quinta-feira, 29 de abril de 2010

Outro achado dessa excelente poetisa mineira Adélia Prado, ele tem como título "Poema Começado do Fim" , sempre me impressionei com esses versos desde de minha infância, segue abaixo:



Poema Começado do Fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

(Adélia Prado)
Não vou nem inventar muito, mas reproduzirei um poema de bastante densidade da poetisa mineira ADÉLIA Luzia PRADO de Freitas, intitulado de ' O Amor no Éter" . Desde a primeira vez que fiz a leitura desse poema concreto que fiquei deveras impresionado;reproduzo a seguir:

O Amor no Éter

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

(Adélia Prado)


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Desabafo

As pessoas estão a cada dia mais egoístas, esse mundo está meio ruim, não sei se compensa viver onde as pessoa estão a cada dia mais materialistas , egoístas e invejosas. Provavelmente eu não fui treinado para esse mundo-cão. Não demorará muito se nossa sociedade se consumir numa autofagia insana. Não sei onde vamos para e perspectiva é a pior possível! Talvez ainda nem estarei mais por aqui para vê essa cena deprimente e de decadência total da raça humana. Não se estou tão otimista quanto a época que crie esse blog.
João Davi de Sousa Queiroz

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quanto Vale a Educação

Esse texto foi publicado no jornal O POVO edição número 27291 do dia 09 de Fevereiro de 2010, muito pertinente esse texto, e requer discussões , ele foi escrito pelo professor João Bosco Nogueira, professor da Universidade Estadual do Ceará - reproduzo aqui ipsi literis :

Quanto vale a educação?


Por um erro de visão, a educação não é prestigiada no Brasil como atividade própria e exclusiva do Estado. Os neoliberais a veem apenas como mais um serviço de utilidade pública, e a própria Constituição Federal não a valoriza como um serviço essencial, de relevante interesse público, ao contrário dos países desenvolvidos. Seu desprestígio revela-se no confronto da remuneração do professor com a de outros servidores.

A remuneração deve ser proporcional à natureza, complexidade e responsabilidade exigidas no serviço prestado, assim ordena também a Constituição Federal. Qual é a atividade mais complexa e mais relevante que a dos mestres, que educam o povo, formam cidadãos e preparam a mão de obra de todo o país, inclusive, a do serviço público?Então, por que a gritante diferença? O deficiente sistema educacional brasileiro está na base de nossos maiores problemas.

Por isso, numa eventual discussão de como melhorá-lo, seria razoável a inclusão de sugestões como estas: federalização de todo o sistema, especialmente, do ensino básico; implantação, ainda que de forma paulatina, para não se inviabilizar o erário, de um plano de cargos e salários para todos os mestres, de todos os níveis educacionais, de tal forma que a remuneração do professor PhD de uma universidade pública, com dedicação exclusiva, fosse a maior no Executivo, e referência para os demais cargos deste Poder; exigência de pontualidade e assiduidade dos mestres, com a introdução do ponto eletrônico; criação de sistema permanente e compulsório de reciclagem e de avaliação periódica dos mesmos, com a participação dos alunos; centralização na União dos recursos do Tesouro Federal destinados à educação, atualmente canalizados para Estados e Municípios; parceria com os Estados, que ofereceriam o espaço físico das escolas.

Quanto vale a educação? Vale nossa evolução, nossa construção integral, vale uma sociedade saudável, sem desigualdades, e por isso, segura e pacífica, vale uma economia competitiva e um país forte e acreditado.

João Bosco Nogueira - Professor da Universidade Estadual do Ceará

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Promessa do tenis brasileiro

Sim nós temos um tenista top de linha!! Trata-se do alagoano Thiago Fernandes que hoje está na final do Australian Open categoria Junior. Hoje ele completou 17 anos de idade e deu um presente a ele mesmo, quem sabe um outro melhor ainda- o título do Australian Open. Ele tem por guru nada mais nada menos do que o treinador Larri Passos- lembram dele? Larri foi o treinador do maior tenista que o Brasil teve em toda a história desse importante esporte que nada mais é do que o nosso Gustavo "Guga" Kurten .Espero que esse garoto consiga feitos tão expressivos quanto o nosso Gustavo Kurteen- Se depender de treinador ele consegue, alguém duvida?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Paixão Oculta


Teremos hoje o primeiro soneto do anônimo poeta aracoiabense Luiz Câmara de Queiroz ( Pelo menos é o que ele ainda tem mais antigo, embora ele tenha perdido muitos deles) Ele tem o título de PAIXÃO OCULTA e foi escrito no já distante ano de 1956. percebam a erudição e a métrica no uso das palavras do sonetista que tem o estilo parecido com o seu conterrâneo Padre Antônio Tomás! já citado nesse blog.
Posteriormente nós teremos mais sonetos desse poeta de Aracoiaba publicados nesse blog.


