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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Conto - O preso - Moreira Campos

Que belo e bem trabalhado conto desse excelente literato cearense chamado  MOREIRA CAMPOS - Ele não deve nada a nenhum dos escritores da literatura universal - o conto se chama " O Preso" - percebam o paradoxal desfexo desse conto : 







José Maria Moreira Campos

Dr. Antero, charuto na boca, em mangas de camisa e suspensórios, derramava-se na espreguiçadeira naquela tarde de sábado, os braços para cima, no alto da calçada. Já a sombra das casas deitava-se larga sobre a praça da estação. Viera até ali para uma questão de terras e hospedara-se na casa do próprio tabelião, conhecido velho. Estudara o processo, arrazoara, a pedido seu o do cartório antedatou um documento, e o Dr. Antero deveria voltar na manhã seguinte.
Ao lado, o tabelião, na blusa de pijama e chinelos, jogava gamão com o farmacêutico, figura seca e encurvada, num grande nariz.
- Quina, compadre! - disse o serventuário, esfregando os pés um no outro embaixo da cadeira. - Dou-lhe uma, dou-lhe duas. Tire esta.
O farmacêutico recolheu a pedra num silêncio concentrado. Homem de poucas palavras, quando perdia ficava mudo e aborrecia as expansões do outro.
Dr. Antero tornou a estender a vista sobre a praça. Tirou o charuto melado da boca, cuspindo peles de fumo:
- Há vinte anos que conheço esta terra, e não muda! Já vinte! A mesma coisa. Agora pior, parece.
O do cartório, que era do situacionismo, guardou silêncio. O da farmácia aproveitou-se:
- Falta de um homem na Prefeitura.
- Ah!, isso não, compadre, que ele até tem se esforçado.
- Aonde? Quer dizer a mim?
Dr. Antero escarrou:
- A falta de administração é geral. Uns irresponsáveis!
- Muito bem!
- Cinco e três. Casa de novo, compadre. Tira a sua pedra.
Dr. Antero falava por fado. Mas no momento até aprovava aquela falta de progresso: saturado da capital, todo ele repousava na paz dormente do lugarejo.
A estação em frente. Carros de carga no desvio. Um empregado da estrada de ferro passou firmado na muleta, a lanterna apagada na mão. Um carro de boi esquecido à sombra de velha mangabeira. Perto da cerca, mais à distância, na grama verde, porque era fim de inverno, crianças se divertiam com uma bola de meia, possivelmente. Trecho de serra em frente, saindo por trás da estação, onde as nuvens caíam em grandes manchas na tarde.
O tabelião lembrou-se de que estava na hora do café, e dali mesmo, curvando-se um pouco, gritou para dentro de casa através do corredor úmido e escuro:
- Belinha, um cafezinho aqui, nega.
- Vai já.
Foi aí que Dr. Antero resmungou na cadeira:
- Lá vem gente presa.
Os olhos ergueram-se do gamão e o dono da casa girou a cabeça para ver melhor:
- Vem mesmo.
Um velho mirrado e de pele escura puxava um jumento pelo cabresto, entre dois soldados do destacamento. Atrás vinham alguns moleques, guardando distância, já enxotados pelos soldados.
Ao aproximarem-se da casa, Dr. Antero levantou-se:
- Que há?
O grupo estacou. Os moleques tomaram chegada e se postaram de braços cruzados e escorados nas pernas.
- Ele estava na feira... - iniciou-se um dos soldados.
- Doutor, me solte pelo amor de Deus! Eu peço a vosmecê pela sua bondade. Não fiz nada, acredite.
Esqueceu-se o jogo. Já havia gente nas calçadas e janelas das outras casas. Dona Belinha trouxe a bandeja com café e ficou esquecida também, nas pontas dos pés, para olhar por cima do ombro de Dr. Antero. Alguém derrubou o tabuleiro de gamão: bozó, pedras e dados por baixo das cadeiras.
- Um momento. Mas, afinal? - tornou Dr. Antero.
- Ele tem um apelido. Caroço.
- Mas me chamo Inácio! Que eu não posso atender por um nome desses...
Houve risos em volta e os olhos se detiveram num lobinho que quase cobria a vista esquerda do velho.
- Como? - fez Dr. Antero, pondo a mão em concha no ouvido.
- Caroço. É um apelido. Brincadeira de menino. Começaram a aperrear ele na feira. Zangou-se, deu com o cacete pra trás e pegou no menino na altura da testa.
- Mas só foi na pele. E eu mesmo fiquei agoniado e procurei estancar o sangue. Um vexame, doutor. Frecham em riba de mim todo o tempo. Empurram, atiram casca de banana, toda porqueira que dão de garra (com licença de vosmecê). Vem isto de anos. Já quis até me mudar de canto, se pudesse. Apelo para vossa senhoria.
Dr. Antero irritou-se:
- Isto vale nada! Soltem o pobre homem!
Inácio tomou-se de grande esperança, enquanto olhava para os que o detinham:
- Muito bem, muito bem, doutor!
- Não pode. O menino ferido é filho de Dr. Targino - falou o soldado.
- De quem?
- É filho do juiz de direito - esclareceu o farmacêutico ao lado.
- Meu velho, pra que você fez isso! - disse Dr. Antero, já sorvendo o café e perdendo um pouco do primeiro entusiasmo.
- Não 'tava no meu propósito. Eu peço aos senhores. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Nunca fui. É o que eu digo aos meninos lá em casa. Não tenho paciência de ser preso.
Riram muito com a frase. O tabelião divertia-se, vermelho e todo sacudido pela novidade. Sungava as calças com os cotovelos e comentava em volta de um para outro:
- Hein? Hein? Que tal? Esta é boa! "Não tenho paciência...". Como é que ele diz?
- Eles soltam logo, meu velhinho - adiantou Dona Balinha, fazendo sinal ao marido para conter-se.
