sábado, 16 de agosto de 2014

Pequena Crônica - O Sábado Devia Ter Quarenta e Oito Horas - 16 de Agosto 2014

Pequena Crônica - O Sábado Devia Ter Quarenta e Oito Horas

Sábado, o sol já se levantou a tempos antes de mim, também pudera, após ter  me encontrado nos braços de Morfeu após as duas da manhã seria natural o despertar a essa hora! O rádio ainda está ligado desde a noite anterior, ele executa uma canção em língua de Byron que traduzo para a língua de Camões como algo parecido com “ Corações jovens correm para liberdade”  Título bastante sugestivo para um sábado, o dia mais libertino da semana! Um sem número de afazeres desnecessários   devem ser cumpridos antes das doze badaladas fatais da madrugada!  O jogo da loteria com seus números absurdamente ilusórios, a reunião mensal  da confraria partidária, o conclave quinzenal do círculo literário, o batizado de um afilhado apadrinhado político meu, a carraspana na casa de meu mano,a visita  a barbearia para ficar em dia com  as obrigações capilares apesar dos escassos cepelhos que resistem em meu couro cabeludo. Resta ainda no fim da tarde o ludopédio, meu time de coração estará em ação logo mais, serei mais um arquibaldo a torcer por mais um tento do time de minha paixão. Ainda preciso terminar um conto que comecei a escrever a três dias e depois de várias edições, não ficou bom!  Jaz sobre minha escrivaninha ainda, um livro de um autor francês que eu não lembro o nome agora e que insisto em dá por concluída sua leitura faz dias, mas os afazeres sabatinos não permitam que eu avnçe em sua páginas.

Resta ainda uma garrafa de Kirchwasser meio vazia, meio cheia, resta ainda um espírito vazio dentro de mim. Existe um questionamento se todas essas coisas vãs são necessária. É meia noite, hora grande e eu ainda estou diante da tela do computador a consertar os períodos daquele conto que não ficou bom ainda, inverto os períodos, insiro novos verbetes, riscos uns neologismos desnecessários, preciso de um revisor amigo para me dá uma boa idéia e afim de que o conto fique acabado! O sábado passou e acho que nem setenta e duas horas seriam necessária para esse dia!!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Crônica - O Carpinteiro do Nada a Fazer - 14 de Agosto 2014

O carpinteiro do nada a fazer

Tarde de quarta-feira, tarde de ócio, nesse instante da semana cumpro minha obrigação do nada a fazer, sou um carapina do nada como diria o mestre da literatura brasileira Autran Dourado. Monto meu “escritório” à sombra de um salgueiro de frente minha casa, de mobília franciscana, o local do trabalho constitui-se de uma mesa de plástico e mais três cadeiras e uns tamboretes! Uma sala de visita para receber alguém para uma troca de idéias. É o começo de uma tarde abafada de novembro, perto de uma hora as crianças caminham para a escola ladeados por suas mães, alguns pares mais retardatários , apressam o passo para não perder a hora. Duas horas, o carro que recolhe o lixo passa, três ou quatro homens espadaúdos tentam acompanhar o ritmo do semovente , os homens fazem uma limpa geral da rua, uma dona de casa distraída ainda corre para levar ainda alguns sacos  que restaram no jardim. Em cima da carroceria do caminhão, em meio a toda bagunça dos inservíveis e indiferente ao mau cheiro, um homem vai organizando o lixo recolhido. Agora o carro já foi, e quem ao longo da rua é um vendedor de bilhetes de loterias vendendo sonhos e ilusões, ele então chega ao meu escritório e oferece sua mercadoria aos meus préstimos, após muita insistência e palavrório do loterista faço uma fezinha no jogo dos Bichos!  Após a saída do bilheteiro, divago agora na solidão do escritório a respeito de tudo e a respeito de nada. Um sem número de maracanãs passam  nos ares fazendo um barulho estridente, o desacerto de uma cópula, talvez, tenha sido o motivo de toda contenda.  As três horas da tarde minha consorte me contempla com uma chávena de café fumegante, café amargo e que incita minha condição de tabagista, fumo desbragadamente após o Mooca, sem nenhum pudor enfileiro uma cigarrilha após outra na solidão do escritório. Chega aqui para dá seu expediente, aquele turista de bermuda estampada, fala de lugares distantes, fala da Suíça, um lugar absurdamente frio e sem emoção!
 A tarde avança, o sol já vai a meio caminho do horizonte, daqui a pouco as sombras serão maiores que a claridade do astro rei. As crianças agora voltam da escola, com suas fadas rotas, conseqüências das reinações da hora do recreio.

