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domingo, 26 de junho de 2011

Airton Monte - O medidor de bobagens - 15 Abril 2011

Airton Monte - O medidor de bobagens - 15 Abril 2011


Por ser um leitor dos mais vorazes desde que aprendi a decifrar o belo, maravilhoso, irresistível universo da palavra escrita, por vezes me assomam ao bestunto variegadas frases, trechos de poemas que já se me tornaram demasiado íntimos. Tanto que, vez ou outra, me confundem os desvãos da memória e eu nem mesmo sei mais direito se fui eu quem os escreveu ou estou perpetrando criminosos plágios dos meus autores prediletos. Por isso, para evitar desastrosos enganos e roubos das ideias e pensares alheios, inventei uma espécie de aparelho mental a que denomino de “bobagímetro”, que apesar do neologismo gritantemente horroroso, me é de muita utilidade. Ajuda-me a separar o joio do trigo em meu cotidiano ofício de escrever, protegendo-me de passar vergonhas inomináveis em público.


Meu utilíssimo bobagímetro mede o índice de bobagens contidas numa frase, numa expressão sobre as quais tenho dúvidas se me pertencem ou não. Quanto maior for o nível de besteirol a pulular no que penso, imediatamente sei que é de minha autoria de modo inegável. Se houver um tantinho a mais de profundidade, de originalidade, posso ir logo tirando o cavalinho da chuva porque certamente é de propriedade de algum outro escritor. Há instantes, bem no meio de uma tarde de domingo, rabisquei no meu inseparável caderno de apontamentos:” A vida é tão bela que chega a dar medo, esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz o jovem felino seguir para a frente farejando o vento”. Após rabiscar tais palavras, fiz uma pausa para meditação, liguei devidamente o bobagímetro, tomando as minhas necessárias precauções de praxe.


Logo cheguei à conclusão óbvia de que uma frase de tamanha intensidade poética e lírica densidade em tempo algum poderia haver nascido de minha parca ideação. Perquirindo a traiçoeira memória, num repente lembrei-me tratar-se de um excerto de um poema de Mário Quintana, um dos poetas que mais costumo citar por ser um dos que mais costumo ler, reler, tresler. Confesso, aos que perdem seu precioso tempo lendo este escriba, que vejo a vida de igual maneira, pois que senão ela careceria de sentido. Da vida nunca senti medo. Da morte, tenho um pouco. Por isso falo pouco da morte e cada vez menos à medida que envelheço. Sim, pode parecer um contra-senso, mas sou mesmo um poço de contradições desde que me entendo por gente. Amo viver no claro-escuro do que penso, do que sinto, do que, em essência, me define dentro do mundo em que habito.


Estou em constante movimento de busca, de procura de algo que não sei bem o que seja, mas que existe, existe. Quem me vê assim parado, imóvel por alguns minutos, algumas horas, mal percebe que ando a viajar pelo meu dentro, a descobrir novos caminhos, lugares maravilhosos ou terríveis e há mais por descobrir, a percorrer, sempre em movimento feito o barco bêbado de Rimbaud, a jangada de pedra de Saramago. Quando enceto essas viagens íntimas, o ir possui mais importância que o chegar, faz-me sentir um homem ilusoriamente livre. O engraçado é que não me aprazem as viagens genuinamente geográficas. Gosto mesmo é de viajar pela alma, sem tirar os pés de minha cidade, meu subúrbio, minha rua. A vida é nova e anda nua, vestida apenas com o teu desejo: sussurra-me o poeta. Eu o ouço, compreendo a mensagem, obedeço. Visto a vida com meus desejos e a acho bela, adoravelmente minha.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011

Pra mim uma das crônicas mais bem escritas por Airton Monte 


Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011





O domingo amanheceu esplendorosamente banhado de sol como há tempo eu não via nessa temporada de chuvas intermitentes que sobre nós desabam sem aviso prévio e nos surpreendem quando menos as esperamos e desejamos. Faz um solzão desses que parecem incendiar o dia e cegar os olhos de quem se atreve a erguer a vista para o céu mais demoradamente. As praias devem estar pululando de gente gastando o abençoado feriado dominical. As pessoas disputam um lugarzinho na areia e fazem a alegria dos barraqueiros, dos vendedores ambulantes. As mulheres se desvestem enfiadas em biquínis minúsculos onde não cabe espaço nem para a etiqueta. Louras, morenas, negras, mulheres de todas as cores que atraem o olhar cúpido dos homens e o de outras fêmeas, pois hoje ninguém sabe mais quem é quem em matéria de preferência sexual.


Um domingo radiantemente solar, como esse que reina em Fortaleza, costuma transformar-se num pequeno carnaval. Tudo é festa, alegria, a diversão se torna a ordem do dia. Os donos de restaurante não têm motivos pra se queixar da vida, pois até mesmo nos botecos pés – de- chinelo a distinta freguesia ocupa todos os lugares disponíveis. Hoje, muitos vão encher a caveira e as emergências dos hospitais ficarão lotadas devido aos acidentes provocados pelos ensandecidos do volante e os malucos que pilotam as indefectíveis motocicletas. Nos domingos naturalmente se instala o desvairado reinado de Baco e a irresponsabilidade domina a maioria das ações humanas. E os pecados dominicais, quer sejam veniais ou mortais, já se sabe que quem os paga é a implacável segunda – feira, porque a realidade não aceita promissórias nem dívidas atrasadas.

As crianças sentirão um gostinho de liberdade depois de haverem passado a semana inteira trancafiadas na escola ou entre as grades dos condomínios. Aos domingos, as amantes geralmente amarguram a solidão, pois não receberão a amorosa visita de seus amores clandestinos, que estarão, embora a contragosto, cumprindo os obrigatórios deveres conjugais na companhia das amantíssimas esposas e dos filhos. As amantes ganharão, no máximo, um rápido telefonema de fingido carinho e as tradicionais desculpas de sempre a que já estão acostumadas enquanto ainda não possuem o domínio total da relação, que algumas conseguem e a maioria não. Semana que vem as pazes serão seladas do modo costumeiro e tudo continuará como dantes no Quartel de Abrantes da paixão. Ou não. Entanto, nesse dia cheio de suspiros o amor circula livre feito um vírus, parodiando Mário Quintana.