- Soltam não, dona. Eu sei o que é isso.
O velho apanhava numa das mãos o chapéu de palha desfiado nas abas, o cabresto do jumento enrolado na outra. Pés descalços. Os cotos de unhas negros, comidos pela terra, lembravam nós. Calcanhares gretados. As calças de morim ralo e sujo, curtas nas pernas e com joelheiras. No pescoço fino e de pele engelhada, uma medalha barata num cordão sebento. Os olhos miúdos e escuros confundiam-se com a pele, lá dentro, um deles diminuído pelo lobinho.
Era grande o seu ar de aflição, dirigindo-se a todos os lados, com apelos gerais:
- Vim vender banana nesses caçuás. Antes não tivesse vindo.
Repetia-se, pedinte:
- Moços, vosmecês todos, me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso.
Voltavam a rir:
- Ora, veja!
O jumento, de quando em quando, soprava forte nas narinas, baixando a cabeça, ou dava com a pata traseira para tanger as moscas que lhe mordiam a pisadura na cilha.
O soldado mais novo insistia em que a prisão fosse feita. O outro quase não falava. Limitava-se a soltar cusparadas de lado: nariz vermelho, gordo, o casquete colocado ridiculamente no alto da cabeça, o cinto frouxo na barriga. Piscava e comia os beiços, num tique comum aos que bebem. Dava a impressão de que tudo aquilo para ele era uma grande maçada. Obedecia.
- Toca! - falou o mais novo.
O grupo retomou a marcha.
- Eu não tenho paciência de ser preso.
Já iam distantes, e aqui na calçada o tabelião rindo, enquanto procurava pelo chão um dos dados:
- Como é que ele dizia mesmo?
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
- Aparece cada uma!
- Isto é uma judiação! - falou Dona Belinha.
- É assim mesmo. Talvez ele tenha bebido, e foi violento - concluiu Dr. Antero, derramando-se na espreguiçadeira.
Era frente à cadeia, amarraram-lhe o jumento no tronco da mangueira e o meteram na primeira cela, com grades para a praça. Ele ainda se agarrou às barras de ferro da porta, numa súplica:
- Me soltem... eu peço ao senhor.
O soldado girou o molho pesado de chaves e os seus passos se perderam ao longo do corredor.
Vindo da luz, Inácio enxergava pouco ali dentro. Apertava os olhos, pondo a cabeça de lado para orientar-se. Acocorou-se a um canto, onde os olhos miúdos brilhavam. Por fim, foi-se acostumando à sombra: a cela era espaçosa e alta, chão de tijolo úmido, em cima um travejamento forte e antigo. Passou o dedo no tijolo e provou o barro vermelho, supondo que ali tinham guardado sal noutros tempos. Descobriu um caixão de querosene perto da janela, e acomodou-se melhor. Revia os seus: a filha, a mulher e os meninos. Dizia-lhes sempre: "Nunca fui preso, e filho meu não me dá esse desgosto. Está no bom comportamento de cada um". Não sabia porquê, insistia o rosto da filha, que tinha os seus pequenos olhos, o cabelo apanhado num cocó. Encarregava-se de levar-lhe o prato de comida ao roçado, enrodilhado num pano, a colher de latão de través. Ficavam os dois no canto da cerca, sob a sombra do cajueiro, enquanto ele almoçava. O rosto da filha agora encarava-o de perto, em cima, sem compreender o olhar espantado.
Levantou-se e deu várias passadas na cela. Parou em frente à janela. Os olhos ficavam no plano do peitoril e podia avistar o jumento, que cochilava paciente, o cabresto muito curto, os caçuás ainda na cangalha. De quando em quando dava com a pata traseira para frente, tangendo varejeiras.
Ao fundo, a calçada alta, com batentes, de um trecho do mercado. O sol cambava, filtrando-se horizontal e vermelho na luz branda da tarde, e punha na parede da cela os retângulos da grade.
Inácio aproximou o caixão de querosene da janela e alçou-se até a soleira.
O menino que ia passando em frente à cadeia assustou-se vendo aquele braço escuro a acenar-lhe entre as barras de ferro:
- Tenha medo não, meu filho.
- Hem?
- Ouça. Aí mesmo da ponta da calçada.
- Que e?
- Olhe, solte ali aquele jumento. Ele é meu. Quer se deitar e não pode. Tire o cabresto e me dê.
- Vai embora.
- Faz mal não. O menino obedeceu e entregou-lhe a corda pela janela.
Quando no outro dia pela manhã o soldado empurrou a porta pesada, Inácio pendia enforcado da grade da janela, o nó apertando-se no terceiro varão, o caixão de querosene caído de lado.
- Oh!
O rosto estava arroxeado e intumescido, a língua de fora, os pés esticados para baixo, roçavam a parede. O lobinho parecia tragicamente maior.
- Que coisa! Aqui, aqui! Ora, vejam!
Presos, soldados, gente das casas vizinhas, e, dentro em pouco, uma grande multidão à porta da cadeia.
A frase tomou conta das consciências. Pelas nove horas, o tabelião, ao assinar uma escritura, ainda a repetia, arrastando a pena no papel:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Dona Belinha misturava-a com o caldo na cozinha, enquanto girava a colher de pau. 0 farmacêutico triturava-a com o pó que mexia no almofariz.
Já o trem de Dr. Antero partira. Tentou a leitura de uma revista, que atirou de lado. - "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Ergueu-se, foi ao carro-restaurante, tornou à sua cadeira. Olhou pela janela. Um açude, bois que pastavam, carnaubeiras e, logo a seguir, a ponte de ferro. As rodas do carro matraqueavam nos trilhos num ritmo que reproduzia a frase inesperada:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".

("Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro" – Editora Cultrix)

domingo, 26 de junho de 2011

Airton Monte - O dia de Sorte - 19 Abril 2011

Airton Monte - grande mestre da literatura cearense contemporânea- basta ler a crônica que segue para contatar.

O DIA DA SORTE - 19 ABRIL 2011

Escrevo estas mal traçadas no Dia da Sorte, 15 de abril, sexta-feira. Por via das dúvidas, sem muito pensar na racionalidade ou irracionalidade do meu gesto, entro na primeira casa lotérica e faço a minha fezinha de sempre, jogando os mesmos números em que arrisco costumeiramente há não sei quantos anos. Afinal, está em jogo no cassino do Governo uma espantosa fortuna de cinquenta milhões de reais. Sei lá, vai ver que fujo dos meus hábitos de jogador e acabo entrando por um solene cano, perdendo a chance de tornar-me milionário da noite pro dia. Acho que seria muito provável que, se esquecesse de marcar minhas dezenas e elas dessem na cabeça, findaria pingando o ponto final na existência com um tiro na cabeça, tomado pelo desespero e desencanto.

Outro dia, li a história de um cidadão da Loira Albion que passou trinta anos jogando os mesmos números na loteria britânica. De tanto insistir, persistir, não desistir da jogatina findou por faturar o grande prêmio finalmente, vendo recompensada a sua bendita teimosia. Tinha aproximadamente a mesma idade que eu e agora anda por aí, feliz que nem pinto no lixo, a desfrutar a preciosa grana com que o acaso lhe presenteou. Como vou saber se o que aconteceu com ele também não acontece comigo? Mal nenhum me faria amanhecer montado em uma grandiosa bolada, mais cheio de dinheiro do que poderia gastar pelo resto da existência. Ah, que felicidade inenarrável seria viver sem as contínuas preocupações da falta perene de dinheiro e suas pequenas e grandes aflições.

Quem pertence à classe média aperreada, sobrevive na monetária corda bamba, sem a proteção benfazeja de uma rede salvadora que possa aparar-lhe uma queda inesperada, antes de esborrachar-se no duro chão do picadeiro. Nesses casos, portanto, reza o bom senso ser melhor prevenir do que remediar o irremediável. Quer dizer, acertar na sorte grande e por um maldito descuido, ganhar e não levar. Bem para longe de mim se mantenha tamanho desengano, tal indesculpável desencanto. Assim, com os cartões devidamente registrados, encontro-me satisfatoriamente posto em sossego, esperando, com certa ansiedade, a hora do sorteio. Minhas ilusões estão preservadas, guardadas em local seguro, quer o destino me sorria ou me faça cair das nuvens. O que houver de ser, será. Porque o que do homem é, o bicho não come.

Evidente que sou sabedor que a sorte trata-se de uma poderosa força que determina, impõe suas regras a tudo que acontece, causada pelo acaso das circunstâncias ou até por uma suposta predestinação do indivíduo por ela agraciado. A sorte nos sorri quando menos esperamos, de maneira fortuita. Nada de considerar-me um sujeito de sorte cotó, pois estaria sendo injusto com as venturas que me foram proporcionadas durante meu existir. Claro que a boa estrela por vezes me deixou na mão, porém não se pode ganhar tudo todo o tempo. Por isso, não me considero um rebenqueado da fortuna. Já viajei para Pasárgada, onde fui íntimo amigo do rei e tive as moçoilas que quis nas camas que escolhi. Já escapei de poucas e boas. Já ganhei e perdi vezes sem conta. Tenho uma mulher que me ama, que me deu os filhos que desejei. O que mais posso pedir a Deus além de suas bênçãos? Mas que 50 milhões, Senhor, que bem-vindos seriam, se não for pedir muito.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011

Pra mim uma das crônicas mais bem escritas por Airton Monte 


Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011





O domingo amanheceu esplendorosamente banhado de sol como há tempo eu não via nessa temporada de chuvas intermitentes que sobre nós desabam sem aviso prévio e nos surpreendem quando menos as esperamos e desejamos. Faz um solzão desses que parecem incendiar o dia e cegar os olhos de quem se atreve a erguer a vista para o céu mais demoradamente. As praias devem estar pululando de gente gastando o abençoado feriado dominical. As pessoas disputam um lugarzinho na areia e fazem a alegria dos barraqueiros, dos vendedores ambulantes. As mulheres se desvestem enfiadas em biquínis minúsculos onde não cabe espaço nem para a etiqueta. Louras, morenas, negras, mulheres de todas as cores que atraem o olhar cúpido dos homens e o de outras fêmeas, pois hoje ninguém sabe mais quem é quem em matéria de preferência sexual.


Um domingo radiantemente solar, como esse que reina em Fortaleza, costuma transformar-se num pequeno carnaval. Tudo é festa, alegria, a diversão se torna a ordem do dia. Os donos de restaurante não têm motivos pra se queixar da vida, pois até mesmo nos botecos pés – de- chinelo a distinta freguesia ocupa todos os lugares disponíveis. Hoje, muitos vão encher a caveira e as emergências dos hospitais ficarão lotadas devido aos acidentes provocados pelos ensandecidos do volante e os malucos que pilotam as indefectíveis motocicletas. Nos domingos naturalmente se instala o desvairado reinado de Baco e a irresponsabilidade domina a maioria das ações humanas. E os pecados dominicais, quer sejam veniais ou mortais, já se sabe que quem os paga é a implacável segunda – feira, porque a realidade não aceita promissórias nem dívidas atrasadas.

As crianças sentirão um gostinho de liberdade depois de haverem passado a semana inteira trancafiadas na escola ou entre as grades dos condomínios. Aos domingos, as amantes geralmente amarguram a solidão, pois não receberão a amorosa visita de seus amores clandestinos, que estarão, embora a contragosto, cumprindo os obrigatórios deveres conjugais na companhia das amantíssimas esposas e dos filhos. As amantes ganharão, no máximo, um rápido telefonema de fingido carinho e as tradicionais desculpas de sempre a que já estão acostumadas enquanto ainda não possuem o domínio total da relação, que algumas conseguem e a maioria não. Semana que vem as pazes serão seladas do modo costumeiro e tudo continuará como dantes no Quartel de Abrantes da paixão. Ou não. Entanto, nesse dia cheio de suspiros o amor circula livre feito um vírus, parodiando Mário Quintana.

Ah, sim. Ia me esquecendo daqueles naturalmente dotados de pendores domésticos que preferem ficar em casa por escolha própria, aboletados diante da televisão, controle remoto nas mãos, mudando constantemente de canal como quem procura sabe-se lá o quê ou se dedicam a fazer pequenos consertos caseiros perfeitamente dispensáveis. Aos domingos, a vida parece correr mais mansa, mais pacífica. As preocupações cotidianas são varridas pra debaixo do tapete pelo menos por um dia, e por vezes o sujeito tem a ilusória impressão de que o sossego bateu à sua porta, embora saia pela janela mal chega a noite prenunciando a volta da rotina. De qualquer modo, o domingo iguala todos nós ao atiçar nossa sede insaciável de divertimento, contudo provisória. Talvez porque o sol procrastine o fim da tarde, crie ilusões à toa tal qual o vento brinca esculpindo nuvens.

