terça-feira, 21 de junho de 2011

Airton Monte - Tempo , tempo , tempo - 11 Abril 2011

Genialidade total de Aiton nessa crônica!!!!!


Airton Monte - Tempo , tempo , tempo - 11 Abril 2011



Mais um dia que passa. Mais um dia que vivo ou sobrevivo e agradeço mui penhoradamente essa vital oferenda a todos os deuses conhecidos e desconhecidos, apesar de todos os reveses últimos pelos quais andei atravessando. Há dias que se esvaem, que se esvanecem numa rapidez tamanha que mal chegamos a nos dar conta de sua meteórica passagem. Amanhece, entardece, anoitece como as cenas de um filme projetadas em alta velocidade. Hoje foi um dia desses, tão cheio de pressa feito estivesse atrasado para o sempiterno encontro antes da hora marcada com o amanhã. Talvez porque se trate de uma segunda-feira, o mais cruel dos dias, por ser a absoluta senhora dos relógios, rainha da rotina em que os compromissos são implacavelmente inadiáveis, a não ser que se esteja gravemente doente ou mortos.

Somos, na verdade, uns miserandos escravos do tempo e essa gasta expressão, a qual gostamos tanto de usar, “passar o tempo” trata-se de uma simplória inverdade. Nós jamais passamos o tempo nem o gastamos. O tempo é que nos passa e gasta. Quando percebemos, quando compreendemos isso, por vezes é muito tarde, tarde demais, podem acreditar. Um belo dia somos jovens, esbanjando saúde, vitalidade, sonhos a granel. No outro, nos olhamos ao espelho, ocupados no prosaico ato de barbear-se e vemos, espantadíssimos, refletir-se a cara enrugada de um velhusco, de ralos cabelos embranquecidos e sonhares menores do que já fomos capazes de acalentar. Os dias passam, pois seu mister é passar. Vão nos legando suas marcas indeléveis em nosso corpo e em nosso espírito. O tempo é um tatuador do inesperado que nos faz perguntar: o que aconteceu comigo?

Ora bolas, meu prezado amigo. Aconteceu com você exatamente o que costuma acontecer com todas as gentes. Simplesmente o tempo lhe pegou pelas goelas e lhe transformou, sem apelação possível a uma corte porventura superior, no indivíduo que você é agora, nessa imagem que lhe parece irreal, distorcida, surgida no espelho enquanto você se barbeava tranquilamente. Eu mesmo tomo cada susto tremendo, quando em vez, ao deparar-me comigo na máquina de formato oval de fabricar imagens pendurada na parede do banheiro. Constato o óbvio:as mudanças de idade trazem consigo as indesejáveis mudanças físicas das quais nenhum de nós está a salvo. Todavia, espantar-me logo finda porque envelhecer trata-se de uma doença própria dos vivos, cuja cura só se alcança ao encetarmos aquela temida viagenzinha para a cidade dos pés juntos.

Lembro-me, nesse justo instante, que daqui a breves 30 alvoreceres estarei adentrando a contragosto nos encanecidos umbrais dos meus 62 outonos, os quais prefiro, por questão de gosto, apelidar de 62 primaveras. Não sei se bem ou mal vividas, existidas, experenciadas. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva, pois é assunto que não me agrada pensar. As respostas virão de qualquer modo, independente de minha vontade. E de nada adianta lutar desbragadamente contra o tempo, submetendo-se a cirurgias plásticas, recauchutar a cabeleira, renovar a sambada dentição através de implantes. Claro que tais fugidas do envelhecer conseguem melhorar as aparências, porém você permanece com a idade cronológica e suas inevitáveis vicissitudes. Lutar contra o tempo é batalha perdida. O tempo sempre vence. E por nocaute.

Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011

Pra mim uma das crônicas mais bem escritas por Airton Monte 


Airton Monte - Sempre aos Domingos - 7 Abril 2011





O domingo amanheceu esplendorosamente banhado de sol como há tempo eu não via nessa temporada de chuvas intermitentes que sobre nós desabam sem aviso prévio e nos surpreendem quando menos as esperamos e desejamos. Faz um solzão desses que parecem incendiar o dia e cegar os olhos de quem se atreve a erguer a vista para o céu mais demoradamente. As praias devem estar pululando de gente gastando o abençoado feriado dominical. As pessoas disputam um lugarzinho na areia e fazem a alegria dos barraqueiros, dos vendedores ambulantes. As mulheres se desvestem enfiadas em biquínis minúsculos onde não cabe espaço nem para a etiqueta. Louras, morenas, negras, mulheres de todas as cores que atraem o olhar cúpido dos homens e o de outras fêmeas, pois hoje ninguém sabe mais quem é quem em matéria de preferência sexual.


Um domingo radiantemente solar, como esse que reina em Fortaleza, costuma transformar-se num pequeno carnaval. Tudo é festa, alegria, a diversão se torna a ordem do dia. Os donos de restaurante não têm motivos pra se queixar da vida, pois até mesmo nos botecos pés – de- chinelo a distinta freguesia ocupa todos os lugares disponíveis. Hoje, muitos vão encher a caveira e as emergências dos hospitais ficarão lotadas devido aos acidentes provocados pelos ensandecidos do volante e os malucos que pilotam as indefectíveis motocicletas. Nos domingos naturalmente se instala o desvairado reinado de Baco e a irresponsabilidade domina a maioria das ações humanas. E os pecados dominicais, quer sejam veniais ou mortais, já se sabe que quem os paga é a implacável segunda – feira, porque a realidade não aceita promissórias nem dívidas atrasadas.

As crianças sentirão um gostinho de liberdade depois de haverem passado a semana inteira trancafiadas na escola ou entre as grades dos condomínios. Aos domingos, as amantes geralmente amarguram a solidão, pois não receberão a amorosa visita de seus amores clandestinos, que estarão, embora a contragosto, cumprindo os obrigatórios deveres conjugais na companhia das amantíssimas esposas e dos filhos. As amantes ganharão, no máximo, um rápido telefonema de fingido carinho e as tradicionais desculpas de sempre a que já estão acostumadas enquanto ainda não possuem o domínio total da relação, que algumas conseguem e a maioria não. Semana que vem as pazes serão seladas do modo costumeiro e tudo continuará como dantes no Quartel de Abrantes da paixão. Ou não. Entanto, nesse dia cheio de suspiros o amor circula livre feito um vírus, parodiando Mário Quintana.

