Escrevo pouco, crio menos ainda, copio bastante e as vezes construo períodos em língua de Camões sem muita lógica e para satisfazer meus prazeres bestiais e ocultos
domingo, 26 de junho de 2011
Airton Monte - O medidor de bobagens - 15 Abril 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011
Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011
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Airton Monte - A salvo - 5 Abril 2011
Airton Monte - Verde, só dólar!! - 4 de Abril 2011
Airton Monte - Medo de Avião 1 Abril 2011
Medo de avião
quarta-feira, 9 de março de 2011
Airton Monte - Desejo e Sonho
Desejo e sonho
Neste mês de fevereiro, os dias transcorrem, climaticamente hesitantes, entre o claro – escuro, com o sol brincando de esconde – esconde por entre as nuvens chuvosas, feito a alma da gente que também segue o mesmo ritmo. Ora estamos refulgindo de alegria e bom humor, ora estamos obscurecidos por eventuais laivos de tristeza. Naturalmente, este balanço pendular das emoções faz parte inevitável da chamada condição humana. O ser humano, em essência, não foge à regra de ser um habitual poço de ambiguidades. E é justamente essa capacidade de sermos imprevisíveis que nos torna interessantes, especiais, um mistério jamais de todo desvelado. Um processo contínuo de descobertas pessoais infindáveis. Uma equação, um teorema impossível de ser concluído com a tradicional expressão final do como queríamos demonstrar.
Penso, em relação ao ser humano, que a célebre indagação freudiana “o que querem as mulheres” deveria ser substituída, para tornar-se muito mais coberta de veracidade por outra mais abrangente: o que quer a humanidade? Aprendi, com os livros escritos por filósofos e sábios, e com a minha própria experiência existencial, ser o homem uma máquina de fabricar desejos e sonhos, que nada mais são do que o motor de nossa breve existência. Estamos sempre desejando algo que ainda não possuímos feito um menino querendo um brinquedo novo e quando o tem em suas mãos, brinca com ele durante alguns dias e logo o abandona, o deixa de lado, esquecido na caixa dos brinquedos velhos. É assim que somos de maneira fundamental e incorrigível. Humanidade, teu nome se chama desejo. Sobrenome insatisfação.
E os sonhos, como é que ficam, onde adentram esta história? E eu respondo, do alto da minha insignificância e da minha filosofia de botequim, que também somos uma máquina sonhar. E sonhamos incessantemente os sonhos mais possíveis quanto os mais impossíveis de serem realizados. Desejos e sonhos não passam de férteis produtos da mesma matriz que povoa nossos corações e mentes. O que seria de nós sem os nossos desejos e nossa, por vezes tola, mas poderosa capacidade de sonhar? Um homem sem desejos e sem sonhos é sinônimo perfeito de irrealidade, de uma entidade ilusória que só existe, viceja no pensamento empobrecido daqueles desesperados que não acreditam em mais nada. Um homem sem sonhos, sem desejos trata-se de uma vera impossibilidade, a não ser quando se está morto, com residência fixa na popular cidade dos pés juntos.
Sim, claro, bem sei que nem todos os desejos podem ser passíveis de realização, assim como a maioria dos nossos mais acalentados sonhos conseguem baixar em nosso terreiro. Coisas da vida, percalços do existir. Por isso, findamos por nos transformar, aqui e ali, em animais assoberbados de insatisfação com nós mesmos, com Deus e o mundo. Nossa curta passagem terrenal oscila entre o piquenique e o vale de lágrimas, entre o carnaval e a quarta – feira de cinzas. E daí? Desejar e sonhar, resistir quem há de? Eu não fujo à regra. Confesso-me movido a sonhos e desejos como qualquer dos meus semelhantes. Quanto mais por baixo estou no carrossel da vida, mais sonho e mais desejo. Sou um incurável usuário e dependente eterno do sonhar e do desejar. Sim, olho-me no espelho. Obviamente percebo que envelheci. Entanto, em cada ruga que me vinca o rosto, sonho e desejo fizeram moradia.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Airton Monte - O Observador
Airton Monte - O Observador - 16 Fev
A tarde parece que anda meio gripada, soltando pequenos espirros, com a coriza intermitente de rápidos chuviscos. A tarde está fria, porém meu coração está quente feito um pão recém-saído do forno. Meu cachorro não para de correr arrodeando todo o espaço do quintal como quem procura alguma coisa indefinida, que somente ele sabe. Talvez também esteja sentindo falta do velho gato gordo que caçava pombos invisíveis pelos beirais dos telhados vizinhos da casa onde morávamos. Os animais possuem lá a sua memória, embora muita gente não acredite. Há passarinhos destemidos, que ignoram o medo e o perigo, tranquilamente pousados nos fios esticados por entre os postes. No sobrado em frente, um pai, que deve ser de primeira viagem, brinca com o filho entre os braços, falando aquela linguagem tatibitati que os adultos pensam que as crianças falam e entendem.
