de caluniar. Pra prender o Lula tem que voltar a trancafiar o Brasil. O complexo de vira-latas também não cabe. Nem as panelas das sacadas de luxo O descaso com a vida dos outros A indiferença e falta de compaixão A mortalidade infantil Ou ainda (que ficou lá atrás) Os cadáveres da fome do Brasil. Haja delação premiada Pra prender tanta gente de bem. Que fura fila e transpassa pela direita (sim, pela direita) Do patrão da empregada, que não assina a carteira Do que reclama do imposto que sonega Ou que bate o ponto e vai embora. Como poderá caber Lula na cadeia, Se pobre não cabe em avião? Quem só devia comer feijão Em vez de carne, arroz, requeijão Muito menos comprar carro, Geladeira, fogão – Quem diz? Que não pode andar de cabeça erguida Depois de séculos de vida sofrida? O prestígio mundial e o reconhecimento Teriam que ir junto pra prisão Afinal, (Ele é o cara!) Os avanços conquistados não cabem também. Querem por Lula na cadeia infecta, escura A mesma que prendeu escravos, ‘Mulheres negras, magras crianças’ E miseráveis homens – fortes e bravos O povo d’África arrastado E que hoje faz a riqueza do Brasil. Lula já foi preso, ele sabe o que é prisão. Trancafiado nos porões da ditadura Aquela que matou tanta gente, Que tirou nossa liberdade A mesma ditadura que prendeu, torturou. Quem hoje grita nas ruas Não gritaria nos anos de chumbo Na democracia são valentes Mas cordatos, calados, covardes Quando o estado mata, bate e deforma. Luis Inácio já foi preso, Também Pepe Mujica e Nelson Mandela. Quem hoje bate palmas, chora e homenageia, Já foi omisso, saiu de lado e fez que não viu. Não vão prender Lula de novo Porque na cadeia não cabe Podem odiar o operário O pobre coitado iletrado Que saiu de Pernambuco Fugiu da seca e da fome Pra conquistar o Brasil E melhorar a vida da gente Mas não há Nesse mundão de meu Deus Uma viva alma que diga Que alguém tenha feito mais pelo povo Do que Lula fez no Brasil. “Não dá pra parar um rio quando ele corre pro mar. Não dá pra calar um Brasil, quando ele quer cantar.” Lula lá!
Escrevo pouco, crio menos ainda, copio bastante e as vezes construo períodos em língua de Camões sem muita lógica e para satisfazer meus prazeres bestiais e ocultos
segunda-feira, 14 de março de 2016
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Crônica - Senhas - 12 Jan 2016
Crônica - Senhas - 12 Jan 2016
O dia amanheceu para mim mais cedo do que o comum, de súbito
tenho o sono interrompido pela insônia minha eterna companheira que insiste em
acompanhar. As sombras da noite ainda são as mesmas desde quando cai nos braços
de Morfeu. Olho para o telhado buscando inutilmente algum sinais de luz solar.
Impossível a essa hora. Na casa todos dormem o sono dos justos sem serem
incomodados pela minha egoísta insônia. A única solução é erguer-me de meu
leito e fazer companhia aos espíritos que rondam meu casebre. Vou a cozinha
onde sobre uma mesa de madeira jaz uma garrafa de café dormido e inservível. Já
que não há ninguém da casa acordado para um diálogo vou para o computador de
mesa para ler as notícias do dia nos sítios da grande rede. Dentre a enxurrada
de notícias que poluem este mundo uma ganha maior destaque: a morte de um astro
da música pop internacional veio a falecer gerando um grande sentimento de
tristeza entre seus fãs. Impaciento com tudo isso e desligo a máquina para
ligar outra menos sofisticada em termos de tecnologia, é o meu rádio de pilhas
que me acompanha ao longo de várias jornadas. Notícias nada animadoras dão a
senha que a economia do país não vai bem.