Ah, sim. Ia me esquecendo daqueles naturalmente dotados de pendores domésticos que preferem ficar em casa por escolha própria, aboletados diante da televisão, controle remoto nas mãos, mudando constantemente de canal como quem procura sabe-se lá o quê ou se dedicam a fazer pequenos consertos caseiros perfeitamente dispensáveis. Aos domingos, a vida parece correr mais mansa, mais pacífica. As preocupações cotidianas são varridas pra debaixo do tapete pelo menos por um dia, e por vezes o sujeito tem a ilusória impressão de que o sossego bateu à sua porta, embora saia pela janela mal chega a noite prenunciando a volta da rotina. De qualquer modo, o domingo iguala todos nós ao atiçar nossa sede insaciável de divertimento, contudo provisória. Talvez porque o sol procrastine o fim da tarde, crie ilusões à toa tal qual o vento brinca esculpindo nuvens.

Airton Monte - Um homem com medo - 6 Abril 2011

Bom texto - Muito bem escrito como é peculiar a esse excelso cronista


Airton Monte - Um homem com medo - 6 Abril 2011


Se os japoneses andam se pelando de medo, e com toda razão, das emanações mortalmente radiativas emanadas dos reatores nucleares de Fukushima, praticamente destruídos pela catastrófica fúria das ondas gigantes, cerca de noventa por cento dos nordestinos morrem de medo de serem assassinados pelo tsunami da violência que se espalha pelo brasílico território de maneira aterradora e incontrolável feito a dengue. E não se encontram neste estado permanente de terror à toa ou por serem uma raça por demais eivada de uma pessimista imaginação. A terrificante realidade com que somos forçados a conviver registra a segunda maior média de homicídios de todas as regiões brasileiras. É ou não é um fato incontestável capaz de assustar o mais tranquilo dos cidadãos?
Cá por mim, na condição de nordestino nato e observador atento de tudo que me cerca, não me nego a confessar que também padeço de idêntico temor, mas que jeito posso dar para diminuir, sem que seja um tantinho assim, esse meu pavor e que não é só meu, pois já atingiu uma significante parcela da população, da qual não está de modo algum excluída nenhuma parcela da nossa desamparada coletividade. Acredito que nem mesmo os que fazem parte do seleto clube da grana farta se consideram fora da possibilidade de risco de perder a vida durante um assalto. Quanto mais eu, um pobre pertencente à chamada classe média aperreada e que só dependo de mim mesmo e da proteção da sorte para minha triste figura e dos meus familiares. Estas estatísticas apavorantes findam por me deixar de coração nas mãos e alma arrepiada.

Dinheiro não tenho o suficiente para me cercar de parrudos seguranças que me garantam parcialmente a física integridade. As minhas minguadas posses materiais me impedem de trafegar em carro blindado, de instalar modernos equipamentos de eletrônica vigilância em meu modesto recesso do lar e me sinto entregue, com um pé na frente e outro atrás, à parca segurança que me é oferecida pelos poderes públicos, o que, havemos de convir, não é lá essas grandes coisas. Não quero dizer que não confio na eficiência da nossa polícia, que faz o que pode e o que dá para tentar oferecer um pouco mais de segurança à alencarina população. Contudo, sabem como é, trata-se verdadeiramente de um confiar desconfiado, que me perdoem as autoridades competentes e os nossos bravos e dedicados soldados da lei. Não é intenção minha ofender a seu ninguém.

Outrossim, estou bem longe de desejar mentir para mim mesmo. Hoje, me considero um sujeito muito mais cheio de medo do que o era há alguns anos passados. E não é pra menos. Está à vista de todos nós, habitantes desta metrópole cada vez mais tomada pela desenfreada violência. A bandidagem em todas as suas formas prolifera de maneira incontida feito uma legião de ratos um terreno baldio entupido de lixo. Que erga a voz em alto e bom tom todo aquele que não vive assoberbado de medo nesta bendita Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Porque eu não tenho pejo em afirmar que sou um homem cheio de medo. O desassossego caminha ao meu lado como uma segunda sombra a cada dia e a cada noite de meu assombrado cotidiano. O medo tornou-se meu desagradável, incômodo companheiro que hei de suportar por um tempo apavorantemente indefinido.

Airton Monte - Um homem com medo - 6 Abril 2011

Bom texto - Muito bem escrito como é peculiar a esse excelso cronista


Airton Monte - Um homem com medo - 6 Abril 2011


Se os japoneses andam se pelando de medo, e com toda razão, das emanações mortalmente radiativas emanadas dos reatores nucleares de Fukushima, praticamente destruídos pela catastrófica fúria das ondas gigantes, cerca de noventa por cento dos nordestinos morrem de medo de serem assassinados pelo tsunami da violência que se espalha pelo brasílico território de maneira aterradora e incontrolável feito a dengue. E não se encontram neste estado permanente de terror à toa ou por serem uma raça por demais eivada de uma pessimista imaginação. A terrificante realidade com que somos forçados a conviver registra a segunda maior média de homicídios de todas as regiões brasileiras. É ou não é um fato incontestável capaz de assustar o mais tranquilo dos cidadãos?
Cá por mim, na condição de nordestino nato e observador atento de tudo que me cerca, não me nego a confessar que também padeço de idêntico temor, mas que jeito posso dar para diminuir, sem que seja um tantinho assim, esse meu pavor e que não é só meu, pois já atingiu uma significante parcela da população, da qual não está de modo algum excluída nenhuma parcela da nossa desamparada coletividade. Acredito que nem mesmo os que fazem parte do seleto clube da grana farta se consideram fora da possibilidade de risco de perder a vida durante um assalto. Quanto mais eu, um pobre pertencente à chamada classe média aperreada e que só dependo de mim mesmo e da proteção da sorte para minha triste figura e dos meus familiares. Estas estatísticas apavorantes findam por me deixar de coração nas mãos e alma arrepiada.
 