Sopra uma brisa suave, o sol já se escondeu por trás daquela serra que eu já fui muitas vezes, julgo eu! Estou pronto  para encerrar meu  “expediente” quando sou surpreendido pelo vendedor de bilhetes de loteria anunciando que eu havia ganho. Deu Touro na oitenta e dois, dizia ele com olhos esbugalhados! O dinheiro do prêmio era suficiente para garantir mais expediente de ócio, ou pelo menos uma tarde! Carpinas do nada também tem sorte no jogo!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Crônica - O Bar Katmandu e a boemia - 13 de Agosto 20014

O Bar Katmandu e a boemia 

Principiei na boemia ainda jovem quando ainda estava na escola básica, fui levado para  tal ambiente por um professor de Literatura que tinha na conta dos seus bons alunos, segundo ele. Timidamente passei a freqüentar o tradicional bar da rua da Palma ( hoje rua do poço) freqüentado pela alta intelectualidade da cidade, de nome bastante exótico, era o Katmandu, segundo seu proprietário, o batismo do bar se deu da o aspecto cosmopolita da cidade nepalesa, tal qual seu bar. Exótica e variada era seu público constituído na sua maioria por intelectuais, jornalistas dos três  grandes diários da cidade, estudantes universitários na sua maioria do curso de jornalismo que cavavam um lugar ao sol num dos jornais. Em meio a todo essa mixórdia de freqüentadores, timidamente fui inserido a esse meio, era apenas um mero coadjuvante  desses personagens. Era apenas o pupilo do professor que me apresentou inicialmente como dono de bons sonetos alexandrinos  e isso rendeu um certo respeito pelos freqüentadores da mesa dezessete. Ao aumentar a assiduidade da freqüência no bar Katmandu, fez com que eu me tornasse figura permanente no corpo dos freqüentadores de lá. Após  alguns anos como titular do local, aumentei meu círculo de amizade dali e o respeito foi aumentado quando fui aprovado no vestibular para o curso de farmácia, ascendi socialmente naquele local com isso, garrafas e mais garrafas foram abertas em comemoração a tal situação.  Meu  cartaz foi tanto que recebemos a visita em nossa tradicional mesa dezessete do nada menos que o diretor chefe de redação de uns dos jornais de grande circulação, Jamil era um turco com forte influência no meio das altas rodas da sociedade . Ser amigo de Jamil significava garantia de boas colocações, seu poder de influências no meios jornalísticos permitia a certeza de um lugar ao sol. Foi através de Jamil que eu garantir um lugar no matutino de mais prestígio na cidade, passei a escrever sonetos três vezes por semana naquele jornal, no caderno de cultura. Essa colocação garantia um numerário razoável para ir levando o caro curso de farmácia. Estaria bem até hoje não tivesse eu cometido um deslize pueril, publiquei um soneto sionista exaltando o povo judeu, essa foi a gota d’água para ferir os brios de  Jamil, e meu  emprego sumir das mão. Não fosse uma meia dúzia de crônicas que vendo a um jornal, minha situação financeira estaria bastante combalida.

sábado, 9 de agosto de 2014

Crônica - De Babau do Pandeiro a Thelonius Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie - 9 de Agosto 2014

