Escrevo pouco, crio menos ainda, copio bastante e as vezes construo períodos em língua de Camões sem muita lógica e para satisfazer meus prazeres bestiais e ocultos
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Conjunção Feliz - David Duarte
Conjunção Feliz - Canção de David Duarte
Eu e Vc num balão
Sumindo, de tanto voar
Levando a nossa paixão
Seguindo pra qualquer lugar
Fantasia, na magia
O balão de papel já se perdeu
Que alegria, um pontinho
Brilhando no breu...
Olha que conjunção
Mais linda meu amor
Dentro do meu coração
A lua veio se por
Nosso sonho do tamanho
Do céu infinito
Nosso lugar mais bonito
Das estrelas que querem
Brilhar só pra nós dois
Nosso balão vai subindo, singrando
Levando esse amor do outro mundo
Cruzando o céu do país
Nosso balão colorido vai iluminando
Este escurando profundo, perdido
Voando ao léu, tão feliz.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Crônica: Os Mapas da abstração - 30 de Janeiro 2014
Como são mágicos os mapas! Como é importante essa ferramenta de orientação e localização. Tão importante para que se chegue ao destino mesmo sem nunca ter ido a ele! Não precisa nem ser um esperto em Geografia, cartografia ou Matemática para poder se situar sob orientação de um mapa. Ah como o estudo sobre a localização na terra foi importante para os colonizadores! Como seria possível aos ibéricos terem chegado por essas terras não fosse o estudo cartográfico do planeta terra?
A posição de um astro no firmamento serve de referencial para o posicionamento. Qual será o asteróide que me guia? Desde quando ele me acompanha? Por que eu não percebi sua presença nas cercanias de minha visão periférica? Bobagem fazer todos esses questionamentos, ficar impressionado com tais fatos, uma vez que a cada dia que passa me torno mais solitário, um ermitão. Para que vou me impressionar com artefatos de atlas, se ultimamente quase não saio mais nem de minha casa?! Daqui a pouco me tornarei um imóvel , um imóvel qualquer da casa , tal qual uma geladeira, estou tão frio por dentro e por fora do que uma geladeira estática num canto da cozinha da casa. Para quê mapa se não há necessidade de seu uso nesse meu pequeno tugúrio? Impossível me perder entre estas quatro paredes encardidas pela ação do tempo! Na verdade me perco dentro de mim mesmo, procuro encontrar poemas que eu compus há tempos atrás e não tomei nota, nem recordo como era sua estrutura! Esses se perderam pelo universo gigantesco de minhas divagações abstratas diárias. Perdeu-se ainda em meu cérebro, o acorde de uma canção antiga que eu gostava de ouvir nas horas de ócio. Fugiu também de minha mente a imagem daquela antiga paixão juvenil, não consigo restituir as peças que formavam o rosto daquela jovem, era bela sua feição, isso eu lembro bem, mas mesmo assim não consigo montar sua fotografia, só uma quase caricatura espessa.
Preciso de um mapa, mas não de um mapa tradicional e metódico. Um mapa em que eu encontre as conexões psíquicas desfeitas, uma solução para os embates ao longo da vida. Um mapa que refaça afetos, que forneça coordenadas para outras paragens sossegadas dentro de mim mesmo. Um lugar oculto e plácido dentro do meu eu e da noite. Um GPS que encontre o Eldorado íntimo e objetivo onde emana prosperidade e paz. Talvez o homem ainda não tenha encontrado encontrou a solução para isso, mas a longo prazo, quem sabe, seja possível se construir a cartografia psicológica humana e assim usarei de verdade um mapa.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Crônica : Solidão de uma Manhã Qualquer - 23 de Janeiro 2015
Calmo, silente no meu lugar, estou solitário em casa
refletindo a respeito da vida. Compartilho, automaticamente, esse pequeno lugar
tão meu e tão solitário com meus anjos e demônios do dia-a-dia. Começo a fazer questionamentos
vários. Algumas inquirições a mim mesmo. Seria possível colher num mesmo local,
todas as cenas que ocorrem mundo afora nesse momento? Teria sentido ver todas
as cena s e atos de todos tantos lugares dessa bolota chamada Terra? Como em um filme cujas cenas exporiam todos os fatos acontecidos no entorno desta