Três horas da tarde em ponto. Ainda é cedo e está longe de escurecer. O dia transcorre escorrendo rotina. Abro o jornal e leio uma notícia estarrecedora. Dois adolescentes assaltaram um ônibus, atiraram em outro jovem e se deixaram olhando a vítima agonizar durante quase trinta minutos. Marcas da maldade humana que se tornam cada vez mais habituais em nossa cidade como a crueldade e a violência. Meu Deus, a que ponto chegamos? Que País é esse onde jovens mal saídos da infância matam outros jovens friamente, não demonstrando sequer um pingo de sentimento? Esses jovens assassinos, se ninguém percebe, são os mesmos que, enquanto crianças, nos pedem moedinhas nas paradas dos sinais de trânsito e nos fitam com olhos de sobreviventes de guerra, de uma guerra urbana que não tem mais fim.
Ao mesmo tempo, em outras páginas, o jornal estampa fotografias de jovens estudantes de bons colégios, que saíram vencedores nos vestibulares mais difíceis desta nação. Estes sonham com um futuro pleno de realizações. Os jovens que matam não sonham com o futuro porque não acreditam mais nele e preferem ganhar o tempo presente de arma na mão e cheirando a pedra maldita que os faz esquecer o seu destino já traçado desde que nasceram. Sabem que a vida vai lhes ser breve e que um dia a bruxa lhes pega dentro da cadeia ou numa viela da periferia, mesmo sendo o rei do pedaço. Para mim, o mais nefando crime que se pode cometer contra uma criança é roubar-lhe a infância. Os jovens vencedores tiveram uma infância. Os jovens matadores, não. Já nasceram quase adultos.
Que ninguém venha pensar que estou defendendo os jovens criminosos, botando toda a culpa no cartório do social, porque se nascer em berço de ouro imunizasse contra tendências delinquentes, rico não roubava e faria parte de uma legião de anjinhos de asinhas brancas, tocando suas harpas, aureolados de santa honestidade. E filhinhos de papai não se divertiriam ateando fogo em moradores de rua. Se me perguntarem se sou a favor do endurecimento do código penal, respondo que sou, inclusive da prisão perpétua. Se sou a favor de acabar com a impunidade dos “de menor”, também respondo que sou. Para mim, bandido é bandido, tenha 13 ou 70 anos. De tudo isso, dessa guerra urbana que grassa e viceja sem freios no Brasil, só tenho uma certeza: nós todos somos, sem nenhuma exceção, vítimas e cúmplices como esta tarde que escurece mais cedo é cúmplice do temporal que pode desabar mais tarde.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Estou com saudades da antiga casa onde morei durante longos 16 anos, da rua José Sombra, dos vizinhos, da calma que reinava aos fins de tarde de domingo. Ainda não me acostumei de todo com a nova moradia, da qual, por enquanto, não me arrisquei a explorar os arredores. Entanto, bem sei que toda mudança traz consigo boas coisas e coisas ruins e é um tanto quanto difícil habituar-se às inevitáveis diferenças. Os amigos não param de telefonar, me convidando para sair, espairecer os pesados ares que pairam sobre minha cabeça. Porém, vontade não tenho nenhuma de botar os pés fora de casa. Acho que virei um ermitão por esses dias, mergulhando numa solidão forçada que não é própria de mim, mormente aos sábados e domingos, quando me aperta a saudade dos bares prediletos e das conversas sem fim com quem divido o copo e o afeto.