Ah, sim. Ia me esquecendo daqueles naturalmente dotados de pendores domésticos que preferem ficar em casa por escolha própria, aboletados diante da televisão, controle remoto nas mãos, mudando constantemente de canal como quem procura sabe-se lá o quê ou se dedicam a fazer pequenos consertos caseiros perfeitamente dispensáveis. Aos domingos, a vida parece correr mais mansa, mais pacífica. As preocupações cotidianas são varridas pra debaixo do tapete pelo menos por um dia, e por vezes o sujeito tem a ilusória impressão de que o sossego bateu à sua porta, embora saia pela janela mal chega a noite prenunciando a volta da rotina. De qualquer modo, o domingo iguala todos nós ao atiçar nossa sede insaciável de divertimento, contudo provisória. Talvez porque o sol procrastine o fim da tarde, crie ilusões à toa tal qual o vento brinca esculpindo nuvens.

Airton Monte - A salvo - 5 Abril 2011

Airton Monte - A Salvo 5 Abril 2011



Na semana que se foi, este suburbano escrevinhador cumpriu a contento, com distinção e louvor, embora com uma má vontade explícita a se refletir claramente em meu rosto, o obrigatório dever de ir ao médico. Já que tinha de ir, pois já era mais do que chegada a hora indesejada de me encontrar cara a cara com meu esculápio, eu fui. De que me adiantava adiar, inventando as mil desculpas manjadíssimas de sempre a devida visitinha? Pois então, existem coisas na vida das quais torna-se impossível esquivar-se, evitar, fingir que podem ficar para depois, porque as nossas dívidas só deixam de nos atubibar o juízo após devidamente pagas. Poucos são aqueles viventes que vão ao médico por livre e espontânea vontade, mesmo sendo sortudos possuidores de uma saúde de jumento premiado, que não sentem sequer uma prosaica dor na unha do dedo mindinho.

Sim, quem pode negar, em sã consciência, existir uma rara espécie de humana criatura que vai ao médico possuída pelo mesmo espírito alegre com que os boêmios batem o ponto diário em seus botecos prediletos. Algumas delas, para profundo espanto meu, não se contentam somente com a ida regular ao clínico geral. Não é o bastante para inteiramente satisfazê-las. Quase movidas por certa obsessão, só se dão por saciadas após frequentarem, uma empós a outra, todas as especialidades hipocráticas criadas pelo desenvolvimento das artes hipocráticas. Desejam compulsivamente obter prova após prova a certeza e a segurança de que em seu corpo e em sua mente não viceja nenhum resquício, nenhum rastro de uma talvez possível, esconsa doença.

Submetem-se, com prazer inenarrável, a todos os tipos de exames clínicos imagináveis e existentes na moderna medicina, desde um simples exame de fezes à cintilografia. Concluídas todas as investigações laboratoriais, inclusive as completamente dispensáveis, adoram sair por aí exibindo à guisa de valioso troféu a grandiosa batelada de exames realizados com a face banhada por um clarão de indisfarçáveis orgulho e euforia. Por mais incrível que pareça, tais figuras viciadas em frequentar consultórios só costumam falar sobre enfermidades, sendo as mais raras o seu assunto preferido. Resultado: previsivelmente acabam estragando qualquer conversa e enchendo o saco dos familiares e dos amigos, pois não conseguem falara respeito de outro tema.

Posso estar emitindo uma opinião mais equivocada do que previsão climática de certos profetas da chuva. Entanto, penso que tais personagens padecem de um medo fóbico da morte e acreditam que indo ao médico mais do que o verdadeiramente necessário, se colocam compulsoriamente a salvo do inevitável alcance da Belle Dame Sans merci. Para encurtar a história, que isso não é conversa pra fazer leitor dormir, fui ao médico, levando os papéis de praxe. Para meu alívio, o Doutor Carlos Roberto Vasconcelos, velho e querido amigo, disse que o câncer que me atacou solertemente o fígado não deu sinal de vida, deixando-me em paz pelo menos por enquanto. Falo por enquanto, porque com câncer não se brinca e ninguém pode se considerar plenamente seguro de que não virá a ser vítima de um novo assalto do temido caranguejo. Mas preciso engordar uns quilinhos e seguir à risca o tratamento. Notícia ruim: continuo terminantemente proibido de beber. Que importa? Viver é tão bom.

Airton Monte - Verde, só dólar!! - 4 de Abril 2011

Airton Monte - Verde , só dólar!


Pois então, dizem com ar tristonho os meus olhos quando me locomovo pelas ruas da metrópole alencarina: Fortaleza é uma cidade sem verde. E eu, diante do cenário quase desértico que me cerca, só me resta baixar a cabeça e concordar, sem discutir nem tergiversar, com a verdade explícita tão sobejamente divisada por minhas gastas pupilas. Sim, a realidade é feita do que é e não do que sonhamos ser. E a brutal verdade que de há muito vem se abatendo sobre a cidade em que sobrevivo, transito e me morro de amores é uma única, que não pode ser de modo algum negada. Fortaleza está, pouco a pouco ou cada vez mais rápido, não sei bem ainda determinar o ritmo, se transformando em uma cidade despida de árvores, como se os pés de algum Átila por aqui pisassem incessantemente.

Não faz muito, li nos jornais que cerca de cinquenta e duas árvores frondosas, das mais variegadas espécies, foram derrubadas sem a menor complacência bem no coração da Aldeota por magnatas da construção civil, que nada se importam com os males que causam ao ambiente e à paisagem urbana. O que me faz lembrar os versos de uma canção de Caetano Veloso, quando ele fala sobre a força da grana que ergue e destrói coisas belas. Porém, para quem é movido pela ganância as coisas belas carecem de importância, de significado. Eles cultivam um deus famigerado chamado de mercado, cuja lei primordial e dominante reza que todo lucro é inegavelmente honesto, desde que seja lucro. Quanto às coisas belas que vão destruindo, ora bolas, que se lixem.

As coisas belas? Deixem-nas servir de apropriado combustível para abastecer os sonhos, as visões ilusórias dos poetas, que vivem em sus mundinhos de faz – de – conta, docemente mergulhados em seus paraísos artificiais e se satisfazem em escrever palavras com que pensam ser capazes de mudar o mundo. Os poetas não entendem nada do vasto, intrincado universo dos grandes negócios, onde o dinheiro rola a rodo para quem os conhece a fundo e manipulam os cordéis quando e como querem. Os poetas tudo ignoram da bolsa de valores, da compra e venda de ações no cassino dos pregões. Os poetas jamais conseguirão aprender o poder absoluto, sem fronteiras do dinheiro e só reconhecem a importância de uma gorda conta bancária quando ficam velhos ou quando se encontram à beira de passar fome.