Airton Monte - A salvo - 5 Abril 2011

Airton Monte - A Salvo 5 Abril 2011



Na semana que se foi, este suburbano escrevinhador cumpriu a contento, com distinção e louvor, embora com uma má vontade explícita a se refletir claramente em meu rosto, o obrigatório dever de ir ao médico. Já que tinha de ir, pois já era mais do que chegada a hora indesejada de me encontrar cara a cara com meu esculápio, eu fui. De que me adiantava adiar, inventando as mil desculpas manjadíssimas de sempre a devida visitinha? Pois então, existem coisas na vida das quais torna-se impossível esquivar-se, evitar, fingir que podem ficar para depois, porque as nossas dívidas só deixam de nos atubibar o juízo após devidamente pagas. Poucos são aqueles viventes que vão ao médico por livre e espontânea vontade, mesmo sendo sortudos possuidores de uma saúde de jumento premiado, que não sentem sequer uma prosaica dor na unha do dedo mindinho.

Sim, quem pode negar, em sã consciência, existir uma rara espécie de humana criatura que vai ao médico possuída pelo mesmo espírito alegre com que os boêmios batem o ponto diário em seus botecos prediletos. Algumas delas, para profundo espanto meu, não se contentam somente com a ida regular ao clínico geral. Não é o bastante para inteiramente satisfazê-las. Quase movidas por certa obsessão, só se dão por saciadas após frequentarem, uma empós a outra, todas as especialidades hipocráticas criadas pelo desenvolvimento das artes hipocráticas. Desejam compulsivamente obter prova após prova a certeza e a segurança de que em seu corpo e em sua mente não viceja nenhum resquício, nenhum rastro de uma talvez possível, esconsa doença.

Submetem-se, com prazer inenarrável, a todos os tipos de exames clínicos imagináveis e existentes na moderna medicina, desde um simples exame de fezes à cintilografia. Concluídas todas as investigações laboratoriais, inclusive as completamente dispensáveis, adoram sair por aí exibindo à guisa de valioso troféu a grandiosa batelada de exames realizados com a face banhada por um clarão de indisfarçáveis orgulho e euforia. Por mais incrível que pareça, tais figuras viciadas em frequentar consultórios só costumam falar sobre enfermidades, sendo as mais raras o seu assunto preferido. Resultado: previsivelmente acabam estragando qualquer conversa e enchendo o saco dos familiares e dos amigos, pois não conseguem falara respeito de outro tema.

Posso estar emitindo uma opinião mais equivocada do que previsão climática de certos profetas da chuva. Entanto, penso que tais personagens padecem de um medo fóbico da morte e acreditam que indo ao médico mais do que o verdadeiramente necessário, se colocam compulsoriamente a salvo do inevitável alcance da Belle Dame Sans merci. Para encurtar a história, que isso não é conversa pra fazer leitor dormir, fui ao médico, levando os papéis de praxe. Para meu alívio, o Doutor Carlos Roberto Vasconcelos, velho e querido amigo, disse que o câncer que me atacou solertemente o fígado não deu sinal de vida, deixando-me em paz pelo menos por enquanto. Falo por enquanto, porque com câncer não se brinca e ninguém pode se considerar plenamente seguro de que não virá a ser vítima de um novo assalto do temido caranguejo. Mas preciso engordar uns quilinhos e seguir à risca o tratamento. Notícia ruim: continuo terminantemente proibido de beber. Que importa? Viver é tão bom.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Contos : Nilto Maciel - O ouro de um pobre Diabo

Mais um excelente conto do meu conterrâneo Nilto Maciel - Percebam o fatídico desfecho desse conto, coisa de gênio!!!

Nilto Maciel

O ouro de um pobre-diabo

Passei toda minha longa vida imaginando riquezas, sonhando tesouros e prêmios lotéricos. Vivia numa pobreza de causar dó. Trabalhava feito um desgraçado. Cometi mil pequenos erros, de tanto querer escapar à má sorte. Embriagava-me, jogava dados, batia na mulher e nos filhos. Terminei por abandoná-los. Vagueei pelas ruas, por vilas e cidades, sempre em busca de dinheiro, muito dinheiro, fortuna.

Já velho, cansado, doente, resolvi parar. O destino não me queria rico. Restava trabalhar, pedir, roubar migalhas. E esperar a morte. A mais miserável morte.

Uma noite, deitado numa esteira, eu fazia um balanço de minha vida. E olhava para um buraco no teto. Talvez visse estrelas e seu brilho distante, infinito.

Absorto, senti cair sobre meu peito um pequeno objeto. Assustado, ergui-me. A coisa rolou para um lado. E tiniu. Parecia uma moeda. Dei um bote, agarrei-a. Trêmulo, aproximei dos olhos o brilho encantador do ouro. Sim, era moeda de ouro.

Ainda encantado, ouvi outro tinido no quarto. Arregalei os olhos, para não perder de vista um só instante do trajeto daquele maná. A rodinha rodopiou no chão e parou junto à parede. Ia eu apanhá-la, quando novo baque sucedeu. Olhei para o teto. Não vi mais estrelas. Em compensação, o buraco parecia entupido de moedas, que caíam lentamente, uma a uma.

Primeiro enchi os bolsos, a seguir sacos e sacolas. Cheguei a esvaziar a mala de roupas e pequenos objetos de uso pessoal. Imaginava fugir dali, tão logo caíssem todas as moedas. Com certeza haviam sido roubadas e escondidas no telhado da casa.

Porém não consegui fugir. Pois, abarrotados bolsos, sacos e mala, continuaram a cair moedas. E cada vez com mais intensidade. Decidi, então, sentar-me a um canto e simplesmente observar o espetáculo.

Acumulavam-se moedas no chão. E eu maravilhado, sem mais nenhum pensamento, a não ser o de estar finalmente rico.

No meio da noite, já todo o chão se cobrira de moedas. E eu passeava, sonolento, de um lado para outro, a pisar, orgulhoso, minha incalculável riqueza. Olhava de vez em quando para cima. O buraco expelia ouro, sem parar.