Eu preciso beber algo, rapidamente

Olá como vai? Não, eu não vou reproduzir essa canção do Paulinho da Viola íntegra! Não que eu seja um alcoólatra vulgar, um inveterado do álcool, longe de mim que sou bastante cônscio dos  malefícios físicos deste mal. Estou apenas cumprindo minha herança cultural herdade de uma cultura ocidental-cristã. Não precisa ser uma carraspana, nem mesmo uma pândega álacre com uma multidão, quero apenas botar meus discos para tocar, ouvir minha canções preferidas, canções ecléticas que vão desde Babau do Pandeiro a Thelonious Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie, simplesmente pelo prazer de ouvir música, dançar desengonçadamente cada canção não solidão da casa, uma dança sem censuras. Preciso beber algo rapidamente ao lado da moça Gal, a moça que me ama, amar de intenso  e duradouro prazer como um porco, e não um amor ligeiro e comedido  sem resguardo da concepção. Preciso beber algo rapidamente no calor da tarde, contraditoriamente uma bebida quente, uma bebida que causa brilho nos olhos, tornando largo o peito quando percorre o caminho do estômago, a serenidade chega num instante e a euforia é contida. Não pretendo ser um relator das sensações tal qual fez o autor do livro Noite na Taverna  nem pretensão, nem habilidade para tal, pretendo nesse momento pelo menos me livrar das amarras da obrigação do dia a dia, das angústias da racionalidade existencialista. Preciso urgentemente terminar essa crônica, a garrafa de vinho está aberta, tal qual os lábios da moça Gal, solicitando um contato, o gargalo da garrafa são lábios artificiais no qual preciso beijar. Preciso beber algo rapidamente, e ouvir canções  que vão de Babau do Pandeiro a Thelonius Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie.     

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crônica - O Lupanar - 7 de Agosto 2014

O  Lupanar –
Era uma lupanar que ficava no final da rua do comércio,  a rua que outrora era cognominada de “rabo do tatu” e que hoje abriga uns raros casebres cuja a finalidade é nada aceita pela o bom senso monogâmico da sociedade ocidental-cristã.  Dos vários locais de culto à Vênus, um deles se destaca pelo porte senhoril e místico de sua arquitetura, um sobrado no qual funcionava na parte de baixo um comércio de estivas e cereais durante o dia e, findo o expediente  do estabelecimento de merceeiros, iniciava-se a atividade do lupanar no piso superior do prédio. A cafetã dona do lupanar era sócio do merceeiro dos cereais.As seis da noite, religiosamente, as rameiras se apresentavam para prestarem seus serviços aos seus clientes, clientela esta constituída de estivadores do comércio atacadista que ficavam nas cercanias do “cháteau”. Esse comércio luxurioso efervescia até que os pares fossem formados e estes recolhessem em suas alcovas trancadas no mais profundo mistério. Os clientes eram todos casados ou amasiados, mas buscavam naquele “comércio” além do prazer, a necessidade de extravasar a lassidão de  mais um dia de uma faina extenuante, cônscios de estarem cometendo um  adultério reprovável pelas suas rainhas. As meretrizes, queriam apenas garantir o almoço do dia seguinte ou algumas prendas quase insignificantes, essas mulheres  de meia idade que não amavam,  já nem sonham mais em perspectivas além da “rua da lama”.

 O silêncio toma conta da rua do comércio nas altas horas, os clientes dormem um sono profundo ajudado pela lassidão física adicionado ao efeito narcótico do álcool. Uma chuva fina cai antes dos primeiros sinais da aurora, os primeiros proletários começam a aparecer  para mais um dia de trabalho e aqueles que pernoitaram no lupanar começam a se misturar com os demais até que tudo fique normal e a cena faça jus ao nome que batiza a rua: Rua do comércio.     

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Crônica - Missão cumprida - 6 Agosto 2014