O
relógio avança, a luz do astro rei vence o breu da noite, na minha rua os
primeiros transeuntes dão o ar da graça zanzando para ali e para acolá. Agora
tomo coragem de traçar itinerários alheios pela urbe. Encontrar pessoas para
dialogar, discordar e contrapor pontos de vista. É bom que assim seja dentre da
civilidade de um diálogo respeitoso, porém conflituoso.
Volto
para casa onde todos agora estão apostos para mais um dia azafamado, logo logo
meu tugúrio estará ocupado apenas por mim e meus fantasmas. Neste intervalo
preciso encontrar animo e motivação para continuar a ler o livro deixado de
lado a três quartos de seu fim. Olho um pouco para trás e vi que tudo foi rápido
nessa manhã de sol e que começou com uma insônia. Preciso encontrar a senha que
resolva todos os meus problemas existenciais. Os fantasmas me perseguem outra
vez com suas vozes mudas de linguagem
não verbal, se comunicam só de modo unilateral. Minha mediunidade é nula ainda.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Carlos Drummond de Andrade - Tempo - 31 de Dezembro 2015
“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.
Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado.
A esperança renovada.
Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar.
Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!”
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Hoje é Natal - 24 de Dezembro 2015
Hoje é Natal, uma data que a muito tem seu personagem
principal, por razões meramente capitais,
como um mero coadjuvante de sua festa. Muita gente nesta data é extremamente
feliz, muitos trazem recordações boas, dos doces anos, dos verdes anos da vida.
Recordações extraordinárias e o nascimento de Jesus coincide com o melhor
momento da biografia de cada um, outros tem no dia de hoje o seu momento de tristeza,
os hospitais estão funcionando exatamente agora, como vão funcionar amanhã, em
pleno natal, muitos terminarão a vida exatamente nesta data, muitos serão
acidentados, os acontecimentos tristes e até torpes, assaltarão muitos lares exatamente no natal. E ficará sempre aquela amargura: quando
chegar o natal a pessoa vai se lembrar daquele dia triste que lamentavelmente coincidiu
com uma data, eleita pelos homens, para que Jesus nasça a cada ano em nossa consciência
e nossa sensibilidade. Todos nós temos muito que recordar sobre o Natal, nem
vou falar das minhas recordações, porque elas foram alegres , foram tristes,
comuns a cada biografia com suas nuance,
sua característica. O dia de hoje sempre será excepcional porque Jesus vai
nascer ( e está sempre nascendo a cada ano), de qualquer modo ele vai nascer.
Não importa se é um dia comercial, se o comercio aproveita para determinadas
promoções, para aumentar as vendas, para compensar dias ruins que aconteceram
por força da crise econômica, nem importa isso. O que importa é podermos
refletir, examinar, pesar, contar, rezar, rezar no dia de natal, é muito
importante refletir: Quem terá sido Jesus? Jesus erguendo Lázaro, erguendo aquela
criança que parecia dormir para sempre, e que despertou com uma fome forte, uma
necessidade imensa de se alimentar. Jesus fazendo o cego ver, mas o principal
de Jesus não é nenhum milagre específico, é o milagre de sempre conquistar a
coletividade das almas dos homens, conduzindo o ser humano para novos
horizontes, para outras perspectivas, redefinindo os sentimentos humanos, dando
uma nova dimensão ao amor. Eis que os poetas tentaram definir o amor. Camões
fez um soneto belíssimo sobre a chama
que arde inevitavelmente. Quantos falaram do amor antes dele e Depois dele! Mas o que se aprende de Jesus é
um amor mais amplo,é um amor por todos, é um amor coletivo, materno e paterno
ao mesmo tempo,é uma responsabilidade em sermos fraternos , a responsabilidade em
termos afinal de contas, uma condição espiritual enquanto somos humanos.
É assim Jesus, e
portanto que este natal renove todo seu mistério, que todos queiram desvendar
este mistério. Quem era mesmo o filho de Maria? Que história realmente ele
cumpria? Qual era o roteiro reservado por Deus a este homem? Como ele era? Que veio mesmo fazer?
Fez ou não fez?Até onde iria seu estado humano? Até onde o seu lado espiritual?