As coisas belas? As coisas belas não valem um tostão furado nem rendem juros nem compram o luxo e a riqueza. O mundo pertence aos vencedores, aos que alçam o mais alto cume da pirâmide social, que são sócios majoritários do exclusivo clube dos milionários. Os poetas repetem nas suas desimportantes cantilenas que cada homem vale pelo que é. Os poetas ainda não se deram conta de que, muito pelo contrário, cada homem vale mesmo é o quanto carrega no bolso ou guarda no cofre dos bancos. Os poetas não passam de uns pobres coitados, eternamente atrás de um mecenas que financie seus deletérios projetos literários, esquecidos de que a Beleza não põe comida nas suas próprias mesas. Deixem-nos sonhar acordados seus sonhares que jamais se tornam realidade. Para que necessitamos de uma cidade verde? A nós, os donos do pedaço, só nos interessa o verde das belas notas de dólar.

Airton Monte - Medo de Avião 1 Abril 2011

Voltando a publicar as excelentes crônicas de Airton Monte - Depois de quase três meses!!


Medo de avião


Lá bem no alto, no cume do céu, um avião de carreira como um cometa de prata atravessa a floresta densamente fechada de nuvens plúmbeas carregando sua carga humana. Desconheço seu destino final, quem sabe aonde vai? Talvez para um lugar distante que jamais visitarei. Ou, quem sabe, aterrissará em uma cidade mais perto do que penso. Imagino as cenas que se passam a bordo enquanto o veloz pássaro metálico segue seu rumo por mim ignorado. Certamente haverá em seu bojo aqueles passageiros iguais a mim, que morrem de medo de voar e só pensam em tragédias, catástrofes, desastres que costumam encher as páginas dos jornais. Estes, durante todo o percurso, mantêm-se crispados nas poltronas, a tensão, o medo expostos nas faces pra todo mundo ver, sem importar-se com a mangoça alheia.

Alguns, mormente os marinheiros de primeira viagem, só embarcam depois de tomarem umas boas doses etílicas de coragem, tentando controlar a fobia que os assoma dos pés à cabeça. Outros preferem ingerir um tranquilizante qualquer, uma muleta química que os ajude a atravessar o que pensam ser uma ponte balouçante sobre um terrificante abismo. Há aqueles mais temerosos que, por via das dúvidas, não hesitam em fazer promessas aos santos de sua devoção na busca aflita de um adjutório metafísico para que a viagem finde dentro dos esperados conformes e em bons termos. E mesmo assim ainda murmuram orações o tempo inteiro, um terço, um rosário pendentes entre os dedos a fim de se sentirem mais protegidos contra os azares da sorte.

Afirmam os mais sábios especialistas do ramo ser o avião o mais seguro dentre os meios de transporte e que é muito mais provável o sujeito ir dessa pra pior numa prosaica queda da cama do que em um desastre aéreo. Já eu compartilho da mesma opinião do poeta Vinícius de Moraes, que também não morria de amores pelas viagens de avião e que justificava seu pânico comentando como é que podia ser tão seguro assim um aparelho mais pesado do que o ar e movido pela energia de motores a explosão? Também acho, apesar de todas as afirmações e estatísticas em contrário. Sei lá. E se o bicho resolver dar zebra logo no meu voo, me levando pros confins do beleléu? E me reduzindo a um número a mais no rol dos acidentes por mais rara que seja a possibilidade. Prefiro não arriscar-me à toa e só entro num aeroplano se for caso de urgência extrema e não houver jeito de chegar aonde sou forçado a ir.

Juro que nutro uma profunda, imensa inveja daqueles que são destituídos do pavor avionário e que se sentem tão à vontade dentro de um Boeing como se estivessem confortavelmente em casa, mansamente instalados em sua poltrona predileta gozando as delícias de um domingo solar. Penso que a popular expressão voar de avião jamais constou nem constará de meu dicionário pessoal pelo fato de que dentro de uma aeronave você não voa. Na verdade, você é voado, pois nenhum homem, ao que eu saiba, nasceu dotado de um par de asas. Para piorar a situação, dizem que a maior parte dos desastres aéreos é fruto de falha humana, como se as máquinas fossem infalíveis. É por essas e outras que prefiro restar assentado de pés em chão firme, alçando voo somente na minha imaginação, animal bípede e pensante que sou por minha própria natureza.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Airton Monte - Desejo e Sonho

Airton Monte - 23 Fevereiro 2011 -

Desejo e sonho


Neste mês de fevereiro, os dias transcorrem, climaticamente hesitantes, entre o claro – escuro, com o sol brincando de esconde – esconde por entre as nuvens chuvosas, feito a alma da gente que também segue o mesmo ritmo. Ora estamos refulgindo de alegria e bom humor, ora estamos obscurecidos por eventuais laivos de tristeza. Naturalmente, este balanço pendular das emoções faz parte inevitável da chamada condição humana. O ser humano, em essência, não foge à regra de ser um habitual poço de ambiguidades. E é justamente essa capacidade de sermos imprevisíveis que nos torna interessantes, especiais, um mistério jamais de todo desvelado. Um processo contínuo de descobertas pessoais infindáveis. Uma equação, um teorema impossível de ser concluído com a tradicional expressão final do como queríamos demonstrar.


Penso, em relação ao ser humano, que a célebre indagação freudiana “o que querem as mulheres” deveria ser substituída, para tornar-se muito mais coberta de veracidade por outra mais abrangente: o que quer a humanidade? Aprendi, com os livros escritos por filósofos e sábios, e com a minha própria experiência existencial, ser o homem uma máquina de fabricar desejos e sonhos, que nada mais são do que o motor de nossa breve existência. Estamos sempre desejando algo que ainda não possuímos feito um menino querendo um brinquedo novo e quando o tem em suas mãos, brinca com ele durante alguns dias e logo o abandona, o deixa de lado, esquecido na caixa dos brinquedos velhos. É assim que somos de maneira fundamental e incorrigível. Humanidade, teu nome se chama desejo. Sobrenome insatisfação.


E os sonhos, como é que ficam, onde adentram esta história? E eu respondo, do alto da minha insignificância e da minha filosofia de botequim, que também somos uma máquina sonhar. E sonhamos incessantemente os sonhos mais possíveis quanto os mais impossíveis de serem realizados. Desejos e sonhos não passam de férteis produtos da mesma matriz que povoa nossos corações e mentes. O que seria de nós sem os nossos desejos e nossa, por vezes tola, mas poderosa capacidade de sonhar? Um homem sem desejos e sem sonhos é sinônimo perfeito de irrealidade, de uma entidade ilusória que só existe, viceja no pensamento empobrecido daqueles desesperados que não acreditam em mais nada. Um homem sem sonhos, sem desejos trata-se de uma vera impossibilidade, a não ser quando se está morto, com residência fixa na popular cidade dos pés juntos.