Paixão Oculta
"Tenho um segredo na vida e a ninguém revelo
É uma dor que excrucia e só min'alma sente
Longe de ti nesse meu viver dolente
Sofro calado essa dor e não desespero



De viver torturado eu sempre espero
Já não maldigo de sofrer constantemente
Se é atroz destino que assim consente
Que importa a vida se só a ti eu quero?


Dizem ser a esperança a última a morrer
Eu nessa espera vivo sempre à padecer
Até que chegue a minha hora apetecida


Ocultamente essa paixão no peito escondo
Sem saberes que por ti morro amando
Pois é te amando que encontro minha guarida"


Luiz Câmara de Queiroz - Poeta aracoiabense - 1956





segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Soneto Verso e Reverso de Padre Antônio Tomas

Conversando com o autor dos meus dias, o sonetista Luiz Queiroz, ele fez referências a um poeta não muito midiático, mas não menos eficiente. Ele falou-me que leu alguns poemas soltos em alguma revista ou jornal a alguns anos atrás. E ao pesquisar sobre o referido autor encontrei algumas parcas informações. fiquei sabendo que o autor nunca publicou suas letras de artes( daí o motivo de meu pai achar alguns raros sonetos) das poucas informações que conseguir catar descobrir que o citado poeta ficou quase anônimo , ajudado pelo seu estilo meio Misantropo.
Falei tanto dele mas ia esquecendo de dizer seu nome: Trata-se do erudito poeta, sonetista por excelência, E asceta , Padre Antônio Tomás, que encarnou no dia 14 de Setembro de 1868 na cidade se Santana do Acaraú, zona Norte do Estado do Ceará e veio a falecer , infelizmente em julho de 1941.
Sua retração diante da sociedade é resultado de uma humildade e timidez inversamente proporcionais a sua sapiência. Conta a história que ele fez um testamento no qual ele exprimia o desejo de não publicarem em forma de livro os seus sonetos.
Pesquei ainda o que seria o seu epitáfio:
Quero ainda que meu corpo seja enterrado sem esquife, e que a pedra da sepultura seja reposta no mesmo plano ficando debaixo do chão, e que não se ponha em tempo algum, sobre ela, nome, data, inscrição ou qualquer sinal exterior que a faça lembrada”.

Vale a pena conferir seu trabalho. Eu não conhecia, mas passei a gostar muito!
Apreciem um de suas peças, a citada por meu pai - tem o tema de " Verso E Reverso":

VERSO E REVERSO¹

Essa mulher de face escaveirada,
Que vês tremendo em ânsias de fadiga,
Estendendo a quem passa a mão mirrada,
Foi meretriz antes de ser mendiga.

Fugiu-lhe breve, nessa vida airada,
Da mocidade a doce quadra amiga,
E chegou a ser velha e desgraçada
Antes do tempo... a tanto o vício obriga!

Ontem, do gozo e da volúpia ardente,
Fosse a quem fosse, dava a qualquer hora
O seio branco e o lábio sorridente.

E hoje – triste sina! – embalde chora,
Pedindo esmola àquela mesma gente
Que dos seus beijos se fartara outrora.




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A verdade sobre 1987 - Até que enfim alguém fala sério dobre esse fato


Esse comentário foi publicado no sítio supervasco.com e foi feito pelo excelente vascaíno Silesio da cidade de Braço do Norte no estado de Santa Catarina.
Atentem para a clareza dos fatos e tirem suas conclusões.

Sport Campeão
Em 1986, o campeonato BRASILEIRO foi decidido entre São Paulo e Guarani, com o SP sagrando-se campeão.
Naquele tempo, o campeonato era disputado por muitos times e os clubes dos grandes centros, os maiores em termos de títulos e torcida, resolveram se unir e criar um campeonato exclusivo com eles, os doze maiores do Brasil: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos, Grêmio, Internacional, Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e Atlético Mineiro. O Bahia, que era dirigido por um homem com muita força no futebol, o Paulo Maracajá, e sempre atraía grandes públicos para a Fonte Nova, brigou muito, fez pressão e conseguiu sua inclusão, nascendo assim o famigerado Clube dos Treze.
Eles procuraram a Rede Globo, que gostou da idéia, e conseguiram com a Coca-cola o patrocínio do torneio, com a Coca colocando sua marca na camisa de todos os times, nos prismas principais dos estádios e nas transmissões da Rede Globo.
A CBF foi contrária pelo fato de que, apesar dos clubes se acharem os maiores do Brasil, e alguns realmente eram, no campo e na bola jogada no ano anterior, muitos ficaram mal classificados: o Vasco, por exemplo, tinha caído para a 2ª divisão. Então, a CBF fez ver ao Clube dos 13 que qualquer clube que se achasse prejudicado entraria com ação judicial e ganharia.