Dinheiro não tenho o suficiente para me cercar de parrudos seguranças que me garantam parcialmente a física integridade. As minhas minguadas posses materiais me impedem de trafegar em carro blindado, de instalar modernos equipamentos de eletrônica vigilância em meu modesto recesso do lar e me sinto entregue, com um pé na frente e outro atrás, à parca segurança que me é oferecida pelos poderes públicos, o que, havemos de convir, não é lá essas grandes coisas. Não quero dizer que não confio na eficiência da nossa polícia, que faz o que pode e o que dá para tentar oferecer um pouco mais de segurança à alencarina população. Contudo, sabem como é, trata-se verdadeiramente de um confiar desconfiado, que me perdoem as autoridades competentes e os nossos bravos e dedicados soldados da lei. Não é intenção minha ofender a seu ninguém.
 
Outrossim, estou bem longe de desejar mentir para mim mesmo. Hoje, me considero um sujeito muito mais cheio de medo do que o era há alguns anos passados. E não é pra menos. Está à vista de todos nós, habitantes desta metrópole cada vez mais tomada pela desenfreada violência. A bandidagem em todas as suas formas prolifera de maneira incontida feito uma legião de ratos um terreno baldio entupido de lixo. Que erga a voz em alto e bom tom todo aquele que não vive assoberbado de medo nesta bendita Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Porque eu não tenho pejo em afirmar que sou um homem cheio de medo. O desassossego caminha ao meu lado como uma segunda sombra a cada dia e a cada noite de meu assombrado cotidiano. O medo tornou-se meu desagradável, incômodo companheiro que hei de suportar por um tempo apavorantemente indefinido.

Airton Monte - A salvo - 5 Abril 2011

Airton Monte - A Salvo 5 Abril 2011



Na semana que se foi, este suburbano escrevinhador cumpriu a contento, com distinção e louvor, embora com uma má vontade explícita a se refletir claramente em meu rosto, o obrigatório dever de ir ao médico. Já que tinha de ir, pois já era mais do que chegada a hora indesejada de me encontrar cara a cara com meu esculápio, eu fui. De que me adiantava adiar, inventando as mil desculpas manjadíssimas de sempre a devida visitinha? Pois então, existem coisas na vida das quais torna-se impossível esquivar-se, evitar, fingir que podem ficar para depois, porque as nossas dívidas só deixam de nos atubibar o juízo após devidamente pagas. Poucos são aqueles viventes que vão ao médico por livre e espontânea vontade, mesmo sendo sortudos possuidores de uma saúde de jumento premiado, que não sentem sequer uma prosaica dor na unha do dedo mindinho.

Sim, quem pode negar, em sã consciência, existir uma rara espécie de humana criatura que vai ao médico possuída pelo mesmo espírito alegre com que os boêmios batem o ponto diário em seus botecos prediletos. Algumas delas, para profundo espanto meu, não se contentam somente com a ida regular ao clínico geral. Não é o bastante para inteiramente satisfazê-las. Quase movidas por certa obsessão, só se dão por saciadas após frequentarem, uma empós a outra, todas as especialidades hipocráticas criadas pelo desenvolvimento das artes hipocráticas. Desejam compulsivamente obter prova após prova a certeza e a segurança de que em seu corpo e em sua mente não viceja nenhum resquício, nenhum rastro de uma talvez possível, esconsa doença.

Submetem-se, com prazer inenarrável, a todos os tipos de exames clínicos imagináveis e existentes na moderna medicina, desde um simples exame de fezes à cintilografia. Concluídas todas as investigações laboratoriais, inclusive as completamente dispensáveis, adoram sair por aí exibindo à guisa de valioso troféu a grandiosa batelada de exames realizados com a face banhada por um clarão de indisfarçáveis orgulho e euforia. Por mais incrível que pareça, tais figuras viciadas em frequentar consultórios só costumam falar sobre enfermidades, sendo as mais raras o seu assunto preferido. Resultado: previsivelmente acabam estragando qualquer conversa e enchendo o saco dos familiares e dos amigos, pois não conseguem falara respeito de outro tema.

Posso estar emitindo uma opinião mais equivocada do que previsão climática de certos profetas da chuva. Entanto, penso que tais personagens padecem de um medo fóbico da morte e acreditam que indo ao médico mais do que o verdadeiramente necessário, se colocam compulsoriamente a salvo do inevitável alcance da Belle Dame Sans merci. Para encurtar a história, que isso não é conversa pra fazer leitor dormir, fui ao médico, levando os papéis de praxe. Para meu alívio, o Doutor Carlos Roberto Vasconcelos, velho e querido amigo, disse que o câncer que me atacou solertemente o fígado não deu sinal de vida, deixando-me em paz pelo menos por enquanto. Falo por enquanto, porque com câncer não se brinca e ninguém pode se considerar plenamente seguro de que não virá a ser vítima de um novo assalto do temido caranguejo. Mas preciso engordar uns quilinhos e seguir à risca o tratamento. Notícia ruim: continuo terminantemente proibido de beber. Que importa? Viver é tão bom.

Airton Monte - Verde, só dólar!! - 4 de Abril 2011

Airton Monte - Verde , só dólar!


Pois então, dizem com ar tristonho os meus olhos quando me locomovo pelas ruas da metrópole alencarina: Fortaleza é uma cidade sem verde. E eu, diante do cenário quase desértico que me cerca, só me resta baixar a cabeça e concordar, sem discutir nem tergiversar, com a verdade explícita tão sobejamente divisada por minhas gastas pupilas. Sim, a realidade é feita do que é e não do que sonhamos ser. E a brutal verdade que de há muito vem se abatendo sobre a cidade em que sobrevivo, transito e me morro de amores é uma única, que não pode ser de modo algum negada. Fortaleza está, pouco a pouco ou cada vez mais rápido, não sei bem ainda determinar o ritmo, se transformando em uma cidade despida de árvores, como se os pés de algum Átila por aqui pisassem incessantemente.