esfera habitável por nós e por outros . Há
uma lauta variedade de fusos horários, locais, paisagens, lugares. Tudo
diferente, assim como culturas, fatos e ações, pessoas várias. Provavelmente em
algum lugar do mundo, a essa hora, alguém dorme um sono profundo, um sono bom e
tranqüilo. Enquanto em outro lugar, uma alma insone tenta conciliar o sono numa
tarefa hercúlea da madrugada alta. No lar de algum país desse vasto mundo ocorre um farto banquete, mas em outro lugar qualquer desse mesmo país, um sem número de famélicos esperam as sobras
de um restaurante suburbano, às três da tarde. Enquanto um atleta percorre uma
ultra maratona esbanjando saúde, em algum leito de hospital uma jovem agoniza esperando
a hora fatal com o corpo carcomido por muitas mazelas. Há ainda a essa exata
hora um funcionário bastante atarefado trancado numa sala burocrática em meio a
arquivos, papeis e carimbos, enquanto que no mesmo instante, não muito distante daí, um homem simples realiza
a prazerosa tarefa de pescar num lago de águas tranquilas e serenas,
completamente desprendido de preocupações maiores. Também a essa hora, numa estação
de pesquisa científica na Patagônia, alguém trabalha bastante agasalhado para
enfrentar a baixíssima temperatura. Contraditoriamente, em outro lugar,
trabalhadores da construção civil buscam um filete de sombra para se protegerem
do intenso calor emanado dos raios solares. Ainda a essa hora um bebê nasce em
uma maternidade qualquer da Nigéria, enquanto na Suécia , uma esquife cruza os
portões de um cemitério suburbano no ato
final de um sepultamento. No momento igual, há um conflito armado no Camboja,
enquanto ocorre um casamento coletivo no Canadá. No mesmo instante, empresas
decretam bancarrota enquanto simultaneamente
uma mulher confere um bilhete de loteria
premiado com uma grande monta. .
Tudo ocorre ao mesmo tempo, fenômenos sociais opostos ocorrem em várias partes do mundo. Simultaneamente
a essa hora há dores e prazeres, lágrimas e sorrisos, ódio e amor, altruísmo e egoísmo
. Fadiga e ócio, lassidão e disposição corporal. Onipresença, queria ter essa
capacidade, talvez até tivesse mais inspiração para terminar um livro que venho trabalhando a anos!
Enquanto penso nesses fatos, me vejo
preso solitariamente ao vazio do meu
tugúrio numa manhã qualquer da semana, o relógio marca dez horas. Há
livros na minha estante, não li nem a metade
deles. Em cada cômodo da casa solitária há um cinzeiro cheio de guimbas
fétidas, há uma angústia poética em cada cinzeiro. Há em mim uma vontade da
onipresença, o desejo de um poder fantástico e absurdo do ponto de vista científico.
Na realidade, existe esse desejo em mim, porém o ócio me limita até minha ida a esquina numa
busca desnecessária de cigarros. É muito despautério de minha parte ter tal
pretensão.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Crônica: Epitáfio e Pecúlio - 15 de Janeiro 2015
A morte quase
sempre nos pega sem esperar e eis que de repente chega a notícia de falecimento
de um ou outro conhecido, amigo, parente ou vizinho. Ontem eu fui acompanhar um
funeral de um morador cujo tugúrio se avizinha ao meu, senti-me na obrigação de cumprir esse ato de piedade cristã, inevitável
não acompanhar o cortejo fúnebre até o campo santo.Tudo é estranho nessa nossa
vida, pois até ontem o defunto ( que a essa hora ainda não era um) fazia planos
e mais planos para o futuro. Falava em projeções, projetava empreendimentos, viagens,
outros planos a longo prazo.
Eis que o
cortejo segue, o sepultamento foi no
meio da tarde, tarde de sol dentre tantas tardes de sol ocorridas na existência
daquele homem agora morto.A procissão dos que acompanhavam o caminho do cemitério, era feita em meio a ladainhas e jaculatórias. No cortejo quase todas as
pessoas trajavam roupas pretas, apesar do calor daquela hora da tarde, homens
sisudos e mulheres lacrimosas. O conglomerado caminhava unido, em cada
pensamento dos ali presentes, pairavam dúvidas e incertezas quanto a
instituição da morte. Todos ali, por um momento, pensavam em suas mortes. A
marcha continua, o ataúde vai a frente liderando os passos de todos rumo ao campo santo.