Pela madrugada, senti sono e cansaço, e recostei-me à porta. Acordei já de manhã. Um peso enorme parecia me sufocar. Eu devia estar sentado. As moedas chegavam à altura do pescoço e todo o quarto cheirava a ouro e brilhava como um sol.

Tentei desenterrar-me. Nem sequer consegui arrancar as mãos do monte de moedas. E do teto mais e mais ouro escorria.

Apavorei-me. Se aquilo não parasse logo, eu poderia morrer sufocado. Pus-me a gritar, ao mesmo tempo que fazia força para me soerguer.

Quando conseguiram entrar no quarto, minha alma já havia sumido.


Nilto Maciel In Contos Reunidos Volume I , Editora Bestiário , páginas 46 e 47.

Contos : Nilto Maciel - O pecado de André Gide

Agora eu reproduzo o excelente conto do excelso escritor Nilto Maciel - Ele que é meu conterrâneo da cidade de Baturité -Nilto Maciel tem projeção nacional e já conquistou vários prêmios por sua obra. Isso sim é LITERATURA.

O pecado de André Gide

Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.

Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.

Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.

A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.

Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.

Súbito o braço agudo saltou de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.

No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.

De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo do quarto rescendia. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.

E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.

De manhã correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima.

O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.
Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?

Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”


Nilto Maciel - Contos Reunidos Volume I - Editora Bestiário


quarta-feira, 9 de março de 2011

Airton Monte - Desejo e Sonho

Airton Monte - 23 Fevereiro 2011 -

Desejo e sonho


Neste mês de fevereiro, os dias transcorrem, climaticamente hesitantes, entre o claro – escuro, com o sol brincando de esconde – esconde por entre as nuvens chuvosas, feito a alma da gente que também segue o mesmo ritmo. Ora estamos refulgindo de alegria e bom humor, ora estamos obscurecidos por eventuais laivos de tristeza. Naturalmente, este balanço pendular das emoções faz parte inevitável da chamada condição humana. O ser humano, em essência, não foge à regra de ser um habitual poço de ambiguidades. E é justamente essa capacidade de sermos imprevisíveis que nos torna interessantes, especiais, um mistério jamais de todo desvelado. Um processo contínuo de descobertas pessoais infindáveis. Uma equação, um teorema impossível de ser concluído com a tradicional expressão final do como queríamos demonstrar.


Penso, em relação ao ser humano, que a célebre indagação freudiana “o que querem as mulheres” deveria ser substituída, para tornar-se muito mais coberta de veracidade por outra mais abrangente: o que quer a humanidade? Aprendi, com os livros escritos por filósofos e sábios, e com a minha própria experiência existencial, ser o homem uma máquina de fabricar desejos e sonhos, que nada mais são do que o motor de nossa breve existência. Estamos sempre desejando algo que ainda não possuímos feito um menino querendo um brinquedo novo e quando o tem em suas mãos, brinca com ele durante alguns dias e logo o abandona, o deixa de lado, esquecido na caixa dos brinquedos velhos. É assim que somos de maneira fundamental e incorrigível. Humanidade, teu nome se chama desejo. Sobrenome insatisfação.


E os sonhos, como é que ficam, onde adentram esta história? E eu respondo, do alto da minha insignificância e da minha filosofia de botequim, que também somos uma máquina sonhar. E sonhamos incessantemente os sonhos mais possíveis quanto os mais impossíveis de serem realizados. Desejos e sonhos não passam de férteis produtos da mesma matriz que povoa nossos corações e mentes. O que seria de nós sem os nossos desejos e nossa, por vezes tola, mas poderosa capacidade de sonhar? Um homem sem desejos e sem sonhos é sinônimo perfeito de irrealidade, de uma entidade ilusória que só existe, viceja no pensamento empobrecido daqueles desesperados que não acreditam em mais nada. Um homem sem sonhos, sem desejos trata-se de uma vera impossibilidade, a não ser quando se está morto, com residência fixa na popular cidade dos pés juntos.


Sim, claro, bem sei que nem todos os desejos podem ser passíveis de realização, assim como a maioria dos nossos mais acalentados sonhos conseguem baixar em nosso terreiro. Coisas da vida, percalços do existir. Por isso, findamos por nos transformar, aqui e ali, em animais assoberbados de insatisfação com nós mesmos, com Deus e o mundo. Nossa curta passagem terrenal oscila entre o piquenique e o vale de lágrimas, entre o carnaval e a quarta – feira de cinzas. E daí? Desejar e sonhar, resistir quem há de? Eu não fujo à regra. Confesso-me movido a sonhos e desejos como qualquer dos meus semelhantes. Quanto mais por baixo estou no carrossel da vida, mais sonho e mais desejo. Sou um incurável usuário e dependente eterno do sonhar e do desejar. Sim, olho-me no espelho. Obviamente percebo que envelheci. Entanto, em cada ruga que me vinca o rosto, sonho e desejo fizeram moradia.

terça-feira, 1 de março de 2011

Airton Monte - Mal traçadas linhas - 24 Fev 11

Mais uma crônica de Airton Monte datada do dia 24 de Fevereiro de 2011, chama-se "Mal traçadas Linhas"


Airton Monte - Mal traçadas linhas - 24 Fev 11


Tarde parada, quieta feito um cachorro dormindo. Sobre minha cabeça paira um céu que não é de brigadeiro, infelizmente. Até parece que tudo estancou ao meu redor e me deixou ilhado de silêncio e de ausência dos movimentos habituais do cotidiano. É como se eu estivesse completamente sozinho, sentado na arquibancada de um estádio vazio, na vã espera de um jogo que nunca começa. Folheio os jornais do dia. Estão cheios de notícias repetidas que me dão a ilusória impressão de que os matutinos de hoje se parecem por demais com os periódicos de ontem. Entanto, não me entendam mal, pois longe de mim a ideia de querer que o mundo inteiro pare para que eu possa descer na próxima estação como quem pegou o ônibus errado. Sou um passageiro habitual que mais ou menos sabe para onde vai, muito embora, algumas vezes, o destino final não seja o mais desejado, mas tenha que ser cumprido.