Crônia - Missão cumprida


Tarde de ócio, estou diante da tela de um computador em frente a uma folha em branco buscando inspiração para escrever a Crônica para o jornal, ela, a inspiração não vem. Desculpo a tela do computador e vou a janela em busca de encontrar algo útil, a tarefa parece difícil dado os descampado da rua. O sol de entre meio dia e duas da tarde desencoraja os transeuntes do meu logradouro, o céu escampo de nuvens de um verão pleno faz desanimar qualquer um. Entro no meu aposento, a página continua sem nenhuma linha escrita. Tarefa inútil escrever para ninguém ler . A carta que fica num canto de jornal não atrai ninguém, mas para mim garante um reforço nos meus combalidos numerários, o jornal mesmo assim paga a pena dessas meia dúzias de palavras inúteis, minha prole agradece o bem vindo dinheiro. Volto à janela e vejo o carro responsável pela coleta nada seletiva do lixo que religiosamente recolhe o inútil lixo de todas as casas, três ou quatro homens espadaúdos, indiferentes ao mau cheiro do lixo tentam acompanhar o ligeiro ritmo do caminhão. Passado alguns minutos um jovem casal trava uma contenda de caráter passional, após algumas trocas de palavras que tem um tom aumentado a cada instante a jovem moça cai em prantos, ato contínuo, o rapaz acolhe em seus braços e a consola em seu colo, De novo estou diante do computador com sua página em branco, agora estou pressionado para cumprir esta hercúlea missão de por termo a minha crônica, chego a estante, lá jaz um livro que comecei  a ler a duas semanas e ainda tenciono concluir a prazerosa tarefa de lê-lo por completo. Folheio um sem número de páginas  em busca de alguma inspiração mas em vão. Meu telemóvel soa um som estridente, do outro lado da linha o redator do jornal vem cobrando meu texto, peço a ele paciência e prometo enviar um velho faz antes das dezoito horas. Parece que a pressão do chefe deu efeito, pois após alguns minutos a crônica saiu após uma miscelânea de bobagens que catei em minhas crônicas anteriores. Missão cumprida e dada a solidão da minha casa, vejo-me no direito de cultuar Baco abrindo uma garrafa de vinho barato que repousa sobre minha pobre adega. Engraçado tudo isso, após uns goles de vinho divago sobre todas as contradições desta tarde, a solidão da rua, os homens espadaúdos, o casal que se embate e eu que troco cem palavras ou mais para garantir um pouco mais de dinheiro, Novamente o telemóvel toca e não fica difícil adivinhar que é o exigente redator, ato contínuo afirmo  a ele que está tudo certo. Missão cumprida e pressão vai embora pelo menos até amanhã quando serei novamente aporinhado pelo telefone do jornal me exigindo a bendita crônica de cada dia!

domingo, 3 de agosto de 2014

Crônica - É sábado, é de Manhã!

Sábado, meu sono foi cessado cedo, ainda não estamos na sétima hora desse dia e sou impelido a abandonar os lençóis e a alcova. Logo mais estarei no comércio de hortifrutigranjeiros em busca de víveres para meu sustento, no mercado de paredes encardidas pululam um sem número de consumidores carnívoros como eu, em busca do mesmo objetivo. Daqui a pouco em casa junto a dois de meus irmãos, cumpro excepcionalmente nesta manhã o compromisso semanal de discutir de que forma faremos nosso jogo da loteria esportiva, discussão após outra entramos em consenso e começamos ilusoriamente a sonhar com a difícil probabilidade desse cruel jogo, mesmo sendo o futebol um esporte “meio lógico” – Mas nesse meio tempo a contenda  é interrompida por duas vezes pelas visitas inesperadas do chefe político que me explica o imbróglio causado por acordos feitos a calada da noite, o intrincado jogo da política fez a reunião surpresa demorar mais do que o esperado, voltamos para embate sobre jogo e entre uma discordância e outra, um dos meus manos resolve abrir uma gélida cerveja pousada no fundo do congelador. Nova pausa inesperada do nosso parlatório, é o pai de minha esposa que nos fazer uma visita de última hora se queixando de problemas de saúde inexistentes, nervosismo julgo que seja, nada que um bom tranquilizante não resolva. Passada essa cena, voltamos para a conclusão do jogo. Depois de acertados todos os ponteiros e entramos num tácito acordo,  vem a ilusão da crença de um absurdo da sorte, os irmão vão embora para outros afazeres, o relógio avança e já se aproxima a hora exata de ir para o trabalho, apesar de se um sábado, à tarde preciso marcar presença no  trabalho para garantir o leite dos pequenos. Apreço-me para chegar na hora certa ao trabalho, o sol à pino do início da tarde é impiedoso. Preciso ir antes que esta crônica termine e  seja atropelado pelo tempo!

sábado, 26 de julho de 2014

Radaun Nasser - Aí pelas três da tarde - CONTO

Passei a conhecer esse escritor que é meio "underground" da Literatura brasileira. Compartilho esse excelente conto " Aí pelas Três da Tarde - 

"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances.  Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo."