Finda a
cerimônia resolvi percorrer as ruas do cemitério em busca de túmulos de
parentes e ou amigos. A ausência prolongada de minhas estadas por esse ambiente
fez com que aumentasse a dificuldade em encontrar tais catacumbas, nessa busca
encontrei vários túmulos, dos mais variados tipos, uns mais bem erigidos
arquitetonicamente, outros modestos, quase sem identificação de nome ou fé,
somente as inicias de cada nome e uma modesta cruz, me detive entre tantos
eles, fiz orações em outros, desconhecidos ou nem tanto, colhi epitáfios, fiz
reflexões sobre tais frases e lembrei que eu ainda não tinha nenhum epitáfio
para por sobre minha laje. Divaguei sobre tal fato e estranhei por ser este meu único bem a ser deixado em testamento ,
um epitáfio, este será meu único pecúlio deixado em testamento cartorial!
Ilusão minha. Seria mesmo necessária uma
frase de efeito para por sobre minha lápide? A quem poderia interessar? Nem
mesmo um visitante desavisado ao cemitério se interessaria por isso. Ora, se ninguém nunca se interessou nem pelos
meus quatro sonetos alexandrinos que sempre divulguei na mesas de bares que perambulei, por que iam se interessar por uma frase escrita sobre um lápide de
cemitério? É muita inocência crer em tais circunstâncias.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Espírito de Natal - 24 de Dezembro 2014
Logo mais irá nascer Jesus, e a lembrança de seu nascimento
em cada ano é uma forma de reforçar nossa esperança na crença de sua mensagem
transcendente.O Jesus que será traído por uma pessoa de usa confiança. Jesus
era um líder cercado de seguidores á época era difícil achá-lo já naquele tempo, só o beijo o denunciaria, só o beijo. Judas
se dispôs a isso. Coitado de Judas! Nem
ele, talvez se compreendesse! O que ele
achava, dizem os historiadores, e que
Judas não tinha importância, Judas não
acreditava que Jesus pudesse ser preso, que Jesus não reagisse, que aquele homem capaz de milagres, de repor a orelha do soldado depois de
decepada , Judas acreditava que aquele Jesus era inatingível, e fez aquilo,
dizem os diagnósticos e prognósticos dos antigos , da certeza de que aquela que
dele se aproximasse , seria fulminada pelas forças dignas, mas Judas estava
errado! O que Jesus era mesmo, era um missionário, e para a humanidade ele vai
nascer nas próximas horas e vai ter um destino a seguir: de muito sangue, de
muita dor, de muitas lágrimas, passará por tudo, irá a cruz, dirá frases lapidares e terminais,
porque a humanidade disso estava precisando. É o verdadeiro filho de Deus, o
que vai nascer, nascerá o filho de Deus,
Nos incrédulos, naquelas pessoas que acham que a incredulidade é a
ciência, para os incrédulos, não! Não é possível consertar a orelha de soldado
algum! Ninguém jamais caminhará sobre as águas, Jesus parar uma tempestade, mas
para os falsos e cientistas inadequados, ninguém a força da natureza nem a
domina, ninguém poderá dizer jamais : Parai ventos e tempestades! Não, ninguém
poderá dizer isso, isso é contra a ciência! Ninguém vai acreditar que seja
possível despertar o leproso já apodrecendo. Ó Lázaro, leva-te e anda! Lázaro levantou, andou, viveu e
terminou tragicamente em algum lugar do mundo de então. Não, na cabeça dos que
dizem assim: Eu fico com a ciência, isso não cabe! Mas para as pessoas que
encontraram a partícula de Deus, para os cientistas, notadamente os
físicos, que identificam Deus na própria
energia do mundo e na própria criatura humana todos nós temos a partícula de Deus.