Não faz muito, li nos jornais que cerca de cinquenta e duas árvores frondosas, das mais variegadas espécies, foram derrubadas sem a menor complacência bem no coração da Aldeota por magnatas da construção civil, que nada se importam com os males que causam ao ambiente e à paisagem urbana. O que me faz lembrar os versos de uma canção de Caetano Veloso, quando ele fala sobre a força da grana que ergue e destrói coisas belas. Porém, para quem é movido pela ganância as coisas belas carecem de importância, de significado. Eles cultivam um deus famigerado chamado de mercado, cuja lei primordial e dominante reza que todo lucro é inegavelmente honesto, desde que seja lucro. Quanto às coisas belas que vão destruindo, ora bolas, que se lixem.

As coisas belas? Deixem-nas servir de apropriado combustível para abastecer os sonhos, as visões ilusórias dos poetas, que vivem em sus mundinhos de faz – de – conta, docemente mergulhados em seus paraísos artificiais e se satisfazem em escrever palavras com que pensam ser capazes de mudar o mundo. Os poetas não entendem nada do vasto, intrincado universo dos grandes negócios, onde o dinheiro rola a rodo para quem os conhece a fundo e manipulam os cordéis quando e como querem. Os poetas tudo ignoram da bolsa de valores, da compra e venda de ações no cassino dos pregões. Os poetas jamais conseguirão aprender o poder absoluto, sem fronteiras do dinheiro e só reconhecem a importância de uma gorda conta bancária quando ficam velhos ou quando se encontram à beira de passar fome.

As coisas belas? As coisas belas não valem um tostão furado nem rendem juros nem compram o luxo e a riqueza. O mundo pertence aos vencedores, aos que alçam o mais alto cume da pirâmide social, que são sócios majoritários do exclusivo clube dos milionários. Os poetas repetem nas suas desimportantes cantilenas que cada homem vale pelo que é. Os poetas ainda não se deram conta de que, muito pelo contrário, cada homem vale mesmo é o quanto carrega no bolso ou guarda no cofre dos bancos. Os poetas não passam de uns pobres coitados, eternamente atrás de um mecenas que financie seus deletérios projetos literários, esquecidos de que a Beleza não põe comida nas suas próprias mesas. Deixem-nos sonhar acordados seus sonhares que jamais se tornam realidade. Para que necessitamos de uma cidade verde? A nós, os donos do pedaço, só nos interessa o verde das belas notas de dólar.

Airton Monte - Medo de Avião 1 Abril 2011

Voltando a publicar as excelentes crônicas de Airton Monte - Depois de quase três meses!!


Medo de avião


Lá bem no alto, no cume do céu, um avião de carreira como um cometa de prata atravessa a floresta densamente fechada de nuvens plúmbeas carregando sua carga humana. Desconheço seu destino final, quem sabe aonde vai? Talvez para um lugar distante que jamais visitarei. Ou, quem sabe, aterrissará em uma cidade mais perto do que penso. Imagino as cenas que se passam a bordo enquanto o veloz pássaro metálico segue seu rumo por mim ignorado. Certamente haverá em seu bojo aqueles passageiros iguais a mim, que morrem de medo de voar e só pensam em tragédias, catástrofes, desastres que costumam encher as páginas dos jornais. Estes, durante todo o percurso, mantêm-se crispados nas poltronas, a tensão, o medo expostos nas faces pra todo mundo ver, sem importar-se com a mangoça alheia.

Alguns, mormente os marinheiros de primeira viagem, só embarcam depois de tomarem umas boas doses etílicas de coragem, tentando controlar a fobia que os assoma dos pés à cabeça. Outros preferem ingerir um tranquilizante qualquer, uma muleta química que os ajude a atravessar o que pensam ser uma ponte balouçante sobre um terrificante abismo. Há aqueles mais temerosos que, por via das dúvidas, não hesitam em fazer promessas aos santos de sua devoção na busca aflita de um adjutório metafísico para que a viagem finde dentro dos esperados conformes e em bons termos. E mesmo assim ainda murmuram orações o tempo inteiro, um terço, um rosário pendentes entre os dedos a fim de se sentirem mais protegidos contra os azares da sorte.

Afirmam os mais sábios especialistas do ramo ser o avião o mais seguro dentre os meios de transporte e que é muito mais provável o sujeito ir dessa pra pior numa prosaica queda da cama do que em um desastre aéreo. Já eu compartilho da mesma opinião do poeta Vinícius de Moraes, que também não morria de amores pelas viagens de avião e que justificava seu pânico comentando como é que podia ser tão seguro assim um aparelho mais pesado do que o ar e movido pela energia de motores a explosão? Também acho, apesar de todas as afirmações e estatísticas em contrário. Sei lá. E se o bicho resolver dar zebra logo no meu voo, me levando pros confins do beleléu? E me reduzindo a um número a mais no rol dos acidentes por mais rara que seja a possibilidade. Prefiro não arriscar-me à toa e só entro num aeroplano se for caso de urgência extrema e não houver jeito de chegar aonde sou forçado a ir.

Juro que nutro uma profunda, imensa inveja daqueles que são destituídos do pavor avionário e que se sentem tão à vontade dentro de um Boeing como se estivessem confortavelmente em casa, mansamente instalados em sua poltrona predileta gozando as delícias de um domingo solar. Penso que a popular expressão voar de avião jamais constou nem constará de meu dicionário pessoal pelo fato de que dentro de uma aeronave você não voa. Na verdade, você é voado, pois nenhum homem, ao que eu saiba, nasceu dotado de um par de asas. Para piorar a situação, dizem que a maior parte dos desastres aéreos é fruto de falha humana, como se as máquinas fossem infalíveis. É por essas e outras que prefiro restar assentado de pés em chão firme, alçando voo somente na minha imaginação, animal bípede e pensante que sou por minha própria natureza.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Conto - Um suicida - Cícero Sandroni

Um suicida

Cícero Sandroni

Para Bob Testinha


Quando o maldito dia de 24 de agosto de 1974 amanheceu em São Paulo, cinzento, brumoso e frio como geladeira de necrotério, eu estava acordado, olhos ardendo, prostrado na poltrona onde tinha passado a noite, bebendo gim e fumando, solitário como cão danado. Às seis da manhã, na boca amarga e ressequida, a língua áspera, grossa, implorava litros d'água; eu negava, porque àquela altura do campeonato, não tinha força para levantar minha gorda bunda e ir até à cozinha. Com a garganta entupida de catarro, mal conseguia respirar.