Texto extraído do livro "
Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Literatura Cearense - Milton Dias - Tarde na Minha praça

Sempre gostei de Literatura ( Literatura com "L" maiúsculo!) notadamente a literatura regional , gostando mais ainda da Literatura cearense, que é riquíssima e não fica devendo nada a Literatura universal.! Infelizmente o mercado editorial não tenha sido tão generoso com nossos escribas. Eis aqui um dos excelentes contos dessa leva de escritores alencarinos, Milton Dias transcreve todo seu lirismo na linhas de TARDE NA MINHA PRAÇA - extraído do livro  FORTALEZA E EU  do ano de 1976 - 


Tarde na minha praça - Milton Dias


Agora eu digo como o velho Cardeal Gonzaga: “tão simples tudo”. E tudo tão bom, tão calmo, tão bonito, tão puro como a benção de Deus Nosso Senhor. São duas horas da tarde duma quarta-feira e um sol radioso ilumina a minha praça, um vento vadio que nasce no mar vem cochichar nos cabelos da moça de vermelho que passa displicente aqui na calçada. Um céu de claro azul, igual, nos cobre agora, sem uma nuvem. Não, minto: ponho a cabeça na janela, alongo o olhar, vejo que por detrás da Escola Normal elas se juntam brancas, paradas como nuvens de papelão. Certamente dentro de algum tempo, comboiadas pelo vento, desfilarão aqui em cima da minha casa.
Quem vê, diz que o sol saiu deitando cor na terra, foi ele quem fez o verde mais verde, o amarelo pálido do telhado defronte está quase abóbora, a grama ganhou brilho, até o capim ralo, a vassourinha verde que nasce e cresce por conta própria, parece mais alegre. Aquele verde desbotado pegou vida. Flores não há, infelizmente. Onde estão as flores desta cidade? Houve tempo em que as havia nos jardins públicos. Se há os que não amam as flores, deve haver os que gostam e cuidam delas. Por que a Prefeitura não cria uma guarda municipal para se ocupar dos canteiros que mandaria plantar? As pacaviras exigem tão pouco, as boa-noites não exigem nada. Até as papoulas são modestas, pedem mínimo.
Tão simples tudo. Um homem dorme tranquilamente, aproveitando a sombra do caminhão, dorme debaixo, é talvez o ajudante que guarda o carro e aproveita a sua proteção, dorme numa atitude de sossego absoluto, tão sem problema, nesta hora em que banqueiros se preocupam com cifras, agiotas ambiciosos protestam letras e industriais discutem a produção das suas fábricas e autoridades se inquietam com o que lhes foi confiado para governar.
Enquanto aquele homem de camisa verde repousa no chão sua pobreza tranquila, na bolsa de valores esperanças crescem e morrem; por toda parte, investidores contam dinheiro, vendedores vendem ações, há cobradores que vão de porta em porta ao sol de junho. Uma criança está nascendo, um homem está morrendo, um automóvel come o asfalto a toda velocidade, o mundo inteiro está rolando, correndo, lutando, sofrendo, amando, odiando.
Nesta mesma hora, alguém parte, alguém chega, há um preso que aguarda julgamento, um outro que espera o inquérito, um homem que mata por ciúme, uma mulher que morre por amor, uma criança desidratada espera a morte ou a salvação, um mendigo pede a sua esmola, alguém está sendo ofendido, alguém está sendo louvado, um que manda, um que obedece, um que protesta, um que perde, um que ganha.
Debaixo da minha janela um grupo ruidoso de meninos joga uma pelada violenta – são não sei quantas vocações de Pelé, que disputam a pelota. São os mesmos que me tomaram a sesta e, não faz muito tempo, fizeram gol dentro da minha casa, a bola atravessou as traves da janela, foi bater no segundo quarto. Por um triz não acertou na minha cabeça indefesa.
Tão simples tudo. Já houve outras tardes assim, há muitos anos e eu não podia desfrutar, preso numa sala de repartição, sofrendo o calor da parede de granito, do lado do sol, escrevendo um livros imensos, ou redigindo ofícios e relatórios, às voltas com o insuportável linguagem burocrática. Já houve outras tardes assim, eu sei, noutros lugares, em muitas idades, tardes de fins d”água, tardes da minha infância sertaneja, tardes de adolescência sonhadora, tardes da juventude, inquieta, em meio à alegre espera dos festejos dos santos de junho, tardes de ontem, tardes de outrora. Ah, quantas tardes perdidas.
Não é hora de cismar, eu sei. Mas esta tarde me devolve compulsoriamente a lugares em que vivi, às tardes que não se abriram para os meus olhos como esta de hoje, porque a bruma as envolvia. Penso na viagem que não fiz, na mulher que não me quis, no filho que não foi gerado, no verso que não compus, na canção grata, na amiga morta, no amigo morto, no outro tresmalhado. Penso no amor sem começo e sem fim, na paixão que o tempo comeu e que a distancia apagou. Penso no meu cavalo de sela, pequeno, pardo, dos tempos de menino, que um dia venderam e me deram em troca um cavalo branco, malhado, grande, um horror de cavalo, desobediente, de estrada dura e galope traiçoeiro. Comércio de cigano.
São duas horas da tarde, eu disse. E a nota lírica do momento na minha praça é aquele de namorados sentado num banco, à sombra do oitizeiro, numa atitude gostosa, tão bela, tão jovem, a eterna, universal atitude dos que se amam, os olhos nos olhos, a mão do moço acariciando os cabelos pretos da menina morena. Em torno deles, o mundo não existe, nem o sol, nem o céu, nem as pessoas que passam, nem as crianças que brincam, nem o homem que dorme, nem os carros que correm, nem as dívidas, nem as dores. Há uma ternura imensa naquele beijo que daqui eu surpreendi, há uma jura de amor, de esperança, de coragem, um toque de eternidade, naquele beijo que eu vejo e nem ouço. Há uma beleza que ninguém saberá contar em verso ou em prosa, neste quadro que a minha janela emoldura – e dentro dele o amor no banco da avenida, à sombra do oitizeiro. E a paz e o sono à sombra do caminhão. A tarde tranquila parece eterna.