Passo por passo sigo o meu caminho porque sei que é justamente esse caminhar sem fim o tributo que me cobra a vida como um implacável credor. E tento ver beleza e poesia em tudo que me cerca. Nem sempre elas estão à mostra de modo explícito, claros raios de luz cortando a escuridão. Para percebê-las é preciso um pouco de paciência para procurá-las nos detalhes mais insossos e insignificantes do dia – a- dia. Nada de pressa nem de olhares de esguelha. A poesia e a beleza se ocultam, se escondem de nosso olhar bem debaixo do nosso nariz e, descuidados, não as vemos porque o cotidiano nos exige pressa, horários corridos e se paramos um pouco, quebrando a rotina, nos parece que estamos desperdiçando o tempo e tempo é dinheiro e de dinheiro todo mundo gosta, inclusive eu, ao contrário do que muitos pensam.


Sentado no alpendre(felizmente, há sempre um alpendre nas casas onde moro e nesta que habito agora) vejo uma pequena aranha refazendo a sua teia prateada, que a chuva quase destruiu, num cantinho do telhado. Repouso a caneta sobre a mesa de trabalho e me deixo a observar o trabalho incansável da diminuta tecelã. E logo me vem o pensamento de que somos iguais a essa aranha, fazendo e refazendo, fio por fio, a nossa vida. Há aqueles que desistem, há aqueles que persistem, insistem, jamais desistem desse infindável trabalho de Sísifo. Claro que em certas ocasiões, nos vem uma vontade quase irresistível de desistir de tudo, de deixar-se levar bovinamente pelas circunstâncias cantando aquele refrão do samba do Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. É bem mais fácil esperar que as coisas boas caiam do céu feito o maná no deserto, por obra e graça dos deuses.


Infelizmente, na realidade, não é assim que a banda toca. Ah, se fosse, mas isso não acontece. Existem pedras no meio do caminho, atravancando a estrada. Então, é preciso escalá-las, arrodeá-las ou explodi-las com a dinamite da nossa vontade. As nuvens negras, o vento as traz e as leva, embora, algumas vezes, depois da tempestade, venha a ambulância. Ou como disse o poeta, se me não falha a memória: à dores imaginárias, prefiro as reais, doem muito menos, embora durem mais. A tarde pode estar escura, porém minha mente está límpida qual água de uma nascente ainda não tocada pela mão do homem. Bebo um gole de minha garapa de cerveja sem álcool(que castigo) e me recuso a pensar no futuro. Procuro apenas pensar no presente como quem escreve uma tola carta de amor ou um bilhete de despedida de quem vai ali e volta já. E realmente volta ao local de partida, sem desaparecer no meio do nada, na vã tentativa de fugir de si mesmo.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Airton Monte - O Observador

Airton Monte - O Observador - 16 Fev


A tarde parece que anda meio gripada, soltando pequenos espirros, com a coriza intermitente de rápidos chuviscos. A tarde está fria, porém meu coração está quente feito um pão recém-saído do forno. Meu cachorro não para de correr arrodeando todo o espaço do quintal como quem procura alguma coisa indefinida, que somente ele sabe. Talvez também esteja sentindo falta do velho gato gordo que caçava pombos invisíveis pelos beirais dos telhados vizinhos da casa onde morávamos. Os animais possuem lá a sua memória, embora muita gente não acredite. Há passarinhos destemidos, que ignoram o medo e o perigo, tranquilamente pousados nos fios esticados por entre os postes. No sobrado em frente, um pai, que deve ser de primeira viagem, brinca com o filho entre os braços, falando aquela linguagem tatibitati que os adultos pensam que as crianças falam e entendem.

Três horas da tarde em ponto. Ainda é cedo e está longe de escurecer. O dia transcorre escorrendo rotina. Abro o jornal e leio uma notícia estarrecedora. Dois adolescentes assaltaram um ônibus, atiraram em outro jovem e se deixaram olhando a vítima agonizar durante quase trinta minutos. Marcas da maldade humana que se tornam cada vez mais habituais em nossa cidade como a crueldade e a violência. Meu Deus, a que ponto chegamos? Que País é esse onde jovens mal saídos da infância matam outros jovens friamente, não demonstrando sequer um pingo de sentimento? Esses jovens assassinos, se ninguém percebe, são os mesmos que, enquanto crianças, nos pedem moedinhas nas paradas dos sinais de trânsito e nos fitam com olhos de sobreviventes de guerra, de uma guerra urbana que não tem mais fim.


Ao mesmo tempo, em outras páginas, o jornal estampa fotografias de jovens estudantes de bons colégios, que saíram vencedores nos vestibulares mais difíceis desta nação. Estes sonham com um futuro pleno de realizações. Os jovens que matam não sonham com o futuro porque não acreditam mais nele e preferem ganhar o tempo presente de arma na mão e cheirando a pedra maldita que os faz esquecer o seu destino já traçado desde que nasceram. Sabem que a vida vai lhes ser breve e que um dia a bruxa lhes pega dentro da cadeia ou numa viela da periferia, mesmo sendo o rei do pedaço. Para mim, o mais nefando crime que se pode cometer contra uma criança é roubar-lhe a infância. Os jovens vencedores tiveram uma infância. Os jovens matadores, não. Já nasceram quase adultos.


Que ninguém venha pensar que estou defendendo os jovens criminosos, botando toda a culpa no cartório do social, porque se nascer em berço de ouro imunizasse contra tendências delinquentes, rico não roubava e faria parte de uma legião de anjinhos de asinhas brancas, tocando suas harpas, aureolados de santa honestidade. E filhinhos de papai não se divertiriam ateando fogo em moradores de rua. Se me perguntarem se sou a favor do endurecimento do código penal, respondo que sou, inclusive da prisão perpétua. Se sou a favor de acabar com a impunidade dos “de menor”, também respondo que sou. Para mim, bandido é bandido, tenha 13 ou 70 anos. De tudo isso, dessa guerra urbana que grassa e viceja sem freios no Brasil, só tenho uma certeza: nós todos somos, sem nenhuma exceção, vítimas e cúmplices como esta tarde que escurece mais cedo é cúmplice do temporal que pode desabar mais tarde.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais uma do do cronista Airton Monte - 10 Fevereiro 2011

Estou com saudades da antiga casa onde morei durante longos 16 anos, da rua José Sombra, dos vizinhos, da calma que reinava aos fins de tarde de domingo. Ainda não me acostumei de todo com a nova moradia, da qual, por enquanto, não me arrisquei a explorar os arredores. Entanto, bem sei que toda mudança traz consigo boas coisas e coisas ruins e é um tanto quanto difícil habituar-se às inevitáveis diferenças. Os amigos não param de telefonar, me convidando para sair, espairecer os pesados ares que pairam sobre minha cabeça. Porém, vontade não tenho nenhuma de botar os pés fora de casa. Acho que virei um ermitão por esses dias, mergulhando numa solidão forçada que não é própria de mim, mormente aos sábados e domingos, quando me aperta a saudade dos bares prediletos e das conversas sem fim com quem divido o copo e o afeto.