Quando fraco raio de sol saído não sei de onde projetou-se sobre meus olhos, pensei que ficaria cego. A luz entrava pela veneziana aberta e se espalhava no meu rosto. Não sei onde encontrei ânimo pra levantar a cabeça que pendia inerte sobre o peito. Olhei pra fora, enfrentando aquela luminosidade opaca, estranha, que descia do céu escuro lá dos lados da Mooca. Um panorama de assustar leão. No ar, aquele chumbo grosso, filtrado pelo sol; aquela névoa encardida e porosa. Estou falando da poluição que amanhecia ao meu lado, à minha volta, envolvendo todo este maldito burgo, este maior parque industrial da América Latina , esta latrina de monóxido de carbono.

"Merda de cidade", pensei, mas pensar doía. A cabeça latejava terrivelmente. Eu sofria a pior ressaca da minha vida; não obstante, dentro daquele bloco de granito enroscado no alto do pescoço, no centro daquela pedra dolorida, havia uma idéia; à qual eu me agarrava como última saída, derradeira solução, desfecho final do meu problema. Eu ia me matar.

A maldita certeza de acabar de vez com a existência naquele dia, me dava forças, apesar do porre ciclópico da noite e a ressaca. Escrevo porre ciclópico mas sei que só me entenderão os que, como eu, já passaram por boa carraspana de gim.

É o estraçalhamento total do corpo, até à última gota de sangue. Imagine-se enfiado numa máquina de moer carne, enquanto alguém gira a manivela devagar, devagar. O corpo é moído e triturado e assim fica o dia todo, até o cair da noite, quando sobrevém aquela sensação de alívio e bem-aventurança; aí é hora de começar de novo. Se você tiver caráter suficiente pra enfrentar a parada, é claro.

Pois bem. Eu estava justamente naquela fase do esbagaçamento total. Mas a perspectiva de liquidar de vez com a fatura me dava ânimo pra voltar do país dos mortos. Não sei explicar a razão deste súbito paradoxo; afinal, eu estava exatamente a fim de comprar a passagem de ida pra lá.

Agora, pequena pausa pra meditação. Por que um cara se mata? Ou melhor: existe razão pra estar vivo, só porque se foi parido? No meu caso, e nos milhares de outros — milhares, sim senhor — a resposta é negativa. Nós constituímos a minoria de pessoas que se mata neste país. Se mata a faca, a bala, se enforca, se atira de edifício, toma guaraná com formicida. Segundo o Anuário Estatístico do IBGE, que consultei, os suicidas de São Paulo preferem matar-se a bala. Gente macha.

Eu não sou exceção. Bom paulista quatrocentão, fruto decadente de família tradicional, bisneto de um cara que ajudou a fundar São Carlos, eu acabaria com a vida dignamente, apertando o gatilho de meu Taurus calibre 32 sem tremer. A bala penetraria velozmente neste peito varonil e, num segundo, bumba! Menos um neste festim de merda que nos servem no planeta e mais um na relação de suicida do Anuário do IBGE, capítulo comportamento social brasileiros.

Neste momento você pode pensar que meu desejo de morte seria o resultado da bebedeira, mas ta completamente enganado. Vou dar razões objetivas, claras, irrespondíveis. Como já disse, sou o que geralmente se conhece por fruto podre da família. Recebi minha parte da herança de um avô fazendeiro e, sem o menor arrependimento ou sentimento de culpa, gastei tudo nas bocas do luxo e depois nas bocas do lixo de São Paulo. Só me restou o apartamento do Alto das Perdizes. Aos 42 anos, depois de trinta dissipados numa boa vida, sou hoje o que os bem-pensantes, os bem sucedidos, os que venceram, chamam de fracassado.

Os amigos de infância, das farras de adolescência, das surubas juvenis, dos porres inenarráveis, cada um deles encontrou sua vereda, seu caminho, cada um realizou-se à sua maneira. Por exemplo, os que se meteram em política. Ou estão no exílio, ou no governo. Uns levaram porrada na polícia. Outros estão no poder. Semana passada vi um deles descendo de automóvel oficial - porra, o cara é importante pra caralho. Mas eu conheço ele do tempo de faculdade, tivemos juntos um matadouro na Lapa e por isso sei que não é muito chegado a mulher. Agora, o que ele goza com o poder, não está no gibi.

Outra parte da turma se meteu em negócios e enriqueceu pra burro. Meu Deus, nesta cidade, quem quer fica rico em pouco tempo. E só saber explorar os outros, organizar sua senzala, como diz o Mário. Ou então casar com filhas de imigrantes endinheirados e comer as sobras que turcos e italianos deixam nos pratos. E um vale tudo para o qual não tenho a menor vocação. Assim, enquanto os amigos fraternos, todos irmanados nos ataques de madrugada às domésticas na Avenida Angélica, enquanto eles mamavam nas negociatas, subiam na política ou eram empalados e levavam choques nos culhões, eu calmamente raspava os vinténs finais da arca do avô, com a maior despreocupação.

Também não casei. Deixei passar o que na minha época a família chamava de bons partidos porque não sou de me amarrar em mulher e nem gosto de brancas. Tenho um fraco pelas mulatas, mas nesta altura já estou desiludido e cansado. Acho grande sacanagem pagar mulher, sempre que tenho tesão. Estou farto de pagar mulher! Pombas! Será que nesta puta desta cidade de São Paulo não existe uma só mulata capaz de ir comigo pra cama, por amor? Não existe, já procurei; é tudo no michê, e cada vez mais caro.

Sentiram o drama? Hipertenso, míope, lerdo, meio brocha, gordo feito um capado, e o que é pior, na beira da falência; abandonado pelos amigos que, dispersos pela vida só pensam em ganhar dinheiro e empanturrar os filhos com pizzas e quibes; eu estava só; só, fudido e mal pago. Estava no fim da linha. E em excelentes condições de meter uma bala na cabeça. E me mandar de vez.