Fortaleza e eu – 1976

terça-feira, 11 de março de 2014

Literatura Cearense - Fran Martins -

Belo conto extraído do livro - Noite Feliz, do excelente escritor cearense, Fran Martins

ALMIR
Um dia destes eu ia andando pelas ruas quando, ao dobrar a esquina, senti alguém segurar-me pelo braço:
– Não me conhece mais não? Não se lembra de mim? Eu sou o Almir – se lembra? Almir, aquele da Pedra Lavrada...
Lembrei-me, sim, de Almir – e imediatamente olhei para a sua mão esquerda. Sim, era ele mesmo, lá estava a mão esquerda sem o dedo mínimo, a mão que servia de atestado que ele fora, nos bons tempos, um dos meus maiores amigos – ele e mais o Clóvis, o Carrinho, o Janjoca, o Pedro, o Felinto. Éramos todos moradores da Pedra Lavrada, uma das ruas mais importantes do mundo, situada já quase nos subúrbios da importante cidade do Crato. E juntos dominávamos a rua, fazendo mil diabruras, metendo-nos em aventuras incríveis, com essa sobranceria de verdadeiros senhores que desafiam céus e terra não tanto para glória individual como para maior renome do seu reino.
Quantos anos tínhamos então? Procuro em vão lembrar-me mas não sei. Meninos acostumados a gozar a liberdade admirável daquela rua de subúrbio, o que mais nos valia era a altura de cada um – e eu era um dos mais baixos, portanto dos menos temíveis. Almir, pelo contrário, era alto e forte, quase sempre nos comandava, tinha disposição para brigas, nadava bem. Saberia ler? Mas de que servia saber ler naquela época, se a nossa única preocupação era tomar banhos nas enchentes do rio, dar cangapés nos meninos das outras ruas, enfrentar, dominar o rio, mesmo quando as águas estivessem mais fortes, mesmo quando redemoinhos perigosos ameaçassem nos tragar?
Foi num desses banhos que Almir provou a sua coragem e cresceu mais ainda na nossa admiração. Todas as vezes que o rio enchia, a rua se alvoroçava, a nossa turma perdia o juízo. E projetava-se imediatamente um banho longo, de duas horas, com mergulhos e saltos na água barrenta que passava pelos fundos de nossas casas, derrubando árvores e comendo as ribanceiras.
Uma noite chovera bastante, com trovões e relâmpagos que nos acordaram. A água forte corria pelas biqueiras das casas e respingos caíam sobre nossas redes. Cada um de nós, enrolado nos lençóis, sonhava com o amanhecer, o raiar do dia que seria cheio de aventuras, como eram todos aqueles em que o rio tomava água.
Mal amanheceu, nosso grupo se movimentou. Almir chamou-nos um a um – e acorremos ao seu chamado com entusiasmo e alegria. Foi então que Tia Aninha apareceu e, como sempre, gritou da porta da casa:
– Felinto, Felinto! Não vá tomar banho no rio, Felinto!
Mas Felinto, como sempre, não a ouvia – Felinto nunca ligava àquela velhinha que tinha tantos cuidados com ele. Escondeu-se atrás de Almir e esperou até que sua mãe entrasse em casa. Eu ainda murmurei, como se adivinhasse que alguma coisa triste ia acontecer:
– É melhor você não ir, Felinto. Tia Aninha se zanga é comigo.
Porque Tia Aninha confiava em mim e todas as vezes que não sabia do paradeiro do filho era para mim que apelava:
– Você viu o Felinto, Fernando? Tome conta de Felinto, meu filho. Não deixe ele brigar, não deixe tomar banho no rio. Tenha cuidado com Felinto, Fernando.