E Jesus era essa partícula. Para estes existe uma mecânica celeste, nenhum
historiador poderá saber que mecânica celeste é esta. Só na alta ciência que
ainda virá, mas que já está chegando, é que se vai entender que mecânica é
esta. Como é que Jesus se locomovia de
maneira tão rápida? Que voz tinha que podia de um alto de uma montanha , falar
para os circunstantes que se amontoavam nas vizinhanças? Que voz
era esta? Sem microfone, sem caixa de som, sem amplificadores? Que voz era esta
no sermão da montanha ? E aquela história da transfiguração? O que vai nascer
nas próximas horas vai se transfigurar! Que vai ter encontros com espíritos
antigos! Que são importantes e sempre serão importantes para a humanidade. Que coisa é a mecânica celeste! Essa mecânica celeste existe como um ponto
perdido no além! Muito além da
inteligência humana! Não na região onde a alma humana se funda, em qeu o espírito cresce e prevalece, no
horizonte que cada vez mais se aproxima, existe o segredo desse que vai nascer
nas próximas horas. Por enquanto é preciso guardar o que esse menino vai dizer
logo que começar a ter condições de homem. Esse menino, danado menino, incrível
menino, vai ensinar coisas como a fraternidade. Ele ensinará a caridade, ele
vai mostrar ao homem como é possível ter
solidariedade , e mais ainda, vai mostrar uma maior por todos, como um valor
químico para a humanidade. Vai ensinar o amor por todos, e vai mostrar que os
sentimentos humanos é que são a nossa bússola, o nosso Norte. Quando o homem
não tem sentimentos, tem que cumprir estada em consultórios psiquiátricos.
Quando não se sente saudade, quando não sente amor, quando você não tem vontade
de reagir para defender o amigo humilhado, quando isso não é possível, você
está doente! E Jesus veio para ensinar a própria sabedoria que é a Filosofia prática
do mundo, a Filosofia do dia a dia. Esse menino será traído, vai se fundar uma
igreja e muitas igrejas serão fundadas sobre os braços de sua cruz de sacrifício.
Em nome deste que morrerá na cruz, nós teremos tribunais de exceção, tribunal
do Santo Ofício, nós iremos presenciar guerras,
matanças, em nome dele, em contraponto de sua Filosofia! Em nome dele haverá a
Santa Inquisição. Tudo haverá de distorção contar essa criança traída, este
home traído, esse adolescente desconhecido. Quem teria sido Jesus por todos
anos? Sem ninguém falar nele! Ainda hoje não se sabe! Mesmo assim haverá um
novo século, o século XiX, e no cenário deste século, depois da
Revolução Francesa, irão se projetar
pessoa extraordinárias: Balzac, Voltaire, Robespierre, Napoleão; quanta gente vai surgir, grandes poetas, grandes filósofos,
Augusto Conte, existirá nesse século XIX. Mais vai se estudar em matéria de
filosofia tudo, exatamente nesse século XIX, Mas sairá de uma sala de aula um
professor de nome Rivail, e este professor, um homem igual a todos, com família, com mulher, com amigos,
circunstantes , este homem mudará de nome, será chamado de Alan Kardec e
produzirá uma obra revolucionária, tão revolucionária será esta obra que vai
reconstituir a palavra de Cristo, vai reinterpretar o novo testamento! Vai
recriar as principais lições, restaurará a ética do menino que vai nascer
amanhã, esse Alan Kardec vai recuperar a
mensagem de Cristo para que ela possa chegar ao século XX , ao século Xxi e aos
tempos do futuro para que Jesus ressurja
intacto, livre das injustiças, livre das más interpretações, das péssimas
setas, de odiosas religiões, e apartir daí não haverá mais inquisição nenhuma ,
não haverá mais tribunal de Santo Ofício, e se alguém quiser ser papa, vai ser o Papa Francisco, que é
humilde, que é bom, que é justo e que é próximo de Jesus. Talvez seja
assassinado um dia por causa disso!
sábado, 13 de dezembro de 2014
Conto - A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski -
Uma homenagem a dos meus escritores preferidos Charles Bukowski, talvez o mais "maldito" e o mais incompreendido dos escritores da Literatura Universal. Seus personagens são todos alter-egos dele mesmo e que assemelham muito comigo também, daí eu gostar tanto de seus escritos!! Vale a pena a leitura desse conto!!
A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski -
Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.
Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.
— Quer um drinque? — perguntei.
— Claro, por que não?
Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
— Me acha bonita? — perguntou.
— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…
— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
Ela me olhou e riu.
— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:
— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
— Ah, vai te foder, cara!
— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.
— Não tem perigo — prometi.
— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.
— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.
— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
— Sinto, sim. Palavra.
— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.
Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:
— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?
— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.
No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.
Deu uma risada.
— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.
— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.
— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.
Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.
— Vem de uma vez, gostosão.
Deitei na cama.
Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.
— Qual é o teu nome? — perguntei.
— Porra, que diferença faz? — replicou.
Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.
— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.
E atirou a folha de inhame dentro da banheira.
— Como adivinhou que eu estava aqui?
— Adivinhando, ora.
Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.
Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.
— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.
— Quem topa o convite já está comprando barulho.
— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.
— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.
Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.
— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.
Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.
— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?
— Que nada, seu bobo, agora é moda.
— Pirou de vez.
— Sabe que sinto saudade — comentou.
— Não tem mais ninguém no pedaço?
— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.
— Tira esses grampos daí.
— Negativo. É moda.
— Estão me deixando chateado.
— Tem certeza?
— Claro que tenho, pô.
Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.
— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?
— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.
— Então tá. Sorte minha, né?
— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.
— Muito obrigado.
Tomamos outro drinque.
— O que anda fazendo? — perguntou.
— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.
— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.
— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.
— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.
Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.
Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.
— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?
— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?
Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.
— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.
— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.
Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.
Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.
— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!
Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:
— Não.
Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:
— Uma pena o que houve com sua amiga.
— Pena por quê? — estranhei.
— Desculpe. Pensei que soubesse.
— Não.
— Se suicidou. Foi enterrada ontem.
— Enterrada? — repeti.
Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?
— Sim, pelas irmãs.
— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?
— Cortou a garganta.
— Ah. Me dá outra dose.
Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.
Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:
— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!
A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.
(do livro “Crônica de um Amor Louco”;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson)
A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski -
Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.
Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.
— Quer um drinque? — perguntei.
— Claro, por que não?
Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
— Me acha bonita? — perguntou.
— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…
— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
Ela me olhou e riu.
— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:
— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
— Ah, vai te foder, cara!
— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.
— Não tem perigo — prometi.
— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.
— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.
— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
— Sinto, sim. Palavra.
— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.
Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:
— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?
— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.
No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.
Deu uma risada.
— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.
— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.
— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.
Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.
— Vem de uma vez, gostosão.
Deitei na cama.
Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.
— Qual é o teu nome? — perguntei.
— Porra, que diferença faz? — replicou.
Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.
— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.
E atirou a folha de inhame dentro da banheira.
— Como adivinhou que eu estava aqui?
— Adivinhando, ora.
Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.
Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.
— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.
— Quem topa o convite já está comprando barulho.
— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.
— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.
Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.
— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.
Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.
— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?
— Que nada, seu bobo, agora é moda.
— Pirou de vez.
— Sabe que sinto saudade — comentou.
— Não tem mais ninguém no pedaço?
— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.
— Tira esses grampos daí.
— Negativo. É moda.
— Estão me deixando chateado.
— Tem certeza?
— Claro que tenho, pô.
Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.
— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?
— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.
— Então tá. Sorte minha, né?
— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.
— Muito obrigado.
Tomamos outro drinque.
— O que anda fazendo? — perguntou.
— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.
— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.
— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.
— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.
Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.
Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.
— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?
— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?
Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.
— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.
— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.
Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.
Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.
— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!
Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:
— Não.
Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:
— Uma pena o que houve com sua amiga.
— Pena por quê? — estranhei.
— Desculpe. Pensei que soubesse.
— Não.
— Se suicidou. Foi enterrada ontem.
— Enterrada? — repeti.
Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?
— Sim, pelas irmãs.
— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?
— Cortou a garganta.
— Ah. Me dá outra dose.
Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.
Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:
— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!
A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.
(do livro “Crônica de um Amor Louco”;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson)
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Crônica - Circunferência ou Círculo? - 27 de Novembro 2014
Circunferência
ou Círculo?