Mas devo dizer por obrigação de consciência que atribuo ao gim, esta santa bebida, a força moral e a coragem para pôr em prática tal decisão. Ouvi dizer que bebedor de gim é mau caráter. Discordo — ou então sou a exceção. Devasso, dissipado, preguiçoso e prevaricador, sim. Mas mau caráter, não. Depois, o gim dá a clarividência cética, objetiva, que só o bebedor tem. Se você passa trinta anos de sua vida enchendo a cara e encharcando o organismo diariamente com este líquido perfumado e amargo, tua visão do mundo se transformará completamente; e você então chegará à definitiva conclusão. Nada mais a fazer senão aquilo. E o gim também te dará forças pra disparar a arma.

Assim, resolvido e reconfortado, ao levantar da poltrona arrastei a carcaça até o banheiro e dei uma boa mijada. Depois, em direção à cozinha. Como de hábito, tomei quatro engoves com meio litro d'água. Eu precisava equilíbrio pra realizar meu plano. No apartamento estava tudo quieto, aquela placidez a indicar a ausência de empregada. Melhor. Arrumei uma pequena mala de papelão onde botei camisa, cueca, a escova de dentes e outra pasta de vinil onde botei o revólver. Comi um pedaço de queijo de Minas e dei a última olhada no apartamento herdado do avô. Ficaria pra um distante sobrinho, que morava em Franca. Escrevi o tradicional bilhete de adeus pros amigos, deixei em cima da mesa da sala. Eles iam ter uma puta surpresa. Saí de casa e peguei um táxi.

— Para o hotel Mayflower — eu disse.

O hotel Mayflower, no fim da Avenida São João, foi escolhido com cuidado e atenção. É discreto, ao lado do Médico Legal. Eu não queria dar trabalho a ninguém. Quando cheguei na portaria, o espanhol do balcão, meu conhecido de outros carnavais, nem levantou a cabeça. Mas quando virou a folha do jornal, percebeu que estava sem mulher ao lado.

- Hoje veio de bagagem?

— Vou ficar uns dias.

— Então paga adiantado.

Paguei três diárias.

Para ir até o quarto 32. o meu preferido, eu teria de subir dois lances de escada. O elevador pré-diluviano estava enguiçado. A perspectiva me deixou meio morto. Levar noventa e cinco quilos escadas acima. Só uma coisa me animava: acabar logo com a história. Um tiro rápido, bang, e pronto.

O quarto 32 era simples e limpo, como qualquer quarto de hotel de terceira. A cama, o armário. a mesinha. Examinei o pequeno banheiro; abri a torneira da pia, saiu um fio d'água. "País subdesenvolvido é fogo", pensei. Voltei pro quarto, me estirei na cama. Espichei bem o corpo, como se quisesse crescer mais. Relaxei os músculos, quer dizer, aquela massa de carne e sebo, o que restava dos meus músculos. Aí fiquei deitado, quieto, tentando recordar alguns momentos da minha infância. Não é o que acontece com quem está prestes a passar desta pra melhor? Mas de infância, nada.

Em seguida levantei-me. sentei na cama e peguei a pasta onde trazia o Taurus. Abri lentamente o fecho e deixei que o revólver deslizasse para cima da cama. Quero ser preciso: exatamente neste momento, tive pequena ereção. Não foi nada demais. No momento em que o Taurus saiu da pasta, o pau deu aquele pequeno impulso pra cima. Achei engraçado. Mulher seria a última coisa em que eu pensaria naquele momento.

Quando o pau se acalmou, peguei o revólver com carinho e desvelo, até com certa ternura. Alisei aquela peça metálica que finalmente acabaria com o meu problema. Procurei as balas no bolso do paletó e encaixei uma a uma, no tambor. Depois de alimentá-lo, dei pequeno impulso pra direita; o tambor aninhou-se de volta na arma. Destravei o cão e preparei-me para morrer.

Meu plano previa que tudo corresse discretamente — isto é, não queria matar-me no apartamento para não causar escândalo na vizinhança. Também não queria escândalo ali no hotel, aquele esporro, todo mundo ouvindo o tiro, gente correndo, o escambau. Por isto, resolvei botar dois travesseiros entre o cano do revólver e o peito, pra abafar o som do tiro. Botei os travesseiros bem em cima do coração. Peguei o revólver e firmei o cano de encontro ao travesseiro. Desajeitadamente preparei-me para puxar o gatilho.

No momento final lembrei que estava deitado na cama exatamente como o Getúlio. Achei engraçado. Eu ia morrer da mesma forma que o Getúlio, vinte anos depois. Naquele mesmo dia, vinte anos antes, eu estava nas ruas de São Paulo, comemorando com a turma a morte do homem. Fizemos passeatas, baderna, tomamos porres homéricos — nós, a jeunesse dorée de São Paulo, a garotada boa, filhos de gente fina, da UDN histórica, os meninos de ouro contra o ditador que chafurdava no mar de lama. A recordação era engraçada e triste ao mesmo tempo. Por que eu me lembrava do Getúlio?

Num segundo, pensei naqueles vinte anos. Em tudo o que tinha acontecido com o pessoal que no dia 24 de agosto de 1954 festejava com bebedeiras a morte do Getúlio. O crescimento de cada um, a dispersão pela vida; o grupo que vivia atrás do dinheiro. Os que queriam o poder. Os que desejavam a glória. Os casamentos, a dissipação, os estudos, as bebedeiras, a conscientização, o esquerdismo, a riqueza, a miséria, as traições, a loucura. E o que sobrou de tudo? Para uns, boas posições no governo, tão mandando pra burro; pros executivos, as grandes indústrias, os proletas no eito e eles poluindo tudo; e pros fudidos, os conscientizados, as prisões, as torturas, o exílio. Vinte anos. Um ciclo. Que pra mim terminava ali, naquele quarto, com um tiro no peito. Como o Getúlio.

Um tiro a queima roupa, mesmo quando a bala é de calibre 22 e antes deve passar por dois travesseiros, causa um impacto desgraçado. Você sente aquele murro, é empurrado pra trás com violência. Então uma dor terrível se espalha pelo corpo e você empacota. Senti o impacto violento, mas nada de dor. O cano do revólver continuava encostado no meu peito, amassando os travesseiros. Um cheiro de pólvora tomou conta do quarto. Mas não senti dor nem vi sangue. Fiquei intrigado.