Escrevo afagado pela brisa mansa do quintal, enquanto a tarde se encomprida já com os braços abertos para a chegada do anoitecer. Ao meu lado, minha mulher vasculha os jornais em busca de notícias que prenunciem o desencadear de um novo apagão. Estou tão caseiro que só me falta vestir um pijama de listas e calçar pantufas, sem esquecer do radinho de pilha grudado ao pé do ouvido. Um adorável odor de carneiro assado se espalha pelo ar vindo de um restaurante próximo e carros vão e vêm cheios de fregueses habituais e turistas. De qualquer modo, não posso afirmar que o dia esteja transcorrendo num clima desagradável apenas por restar em casa, sentado a uma mesa, escrevendo o que me vem à cabeça, ao invés de haver ido passear pela cidade, descobrindo novidades, aproveitando o domingo, como muita gente está fazendo agora.
Engraçado, daqui da nova casa, consigo ouvir o carrilhão dos sinos da Igreja dos Remédios convocando os fiéis para a missa das cinco, o que me dá uma boa sensação de familiaridade. Paro por alguns minutos o que estou fazendo e me deixo a ouvir os sinos como se rezasse. Isso me faz pensar no que diz Dona Lúcia Dummar:será que minha religiosidade está voltando? Sinceramente falando, não sei se seria bom ou mau para este suburbano escriba a esta altura da existência. Porém, não é nada que cause grandes preocupações diante de tantas outras inquietações terrenais que me corroem a alma. Questões e problemas que infestam meu cotidiano e que não me dão mais tempo para pensar em mais nada a não ser na sua pragmática resolução. Mas, viver é assim mesmo, com marés cheias e marés secas, tempestades e calmarias e que é preciso, como um velho marinheiro, ir levando o barco devagar.
Na verdade, penso que estou com saudade de tudo que deixei pra trás. Para ser mais preciso, acho que estou mesmo é com uma saudade agoniada de mim, de como eu era e estava há uns três meses atrás. É, por vezes, a gente sente saudade da gente. Outrossim, de que me adianta ficar chorando, macambúzio pelos cantos, se a vaca foi pro brejo e eu não nasci com vocação para caubói? Pior seria se eu não sentisse nada, se minhas todas emoções de súbito congelassem e me transformassem a alma numa geleira glacial. A vida continua seguindo seu ritmo cá dentro e fora de mim com seus prazeres, alegrias, tristezas e angústias habituais. Isto é o que se chama da velha condição humana. Mas que me vem um desejo de beber até o mais profundo esquecimento, de ser, por esta tarde a goela sedenta da cidade inteira. Ah, isso dá. Porém não posso, não devo, não quero.
Airton Monte - 8 de Fevereiro de 2011
Eu juro que sim, por Deus do céu e tudo quanto é mais sagrado nesse mundo e no outro, que há certas coisas predestinadas a acontecerem somente comigo e geralmente de uma maneira absolutamente inexplicável. Coisas que me sucedem sem que eu delas careça, as deseje ou as peça a não sei qual entidade. Outro dia, chegou-me às mãos uma dessas pesquisas surpreendentes ou não tanto, realizada não sei onde e feita por não sei quem (na Internet se acha cada coisa) sobre os hábitos de leitura do varonil povo brasileiro. Pelos meus olhos incrédulos passou uma relação de números cruéis, implacáveis, inacreditáveis, que me revelaram uma pobre nação de apedeutas pertencentes a todas as classes sociais, sem exceção.
Imaginem que 50% da nossa pátria população, que ainda sabe ler, não lê sequer revista de quadrinho, quanto mais livros. O restinho que pratica o ato da leitura, o faz muito mais por alguma imposição estudantil do que exatamente por puro deleite e prazer. Além do mais, pra piorar consideravelmente a situação, apenas uns míseros nove por cento dos que se afirmam letrados são capazes de meter a mão no bolso e comprar um livro regularmente, por mais barato que seja. E uns escassos sete por cento pegam num livro para desfrutá-lo. Isso sem falar num porrilhão de gente que jamais adquiriu na vida um simples jornal, uma mera revista, um prosaico álbum de figurinhas.