Tempo, sempre estou escravizado
por ele! Uma grande contagem de várias medidas, diversas deles. Queria ser um
índio, onde o tempo se resume ao dia e a noite. A luz e a escuridão!
quarta-feira a tarde! Eis-me aqui na solidão de minha oca ( bem queria eu que
fosse uma oca!) a casa está vazia ( todos estão em suas lides produtivas a essa
hora!) estou mais vazio que meu tugúrio. Jaz sobre minha cabeceira um sem
número de livros inúteis, folheio alguns, busco figuras significativas em
outros, um livro acerca de espiritismo e mística. Canso co a leitura e tomo
resolução de sair de casa, perambular por aí, a esmo, percorrer itinerários
aleatórios. Para onde ir a essa hora da
tarde, numa cidade pequena com poucas opções de estada? Paro a sombra de uma árvore irresoluto da
minha próxima paragem, abro a carteira, conto os níqueis , com um grande
esforço cognitivo, realizo somas básicas e chego a conclusão que meus
numerários são suficientes para uma estada momentânea num dos poucos cafés que
circundam a praça central da cidade. O local escolhido é o café Lápis-Lazúli ,
um misto de café, bar e botica. O comércio não é os dos mais votados da cidade,
mas fica num posição bastante favorável, do lado da sombra da tarde (muito
embora a essa hora o sol já esteja a meio caminho do ocidente!), ele fica na
rota de muitas jovens moças, moças fabris que a uma hora dessas estão de
retorno de suas fainas diárias. As passantes que constituem a leva de proletárias e
constituída de mulheres feiíssimas, ou
três apenas, pagam a pena com algo de beleza física. O lápis- Lazúli fica em frente a loja de
secos e molhados, talvez o maior comércio atacadista do subúrbio local! Lá
neste comércio, trabalha aquela moça de minhas ilusões e paixões juvenis. É uma
jovem de pouca beleza mas de um charme encantador, sedutor. Iludo-me na crença
de conseguir meu intento juvenil-pueril, mesmo sabendo que a dama é casada
desde a muito tempo. Faz tempo que não a vejo, bem podia eu inventar alguma
aquisição na loja de secos e molhados em que ela trabalha só pra ter o prazer
de vê-la e deseja-la. Deseja-la somente. Após algum tempo de resistência tomo a
iniciativa de ir até lá naquela loja, uma passada por lá não me custará nada, a
não ser que eu exteriorize meus sentimentos mais escondidos por aquela
moça A jovem permanece lá, no mesmo
local de sempre, indiferente a qualquer coisa, indiferente a qualquer flerte.
Na observação à moça, percebo que a
mesma está sem seu principal acessório de identificação conjugal! No dedo
anular da mão esquerda a vacância da circunferência Himenêutica . ( Seria circunferência
ou círculo? não sei bem!) um sinal de esperança para mim ? A
possibilidade de uma concretização de um desejo juvenil? Inquiro tais
bestialidades, conjecturo outras, enquanto isso, a oca da loja de secos e
molhados executa seu trabalho preenchendo o livro contábil com cifras e
linguagem técnica contábil. Por que não fiquei no Café Lápis – Lazúli? Não
fosse minha vinda para cá não teria ficado na dúvida, dúvida quanto a questões
afetivas da moça da loja, dúvidas quanto a diferença entre circunferência e
círculo! Dúvidas angustiosas e melancólicas. Ilusões pueris, conceitos
geométricos formais e abstratos. O Amos absurdo de uma circunferência ou
círculo simbólicos.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Crônica: Quadrantes - 21 de Novembro 2014
Crônica: Quadrantes
Quadrantes
Eis que chega
a sexta-feira, as sombras do ocaso me convidam para perambular pelos
bares da cidade. Logo eu que passei a
semana no ócio, na difícil missão de carpina do nada a fazer desde
segunda-feira, aliás , desde sempre. As luzes da cidade me convidam para
perambular no itinerário dos vários bares da urbe, cumprirei minha missão de
fiel etílico! Permissões maiores ou limitações não me intimidam nesse momento!
Vagabundeio pelo perímetro urbano até onde meus músculos fragilizados de perna
e braço me permitem. Subo rua , desço alameda, e invariavelmente estaciono num
dos meus favoritos lugares: o Ratisbona, um tradicional bar que é misto de café
e bar. A essa hora as mesas do Ratisbona pululam de personalidades de vários
tipos, proletários e burgueses se
misturam entra a clientela heterogênea do local de Baco! Onde estaria a essa
hora a moça da loja de secos e molhados? Bem provável na companhia de seu
cônjuge no tradicional lar suburbano! Um vozerio confuso enche a pequena sala
do pequeno bar, as horas avançam, o álcool começam a embotar os cérebros dos
locatórios momentâneas das mesas do Ratisbona, enquanto eu ocupo um modesto
lugar solitário numa quina do prédio, mesa solitária de muita divagação e
solidão! Nesse rodízio de ocupantes dos lugares, eis que surge a moça da loja
de secos e molhados, ladeada pelo seu consorte, um homem espadaúdo e igualmente
feio! Questiono tal fato e me irrito entre minhas divagações solitárias!! As horas avançam, os transeuntes do local
diminuem, as horas avançam, a lucidez vai indo embora, a embriaguez toma corpo
do meu corpo e de minha mente.