Será que mesmo com o revólver apoiado no meu peito, eu, sempre gauche, teria errado a pontaria?

Revolvi dar outro tiro. Apertei o gatilho mais uma vez. Novo tiro, novo impacto, mas novamente não senti dor. Que diabo estava acontecendo? Eu já devia estar nas profundas dos infernos e continuava ali, vivinho, naquele quarto miserável.

Exatamente neste ponto, começou aquela dorzinha fodida; no início, um fino estilete enfiado entre as costelas. Dois minutos depois, eu já estava berrando feito um bezerro desmamado. Eu queria morrer, morrer sim, mas não sentir a puta de uma dor miserável. Eu queria sair deste mundo de vez, pra não sofrer. Mas estava ali, num quarto de hotel de terceira, sangrando, sofrendo e berrando.

Berrei com todas as forças, chamando por socorro, sentia que ia desmaiar a qualquer momento. O esporro movimentou o hotel. O espanhol, quando abriu a porta do quarto e viu a cena, eu na cama, todo empapado de sangue, compreendeu tudo e acho que quis me dar porrada.

— Filho da puta! Tu queres desgraçar meu hotel!

Naquele momento eu não era homem pra responder o insulto. Mas guardei lembrança do que ele disse. Se escapasse, ainda ia dar porradas no espanhol. Pra dizer a verdade estava quase perdendo a consciência. Olhei pro homem com ódio e raiva quando dois imensos crioulos entraram no quarto me embrulharam num lençol e me puxaram escadas abaixo. Pensei no pior: vão me jogar por aí, num terreno baldio ou no rio Tietê. No mesmo instante lembrei que tinha pago três diárias, portanto havia saldo a meu favor na caixa. Mas num instante percebi que qualquer objeção tanto quanto ao destino que me aguardava como ao saldo seria completamente inútil. O espanhol estava realmente furioso.

Carregado pelos dois crioulos, fui levado até a saída dos fundos, beco onde já estava estacionado um fusca meio arrebentado. De dentro do lençol eu percebia as coisas muito vagamente, mas senti quando me atiraram com brutalidade pra dentro do carro. "Estou nas últimas" pensei. O fusca saiu em disparada, eu rezava as derradeiras orações de despedida da cidade que passava célere na janela. Eu já tinha perdido um bocado de sangue, mas não sei como, num certo momento, a hemorragia estancou. A dor também diminuiu, mas ainda era intensa. Enquanto um dos crioulos dirigia o fusca, o outro me vigiava, voltava-se para trás constantemente e me lançava olhares de facínora.

De repente o carro estancou. Os dois crioulos desceram. "É agora" pensei. Eles me pegaram com violência, me atiraram na calçada e partiram em disparada. No chão, ferido, embrulhado num lençol eu comecei a dar graças ao bom Deus e ao espanhol; ainda estava vivo. E fiquei numa puta alegria ao olhar pra cima; os crioulos me deixaram em frente ao Pronto Socorro. Me arrastei até à porta, tentei levantar e entrei cambaleante. Na verdade eu estava dando espetáculo lastimável mas o que fazer? Precisava ser medicado com urgência.

Esbarrei num cara que parecia ser enfermeiro e perguntou:

— O que foi?

O cara perguntou isso com a maior calma do mundo. Parecia que eu era um sujeito normal, e não o molambo ensangüentado, enrolado num lençol. Senti todo o ridículo da minha situação, mas o cara estava na maior tranqüilidade.

— Tiro — eu disse.

— Assalto?

Respondi timidamente:

— Não.

O homem me fitou com um olho de peixe morto. Não resisti e confessei:

— Acho que eu queria me matar.

Ele disse "Anh" e fez um gesto com a cabeça indicando um banco de madeira no fundo do corredor.

— Senta ali e espera a sua vez.

Se você tem duas balas encravadas no corpo, está à procura de socorro urgente e é recebido com frieza de gelo, só tem duas alternativas: ou faz uma cena, cai estrebuchando no chão, berra até que te atendam, ou então senta humildemente, faz o que te mandam e espera a tua vez. Não dá praquela explicação normal que qualquer ser humano decente entenderia: "Olha aqui, estou ferido, ta saindo sangue, providencie um quarto...” Não dá. Eu não sei fazer cenas, então sentei, enrolado no lençol, no banco de madeira da sala encardida, em frente da mesa onde, sonolento, o enfermeiro preenchia fichas.

Aí começou o pequeno calvário. Teria de esperar que ele atendesse um cara que levou um tombo na calçada e estava com a testa rachada e uma mulher ferida, parece que num desastre, quando dirigia embriagada. Esta dona não parava de falar e dava um esporro tremendo no enfermeiro. Dizia que trabalhava no La Licorne, conhecia políticos e delegados, ia mandar prender todo mundo se não fosse atendida logo.

Ela estava meio fudida mesmo, tinha sangue em todo o corpo, mas o enfermeiro primeiro anotava as informações do testa rachada. E eu ali, sofrendo como o diabo, atônito e humilhado. Não sentia vontade de dizer coisa alguma, queria estirar-me no banco, tomar uma injeção para que a dor passasse, queria dormir, sei lá. Mas o testa rachada engrolava as palavras, acho que ele ficou meio biruta com o tombo e não dizia coisa com coisa. Depois de muito esforço a ficha dele ficou pronta e então chegou a vez da dona do La Licorne. Ela gritava dizendo que antes de dar qualquer informação queria ser tratada. Aí apareceu o guarda parrudo e disse que se ela não fechasse a matraca ia ser jogada na enfermaria dos matusquelas; então ela se acalmou.

Quando chegou minha vez — meu Deus, como meu peito doía! o enfermeiro me olhou com uma cara de cansaço mortal. Eu percebi, na expressão do rosto dele, censura à minha incompetência como suicida. Ele gostaria de gritar na minha cara: "por que é que você não se matou direito, seu filho da puta? Por que veio dar trabalho pra gente, seu traste?" Ele estava com vontade de terminar o meu trabalho. Com o mais profundo desprezo, e preguiça infinita, puxou a ficha da gaveta e começou interminável interrogatório que eu respondia com a alma na garganta. Foram os minutos mais humilhantes de toda minha vida. Responder questionário burocrático com duas balas nas costelas é das situações mais degradantes pelas quais alguém pode passar.