E eu quase sempre mentia, defendendo meu amigo, encobrindo suas faltas. Seria que Tia Aninha desconfiava? Ela acreditava em mim – mas julgo que, mesmo assim, ainda guardava certos receios de que eu a estivesse enganando. Mas eu era amigo de Felinto e gostava de sua companhia – por isso mentia, escondia suas faltas, muitas vezes dizia à Tia Aninha que me responsabilizava pelo que acontecesse ao Felinto, sem saber, por certo, a gravidade dessa promessa.
E naquele dia fomos ao rio, que estava com as águas pelas barreiras. Em ocasiões como aquela o rio era perigoso – havia redemoinhos nas curvas, havia poços cavados pelas águas e que poderiam tragar qualquer um de nós. Mas para defender-nos contávamos com a nossa ousadia, com a valentia de Almir, com os nossos anjos da guarda – principalmente os anjos da guarda, que jamais abandonam as crianças.
Fomos ao rio, mergulhamos, brincamos. E Almir dava cangapés, Felinto se afoitava, sem atender às recomendações que, vez por outra, timidamente, eu me arriscava fazer-lhe.
Porque uma coisa me dizia que alguma desgraça estava para acontecer a Felinto. A voz de Tia Aninha não me saía dos ouvidos, triste, angustiada, nervosa:
– Cadê o Felinto, onde anda o Felinto, Fernando? Meu Deus, que fim levou esse menino, que não aparece, não vem para casa?
Felizmente Almir nos inspirava confiança, era corajoso, disposto, um dos maiores nadadores da Pedra Lavrada. Quantas vezes, no Poço das Mulheres ou na Batateira, Almir conseguira desbancar os mais velozes nadadores do Crato! Mergulhava e tinha fôlego, nadava de costas, de peito, de braço. E sempre estava decidido a se arriscar por um amigo, mais de uma vez deu provas disso, em acontecimentos que ficaram memoráveis na rua. Por isso eu ainda procurava abafar aquela voz que não me saía da cabeça, a voz da Tia Aninha, angustiada, nervosa, triste.
Foi passado muito tempo, já quase quando nos dispúnhamos a abandonar o rio, que ouvimos aquele grito surdo. Imediatamente todos ficamos tomados de pavor e olhamos alarmados para o lugar de onde partira o brado. Então vimos Felinto aparecer à flor das águas, submergir, depois reaparecer, balançando doidamente a cabeça, agitando as mãos nervosamente e de novo, aos poucos, o seu corpo baixando, as águas tragando a cabeça, os braços, as mãos que nos acenavam, os dedos...
Almir atirou-se na água imediatamente, nadando com rapidez para o lugar onde estivera Felinto. Lá chegando, mergulhou, mergulhou, mergulhou. Cada vez que retornava, uma centelha de esperança faiscava nos nossos olhos, para logo se desfazer e nos deixar numa angústia martirizante. Porque o corpo de Felinto não aparecia.
Quanto tempo durou aquela luta? É impossível avaliar hoje. Almir nos parecia um gigante e o seu rosto tinha feições diferentes. Não, ele não podia deixar que Felinto morresse, ele era forte, disposto, havia de salvar nosso amigo. Foi justamente quando mergulhou pela última vez, passando um tempo enorme debaixo d’água.