Mesmo nas classes mais abastadas, em que dinheiro não é problema, a ojeriza à leitura permanece sendo mais a regra do que a exceção. Portanto, devo concluir que tamanho analfabetismo cultural não é somente fruto de diferenças sociais. Por ordem de preferência popular, os autores mais lidos no Brasil são aqueles dos manuais de auto-ajuda, de livrinhos de caubói e de historinhas açucaradas de amor vendidos em banca de jornal e, claro, o indefectível Paulo Coelho. Não sei, talvez seja por uma crônica falta de intimidade com a leitura, que qualquer fulano capaz de alinhavar duas ou três frases num papel vai logo sendo rotulado impunemente de escritor, com toda a pompa e circunstância de que se acha merecedor e não demora a pleitear um lugar em uma de nossas várias academias.
E pela enxurrada de lançamentos de livros que inunda nossa Taba de Alencar, bem que Fortaleza merece ostentar o título de cidade com mais escritores por metro quadrado do mundo, merecendo entrar com louvor e mérito no livro Guiness de recordes. E haja uma galopante inflação de primas obras perpetradas por poetinhas imberbes, matronais senhoras, provectos senhores que acabam sendo citados nos jornais como grandes autores da moderna literatura cearense. Lançam, todos os dias do ano, sugestivos títulos como Baú de Recordações, Coivara de Letras, O Último Burro, Respingos de Felicidade Conjugal, Pomar de Sonhos, A Lira Esplendorosa e outras barbaridades que tais. Todos se consideram gênios da raça. Vivemos atualmente um torturante dilema de mercado, numa terra onde os “escritores” são infinitamente mais numerosos que os leitores.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Airton Monte Os Extremas
Airton Monte - Publicada em 11 de Fevereiro de 2011
Airton Monte - Os extremas
No começo, bem no comecinho da história do futebol no Brasil, na época longínqua em que o introdutor do glorioso esporte bretão em nosso país, Charles Miller, trouxe a primeira bola da Inglaterra, os extremas eram chamados de “wingers” e Garrincha ainda não havia nascido, nem Julinho, nem Canhoteiro, nem Pepe, nem Sir Stanley Mathews, verdadeiras lendas vivas dessa posição ora em extinção na prática do ludopédio em todos os cantos do mundo. Ao depois, quando me entendi por gente, lá pelos quatro aninhos de idade, ao aprender a ler praticamente sozinho nas páginas dos jornais, a história já havia mudado. Nesse tempo, os caras que jogavam pelas bordas do gramado ou eram laterais ou eram pontas, ponteiros. Os laterais defendiam, os pontas atacavam como livres atiradores.
Não importava a maneira como eram chamados. Quer fossem wingers, pontas, ponteiros, extremas, o que essencialmente os caracterizava como tais, a sua razão de existir era o drible, a ginga, o balanceio do corpo, armas fatais com as quais iludiam, ludibriavam os seus implacáveis marcadores, ultrapassando-os e rumando, céleres bailarinos, em direção à linha de fundo e de lá cruzavam a pelota, alçando a bola, como um poético míssil, com uma precisão cirúrgica, na cabeça ou nos pés dos artilheiros. Em minha cabeça, as memórias do que vi tantas vezes das arquibancadas dos estádios, me ajuda a imaginar a cena lúdica, artística:Garrincha, com a esfera entre os pés, encara, imóvel, o seu feroz adversário, o Maracanã inteiro guardando o mais completo silêncio. Súbito, uma pausa, o rápido movimento, o drible, o cruzamento e Quarentinha, dentro da grande área, fuzila o goleiro e gol.
Os extremas, os pontas sempre foram ou deveriam ser o símbolo maior da existência do inesperado no futebol. Cabe a eles a criação da poesia presente nos campos sob a forma sutil de um drible capaz de arrancar os risos e a admiração da platéia, porque todo ponteiro possui um quê de Carlitos, seja num jogo de copa do mundo ou numa pelada de várzea. Tanto faz, como tanto fez, se é ponta direita ou ponta esquerda, os extremas devem ter, obrigatoriamente, o talento e a indispensável capacidade de improviso de um músico de jazz ou de um chorinho brasileiro, com indubitável certeza. Os extremas devem ser imprevisíveis, pois guardam em si a essência maravilhosa do surpreendente. Nunca se sabe o que a sua imaginação vai inventar na hora de driblar. A ginga do jogo, o vai-não-vai e quando o defensor se dá conta, o extrema já se foi, lépido e fagueiro, agitar a zona do agrião.