Natal é acima de tudo reflexão. Natal é
investigação. O momento em que nós
devemos ter profundidade para sabermos quem era Jesus. Ele está perdido dentro
da história e dentro do nosso íntimo, devemos encontrá-lo. Nós vamos encontrar Jesus,
nós vamos reconstituí-lo para que ele fale através de cada um de nós. Quem era
Jesus? Que Jesus era este? Que importa a
condição social que ele veio?! O que importa
que o natal seja uma data comercial? Não
existem datas comerciais em nossa alma, no nosso íntimo, na nossa fé, não há datas
comercias. Há datas especialíssimas, como é este Natal!!
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Crônica - Antes de P e B - 29 de Julho 2015
Crônica - Antes de P e B - 29 de Julho 2015
Costumeiramente
recebemos visitas nas manhãs de segunda a sábado ou de segunda a segunda , o
ponteiro do relógio marca dez horas
perfazendo no arco menor um ângulo de setenta e dois graus.Até o
momento, não recebemos nenhuma dessas previsíveis visitas. No vazio da sala
onde leio um livro de contos de um
escritor local, ponho a brochura de lado
momentaneamente para outros afazeres inúteis. Abro o “livro de notas” e vou
verificar meu correio eletrônico esperando alguma mensagem significativa. Em
meio a um sem número de mensagens insignificantes de correntes espirituais e
outras menos votadas, me deparo com uma no mínimo burlesca - Uma oferta, uma
pechincha, na linguagem do vendedor da mensagem, apartamentos novos que estão sendo construídos ( ou já
estão prontos, não lembro bem!) . No reclame, o vendilhão aponta um preço cujo
valor representa a soma de uma vida inteira de numerários do meu modesto sal,
ora, logo eu um simplório amanuense que não consegue nem quitar algumas letras
de baixo valor vencidas a tempos ! Brincadeira tem hora!
Eis que
chega o primeiro visitante ao receptivo tugúrio, trata-se de uma diarista que
mora do outro lado da urbe, chega com a tez tostada do tórrido sol do meio da
manhã, sem disfarces ela afirma ter vindo de um “centro espírita” que fica por
trás do mercado público. Ela troca vários diálogos ininteligíveis com a
empregada da casa vizinha que a essa hora aproveita os momentos de ócio da
faina do lar de nossa vizinha solteirona. Depois de uma hora após a primeira
visita, passaram um sem número de pessoas pousar a sombra do alpendre de nossa choupana. Um vendedor de vassouras
que gritava seu pregão a plenos pulmões, o vendedor de bilhetes de loterias, a
anã que mora no fim da rua deu o ar de sua graça por estas paragens com suas
estórias repetidas de sempre, ainda um gari gazeando a hora de trabalho dá os
bons dias aos que aqui estão. Dentre estes
personagens vários, aparece uma senhora que costumeiramente passava por
ali, já anda por seus setenta e poucos anos,
celibatária convicta, a
saudosista mulher contava causos do seu tempo de aluna interna no grupo escolar
de sua cidade, citava ela namoricos,
artes juvenis do seu tempo, e comparava com os da geração atual. Outra matrona,
pegando o gancho na prosa da outra, lembrava de situações cognitivas, falava
ela de regras ortográficas, lembrando ter aprendido que antes das letras pê e
bê se deve usar única e exclusivamente a letra ême.
As horas
correm, o sol está a pino, os ponteiros do relógio estão próximos de se juntarem
a formar a hora grande. Nesta rua
solitária só alguns redemoinhos de vento mudam a paisagem erma da rua de pedra
tosca. Volto ao livro que lia até bem pouco tempo e sou interrompido um
instante por minha mãe que convoca toda prole para o repasto sagrado do dia a dia. É hora do almoço.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Crônica - Uma Oferta Irrecusável - 23 de Julho 2015
Crônica - Uma Oferta Irrecusável - 23 de Julho 2015
Hoje é quarta-feira e eu lembro de um amigo antigo que dizia ser este o dia do equilíbrio, o dia que dividia a semana entre um fim de semana e outro. Estou a cumprir minha eterna sina de nada a fazer, um carapina do nada a fazer. A casa vazia, a solidão, o silêncio que só é quebrado de vez em quando pela valsa dos fantasmas escondidos nas sombras do meu tugúrio, essa valsa até não me assusta mais, só na minha longínqua infância quando eu não conhecia esse estilo musical dos que tentam se comunicar ininteligivelmente . Estou a conferir o correio eletrônico e logo sou surpreendido por uma mensagem anunciando uma oferta irrecusável! Numa propaganda bem apelativa o reclame oferece um apartamento cujo preço soma uma valor totalmente aquém de meus combalidos numerários de simples amanuense! A dinheirama equivalia um valor que representava a soma de vários soldos, sais de uma vida inteira.Um sem número de zeros.