Agora estou
em casa, na solidão da alta noite, na falta de lucidez da minha insônia, do
cérebro embotado de álcool e ilusões. A solidão da casa, só espíritos medrosos
circundam meu modesto tugúrio! Onde estaria a uma hora dessas a moça da loja de
secos e molhados? Estaria no seu culto a Dionísio com seu consorte? Não sei,
melhor não pensar nesse fato! Angústia, solidão, nenhuma alma encarnada para
conversar , nenhuma alma viva para exteriorizar minhas angustias, nem mesmo um discípulo
para debatermos sobre a importância dos quadrantes e sua simetria. A insônia me acompanhará até
quando? Onde está meu sono? Onde estará a moça da loja de secos e molhados
nesse quadrante ilógico?
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Crônica- Duas Horas da Tarde no Brasil - 23 de Outubro 2014
Duas Horas da Tarde no Brasil
No calor de uma tarde qualquer de Setembro, quando o sol cumpre
seu itinerário no horizonte escampo de nuvens, sigo meu caminho em direção a
minha faina diária. Ao longo das ruas inóspitas, de quase nenhum transeunte
atrevido a expôs a sua pele ao sol em
brasas. A essa hora, não fora a obrigação do trabalho, dificilmente eu me
arriscaria sob os rios solares de uma região equatorial onde a incidência do
calor do sol é mais intensa. Desvio meu itinerário em direção a casa de minha
Matrona, pois é sabido por mim que a essa hora o bule do café já está no fogo naquele tugúrio
suburbano. A minha matrona nem oferece o arábica, vem com uma chávena fumegante,
uma dose cavalar desse líquido precioso. Entre uma solvida e outra no café,
recebo conselhos prudentemente maternos, escuto o discorrer de sua oratória materna,
estou monossilábico agora, quase silente, a receber palavras carinhosas e censuras.
Após essa breve pausa, retomo minha trajetória natural de ainda a pouco, só que
agora cada vez mais procurando os filetes de sombra tão escassos a essa hora.
Nesse caminho cruzo aquele pequeno comércio que se encontra com suas portas
cerradas, pois nenhum desavisado cliente está disposto a comprar qualquer coisa
dispensável ou não, nessa inútil tarde de calor. Mais a frente, minha retinas
são maltratas pela claridade intensa do reflexo da luz solar no muro branco do
cemitério, a claridade do muro do campo santo faz meus olhos se contraírem para
diminuir o excesso de luz na retina,
mais a frente um burro cansado pasta os poucos cabelos de mato seco que
insistem em brotar naquele chão seco. Sigo a rota, mais adiante passo em frente
e passo por uma casa de um solitário homem, o cenário é o seguinte: ele cochila
à sombra de uma frondosa Mungubeira no pátio da casa, enquanto ali no interior
da residência um aparelho de televisão transmite um noticiário com cenas de tragédias
urbanas, mesmo assim o solitário homem dorme o sono dos justos.
Seguindo a légua tirana das cenas urbanas, atravesso o largo
da Matriz, onde um retardatário fiel faz o sinal da cruz quando se encontra
defronte a porta principal da sinagoga. Seu sinal é feito de modo apressado e
mecânico. Do outro lado da praça, um sem número de proletário de uma fábrica de
tecelagem, estão reunidos após uma pausa imprevista de seus afazeres, interrupção do fornecimento de eletricidade
impossibilitou o prosseguimento do funcionamento das máquinas.