Posso estar completamente equivocado, porém, discordo em gênero, número e grau da esmagadora maioria dos que amam o balípodo, sejam torcedores ou profissionais da crônica futebolística, que proclamam, aos quatro ventos, ser o gol o orgasmo do futebol. Todos eles podem estar cobertos da mais plena razão e quem sou eu para dizer que todos estão errados na sua abalizada opinião? Entanto, na minha modesta visão de frequentador de mais de cinquenta anos de arquibancada, o lídimo, claro e verdadeiro orgasmo do futebol é, em verdade, sua majestade, o drible, além de considerá-lo uma verdadeira arte. Se há um jeitinho brasileiro, despido do menor resquício de desonestidade, esse é o drible e o drible é o que define os extremas. Eu vi Garrincha driblar e descobri, entre espanto e maravilha, que naquelas pernas tortas residia o mágico segredo do futebol de todos os extremas, assim na terra como no céu.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Airton Monte _ "Solidão"
Que saudades do meu pai, que a esta hora, merecidamente, já deve estar amortalhado nos braços generosos de Morfeu, imerso, no mínimo, no sétimo sono. Que vontade de ligar para o meu bom amigo Erle Rodrigues, mas fico com medo de incomodá-lo. Afinal, já passa da meia noite e meu velho amigo Erle Rodrigues já deve estar no mais completo repouso. E, aqui pra nós, que direito tenho eu de incomodar os meus amigos a esta hora tardia da noite? Sim, estou sozinho, no alpendre de casa, com meus cachorros, embora toda solidão do mundo resida em mim.
Claro, meu caro poeta Airton Monte, que você está absolutamente sozinho nesta noite de merda ouvindo Al Jarreau e daí? E daí cara? Você está crescido, você é uma merda de um sujeitinho de cinqüenta e nove anos e todo o resto da vida pela frente. Pois sim. Contudo, me pergunto, um tanto quanto inquieto: mas que tipo de vida? Morando em casa alugada, eternamente preocupado com a bosta do dinheiro e a oficial extorsão do imposto de renda. Nada disso tem qualquer importância. Nada, neste momento tem a menor importância. Nem a morte dos meus filhos.
Nada, nesse momento único e insuportável, carece de importância. Ponto. Parágrafo. E começar de novo a tecer novas palavras, tantas quantas me sinto capaz. E a noite vai seguindo o seu ritmo. E eu não consigo ouvir estrelas, a não ser que todas se chamassem Marilyn Monroe. Enquanto isso, o demoniozinho que habita em mim me diz, me aconselha que eu me embriague e beba toda a cerveja do mundo. Embriagar-se é uma saída muito fácil. Prefiro encarar a solidão de frente que nem um sapo engolindo um cigarro.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Será mesmo?
Mal começo a escrever, me vem ao atabalhoado bestunto um pensamento meio fora de hora. Nada mais, nada menos que as longas tardes de sábado foram particularmente criadas para se conversar com os amigos sem nenhuma pressa, desfrutando o tempo que nos é dado de mão beijada, generosa oferenda. Apenas conversar sobre o tudo e o nada, sobre os assuntos mais importantes e desimportantes (na nossa abalizada opinião, é claro), sobre aventuras passadas e presentes, quer sejam reais ou fictícias, sobre peripécias vividas, trocando ideias, confissões íntimas, piadas, prazeres e sofreres. Falar a respeito da vida e da morte e suas dimensões inesperadas. Não é o que costumam fazer os amigos de longa data quando se reúnem em uma democrática mesa de bar?