Escrevo afagado pela brisa mansa do quintal, enquanto a tarde se encomprida já com os braços abertos para a chegada do anoitecer. Ao meu lado, minha mulher vasculha os jornais em busca de notícias que prenunciem o desencadear de um novo apagão. Estou tão caseiro que só me falta vestir um pijama de listas e calçar pantufas, sem esquecer do radinho de pilha grudado ao pé do ouvido. Um adorável odor de carneiro assado se espalha pelo ar vindo de um restaurante próximo e carros vão e vêm cheios de fregueses habituais e turistas. De qualquer modo, não posso afirmar que o dia esteja transcorrendo num clima desagradável apenas por restar em casa, sentado a uma mesa, escrevendo o que me vem à cabeça, ao invés de haver ido passear pela cidade, descobrindo novidades, aproveitando o domingo, como muita gente está fazendo agora.


Engraçado, daqui da nova casa, consigo ouvir o carrilhão dos sinos da Igreja dos Remédios convocando os fiéis para a missa das cinco, o que me dá uma boa sensação de familiaridade. Paro por alguns minutos o que estou fazendo e me deixo a ouvir os sinos como se rezasse. Isso me faz pensar no que diz Dona Lúcia Dummar:será que minha religiosidade está voltando? Sinceramente falando, não sei se seria bom ou mau para este suburbano escriba a esta altura da existência. Porém, não é nada que cause grandes preocupações diante de tantas outras inquietações terrenais que me corroem a alma. Questões e problemas que infestam meu cotidiano e que não me dão mais tempo para pensar em mais nada a não ser na sua pragmática resolução. Mas, viver é assim mesmo, com marés cheias e marés secas, tempestades e calmarias e que é preciso, como um velho marinheiro, ir levando o barco devagar.


Na verdade, penso que estou com saudade de tudo que deixei pra trás. Para ser mais preciso, acho que estou mesmo é com uma saudade agoniada de mim, de como eu era e estava há uns três meses atrás. É, por vezes, a gente sente saudade da gente. Outrossim, de que me adianta ficar chorando, macambúzio pelos cantos, se a vaca foi pro brejo e eu não nasci com vocação para caubói? Pior seria se eu não sentisse nada, se minhas todas emoções de súbito congelassem e me transformassem a alma numa geleira glacial. A vida continua seguindo seu ritmo cá dentro e fora de mim com seus prazeres, alegrias, tristezas e angústias habituais. Isto é o que se chama da velha condição humana. Mas que me vem um desejo de beber até o mais profundo esquecimento, de ser, por esta tarde a goela sedenta da cidade inteira. Ah, isso dá. Porém não posso, não devo, não quero.


Airton Monte - 8 de Fevereiro de 2011


Eu juro que sim, por Deus do céu e tudo quanto é mais sagrado nesse mundo e no outro, que há certas coisas predestinadas a acontecerem somente comigo e geralmente de uma maneira absolutamente inexplicável. Coisas que me sucedem sem que eu delas careça, as deseje ou as peça a não sei qual entidade. Outro dia, chegou-me às mãos uma dessas pesquisas surpreendentes ou não tanto, realizada não sei onde e feita por não sei quem (na Internet se acha cada coisa) sobre os hábitos de leitura do varonil povo brasileiro. Pelos meus olhos incrédulos passou uma relação de números cruéis, implacáveis, inacreditáveis, que me revelaram uma pobre nação de apedeutas pertencentes a todas as classes sociais, sem exceção.

Imaginem que 50% da nossa pátria população, que ainda sabe ler, não lê sequer revista de quadrinho, quanto mais livros. O restinho que pratica o ato da leitura, o faz muito mais por alguma imposição estudantil do que exatamente por puro deleite e prazer. Além do mais, pra piorar consideravelmente a situação, apenas uns míseros nove por cento dos que se afirmam letrados são capazes de meter a mão no bolso e comprar um livro regularmente, por mais barato que seja. E uns escassos sete por cento pegam num livro para desfrutá-lo. Isso sem falar num porrilhão de gente que jamais adquiriu na vida um simples jornal, uma mera revista, um prosaico álbum de figurinhas.


Mesmo nas classes mais abastadas, em que dinheiro não é problema, a ojeriza à leitura permanece sendo mais a regra do que a exceção. Portanto, devo concluir que tamanho analfabetismo cultural não é somente fruto de diferenças sociais. Por ordem de preferência popular, os autores mais lidos no Brasil são aqueles dos manuais de auto-ajuda, de livrinhos de caubói e de historinhas açucaradas de amor vendidos em banca de jornal e, claro, o indefectível Paulo Coelho. Não sei, talvez seja por uma crônica falta de intimidade com a leitura, que qualquer fulano capaz de alinhavar duas ou três frases num papel vai logo sendo rotulado impunemente de escritor, com toda a pompa e circunstância de que se acha merecedor e não demora a pleitear um lugar em uma de nossas várias academias.


E pela enxurrada de lançamentos de livros que inunda nossa Taba de Alencar, bem que Fortaleza merece ostentar o título de cidade com mais escritores por metro quadrado do mundo, merecendo entrar com louvor e mérito no livro Guiness de recordes. E haja uma galopante inflação de primas obras perpetradas por poetinhas imberbes, matronais senhoras, provectos senhores que acabam sendo citados nos jornais como grandes autores da moderna literatura cearense. Lançam, todos os dias do ano, sugestivos títulos como Baú de Recordações, Coivara de Letras, O Último Burro, Respingos de Felicidade Conjugal, Pomar de Sonhos, A Lira Esplendorosa e outras barbaridades que tais. Todos se consideram gênios da raça. Vivemos atualmente um torturante dilema de mercado, numa terra onde os “escritores” são infinitamente mais numerosos que os leitores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Airton Monte _ "Solidão"

não pecisa nem dizer que a crônica a seguir é de Airton Monte!!! Se Chama " Solidão"" Mui bem escrita!!!!!!!!!!