Sim, claro, bem sei que nem todos os desejos podem ser passíveis de realização, assim como a maioria dos nossos mais acalentados sonhos conseguem baixar em nosso terreiro. Coisas da vida, percalços do existir. Por isso, findamos por nos transformar, aqui e ali, em animais assoberbados de insatisfação com nós mesmos, com Deus e o mundo. Nossa curta passagem terrenal oscila entre o piquenique e o vale de lágrimas, entre o carnaval e a quarta – feira de cinzas. E daí? Desejar e sonhar, resistir quem há de? Eu não fujo à regra. Confesso-me movido a sonhos e desejos como qualquer dos meus semelhantes. Quanto mais por baixo estou no carrossel da vida, mais sonho e mais desejo. Sou um incurável usuário e dependente eterno do sonhar e do desejar. Sim, olho-me no espelho. Obviamente percebo que envelheci. Entanto, em cada ruga que me vinca o rosto, sonho e desejo fizeram moradia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Airton Monte - O Observador

Airton Monte - O Observador - 16 Fev


A tarde parece que anda meio gripada, soltando pequenos espirros, com a coriza intermitente de rápidos chuviscos. A tarde está fria, porém meu coração está quente feito um pão recém-saído do forno. Meu cachorro não para de correr arrodeando todo o espaço do quintal como quem procura alguma coisa indefinida, que somente ele sabe. Talvez também esteja sentindo falta do velho gato gordo que caçava pombos invisíveis pelos beirais dos telhados vizinhos da casa onde morávamos. Os animais possuem lá a sua memória, embora muita gente não acredite. Há passarinhos destemidos, que ignoram o medo e o perigo, tranquilamente pousados nos fios esticados por entre os postes. No sobrado em frente, um pai, que deve ser de primeira viagem, brinca com o filho entre os braços, falando aquela linguagem tatibitati que os adultos pensam que as crianças falam e entendem.

Três horas da tarde em ponto. Ainda é cedo e está longe de escurecer. O dia transcorre escorrendo rotina. Abro o jornal e leio uma notícia estarrecedora. Dois adolescentes assaltaram um ônibus, atiraram em outro jovem e se deixaram olhando a vítima agonizar durante quase trinta minutos. Marcas da maldade humana que se tornam cada vez mais habituais em nossa cidade como a crueldade e a violência. Meu Deus, a que ponto chegamos? Que País é esse onde jovens mal saídos da infância matam outros jovens friamente, não demonstrando sequer um pingo de sentimento? Esses jovens assassinos, se ninguém percebe, são os mesmos que, enquanto crianças, nos pedem moedinhas nas paradas dos sinais de trânsito e nos fitam com olhos de sobreviventes de guerra, de uma guerra urbana que não tem mais fim.


Ao mesmo tempo, em outras páginas, o jornal estampa fotografias de jovens estudantes de bons colégios, que saíram vencedores nos vestibulares mais difíceis desta nação. Estes sonham com um futuro pleno de realizações. Os jovens que matam não sonham com o futuro porque não acreditam mais nele e preferem ganhar o tempo presente de arma na mão e cheirando a pedra maldita que os faz esquecer o seu destino já traçado desde que nasceram. Sabem que a vida vai lhes ser breve e que um dia a bruxa lhes pega dentro da cadeia ou numa viela da periferia, mesmo sendo o rei do pedaço. Para mim, o mais nefando crime que se pode cometer contra uma criança é roubar-lhe a infância. Os jovens vencedores tiveram uma infância. Os jovens matadores, não. Já nasceram quase adultos.


Que ninguém venha pensar que estou defendendo os jovens criminosos, botando toda a culpa no cartório do social, porque se nascer em berço de ouro imunizasse contra tendências delinquentes, rico não roubava e faria parte de uma legião de anjinhos de asinhas brancas, tocando suas harpas, aureolados de santa honestidade. E filhinhos de papai não se divertiriam ateando fogo em moradores de rua. Se me perguntarem se sou a favor do endurecimento do código penal, respondo que sou, inclusive da prisão perpétua. Se sou a favor de acabar com a impunidade dos “de menor”, também respondo que sou. Para mim, bandido é bandido, tenha 13 ou 70 anos. De tudo isso, dessa guerra urbana que grassa e viceja sem freios no Brasil, só tenho uma certeza: nós todos somos, sem nenhuma exceção, vítimas e cúmplices como esta tarde que escurece mais cedo é cúmplice do temporal que pode desabar mais tarde.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais uma do do cronista Airton Monte - 10 Fevereiro 2011

Estou com saudades da antiga casa onde morei durante longos 16 anos, da rua José Sombra, dos vizinhos, da calma que reinava aos fins de tarde de domingo. Ainda não me acostumei de todo com a nova moradia, da qual, por enquanto, não me arrisquei a explorar os arredores. Entanto, bem sei que toda mudança traz consigo boas coisas e coisas ruins e é um tanto quanto difícil habituar-se às inevitáveis diferenças. Os amigos não param de telefonar, me convidando para sair, espairecer os pesados ares que pairam sobre minha cabeça. Porém, vontade não tenho nenhuma de botar os pés fora de casa. Acho que virei um ermitão por esses dias, mergulhando numa solidão forçada que não é própria de mim, mormente aos sábados e domingos, quando me aperta a saudade dos bares prediletos e das conversas sem fim com quem divido o copo e o afeto.


Escrevo afagado pela brisa mansa do quintal, enquanto a tarde se encomprida já com os braços abertos para a chegada do anoitecer. Ao meu lado, minha mulher vasculha os jornais em busca de notícias que prenunciem o desencadear de um novo apagão. Estou tão caseiro que só me falta vestir um pijama de listas e calçar pantufas, sem esquecer do radinho de pilha grudado ao pé do ouvido. Um adorável odor de carneiro assado se espalha pelo ar vindo de um restaurante próximo e carros vão e vêm cheios de fregueses habituais e turistas. De qualquer modo, não posso afirmar que o dia esteja transcorrendo num clima desagradável apenas por restar em casa, sentado a uma mesa, escrevendo o que me vem à cabeça, ao invés de haver ido passear pela cidade, descobrindo novidades, aproveitando o domingo, como muita gente está fazendo agora.