Sport, o Campeão

Protesto contra a Coca-cola
Então, o “Clube dos 13″ teve uma “brilhante” idéia: um campeonato com todos os 32 clubes da primeira divisão, divididos em dois módulos, com 16 clubes cada.
O verde, com os clubes pertencentes a ele, os dois clubes não participantes do “Clube dos 13″ melhores classificados no ranking da CBF (Goiás e Curitiba) e o Santa Cruz, que entrou no bolo por causa da pressão política exercida por Marco Maciel e pela amizade pessoal que o seu presidente tinha com Marcio Braga, presidente do Flamengo e primeiro presidente do “Clube dos 13″; e o módulo amarelo, composto pelos demais clubes que tinham direito adquirido em campo de jogar a Primeira Divisão do futebol Brasileiro.
Cada módulo teria sua disputa, jogando todos contra todos em turno e returno. No final, o 1º e o 2º colocados de cada módulo fariam um quadrangular e decidiriam o campeão e o vice do Campeonato Brasileiro.
A segunda divisão também seguiu o mesmo critério, divididos em módulos azul e branco (as cores dadas aos módulos foram em homenagem a bandeira do Brasil).
Sendo assim, deu-se início ao Campeonato Brasileiro de 1987. Aí veio a grande SAFADEZA, típica atitude de abuso de poder das elites que acham que tudo podem em nosso País.

Quando já estava perto da definição dos representantes de cada módulo, para a disputa final, o “Clube dos 13″ convocou uma reunião do Conselho Arbitral e propuseram uma mudança no regulamento: não haveria mais a realização do quadrangular final e o campeão e o vice do módulo verde seriam decretados, automaticamente, campeão e vice do brasileiro.
Em votação, eles obtiveram a maioria dos votos a favor da mudança, porque além de contar com a unanimidade dos votos dos membros do módulo verde, alguns capachos do módulo amarelo também votaram a favor, como o Náutico, que objetivou claramente prejudicar o inimigo local, o SPORT, melhor time do Módulo Amarelo.
Mas aí veio o grande erro do “Clube dos 13″, que não era comandado por pessoas tão inteligentes quanto os mesmos se achavam.
O Regulamento do Conselho Arbitral previa que para se aprovar o regulamento de uma competição, logicamente antes do início dela, precisava-se da maioria dos votos a favor, PORÉM, DEPOIS DE INICIADA A COMPETIÇÃO, O REGULAMENTO SÓ PODERIA SER MUDADO POR UNANIMIDADE DOS VOTOS do Conselho Arbitral e não apenas pela maioria dos votos.
Esta norma existia justamente para evitar que os times com maior poder pudessem se unir e usar deste poder em favor de si mesmos, durante uma competição.
Este erro foi decisivo para que o Flamengo e seu “inteligente” presidente perdessem, no futuro, todas as tentativas jurídicas de conseguir o título de campeão brasileiro de 1987.
A CBF então fez o justo e o que estava conforme a Lei e não aceitou a falcatrua maquinada pelos mafiosos que na época estavam à frente do “Clube dos 13″, confirmando a realização do quadrangular final.
As primeira e segunda rodadas foram marcadas, mas Flamengo e Inter não apareceram e a CBF acabou marcando dois jogos entre SPORT e Guarani, sendo o primeiro em Campinas, com empate de 1X1, e o segundo na ILHA, 1X0 para o SPORT, com gol de Marco Antônio.
O fato da Globo não ter transmitido os jogos deu-se em virtude do boicote que os clubes integrantes do Módulo Amarelo fizeram à Rede Globo e à Coca-cola, que juntamente com o “Clube dos 13″ se achavam donas do futebol brasileiro e só patrocinaram os clubes do Módulo Verde.
Homero Lacerda, presidente do SPORT Recife na época, proibiu a entrada de profissionais da Rede Globo na Ilha e fechou a transmissão do jogo pelo SBT, eterna emissora rival da Rede Globo. O mesmo fez o presidente do Guarani.
O Flamengo tentou de todas as formas anular a decisão da CBF e perdeu em todas as instâncias judiciais, no âmbito desportivo e também da Justiça Comum, sendo inclusive ameaçado de punição pela FIFA, que também reconhece o título de 1987 como sendo do Sport.
Por fim, SPORT e Guarani foram homologados campeão e vice-campeão brasileiros de 1987, tendo inclusive representado o Brasil na disputa da Taça Libertadores da América de 1988.
Como se pode ver, o SPORT derrotou a todos que se dignaram a enfrentá-lo nos gramados (como o vice-campeão brasileiro do ano anterior: O Guarani) e nos tribunais (os que não tiveram decência de enfrentá-lo nos gramados, como Flamengo e Internacional).
Esta história marca a luta de um time nordestino que enfrentou sozinho o poder dos maiores times do Brasil, que unidos com a Rede Globo e a multinacional Coca-Cola, acharam que poderiam fazer prevalecer sua vontade sobre o que era justo e dentro da Lei.