Solidão


É meia-noite, assim me diz o meu relógio e mesmo sem querer acreditar, eu tenho que simplesmente acreditar. Quem de nós vai se arriscar a brigar com o tempo? É, pois é, como poetaria Gonzaguinha: vida vamos nós e não estamos sós. Meia noite. A Hora Grande. Parece que vejo fantasmas, ah, mas fantasmas perfumados de jasmins me diz o amigo de todas as horas de atroz solidão: Chico Buarque de Holanda. É meia noite e escrevo, solitário, mas não tanto. Na verdade eu sempre estive só, tão só, que me habituei à solidão, velha companheira.

Que saudades do meu pai, que a esta hora, merecidamente, já deve estar amortalhado nos braços generosos de Morfeu, imerso, no mínimo, no sétimo sono. Que vontade de ligar para o meu bom amigo Erle Rodrigues, mas fico com medo de incomodá-lo. Afinal, já passa da meia noite e meu velho amigo Erle Rodrigues já deve estar no mais completo repouso. E, aqui pra nós, que direito tenho eu de incomodar os meus amigos a esta hora tardia da noite? Sim, estou sozinho, no alpendre de casa, com meus cachorros, embora toda solidão do mundo resida em mim.

Claro, meu caro poeta Airton Monte, que você está absolutamente sozinho nesta noite de merda ouvindo Al Jarreau e daí? E daí cara? Você está crescido, você é uma merda de um sujeitinho de cinqüenta e nove anos e todo o resto da vida pela frente. Pois sim. Contudo, me pergunto, um tanto quanto inquieto: mas que tipo de vida? Morando em casa alugada, eternamente preocupado com a bosta do dinheiro e a oficial extorsão do imposto de renda. Nada disso tem qualquer importância. Nada, neste momento tem a menor importância. Nem a morte dos meus filhos.

Nada, nesse momento único e insuportável, carece de importância. Ponto. Parágrafo. E começar de novo a tecer novas palavras, tantas quantas me sinto capaz. E a noite vai seguindo o seu ritmo. E eu não consigo ouvir estrelas, a não ser que todas se chamassem Marilyn Monroe. Enquanto isso, o demoniozinho que habita em mim me diz, me aconselha que eu me embriague e beba toda a cerveja do mundo. Embriagar-se é uma saída muito fácil. Prefiro encarar a solidão de frente que nem um sapo engolindo um cigarro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Será mesmo?

Reproduzindo, como sempre faço sempre que posso a também sempre boa crônica do alencarino escritor Airton Monte, foi publicada no jornal O POVO tem por título " Será Mesmo?".


Será mesmo?


Mal começo a escrever, me vem ao atabalhoado bestunto um pensamento meio fora de hora. Nada mais, nada menos que as longas tardes de sábado foram particularmente criadas para se conversar com os amigos sem nenhuma pressa, desfrutando o tempo que nos é dado de mão beijada, generosa oferenda. Apenas conversar sobre o tudo e o nada, sobre os assuntos mais importantes e desimportantes (na nossa abalizada opinião, é claro), sobre aventuras passadas e presentes, quer sejam reais ou fictícias, sobre peripécias vividas, trocando ideias, confissões íntimas, piadas, prazeres e sofreres. Falar a respeito da vida e da morte e suas dimensões inesperadas. Não é o que costumam fazer os amigos de longa data quando se reúnem em uma democrática mesa de bar?


Só sei que desses encontros saio de alma lavada e enxaguada, consideravelmente revigorada para enfrentar durante a semana as agruras do cotidiano. No último sábado, apesar da ressaca do réveillon, a cidade já acendendo suas luzes, eis-me a papear, primeiro, com Erle Rodrigues, que há tanto tempo não revia, cuja presença inevitavelmente me premia com uma boa conversa e libertadoras gargalhadas. Vai-se o Erle, lá se vem Audifax Rios. Pensei cá comigo: hoje é meu dia de sorte. A noite avança mais um pouco, despede-se o Audifax não sem antes me ofertar o seu opúsculo:Travessia Rio-Mar. Finalmente, vão se esvaziando as mesas do Flórida e chega a minha vez de dar adeus às armas. Apesar de boêmio, sou pai de família, marido exemplar e dos mais virtuosos, embora seja difícil de acreditar.


Bom voltar pra casa, pro meu mundinho singular, onde tudo é ordem e todas as coisas que me pertencem possuem um nome próprio porque nomeadas por mim. Nada de escrever nas noites de sábado, salvo se premido por uma pertinaz e incômoda urgência. Satisfeito por não ter obrigações nem compromisso com as palavras, concedo às volúveis musas de plantão a sua ansiada folguinha semanal, que elas bem merecem. Sábado à noite, para mim, torna-se sinônimo de leitura, não de oficina de palavras para preencher o vazio do papel. O outro dia domingo nascerá, o dia do inesperado, dos acontecimentos puramente fortuitos. Agora, confortavelmente instalado no alpendre da casa, me acossa um sentimento inquietante, eivado de uma súbita solidão.


Neste exato momento, sou um homem tão só. Percebo-me irremediavelmente só feito um Robinson Crusoé sem radinho de pilha, como certamente diria Nelson Rodrigues e nada, absolutamente nada posso fazer a respeito. Há correntes, grades, trancas, cadeados nos meus sentimentos. Meus afetos foram postos a ferros como remadores num porão de navio, até meu coração esqueceu os idiomas naturais da transcendência. As minhas palavras estão chumbadas no desvão da indiferença por tudo que me cerca. E, por ora, dispensam a existência e a presença do próximo. Por baixo de uma aparente calmaria, as emoções submersas desembestam incontidas, irrefreáveis. Sei que depois tudo isso passa sem deixar vestígios e volto a ser aquele sujeitinho vulgarmente simpático que sempre fui e demonstro. Será mesmo?


Airton Monte - publicada no Jornal O POVO de 6 de Janeiro de 2011