Engraçado, daqui da nova casa, consigo ouvir o carrilhão dos sinos da Igreja dos Remédios convocando os fiéis para a missa das cinco, o que me dá uma boa sensação de familiaridade. Paro por alguns minutos o que estou fazendo e me deixo a ouvir os sinos como se rezasse. Isso me faz pensar no que diz Dona Lúcia Dummar:será que minha religiosidade está voltando? Sinceramente falando, não sei se seria bom ou mau para este suburbano escriba a esta altura da existência. Porém, não é nada que cause grandes preocupações diante de tantas outras inquietações terrenais que me corroem a alma. Questões e problemas que infestam meu cotidiano e que não me dão mais tempo para pensar em mais nada a não ser na sua pragmática resolução. Mas, viver é assim mesmo, com marés cheias e marés secas, tempestades e calmarias e que é preciso, como um velho marinheiro, ir levando o barco devagar.


Na verdade, penso que estou com saudade de tudo que deixei pra trás. Para ser mais preciso, acho que estou mesmo é com uma saudade agoniada de mim, de como eu era e estava há uns três meses atrás. É, por vezes, a gente sente saudade da gente. Outrossim, de que me adianta ficar chorando, macambúzio pelos cantos, se a vaca foi pro brejo e eu não nasci com vocação para caubói? Pior seria se eu não sentisse nada, se minhas todas emoções de súbito congelassem e me transformassem a alma numa geleira glacial. A vida continua seguindo seu ritmo cá dentro e fora de mim com seus prazeres, alegrias, tristezas e angústias habituais. Isto é o que se chama da velha condição humana. Mas que me vem um desejo de beber até o mais profundo esquecimento, de ser, por esta tarde a goela sedenta da cidade inteira. Ah, isso dá. Porém não posso, não devo, não quero.


Airton Monte - 8 de Fevereiro de 2011


Eu juro que sim, por Deus do céu e tudo quanto é mais sagrado nesse mundo e no outro, que há certas coisas predestinadas a acontecerem somente comigo e geralmente de uma maneira absolutamente inexplicável. Coisas que me sucedem sem que eu delas careça, as deseje ou as peça a não sei qual entidade. Outro dia, chegou-me às mãos uma dessas pesquisas surpreendentes ou não tanto, realizada não sei onde e feita por não sei quem (na Internet se acha cada coisa) sobre os hábitos de leitura do varonil povo brasileiro. Pelos meus olhos incrédulos passou uma relação de números cruéis, implacáveis, inacreditáveis, que me revelaram uma pobre nação de apedeutas pertencentes a todas as classes sociais, sem exceção.

Imaginem que 50% da nossa pátria população, que ainda sabe ler, não lê sequer revista de quadrinho, quanto mais livros. O restinho que pratica o ato da leitura, o faz muito mais por alguma imposição estudantil do que exatamente por puro deleite e prazer. Além do mais, pra piorar consideravelmente a situação, apenas uns míseros nove por cento dos que se afirmam letrados são capazes de meter a mão no bolso e comprar um livro regularmente, por mais barato que seja. E uns escassos sete por cento pegam num livro para desfrutá-lo. Isso sem falar num porrilhão de gente que jamais adquiriu na vida um simples jornal, uma mera revista, um prosaico álbum de figurinhas.


Mesmo nas classes mais abastadas, em que dinheiro não é problema, a ojeriza à leitura permanece sendo mais a regra do que a exceção. Portanto, devo concluir que tamanho analfabetismo cultural não é somente fruto de diferenças sociais. Por ordem de preferência popular, os autores mais lidos no Brasil são aqueles dos manuais de auto-ajuda, de livrinhos de caubói e de historinhas açucaradas de amor vendidos em banca de jornal e, claro, o indefectível Paulo Coelho. Não sei, talvez seja por uma crônica falta de intimidade com a leitura, que qualquer fulano capaz de alinhavar duas ou três frases num papel vai logo sendo rotulado impunemente de escritor, com toda a pompa e circunstância de que se acha merecedor e não demora a pleitear um lugar em uma de nossas várias academias.


E pela enxurrada de lançamentos de livros que inunda nossa Taba de Alencar, bem que Fortaleza merece ostentar o título de cidade com mais escritores por metro quadrado do mundo, merecendo entrar com louvor e mérito no livro Guiness de recordes. E haja uma galopante inflação de primas obras perpetradas por poetinhas imberbes, matronais senhoras, provectos senhores que acabam sendo citados nos jornais como grandes autores da moderna literatura cearense. Lançam, todos os dias do ano, sugestivos títulos como Baú de Recordações, Coivara de Letras, O Último Burro, Respingos de Felicidade Conjugal, Pomar de Sonhos, A Lira Esplendorosa e outras barbaridades que tais. Todos se consideram gênios da raça. Vivemos atualmente um torturante dilema de mercado, numa terra onde os “escritores” são infinitamente mais numerosos que os leitores.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Airton Monte Os Extremas

Airton Monte - Publicada em 11 de Fevereiro de 2011

Airton Monte - Os extremas

No começo, bem no comecinho da história do futebol no Brasil, na época longínqua em que o introdutor do glorioso esporte bretão em nosso país, Charles Miller, trouxe a primeira bola da Inglaterra, os extremas eram chamados de “wingers” e Garrincha ainda não havia nascido, nem Julinho, nem Canhoteiro, nem Pepe, nem Sir Stanley Mathews, verdadeiras lendas vivas dessa posição ora em extinção na prática do ludopédio em todos os cantos do mundo. Ao depois, quando me entendi por gente, lá pelos quatro aninhos de idade, ao aprender a ler praticamente sozinho nas páginas dos jornais, a história já havia mudado. Nesse tempo, os caras que jogavam pelas bordas do gramado ou eram laterais ou eram pontas, ponteiros. Os laterais defendiam, os pontas atacavam como livres atiradores.



Não importava a maneira como eram chamados. Quer fossem wingers, pontas, ponteiros, extremas, o que essencialmente os caracterizava como tais, a sua razão de existir era o drible, a ginga, o balanceio do corpo, armas fatais com as quais iludiam, ludibriavam os seus implacáveis marcadores, ultrapassando-os e rumando, céleres bailarinos, em direção à linha de fundo e de lá cruzavam a pelota, alçando a bola, como um poético míssil, com uma precisão cirúrgica, na cabeça ou nos pés dos artilheiros. Em minha cabeça, as memórias do que vi tantas vezes das arquibancadas dos estádios, me ajuda a imaginar a cena lúdica, artística:Garrincha, com a esfera entre os pés, encara, imóvel, o seu feroz adversário, o Maracanã inteiro guardando o mais completo silêncio. Súbito, uma pausa, o rápido movimento, o drible, o cruzamento e Quarentinha, dentro da grande área, fuzila o goleiro e gol.