Algumas mentiras que se repetem até hoje:

” SPORT e Guarani eram da segunda divisão.”
Mentira: Como poderia ser o Guarani da segunda divisão se era o vice campeão de 1986?
A segunda divisão foi disputada com os Módulos Azul e Branco.

“A CBF mudou o regulamento.”
Mentira: Quem tentou mudar regulamento, após o início da competição, foi o Clube dos 13, mas não teve êxito, pois isto só seria LEGAL com a UNANIMIDADE dos votos dos membros do Conselho Arbitral, o que não ocorreu.

” O Flamengo recebeu a taça.”
Mentira: A taça foi entregue ao SPORT e está na Ilha do Retiro, n
a sala de troféus do SPORT, para quem quiser ver.ok

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Futebol brasileiro atualmente


quando criei esse blog coloquei como um dos temas FUTEBOL NÃO ALIENADO, e o momento não é mais propício para abordar esse tema, findo o campeonato brasileiro o que vemos é a lógica brasileiro- do jeitinho brasileiro. O que aconteceu na partida do maracanã no último domingo tá publico para o mundo ver na internet. O jogador do grêmio dando instrução para não chutar mais à gol a partir daquele momento( por que o título do flamengo tava garantido) é essa a realidade do futebol brasileiro que nada mais é do que reflexo da sociedade brasileira, dos governadores que são flagrados recebendo propina, de um programa social meramente eleitoreiro e copiado dos neoliberais.
Nosso país não tem jeito e eu sozinho não vou mudar essa realidade. Só não vou é querer ter nunca essa prática.
O título do campeonato brasileiro coincide com um dos maiores escândalos políticos no Brasil. Alguém duvida que esses fatos não tem relação? quem achar que não é porque não conhece a verdadeira história da sociedade brasileira.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica de Airton Monte


Eis a crônica de virtuoso intelectual cearense Airton Monte que foi publicada no jornal O POVO no dia 5 de Março de 2009.


A morte da mãe


Meu compadre Chico Newton está sofrendo uma dor horrível, aquela dor das inenarráveis que a gente sente quando perde a mãe e que nos reduz, de forma tão cruel, à desamparada condição de órfãos. E quando já nos tornamos órfãos, quando adultos, a dor da orfandade nos fere fundo e mais profundo. Sei muito bem disso porque já vivi tal condição e que me foi supremamente difícil superá-la. Jamais senti uma dor afetiva tão por demais excruciante que chega a ser física, orgânica como uma doença terminal e na casa do sem jeito. E palavras de nada adiantam nesta hora, ficam vazias e sem nenhuma serventia.

Quando minha mãe morreu, depois de uma longa doença que me parecia interminável, eu estava de plantão no hospital e foi a voz trêmula e chorosa de minha mulher que me contou. Entanto, não sei como consegui até hoje, mantive-me em uma calma frieza, atendi o resto dos pacientes que ainda me esperavam e fui ao cemitério para ver como estavam as coisas. E ao ver a minha mãe ali morta no caixão, somente com a ajuda de uma benvinda garrafa de uísque, consegui voltar pra casa, pegar a máquina de escrever e datilografar a crônica do dia como se estivesse em um estado sonambúlico.

Ao depois que tudo passa, pelo menos parcialmente, após o enterro, as condolências vãs, o aconchego familiar, sobre nós se abatem as velhas culpas que até já havíamos esquecido: por que não tentei ser um filho melhor, não lhe dei mais carinho, não lhe perdoei alguns erros, que agora se me parecem tão inúteis? Entanto, agora já é demasiado tarde para voltar agras porque tudo acabou e a mãe é morta. E estamos simplesmente, doloridamente órfãos, sem mãe e isso é tudo que ora importa. Filhos são assim, um amontoado de culpas que jamais se dissolvem, se desmancham no ar. Ficam em nós, entranhadas feito uma unha encravada e doem.

É, esse negócio de morte de mãe é mesmo, sempre uma barra pesada, mesmo que você goste mais do pai do que da mãe. Dizer que as mães não tinham o direito de morrer, todo mundo sabe que não passa de uma mera e banal figura de retórica que a gente repete, quando em vez, pra se consolar da perda, porque a mãe, por pior madrasta que tenha sido em vida, continua sendo mãe e aureolada por uma aura de sagrado. Toda vez que quero rever a minha mãe, não vou ao cemitério, vou à casa de meu pai. É ali que seus gestos estão impressos, seus risos estão impressos, suas dores estão impressas, indelevelmente.