Só sei que desses encontros saio de alma lavada e enxaguada, consideravelmente revigorada para enfrentar durante a semana as agruras do cotidiano. No último sábado, apesar da ressaca do réveillon, a cidade já acendendo suas luzes, eis-me a papear, primeiro, com Erle Rodrigues, que há tanto tempo não revia, cuja presença inevitavelmente me premia com uma boa conversa e libertadoras gargalhadas. Vai-se o Erle, lá se vem Audifax Rios. Pensei cá comigo: hoje é meu dia de sorte. A noite avança mais um pouco, despede-se o Audifax não sem antes me ofertar o seu opúsculo:Travessia Rio-Mar. Finalmente, vão se esvaziando as mesas do Flórida e chega a minha vez de dar adeus às armas. Apesar de boêmio, sou pai de família, marido exemplar e dos mais virtuosos, embora seja difícil de acreditar.
Bom voltar pra casa, pro meu mundinho singular, onde tudo é ordem e todas as coisas que me pertencem possuem um nome próprio porque nomeadas por mim. Nada de escrever nas noites de sábado, salvo se premido por uma pertinaz e incômoda urgência. Satisfeito por não ter obrigações nem compromisso com as palavras, concedo às volúveis musas de plantão a sua ansiada folguinha semanal, que elas bem merecem. Sábado à noite, para mim, torna-se sinônimo de leitura, não de oficina de palavras para preencher o vazio do papel. O outro dia domingo nascerá, o dia do inesperado, dos acontecimentos puramente fortuitos. Agora, confortavelmente instalado no alpendre da casa, me acossa um sentimento inquietante, eivado de uma súbita solidão.
Neste exato momento, sou um homem tão só. Percebo-me irremediavelmente só feito um Robinson Crusoé sem radinho de pilha, como certamente diria Nelson Rodrigues e nada, absolutamente nada posso fazer a respeito. Há correntes, grades, trancas, cadeados nos meus sentimentos. Meus afetos foram postos a ferros como remadores num porão de navio, até meu coração esqueceu os idiomas naturais da transcendência. As minhas palavras estão chumbadas no desvão da indiferença por tudo que me cerca. E, por ora, dispensam a existência e a presença do próximo. Por baixo de uma aparente calmaria, as emoções submersas desembestam incontidas, irrefreáveis. Sei que depois tudo isso passa sem deixar vestígios e volto a ser aquele sujeitinho vulgarmente simpático que sempre fui e demonstro. Será mesmo?
Airton Monte - publicada no Jornal O POVO de 6 de Janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Ano novo
Ano novo
Jamais entrou em minha teimosa cabeçona chata a tradicional caracterização do Ano Velho na figura de um caquético macróbio, vestes puídas, longas barbas brancas, apoiado numa bengala. Nem a do Ano Novo em forma de bebê recém-nascido, envolto em fraldas. Pra mim, é mais um ano que vivi e mais um ano que viverei, alimentando os sonhos e esperanças de sempre, no aguardo de que o que me vem pela frente seja melhor do que o que para trás ficou. Há mais rugas sulcadas em meu rosto e passados dissabores em meu coração. Porém, vou levando em frente a minha história, escrevendo-a com minhas próprias mãos. Nessa matéria de viver, não se reescreve o que já foi escrito. Um novo ano pede palavras novas e páginas em branco e abomina o mata-borrão e velhos personagens.
E as tradicionais promessas de fim de ano? Aquelas que se costuma fazer, genuflexo e de mãos postas, na empolgação do calor da festa? Já me tinha prometido não fazê-las, pois dificilmente as cumpro e mal as faço, logo delas me esqueço tão rapidamente quanto as fiz. Mudar de vida, abandonar alguns hábitos, largar certos vícios, assumir novas posturas, escrever o romance de minha geração, ganhar o Prêmio Nobel, tornar-me o mais perfeito marido da face da Terra. Deixar de fumar é-me imprescindível, se quiser continuar vivo. Mudar de casa também é impossível recuar, coagido que estou pela força das imobiliárias circunstâncias, a não ser que aconteça o milagre de ganhar na loteria, com a ajudinha providencial de São Francisco.