Os extremas, os pontas sempre foram ou deveriam ser o símbolo maior da existência do inesperado no futebol. Cabe a eles a criação da poesia presente nos campos sob a forma sutil de um drible capaz de arrancar os risos e a admiração da platéia, porque todo ponteiro possui um quê de Carlitos, seja num jogo de copa do mundo ou numa pelada de várzea. Tanto faz, como tanto fez, se é ponta direita ou ponta esquerda, os extremas devem ter, obrigatoriamente, o talento e a indispensável capacidade de improviso de um músico de jazz ou de um chorinho brasileiro, com indubitável certeza. Os extremas devem ser imprevisíveis, pois guardam em si a essência maravilhosa do surpreendente. Nunca se sabe o que a sua imaginação vai inventar na hora de driblar. A ginga do jogo, o vai-não-vai e quando o defensor se dá conta, o extrema já se foi, lépido e fagueiro, agitar a zona do agrião.



Posso estar completamente equivocado, porém, discordo em gênero, número e grau da esmagadora maioria dos que amam o balípodo, sejam torcedores ou profissionais da crônica futebolística, que proclamam, aos quatro ventos, ser o gol o orgasmo do futebol. Todos eles podem estar cobertos da mais plena razão e quem sou eu para dizer que todos estão errados na sua abalizada opinião? Entanto, na minha modesta visão de frequentador de mais de cinquenta anos de arquibancada, o lídimo, claro e verdadeiro orgasmo do futebol é, em verdade, sua majestade, o drible, além de considerá-lo uma verdadeira arte. Se há um jeitinho brasileiro, despido do menor resquício de desonestidade, esse é o drible e o drible é o que define os extremas. Eu vi Garrincha driblar e descobri, entre espanto e maravilha, que naquelas pernas tortas residia o mágico segredo do futebol de todos os extremas, assim na terra como no céu.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Airton Monte _ "Solidão"

não pecisa nem dizer que a crônica a seguir é de Airton Monte!!! Se Chama " Solidão"" Mui bem escrita!!!!!!!!!!



Solidão


É meia-noite, assim me diz o meu relógio e mesmo sem querer acreditar, eu tenho que simplesmente acreditar. Quem de nós vai se arriscar a brigar com o tempo? É, pois é, como poetaria Gonzaguinha: vida vamos nós e não estamos sós. Meia noite. A Hora Grande. Parece que vejo fantasmas, ah, mas fantasmas perfumados de jasmins me diz o amigo de todas as horas de atroz solidão: Chico Buarque de Holanda. É meia noite e escrevo, solitário, mas não tanto. Na verdade eu sempre estive só, tão só, que me habituei à solidão, velha companheira.

Que saudades do meu pai, que a esta hora, merecidamente, já deve estar amortalhado nos braços generosos de Morfeu, imerso, no mínimo, no sétimo sono. Que vontade de ligar para o meu bom amigo Erle Rodrigues, mas fico com medo de incomodá-lo. Afinal, já passa da meia noite e meu velho amigo Erle Rodrigues já deve estar no mais completo repouso. E, aqui pra nós, que direito tenho eu de incomodar os meus amigos a esta hora tardia da noite? Sim, estou sozinho, no alpendre de casa, com meus cachorros, embora toda solidão do mundo resida em mim.

Claro, meu caro poeta Airton Monte, que você está absolutamente sozinho nesta noite de merda ouvindo Al Jarreau e daí? E daí cara? Você está crescido, você é uma merda de um sujeitinho de cinqüenta e nove anos e todo o resto da vida pela frente. Pois sim. Contudo, me pergunto, um tanto quanto inquieto: mas que tipo de vida? Morando em casa alugada, eternamente preocupado com a bosta do dinheiro e a oficial extorsão do imposto de renda. Nada disso tem qualquer importância. Nada, neste momento tem a menor importância. Nem a morte dos meus filhos.

Nada, nesse momento único e insuportável, carece de importância. Ponto. Parágrafo. E começar de novo a tecer novas palavras, tantas quantas me sinto capaz. E a noite vai seguindo o seu ritmo. E eu não consigo ouvir estrelas, a não ser que todas se chamassem Marilyn Monroe. Enquanto isso, o demoniozinho que habita em mim me diz, me aconselha que eu me embriague e beba toda a cerveja do mundo. Embriagar-se é uma saída muito fácil. Prefiro encarar a solidão de frente que nem um sapo engolindo um cigarro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Será mesmo?

Reproduzindo, como sempre faço sempre que posso a também sempre boa crônica do alencarino escritor Airton Monte, foi publicada no jornal O POVO tem por título " Será Mesmo?".


Será mesmo?


Mal começo a escrever, me vem ao atabalhoado bestunto um pensamento meio fora de hora. Nada mais, nada menos que as longas tardes de sábado foram particularmente criadas para se conversar com os amigos sem nenhuma pressa, desfrutando o tempo que nos é dado de mão beijada, generosa oferenda. Apenas conversar sobre o tudo e o nada, sobre os assuntos mais importantes e desimportantes (na nossa abalizada opinião, é claro), sobre aventuras passadas e presentes, quer sejam reais ou fictícias, sobre peripécias vividas, trocando ideias, confissões íntimas, piadas, prazeres e sofreres. Falar a respeito da vida e da morte e suas dimensões inesperadas. Não é o que costumam fazer os amigos de longa data quando se reúnem em uma democrática mesa de bar?


Só sei que desses encontros saio de alma lavada e enxaguada, consideravelmente revigorada para enfrentar durante a semana as agruras do cotidiano. No último sábado, apesar da ressaca do réveillon, a cidade já acendendo suas luzes, eis-me a papear, primeiro, com Erle Rodrigues, que há tanto tempo não revia, cuja presença inevitavelmente me premia com uma boa conversa e libertadoras gargalhadas. Vai-se o Erle, lá se vem Audifax Rios. Pensei cá comigo: hoje é meu dia de sorte. A noite avança mais um pouco, despede-se o Audifax não sem antes me ofertar o seu opúsculo:Travessia Rio-Mar. Finalmente, vão se esvaziando as mesas do Flórida e chega a minha vez de dar adeus às armas. Apesar de boêmio, sou pai de família, marido exemplar e dos mais virtuosos, embora seja difícil de acreditar.