Duas horas da tarde no Brasil, a hora exata em que eu entro em
ação. Nesse exato momento os portões da fábrica em que eu trabalho traga uma
grande quantidade de trabalhadores que em grosso número palram quase ao mesmo
tempo tornando o local uma verdadeira Babel onde ninguém se entende. Duas horas
da tarde, preciso entrar em ação, pensar menos, refletir ainda menos sobre a
Sociologia daqueles que cruzaram meu itinerário neste começo de tarde.
domingo, 19 de outubro de 2014
Crônica - Um Espírito Além do Meu - 19 de Outubro 2014
Um Espírito além do Meu
Desde o dia em que arrumei uma colocação como redator de uma
crônica semanal no jornal sofro um desgaste angustiante para executar
minha e cumprir a periodicidade
contratual . Os editores chefes são impiedosos
cobradores, menos pela qualidade, mais pela quantidade e pontualidade. Parece
que nesta semana minha máscara cai! Sim explico, é por que a grande maioria, ou quase todas as
minhas crônicas não eram escritas por mim, mas por um tio meu , habilidoso com
as letras de Camões e que me entregava de bandeja seus textos e eu sem remorso
nenhum assinava como minhas! . Esse meu parente é um ser bastante esquisito.
Solteirão convicto, celibatário, ermitão e beberrão, um inveterado! A sua
habilidade de escrever vem de longas datas, sempre gostou de Literatura e de
escrever, construiu ao longo dos anos uma vasta biblioteca dos maiores
escritores universais. Diferente de mim que só possuo duas ou três
enciclopédias e outros almanaques! Mesmo
sendo ele uma personalidade difícil de se lidar, eu conseguia arrancar dele meu
“material autoral”. Ela fazia um pouco de cena, mas no final cedia em favor do
sobrinho! Essa era uma forma de satisfazer seu ego mesmo não recebendo ele os
créditos elogiosos( se bem que eles eram tão escassos!). Só que para minha
infelicidade, esta semana, o meu guru decidiu fazer uma viagem de cunho
religioso para a cidade de Bobaim,
duraria esta jornada uma semana, exatamente o período de entrega dos meus
escritos ao jornal, fiquei num mato sem cachorro.
Agora fico na obrigação de escrever de próprio punho sem a
ajuda do guru. Saio de casa em busca de um pouco de inspiração, passeio pelas
alamedas da cidade observando os transeuntes na intenção de pinçar algo! Nada
me anima. Nada me inspira! Na viela dos
Tabajaras encontro um velho amigo que não via a tempo, É o Gilson Borges, um
literato descendente de portugueses e contraparente de Camões, segundo
informações dele. Gilson estava voltando de uma turnê por terra de Além Mar,
passara dois anos na terrinha de seus ascendentes! Falara de Portugal, de como
seu país estava diferente, falou também que nesse período esteve a escrever um
romance que pretendia publicar em três meses, aqui no Brasil! Conversávamos
sobre literatura, basicamente. Falávamos
sobre os clássicos escritores
europeus:Dostoiéviski, Maiakovski, Proust, Anatole France, Emilly Zola, falou
de Victor Hugo e Julio Verne, Com bastante propriedade ele citava cada
característica desses autores, e eu só citava fatos enciclopédicos sobre eles,
fatos desnecessários como o local e data de seus nascimentos. Após esse embate
que demorou três quarto de hora, nos despedimos e tomos nossos rumos.
As horas avançaram e o prazo de entrega da minha crônica ao
jornal está quase no fim, preciso escrever qualquer coisa , qualquer
incoerência, algo até ininteligível ! Sento na frente da máquina de escrever, a
folha em branco, a falta de ideias, não sai nada, meu quengo está oco. o
relógio continua avançando as horas constantemente. Num maquinismo começo a
dedilhar as teclas do QWERT , saem só incongruências, banalidades, períodos sem
nexos, inversões de orações subordinas, uma sintaxe vagabunda. Mas de repente,
como num passe de mágica tudo mudou para o meu lado, as ideias se acertaram, o
texto começou a fluir, meus dedos percorriam
rapidamente todas as letras numa rapidez sincronizada, não sei bem explicar
de onde vinha essa inspiração, confesso que parecia que não era eu ali, a construir tais períodos. Parecia que haviam
um espírito além do meu, ditando aquelas palavras do além como uma psicografia
sobrenatural enchendo folhas e folhas de bom texto,
Missão cumprida no exato momento que o Graham Bell toca
estridentemente na sala de visitas, do outro lado da linha o editor chefe do
matutino cobrando a minha dívida textual para com ele. Afirmo que em questão de
minutos ela estará no seu correio eletrônico. Tirei um peso enorme que estava
sobre minhas costas. Alívio, abro uma garrafa de vinho em louvar a Baco!
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