Ficar mais um ano sem beber? Fico porque é o jeito. Meu fígado combalido ainda implora por um tantinho a mais de sossego. Outrossim, como diria meu sábio irmão Vessillo, os médicos podem me proibir de beber, mas não de ter sede. Entanto, me descasar da boemia, isso nem sequer pensar. Apreciar as mulheres bonitas faz parte da minha natureza, portanto, nessa questão, não prometo nada. Em compensação, prometo demonstrar mais tolerância com a burrice alheia, inclusive a minha. Aprender a cozinhar está completamente fora das minhas cogitações, assim como gostar de ir à festa de menino novo. Pagarei minhas dívidas na medida do possível, principalmente com a Receita Federal. E assim, dando os trâmites por findos, que venha o Ano Novo e nos traga a Paz de que o mundo anda tão precisado.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Beleza, coragem, medo
Beleza, coragem, medo
No alpendre de casa, curvado sobre a mesa de trabalho, eis-me a postos. Ainda é cedo da noite. Sei que a maioria das gentes está tentando voltar pra casa depois de mais um dia de trabalho. Alguns ficarão no meio do caminho, parados por um acidente ou pela bala de um assaltante. Outros, simplesmente estancaram nos bares de costume e como se trata de uma sexta-feira, certamente esquecerão da hora do retorno, porque fazem parte dessa estranha confraria do vermute, do conhaque e do traçado, como cantava Nelson Gonçalves pelas ondas do rádio. Entre um anestésico e outro se vai levando a vida em qualquer cidade do mundo, porque em qualquer cidade do mundo o ser humano é sempre igual em seus desejos.
Olho o relógio: sete e meia da noite. Tão cedo e tão tarde. Para nada. Para tudo. Ou para coisa nenhuma. Minhas costas doem. Levanto-me, caminho um pouco em torno de mim mesmo como se me procurasse de mim distante. E estou tão perto que, por alguns instantes, nem sequer me vejo. Vou até o jardim. Ergo os olhos. Nuvens esparsas no céu claro. Baforadas noturnas de Deus. Na infância, lembro que perto de casa havia um velho marinheiro. Depois do jantar, ele ficava sentado na calçada, repousando em sua velha espreguiçadeira, fumando seu cachimbo e esculpia a fumaça em diversas formas geométricas. O menino que eu era ficava completamente fascinado e pensava que, além de marinheiro, ela também era um mágico aposentado.
Olho o relógio outra vez: oito horas. Volto a sentar-me à mesa de trabalho. Será que o mundo não é tão vasto e tão vário quanto o penso ser? Que pergunta mais besta, mais boba, mais ingênua essa que me fiz, igual a tantas outras que me faço. Ah, de quanta mesmice não sou eu capaz. De quanta besteira escrita em letras garrafais. Preciso tomar um pouco de tento, lapidar com mais vagar meu pensamento. Burilar um pouco mais palavras, frases, escrever algo que tenha, pelo menos, um modesto quê de original. Meus olhos míopes ardem um pouquinho sob a luz rala que me vem do teto. Retinas gastas que muito viram e preferiram calar como se nada houvessem divisado.
Uma borboleta negra, enorme, pousa na grade do quintal. Sinal de sorte? De mau agouro? Ou apenas um mero acaso? Houve um tempo, bem me lembro, em que eu tinha um verdadeiro pavor de borboletas negras, que o povo chamava de Bruxa. Interessante, hoje não tenho mais. Engraçado, com o avançar da idade, meus medos foram todos lentamente desaparecendo. E viver sem medos torna a vida chata demais. É preciso um tantinho assim de medo para se ter coragem. A coragem e o medo se transformam em coisas tão banais à medida que você se apaixona desmesuradamente pela beleza e apaixonar-se pela beleza nada mais é do que apaixonar-se pela vida.
Airton Monte - Publicada no jornal O POVO no dia 2 de Novembro de 2010
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Crônica de Airton Monte

Eis a crônica de virtuoso intelectual cearense Airton Monte que foi publicada no jornal O POVO no dia 5 de Março de 2009.
A morte da mãe
Meu compadre Chico Newton está sofrendo uma dor horrível, aquela dor das inenarráveis que a gente sente quando perde a mãe e que nos reduz, de forma tão cruel, à desamparada condição de órfãos. E quando já nos tornamos órfãos, quando adultos, a dor da orfandade nos fere fundo e mais profundo. Sei muito bem disso porque já vivi tal condição e que me foi supremamente difícil superá-la. Jamais senti uma dor afetiva tão por demais excruciante que chega a ser física, orgânica como uma doença terminal e na casa do sem jeito. E palavras de nada adiantam nesta hora, ficam vazias e sem nenhuma serventia.