O tempo passa, vou de música No “dial” do meu Marconi uma canção dançante do Morcheeba , uma banda que mistura soul, funk com elementos evoluídos da eletrônica musical.Enquanto a música toca vejo minha adega que mais se parece com altar de Baco, mas eu fui expulso de sua seita e não mais comungo com suas práticas, melhor assim , uma vez que meu combalido fígado não suportaria tanta devoção a Ele o deus Baco. Lá fora há um pregão de um mascate que vende várias bugigangas e objetos inservíveis, tudo a preços módicos, quase em seguida um bravateiro vendedor de bilhete de loterias grita a plenos pulmões a sorte dos desafortunados num discurso ilusório e apelativo. O estafeta de uma multinacional vem quase no encalço do bilheteiro, suando em bicas ensopa de suor a camiseta amarela e a calça azul celeste, e a tira colo, um calhamaço de papeis desnecessários, com a mão em pala tenta identificar o numeral da correspondência para que nada saia errado. Inquiro do núncio pela minha encomenda que eu espero a mais de trinta dias, prontamente o postilhão afirma que meu inventário não constava daquela chusmas de missivas e outros papeis.
Hoje é quarta-feira e eu lembro de um amigo antigo que dizia ser este o dia do equilíbrio, o dia que dividia a semana entre um fim de semana e outro. Estou a cumprir minha eterna sina de nada a fazer, um carapina do nada a fazer. A casa vazia, a solidão, o silêncio que só é quebrado de vez em quando pela valsa dos fantasmas escondidos nas sombras do meu tugúrio, essa valsa até não me assusta mais, só na minha longínqua infância quando eu não conhecia esse estilo musical dos que tentam se comunicar ininteligivelmente . Estou a conferir o correio eletrônico e logo sou surpreendido por uma mensagem anunciando uma oferta irrecusável! Numa propaganda bem apelativa o reclame oferece um apartamento cujo preço soma uma valor totalmente aquém de meus combalidos numerários de simples amanuense! A dinheirama equivalia um valor que representava a soma de vários soldos, sais de uma vida inteira.Um sem número de zeros.
O tempo passa, vou de música No “dial” do meu Marconi uma canção dançante do Morcheeba , uma banda que mistura soul, funk com elementos evoluídos da eletrônica musical.Enquanto a música toca vejo minha adega que mais se parece com altar de Baco, mas eu fui expulso de sua seita e não mais comungo com suas práticas, melhor assim , uma vez que meu combalido fígado não suportaria tanta devoção a Ele o deus Baco. Lá fora há um pregão de um mascate que vende várias bugigangas e objetos inservíveis, tudo a preços módicos, quase em seguida um bravateiro vendedor de bilhete de loterias grita a plenos pulmões a sorte dos desafortunados num discurso ilusório e apelativo. O estafeta de uma multinacional vem quase no encalço do bilheteiro, suando em bicas ensopa de suor a camiseta amarela e a calça azul celeste, e a tira colo, um calhamaço de papeis desnecessários, com a mão em pala tenta identificar o numeral da correspondência para que nada saia errado. Inquiro do núncio pela minha encomenda que eu espero a mais de trinta dias, prontamente o postilhão afirma que meu inventário não constava daquela chusmas de missivas e outros papeis.