Bom voltar pra casa, pro meu mundinho singular, onde tudo é ordem e todas as coisas que me pertencem possuem um nome próprio porque nomeadas por mim. Nada de escrever nas noites de sábado, salvo se premido por uma pertinaz e incômoda urgência. Satisfeito por não ter obrigações nem compromisso com as palavras, concedo às volúveis musas de plantão a sua ansiada folguinha semanal, que elas bem merecem. Sábado à noite, para mim, torna-se sinônimo de leitura, não de oficina de palavras para preencher o vazio do papel. O outro dia domingo nascerá, o dia do inesperado, dos acontecimentos puramente fortuitos. Agora, confortavelmente instalado no alpendre da casa, me acossa um sentimento inquietante, eivado de uma súbita solidão.


Neste exato momento, sou um homem tão só. Percebo-me irremediavelmente só feito um Robinson Crusoé sem radinho de pilha, como certamente diria Nelson Rodrigues e nada, absolutamente nada posso fazer a respeito. Há correntes, grades, trancas, cadeados nos meus sentimentos. Meus afetos foram postos a ferros como remadores num porão de navio, até meu coração esqueceu os idiomas naturais da transcendência. As minhas palavras estão chumbadas no desvão da indiferença por tudo que me cerca. E, por ora, dispensam a existência e a presença do próximo. Por baixo de uma aparente calmaria, as emoções submersas desembestam incontidas, irrefreáveis. Sei que depois tudo isso passa sem deixar vestígios e volto a ser aquele sujeitinho vulgarmente simpático que sempre fui e demonstro. Será mesmo?


Airton Monte - publicada no Jornal O POVO de 6 de Janeiro de 2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo

Reproduzindo a sempre excelente crônica do completo Airton Monte, o tema é o atual e se chama Ano Novo.

Ano novo



Não se pode dar um passo, ao botar os pés fora de casa, sem que nos façam a indefectível e paulificante perguntinha: onde vai passar o Réveillon? Eu, só pra me livrar dos chatos de plantão, logo respondo com uma mentira épica, dizendo que vou festejar em Paris com a cara mais lavada do mundo. Ah, quem me dera a felicidade de passar o Ano Novo em Paris, bolsos estufados de dinheiro e nenhuma preocupação no juízo, longe desse mundinho habitual e comezinho em que habito. Todavia, vou ficar por aqui mesmo, na minha cidade, na minha casa, comemorando com minha mulher feito um casal de noivos de meia idade, porquanto nossos filhos, jovens pássaros fujões, vão alçar voo para outras pairagens, no que fazem muito bem, pois voar é com os pássaros.

Jamais entrou em minha teimosa cabeçona chata a tradicional caracterização do Ano Velho na figura de um caquético macróbio, vestes puídas, longas barbas brancas, apoiado numa bengala. Nem a do Ano Novo em forma de bebê recém-nascido, envolto em fraldas. Pra mim, é mais um ano que vivi e mais um ano que viverei, alimentando os sonhos e esperanças de sempre, no aguardo de que o que me vem pela frente seja melhor do que o que para trás ficou. Há mais rugas sulcadas em meu rosto e passados dissabores em meu coração. Porém, vou levando em frente a minha história, escrevendo-a com minhas próprias mãos. Nessa matéria de viver, não se reescreve o que já foi escrito. Um novo ano pede palavras novas e páginas em branco e abomina o mata-borrão e velhos personagens.


E as tradicionais promessas de fim de ano? Aquelas que se costuma fazer, genuflexo e de mãos postas, na empolgação do calor da festa? Já me tinha prometido não fazê-las, pois dificilmente as cumpro e mal as faço, logo delas me esqueço tão rapidamente quanto as fiz. Mudar de vida, abandonar alguns hábitos, largar certos vícios, assumir novas posturas, escrever o romance de minha geração, ganhar o Prêmio Nobel, tornar-me o mais perfeito marido da face da Terra. Deixar de fumar é-me imprescindível, se quiser continuar vivo. Mudar de casa também é impossível recuar, coagido que estou pela força das imobiliárias circunstâncias, a não ser que aconteça o milagre de ganhar na loteria, com a ajudinha providencial de São Francisco.


Ficar mais um ano sem beber? Fico porque é o jeito. Meu fígado combalido ainda implora por um tantinho a mais de sossego. Outrossim, como diria meu sábio irmão Vessillo, os médicos podem me proibir de beber, mas não de ter sede. Entanto, me descasar da boemia, isso nem sequer pensar. Apreciar as mulheres bonitas faz parte da minha natureza, portanto, nessa questão, não prometo nada. Em compensação, prometo demonstrar mais tolerância com a burrice alheia, inclusive a minha. Aprender a cozinhar está completamente fora das minhas cogitações, assim como gostar de ir à festa de menino novo. Pagarei minhas dívidas na medida do possível, principalmente com a Receita Federal. E assim, dando os trâmites por findos, que venha o Ano Novo e nos traga a Paz de que o mundo anda tão precisado.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Beleza, coragem, medo

Postei hoje a excelente crônica do poeta e escritor Airton Monte , suas crônicas são publicadas diariamente nas páginas do bom jornal O POVO , sempre publicada das segundas as sextas-feiras.
Eis abiaxo o bom texto:


Beleza, coragem, medo


No alpendre de casa, curvado sobre a mesa de trabalho, eis-me a postos. Ainda é cedo da noite. Sei que a maioria das gentes está tentando voltar pra casa depois de mais um dia de trabalho. Alguns ficarão no meio do caminho, parados por um acidente ou pela bala de um assaltante. Outros, simplesmente estancaram nos bares de costume e como se trata de uma sexta-feira, certamente esquecerão da hora do retorno, porque fazem parte dessa estranha confraria do vermute, do conhaque e do traçado, como cantava Nelson Gonçalves pelas ondas do rádio. Entre um anestésico e outro se vai levando a vida em qualquer cidade do mundo, porque em qualquer cidade do mundo o ser humano é sempre igual em seus desejos.

Olho o relógio: sete e meia da noite. Tão cedo e tão tarde. Para nada. Para tudo. Ou para coisa nenhuma. Minhas costas doem. Levanto-me, caminho um pouco em torno de mim mesmo como se me procurasse de mim distante. E estou tão perto que, por alguns instantes, nem sequer me vejo. Vou até o jardim. Ergo os olhos. Nuvens esparsas no céu claro. Baforadas noturnas de Deus. Na infância, lembro que perto de casa havia um velho marinheiro. Depois do jantar, ele ficava sentado na calçada, repousando em sua velha espreguiçadeira, fumando seu cachimbo e esculpia a fumaça em diversas formas geométricas. O menino que eu era ficava completamente fascinado e pensava que, além de marinheiro, ela também era um mágico aposentado.