Quando minha mãe morreu, depois de uma longa doença que me parecia interminável, eu estava de plantão no hospital e foi a voz trêmula e chorosa de minha mulher que me contou. Entanto, não sei como consegui até hoje, mantive-me em uma calma frieza, atendi o resto dos pacientes que ainda me esperavam e fui ao cemitério para ver como estavam as coisas. E ao ver a minha mãe ali morta no caixão, somente com a ajuda de uma benvinda garrafa de uísque, consegui voltar pra casa, pegar a máquina de escrever e datilografar a crônica do dia como se estivesse em um estado sonambúlico.
Ao depois que tudo passa, pelo menos parcialmente, após o enterro, as condolências vãs, o aconchego familiar, sobre nós se abatem as velhas culpas que até já havíamos esquecido: por que não tentei ser um filho melhor, não lhe dei mais carinho, não lhe perdoei alguns erros, que agora se me parecem tão inúteis? Entanto, agora já é demasiado tarde para voltar agras porque tudo acabou e a mãe é morta. E estamos simplesmente, doloridamente órfãos, sem mãe e isso é tudo que ora importa. Filhos são assim, um amontoado de culpas que jamais se dissolvem, se desmancham no ar. Ficam em nós, entranhadas feito uma unha encravada e doem.
É, esse negócio de morte de mãe é mesmo, sempre uma barra pesada, mesmo que você goste mais do pai do que da mãe. Dizer que as mães não tinham o direito de morrer, todo mundo sabe que não passa de uma mera e banal figura de retórica que a gente repete, quando em vez, pra se consolar da perda, porque a mãe, por pior madrasta que tenha sido em vida, continua sendo mãe e aureolada por uma aura de sagrado. Toda vez que quero rever a minha mãe, não vou ao cemitério, vou à casa de meu pai. É ali que seus gestos estão impressos, seus risos estão impressos, suas dores estão impressas, indelevelmente.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
NA HORA DO ALMOÇO
Na hora do almoço, sou tomado por uma vontade de sair zanzando pela cidade e fotografar as cenas cotidianas, no exato momento da aproximação da alta tarde.Embora eu esteja com o estômago jejuno, minha mente está bem próxima a dá à luz diante do sentimento de mundo, desejo de ver de perto as coisas acontecerem, mais precisamente onde a raça humana anseiam para suprir suas necessidades alimentares do corpo e assim seguirem indo. Sim, pois é, é regra que a ceia vital para todos da raça humana, se faz aproximadamente na hora grande, num raro momento em que os ponteiros dos relógios se entrecruzam no maior dos numerais de seu circulo ilógico que formam as horas. ( O homem é sempre escravo do tempo)
A cena mais marcante desse meu itinerário se deu numa birosca ( parecia mais um botequim do que uma birosca, de qualquer maneira dá no mesmo) onde o proletário exaurido matinal, devorava vorazmente o seu alimento posto ali diante dele. A volúpia do comensal era tamanha que ele quase nunca erguia a cabeça, sua face estava quase enterrada na funda travessa. Comia ali sem nenhuma etiqueta ou classe, nem talheres mais refinados. Trajava-se de uma veste tão modesta quanto sua ceia, mas sua única preocupação era saciar sua vontade de comer. Terminado o rápido banquete( para ele ali era o seu verdadeiro banquete) o nutrido trabalhador demonstra sua religiosidade ao fazer um pelo sinal, mesmo sendo apressado e mecanicamente. Ele começa a divagar sobre a condição daqueles que ele deixou
Agora o sol vai a meio caminho, e o único rumo que pretendo tomar é em direção a minha casa. A vontade e a necessidade de alimentar-me só não é maior que a vontade de escorrer minha patética poética que se encontra escondida no canto mais obscuro do meu cérebro e não que sair por agora.
Distorcendo um pouco o escrito hebraico digo: nem só de pão vive o homem, mas nesse momento cheguei ao limite de meu corpo, sequioso por alimentar-se de pão, um pão que não é simbólico e nem metafórico. Preciso de pão literalmente.
João Davi de Sousa Queiroz