Nossos corações batiam fortemente, nossas pernas tremiam, tínhamos, com certeza, os olhos esbugalhados de medo, de terror. Aquele mergulho nos parecia a última esperança, o último esforço para salvar nosso amigo. Os olhos aterrados de todos estavam volvidos para o lugar onde Almir havia mergulhado – e sei que todos nós estávamos também apelando para os santos, para Deus, para os nossos anjos da guarda no sentido de salvarem o nosso amigo. Que diria Tia Aninha quando voltássemos e tivéssemos de contar-lhe que Felinto ficara, morrera?
A cabeça de Almir finalmente surgiu – e vimo-lo, num esforço desesperado, nadando para a terra, o braço passado no pescoço de Felinto. Uma assombrosa angústia saiu de cima de nós – e já estávamos todos chorando, nós que nunca chorávamos em uma briga com as outras ruas. Temíamos que os dois tivessem se finado, que os espíritos maus que residem nos rios houvessem tragado os nossos amigos. Não, os anjos da guarda não os desprezaram – lá vinham Almir e Felinto, já estavam perto da areia.
Foi então que notamos o estado do dedo de Almir. Ele nos disse, de maneira confusa, como encontrara Felinto debaixo d’água – enganchado em um toco, certamente sem sentidos. Por isso teve aquele trabalho enorme para tirá-lo. Porque, quando foi puxá-lo com mais força...
Olhamos o dedo do menino: todo rasgado, os ossos aparecendo. O dedo enganchara no toco, parece que uma pedra caiu também por cima. Os pedaços da pele estavam dependurados e, vendo aquilo, quase esquecíamos Felinto, que ainda permanecia sem sentidos. Pedro deu uma vertigem justamente quando Janjoca virava Felinto para vomitar a água bebida.
Almir foi levado para casa, apareceu um homem dizendo que era preciso cortar o dedo. Eu fiquei ao lado de Felinto, pensando no sacrifício que o outro fizera para salvá-lo. Iria ficar sem um dedo, como prova de sua amizade ao companheiro. Sem um dedo pelo resto dos tempos – mas salvara a vida de Felinto, salvara, quem sabe, até a vida de Tia Aninha.
Depois de muito tempo Felinto voltou a si. Já era sol alto quando afinal nos dirigimos para casa. Então, ao passar pela rua, a voz de Tia Aninha soou aos meus ouvidos:
– Onde anda Felinto, Fernando? Cadê esse menino, cadê meu filho, Fernando?
E eu menti mais uma vez – a última vez posso assegurar. Disse à Tia Aninha que não vira seu filho – sem dúvida andava pelas outras ruas, pois não fora tomar banho conosco. E depois saí chorando para casa – como estaria o Almir, que iria acontecer ao dedo de Almir? E a voz de Tia Aninha não me saía da cabeça:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando?
Agora Almir está a meu lado, sorri alegre, contente porque me lembrei dele. Olho de vez em quando para a sua mão esquerda – como eu poderia jamais esquecê-lo, se já naquele tempo Almir era um grande homem? Abraço-o com satisfação, bato-lhe no ombro, tento recordar algumas passagens de nossa vida de meninos na mais importante rua do mundo, naquela importantíssima cidade do Crato. Mas enquanto Almir responde às minhas perguntas e me conta como tem levado a vida no decorrer desses anos – é a voz de Tia Aninha que eu ouço, angustiada, nervosa, triste:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando? Onde anda esse menino, que fim levou meu filho, Fernando?

(Extraído de Noite Feliz, 2ª ed. Fortaleza, CE, edição UFC/Casa de José de Alencar, 1999)