Olho o relógio outra vez: oito horas. Volto a sentar-me à mesa de trabalho. Será que o mundo não é tão vasto e tão vário quanto o penso ser? Que pergunta mais besta, mais boba, mais ingênua essa que me fiz, igual a tantas outras que me faço. Ah, de quanta mesmice não sou eu capaz. De quanta besteira escrita em letras garrafais. Preciso tomar um pouco de tento, lapidar com mais vagar meu pensamento. Burilar um pouco mais palavras, frases, escrever algo que tenha, pelo menos, um modesto quê de original. Meus olhos míopes ardem um pouquinho sob a luz rala que me vem do teto. Retinas gastas que muito viram e preferiram calar como se nada houvessem divisado.

Uma borboleta negra, enorme, pousa na grade do quintal. Sinal de sorte? De mau agouro? Ou apenas um mero acaso? Houve um tempo, bem me lembro, em que eu tinha um verdadeiro pavor de borboletas negras, que o povo chamava de Bruxa. Interessante, hoje não tenho mais. Engraçado, com o avançar da idade, meus medos foram todos lentamente desaparecendo. E viver sem medos torna a vida chata demais. É preciso um tantinho assim de medo para se ter coragem. A coragem e o medo se transformam em coisas tão banais à medida que você se apaixona desmesuradamente pela beleza e apaixonar-se pela beleza nada mais é do que apaixonar-se pela vida.


Airton Monte - Publicada no jornal O POVO no dia 2 de Novembro de 2010

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica de Airton Monte


Eis a crônica de virtuoso intelectual cearense Airton Monte que foi publicada no jornal O POVO no dia 5 de Março de 2009.


A morte da mãe


Meu compadre Chico Newton está sofrendo uma dor horrível, aquela dor das inenarráveis que a gente sente quando perde a mãe e que nos reduz, de forma tão cruel, à desamparada condição de órfãos. E quando já nos tornamos órfãos, quando adultos, a dor da orfandade nos fere fundo e mais profundo. Sei muito bem disso porque já vivi tal condição e que me foi supremamente difícil superá-la. Jamais senti uma dor afetiva tão por demais excruciante que chega a ser física, orgânica como uma doença terminal e na casa do sem jeito. E palavras de nada adiantam nesta hora, ficam vazias e sem nenhuma serventia.

Quando minha mãe morreu, depois de uma longa doença que me parecia interminável, eu estava de plantão no hospital e foi a voz trêmula e chorosa de minha mulher que me contou. Entanto, não sei como consegui até hoje, mantive-me em uma calma frieza, atendi o resto dos pacientes que ainda me esperavam e fui ao cemitério para ver como estavam as coisas. E ao ver a minha mãe ali morta no caixão, somente com a ajuda de uma benvinda garrafa de uísque, consegui voltar pra casa, pegar a máquina de escrever e datilografar a crônica do dia como se estivesse em um estado sonambúlico.

Ao depois que tudo passa, pelo menos parcialmente, após o enterro, as condolências vãs, o aconchego familiar, sobre nós se abatem as velhas culpas que até já havíamos esquecido: por que não tentei ser um filho melhor, não lhe dei mais carinho, não lhe perdoei alguns erros, que agora se me parecem tão inúteis? Entanto, agora já é demasiado tarde para voltar agras porque tudo acabou e a mãe é morta. E estamos simplesmente, doloridamente órfãos, sem mãe e isso é tudo que ora importa. Filhos são assim, um amontoado de culpas que jamais se dissolvem, se desmancham no ar. Ficam em nós, entranhadas feito uma unha encravada e doem.

É, esse negócio de morte de mãe é mesmo, sempre uma barra pesada, mesmo que você goste mais do pai do que da mãe. Dizer que as mães não tinham o direito de morrer, todo mundo sabe que não passa de uma mera e banal figura de retórica que a gente repete, quando em vez, pra se consolar da perda, porque a mãe, por pior madrasta que tenha sido em vida, continua sendo mãe e aureolada por uma aura de sagrado. Toda vez que quero rever a minha mãe, não vou ao cemitério, vou à casa de meu pai. É ali que seus gestos estão impressos, seus risos estão impressos, suas dores estão impressas, indelevelmente.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Em breve postarei a crônica " Sombras da madrugada insone"
Em breve!!!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

NA HORA DO ALMOÇO

Na hora do almoço, sou tomado por uma vontade de sair zanzando pela cidade e fotografar as cenas cotidianas, no exato momento da aproximação da alta tarde.Embora eu esteja com o estômago jejuno, minha mente está bem próxima a dá à luz diante do sentimento de mundo, desejo de ver de perto as coisas acontecerem, mais precisamente onde a raça humana anseiam para suprir suas necessidades alimentares do corpo e assim seguirem indo. Sim, pois é, é regra que a ceia vital para todos da raça humana, se faz aproximadamente na hora grande, num raro momento em que os ponteiros dos relógios se entrecruzam no maior dos numerais de seu circulo ilógico que formam as horas. ( O homem é sempre escravo do tempo)

A cena mais marcante desse meu itinerário se deu numa birosca ( parecia mais um botequim do que uma birosca, de qualquer maneira dá no mesmo) onde o proletário exaurido matinal, devorava vorazmente o seu alimento posto ali diante dele. A volúpia do comensal era tamanha que ele quase nunca erguia a cabeça, sua face estava quase enterrada na funda travessa. Comia ali sem nenhuma etiqueta ou classe, nem talheres mais refinados. Trajava-se de uma veste tão modesta quanto sua ceia, mas sua única preocupação era saciar sua vontade de comer. Terminado o rápido banquete( para ele ali era o seu verdadeiro banquete) o nutrido trabalhador demonstra sua religiosidade ao fazer um pelo sinal, mesmo sendo apressado e mecanicamente. Ele começa a divagar sobre a condição daqueles que ele deixou em casa. Indaga a si mesmo se sua prole está tão satisfeita fisiologicamente quanto ele naquele momento de satisfação momentânea. Provavelmente sim, conjectura ele.

Agora o sol vai a meio caminho, e o único rumo que pretendo tomar é em direção a minha casa. A vontade e a necessidade de alimentar-me só não é maior que a vontade de escorrer minha patética poética que se encontra escondida no canto mais obscuro do meu cérebro e não que sair por agora.

Distorcendo um pouco o escrito hebraico digo: nem só de pão vive o homem, mas nesse momento cheguei ao limite de meu corpo, sequioso por alimentar-se de pão, um pão que não é simbólico e nem metafórico. Preciso de pão literalmente.

João Davi de Sousa Queiroz