Agora o sol vai a meio caminho em busca do ocidente, o tempo passa, as cenas citadinas passam na minha janela e continuo procurando sentido para o alcunhada dado ao meu colega para este dia da semana. Procuro um equilíbrio impossível na minha confusa cabeça suburbana.
domingo, 31 de maio de 2015
Crônica - Linha do Equador - 31 de Maio 2015
Como o calendário passa rápido! Olho para a folhinha que marca datas e vejo que já vamos bem longe neste ano. Cinco doze avos dele já se foram, ( embora esta fração de números primos entre si dêem uma vaga idéia de proporção percentual ) logo mais será meia noite e a folha vira. Incrível como ainda ontem sentia o cheiro de pólvora dos foguetes que estouravam pelas ruas anunciando mais um ano novo. Estou sempre em conflito com o tempo, sei que essa contenda será constante até eu ser pugilado definitivamente por ele.
Tarde. Sol à pino. Impossível ter ânimo para sair e encarar essa incidência mortal dos raios solares. Aqui bem próximo á linha do Equador é assim mesmo: das onze da manhã até as três da tarde fica difícil para expôs-se ao astro rei! Passam das quatro e meia agora, eis que agora me aventuro a perambular pelas ruas da urbe, tarde de ócio de um despotismo do nada a fazer! Caminho à esmo sem ter itinerário definido , meu percurso é planejado imediatamente a medida que meus passos evoluem. Nessa jornada, percebo o quanto nosso espaço urbano está modificado, percebo a diferença maior ainda naqueles onde a tempos não faço estada. Nossa cidade cada dia tem menos espaços livres, menos terrenos vazios. Não sou urbanista, mas compreendo que isso é mau. Onde estão nossos espaços de lazer? Onde estão os campos de terra do nosso país do futebol?– A cidade perde espaço livres e ganha prédios de mau gosto, cafonas, prédios de vários pisos. Ainda a pouco passei por uma alameda ladeada de altas construções de lado a lado. Quando passei por lá fiquei sufocado, o ar não circulava por ali. Avanço. Passo noutro logradouro onde um homem irresponsavelmente despeja litros e litros de água num jato na lavagem de seu semovente. Despudoradamente o homem comente este irresponsável ato.
A tarde está quase se despedindo, retorno as cercanias do centro da urbe, prontamente entro no tradicional “Ratisbona” , o café de minha predileção, como ainda é cedo o público presente ali é diminuto. Sento-me na tradicional mesa no lado leste do salão. Solicito ao garçom um licor de jenipapo e fico observando os tipos que campeiam o ambiente. Impressionante como todos estão com os rostos colados a um celular ou coisa do tipo. Esse moços não se dignam sequer a levantar a cabeça para a troca de um simples diálogo real . A situação piora quando o garçom que atende a minha mesa recebe em seu smartphone pousado em um dos bolsos de seu jaleco, um sinal sonoro tal qual um assobio que ato contínuo faz com o barmen retirar o celular e colar a vista detidamente na tela do celular, ele deixa escapar um sorriso no canto da boca. Essa foi à gota d’água para a minha despedida antecipada daquele local. Já chega! O turbilhão de fatos acontecidos neste fim de tarde foi o bastante para que eu retornasse a segura fortaleza que é minha casa, minha birosca de solidão, onde eu me compreendo tudo e convivo com os fantasmas que perambulam e compreendem minha fala subjetiva, minhas idei
sábado, 11 de abril de 2015
Reedição de uma crônica antiga - 11 Abr 2015
Verossimilhança, momento fatal -
Crônica - A Ermitoa - 17 de Setembro 2014
A Ermitoa