Felizmente fiquei pouco tempo no Pronto Socorro. Minha empregada encontrou o bilhete de adeus, achou estranho e avisou meus amigos. Santa empregada, santos amigos! Politiqueiros, exploradores da classe operária, negocistas, mas santos. O pessoal chegou ao galpão em que eu estava quando me levavam aos trambolhões para a enfermaria. Fui praticamente arrancado de lá na base do prestígio dos meus amigos, pois além do tratamento sórdido, esperavam-me várias complicações com a justiça. Mas os santos canalhas resolveram tudo. Quase chorei, quando senti o carinho da turma por mim. Por alguns momentos eles abandonaram as gordas vacas das esposas, as sôfregas amantes e os bezerrinhos dos filhos para acudir um amigo em situação desesperada.

Internaram-me no melhor hospital de São Paulo, pediram o melhor apartamento. Apartamento jóia. Senti-me reconfortado, depois que os médicos fizeram o exame completo e constataram que as balas não tinham afetado qualquer órgão vital; ficaram alojadas na gordura, entre as costelas flutuantes. No dia seguinte resolveriam se seria o caso de operar para retirá-las. Desejavam que eu passasse uma boa noite, e sugeriram que um dos meus amigos ficasse comigo, como acompanhante. Os médicos não confiavam em mim. Senti um certo mal estar entre a turma. Cada um queria safar-se o mais depressa possível — é compreensível. Mas finalmente ficou decidido que Mário seria o meu guardião. Todos se retiraram, menos o Mário, que entrou no banheiro e, ao voltar, de cuecas, perguntou:

— Tá tudo bom aí contigo?

Olhei para ele com um olhar meio morno, meio morto. Eu estava cansado. Olhei o teto, virei-me e pedi:

— Me dá um copo d' água.

Mas o filho da puta nem me ouviu. Pulou na cama, tomou o meu mandrix, disse boa noite e encornou no mais profundo dos sonos.






sexta-feira, 3 de junho de 2011

Contos : Nilto Maciel - O ouro de um pobre Diabo

Mais um excelente conto do meu conterrâneo Nilto Maciel - Percebam o fatídico desfecho desse conto, coisa de gênio!!!

Nilto Maciel

O ouro de um pobre-diabo

Passei toda minha longa vida imaginando riquezas, sonhando tesouros e prêmios lotéricos. Vivia numa pobreza de causar dó. Trabalhava feito um desgraçado. Cometi mil pequenos erros, de tanto querer escapar à má sorte. Embriagava-me, jogava dados, batia na mulher e nos filhos. Terminei por abandoná-los. Vagueei pelas ruas, por vilas e cidades, sempre em busca de dinheiro, muito dinheiro, fortuna.

Já velho, cansado, doente, resolvi parar. O destino não me queria rico. Restava trabalhar, pedir, roubar migalhas. E esperar a morte. A mais miserável morte.

Uma noite, deitado numa esteira, eu fazia um balanço de minha vida. E olhava para um buraco no teto. Talvez visse estrelas e seu brilho distante, infinito.

Absorto, senti cair sobre meu peito um pequeno objeto. Assustado, ergui-me. A coisa rolou para um lado. E tiniu. Parecia uma moeda. Dei um bote, agarrei-a. Trêmulo, aproximei dos olhos o brilho encantador do ouro. Sim, era moeda de ouro.

Ainda encantado, ouvi outro tinido no quarto. Arregalei os olhos, para não perder de vista um só instante do trajeto daquele maná. A rodinha rodopiou no chão e parou junto à parede. Ia eu apanhá-la, quando novo baque sucedeu. Olhei para o teto. Não vi mais estrelas. Em compensação, o buraco parecia entupido de moedas, que caíam lentamente, uma a uma.

Primeiro enchi os bolsos, a seguir sacos e sacolas. Cheguei a esvaziar a mala de roupas e pequenos objetos de uso pessoal. Imaginava fugir dali, tão logo caíssem todas as moedas. Com certeza haviam sido roubadas e escondidas no telhado da casa.

Porém não consegui fugir. Pois, abarrotados bolsos, sacos e mala, continuaram a cair moedas. E cada vez com mais intensidade. Decidi, então, sentar-me a um canto e simplesmente observar o espetáculo.

Acumulavam-se moedas no chão. E eu maravilhado, sem mais nenhum pensamento, a não ser o de estar finalmente rico.

No meio da noite, já todo o chão se cobrira de moedas. E eu passeava, sonolento, de um lado para outro, a pisar, orgulhoso, minha incalculável riqueza. Olhava de vez em quando para cima. O buraco expelia ouro, sem parar.

Pela madrugada, senti sono e cansaço, e recostei-me à porta. Acordei já de manhã. Um peso enorme parecia me sufocar. Eu devia estar sentado. As moedas chegavam à altura do pescoço e todo o quarto cheirava a ouro e brilhava como um sol.

Tentei desenterrar-me. Nem sequer consegui arrancar as mãos do monte de moedas. E do teto mais e mais ouro escorria.

Apavorei-me. Se aquilo não parasse logo, eu poderia morrer sufocado. Pus-me a gritar, ao mesmo tempo que fazia força para me soerguer.

Quando conseguiram entrar no quarto, minha alma já havia sumido.


Nilto Maciel In Contos Reunidos Volume I , Editora Bestiário , páginas 46 e 47.

Contos : Nilto Maciel - O pecado de André Gide

Agora eu reproduzo o excelente conto do excelso escritor Nilto Maciel - Ele que é meu conterrâneo da cidade de Baturité -Nilto Maciel tem projeção nacional e já conquistou vários prêmios por sua obra. Isso sim é LITERATURA.

O pecado de André Gide

Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.

Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.

Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.

A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.

Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.

Súbito o braço agudo saltou de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.

No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.

De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo do quarto rescendia. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.

E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.

De manhã correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima.

O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.
Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?

Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”


Nilto Maciel - Contos Reunidos Volume I - Editora Bestiário