Morava sozinha, os parentes mais próximos já haviam todos cumprido a sina mais certa que é a morte. Essa mulher já com uma idade na qual ninguém sabia ao certo, nem mesmo ela, mais sabiam todos que ela era uma amanuense aposentada, fato que denunciava o avanço de sua idade. Mantinha uma amizade amistosamente distante com seus vizinhos e na sua casa quase nunca ou nunca mesmo recebia nenhum conviva. Os mais próximos, ou os menos distantes, sabiam que em seu lar, as principais companhias eram um sem número de gatos que vagabundeavam na pequena choupana. Dizem as más línguas que a quantidade de felinos diminuíra significativamente nos últimos anos, por pura falta de zelo de sua dona! Os anos de serviço na repartição pública não permitiu que ela construísse grande patrimônio, não fora a pequena casa herdada de seus pais, não teria outro bem semovente ou não. Sua rotina era extremamente simples, mais ainda para uma pessoa que morava só, tinha um fogão em casa mas não usava quase nunca, suas refeições eram feitas num pequeno restaurante suburbano que religiosamente era freqüentado por ela de domingo a domingo, chovesse ou fizesse sol. Os afazeres domésticos eram evitados por ela, realizando tarefas básicas como lavar as poucas roupas de seu enxoval uma vez por semana! Dormia poucas horas a noite,passava muitas horas da noite diante da televisão, complementava as necessidades do sono da noite, nas primeiras horas da tarde de todos os dias! Fazia parte de sua bestial rotina, as caminhadas aleatórias pelas principais ruas do bairro, caminhava descompromissadamente por muito tempo sem maiores preocupação com o tempo! Nesse itinerário quase não interagia com os transeuntes que cruzavam seu caminho, só acenava discretamente para aqueles que julgava mais próximos e confiáveis. De uns tempos para cá a solitária adquiriu o hábito de fazer uso do álcool para preencher as horas do vazio no que fazer! Cumpria suas obrigações etílicas discretamente na solidão do lar, não queria que seus vizinhos dessem alguma notícia desse seu condenável ato. Nos finais de semana era um “rato de sacristia” não perdendo um evento sequer de sua Igreja Católica quase vizinha a sua residência. Nesses dias de cerimônias religiosa, mantinha uma certa cautela nas ações etílicas, precavida de dá bandeira diante os fiéis que a tinha na conta dos mais respeitáveis crentes.
E assim se fazia a rotina da solitária mulher, sem parentes ou aderentes, sem muitos afazeres domésticos e tendo como companhia uns gatos rabugentos, o álcool e a fé. Sem exteriorizar suas angústias existenciais de uma vida extremamente solitária e sem maiores ambições!
domingo, 5 de abril de 2015
Conto - Literatura Cearense - Milton Dias - Madrugada I
Homenagem a Literatura Cearense- Um conto do excelente literato Milton Dias - - Extaído do livro ENTRE A BOCA DA NOITE E A MADRUGADA
Madrugada I
É madrugada, a última deste mês de setembro, e eu mergulho nela sozinho, numa sala pequena, dentro do silêncio grande, que o apito dum guarda desrespeita de vez em quando – e cumpro cautelosamente mais uma insônia, entre lembranças velhas e novas. Uma dessas, a mais antiga, vem dos longes da infância, ainda ao tempo das trevas que a luz elétrica só dissipou muito depois, em Santana do Acaraú: um carro atravessa lentamente a praça enorme da igreja velha, com os faróis queimando a noite jovem – e, de dentro dele, uma bonita voz de homem, voz anônima, forte, lírica, perdida, solta, derrama uma despedida dramática certamente dirigida à bem-amada que o devia escutar soluçando de alguma janela: “Eu vou pra bem longe de ti saudosamente / Adeus minha querida / Querida Guiomar / Adeus, eu vou partir, vou pelo mar.”
Quem seria aquela mulher (seria uma mulher ou apenas uma rima?). De quem seria aquela voz que só ouvi uma vez e me transmitiu uma imensa vontade do mar, meu desconhecido, uma grande nostalgia das distâncias, dos mistérios do mundo, deixou-me a imaginação indócil, enquanto o carro, levantando poeira, desaparecia na rodagem, exatamente ali onde um pé de resedá marcava a curva do caminho? Onde andará aquele cantor? Aquela moça onde andará? Será que se uniram?
Acabo de ler um trecho de diário alheio e fico pensando que a leitura dos diários me comove mais do que as autobiografias ou as biografias, me parece mais verdadeiro este registro cotidiano dos acontecimentos, dos pensamentos, dos sentimentos – as penas e alegrias, as depressões, as angústias, as vitórias, os fracassos, os amores – tudo posto ali com uma coragem impressionante, os momentos mais íntimos, as horas difíceis, os pequenos dramas, as covardias, os heroísmos, as emoções de cada dia, os medos, os ódios, os ressentimentos, tudo confiado ao papel. E chegada a página final, a pergunta amarga, inevitável – será que valeu a pena registrar assim, minuciosamente, conscientemente, uma vida toda, para depois entregar tudo ao respeitável público (nem sempre respeitador), como quem se desnuda no palco?
E vem outra reflexão tácita – a de que aquele que escreveu o Diário, que também teve fome e sede, que conheceu glória e humilhação, que sofreu ambições e se frustrou em muitas delas, e se realizou em algumas, aquela vida que está em minha mão, escrita no papel frio, repousa agora debaixo do chão, já resolveu todos os seus problemas e conflitos terrenos, dorme em paz com Deus. Abro por acaso uma das páginas, vejo uma preocupação momentânea que o martirizou tanto e que agora parece tão mínima!
Penso que daqui a pouco será outubro e fico triste. Outubro não me agrada, nem é começo, nem meio, nem fim de ano, o mais antipático de todos, poeirento, calorento. Nele perdi meu pai, nele perdi um amigo – é certamente o que mais me tem cobrado apreensões e sofrências.
As paredes desta sala onde me encontro foram testemunhas de outras insônias e as mãos dos que as fizeram levantar já estão vazias definitivamente. Esta mesma pequena sala que agora abriga um homem insone já recebeu noivos para as comemorações e cumprimentos, já acomodou o corpo morto do seu dono, esta sala ouviu conversas e queixas, discussões, esperanças e prantos. A casa toda, em que estou absolutamente só dentro da madrugada, já foi povoada de muitas vozes e de muitos passos de jovens e velhos que desapareceram carregados pela morte ou levados pela vida.
Há um silêncio respeitoso e tranqüilizante envolvendo, purificando o mundo, velando, protegendo o sossego e o sono, um silêncio discreto que esconde o que agora ocorre nas sombras protetoras. Quem sabe, alguém está se matando neste momento, alguém deve estar amando neste minuto. Tem gente chegando, tem gente partindo, a esta hora a população está crescendo. Ou está diminuindo?
Abro um instante a janela, consulto o céu: não há uma estrela, fugiram todas, me deixaram no mais completo abandono. Nem posso imitar o poeta que conversou com elas toda a noite, tresloucado amigo.
Agora um galo solitário solta um grito precursor, distante – será mesmo hora de cantar anunciando a aurora, ou será um galo tresmalhado, desinsofrido? Olho o relógio, são duas horas da manhã, concluo rápido: aquele também está sem sono – e canta.
Um latido inesperado de cachorro se levanta aqui na Praça da Escola Normal. Será um protesto ou um apelo, uma queixa ou uma denúncia, um lamento, um convite ou apenas a voz dum cão que não dorme?
Escuto religiosamente os silêncios e as vozes da madrugada – enquanto a minha rua dorme, eu guardo, sozinho, de olhos acesos, a insônia fecunda.
Entre a boca da noite e a madruga – 1971
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Conjunção Feliz - David Duarte
Conjunção Feliz - Canção de David Duarte
Eu e Vc num balão
Sumindo, de tanto voar
Levando a nossa paixão
Seguindo pra qualquer lugar
Fantasia, na magia
O balão de papel já se perdeu
Que alegria, um pontinho
Brilhando no breu...
Olha que conjunção
Mais linda meu amor
Dentro do meu coração
A lua veio se por
Nosso sonho do tamanho
Do céu infinito
Nosso lugar mais bonito
Das estrelas que querem
Brilhar só pra nós dois
Nosso balão vai subindo, singrando
Levando esse amor do outro mundo
Cruzando o céu do país
Nosso balão colorido vai iluminando
Este escurando profundo, perdido
Voando ao léu, tão feliz.
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