terça-feira, 21 de junho de 2011

Airton Monte - Medo de Avião 1 Abril 2011

Voltando a publicar as excelentes crônicas de Airton Monte - Depois de quase três meses!!


Medo de avião


Lá bem no alto, no cume do céu, um avião de carreira como um cometa de prata atravessa a floresta densamente fechada de nuvens plúmbeas carregando sua carga humana. Desconheço seu destino final, quem sabe aonde vai? Talvez para um lugar distante que jamais visitarei. Ou, quem sabe, aterrissará em uma cidade mais perto do que penso. Imagino as cenas que se passam a bordo enquanto o veloz pássaro metálico segue seu rumo por mim ignorado. Certamente haverá em seu bojo aqueles passageiros iguais a mim, que morrem de medo de voar e só pensam em tragédias, catástrofes, desastres que costumam encher as páginas dos jornais. Estes, durante todo o percurso, mantêm-se crispados nas poltronas, a tensão, o medo expostos nas faces pra todo mundo ver, sem importar-se com a mangoça alheia.

Alguns, mormente os marinheiros de primeira viagem, só embarcam depois de tomarem umas boas doses etílicas de coragem, tentando controlar a fobia que os assoma dos pés à cabeça. Outros preferem ingerir um tranquilizante qualquer, uma muleta química que os ajude a atravessar o que pensam ser uma ponte balouçante sobre um terrificante abismo. Há aqueles mais temerosos que, por via das dúvidas, não hesitam em fazer promessas aos santos de sua devoção na busca aflita de um adjutório metafísico para que a viagem finde dentro dos esperados conformes e em bons termos. E mesmo assim ainda murmuram orações o tempo inteiro, um terço, um rosário pendentes entre os dedos a fim de se sentirem mais protegidos contra os azares da sorte.

Afirmam os mais sábios especialistas do ramo ser o avião o mais seguro dentre os meios de transporte e que é muito mais provável o sujeito ir dessa pra pior numa prosaica queda da cama do que em um desastre aéreo. Já eu compartilho da mesma opinião do poeta Vinícius de Moraes, que também não morria de amores pelas viagens de avião e que justificava seu pânico comentando como é que podia ser tão seguro assim um aparelho mais pesado do que o ar e movido pela energia de motores a explosão? Também acho, apesar de todas as afirmações e estatísticas em contrário. Sei lá. E se o bicho resolver dar zebra logo no meu voo, me levando pros confins do beleléu? E me reduzindo a um número a mais no rol dos acidentes por mais rara que seja a possibilidade. Prefiro não arriscar-me à toa e só entro num aeroplano se for caso de urgência extrema e não houver jeito de chegar aonde sou forçado a ir.

Juro que nutro uma profunda, imensa inveja daqueles que são destituídos do pavor avionário e que se sentem tão à vontade dentro de um Boeing como se estivessem confortavelmente em casa, mansamente instalados em sua poltrona predileta gozando as delícias de um domingo solar. Penso que a popular expressão voar de avião jamais constou nem constará de meu dicionário pessoal pelo fato de que dentro de uma aeronave você não voa. Na verdade, você é voado, pois nenhum homem, ao que eu saiba, nasceu dotado de um par de asas. Para piorar a situação, dizem que a maior parte dos desastres aéreos é fruto de falha humana, como se as máquinas fossem infalíveis. É por essas e outras que prefiro restar assentado de pés em chão firme, alçando voo somente na minha imaginação, animal bípede e pensante que sou por minha própria natureza.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Conto - Um suicida - Cícero Sandroni

Um suicida

Cícero Sandroni

Para Bob Testinha


Quando o maldito dia de 24 de agosto de 1974 amanheceu em São Paulo, cinzento, brumoso e frio como geladeira de necrotério, eu estava acordado, olhos ardendo, prostrado na poltrona onde tinha passado a noite, bebendo gim e fumando, solitário como cão danado. Às seis da manhã, na boca amarga e ressequida, a língua áspera, grossa, implorava litros d'água; eu negava, porque àquela altura do campeonato, não tinha força para levantar minha gorda bunda e ir até à cozinha. Com a garganta entupida de catarro, mal conseguia respirar.

Quando fraco raio de sol saído não sei de onde projetou-se sobre meus olhos, pensei que ficaria cego. A luz entrava pela veneziana aberta e se espalhava no meu rosto. Não sei onde encontrei ânimo pra levantar a cabeça que pendia inerte sobre o peito. Olhei pra fora, enfrentando aquela luminosidade opaca, estranha, que descia do céu escuro lá dos lados da Mooca. Um panorama de assustar leão. No ar, aquele chumbo grosso, filtrado pelo sol; aquela névoa encardida e porosa. Estou falando da poluição que amanhecia ao meu lado, à minha volta, envolvendo todo este maldito burgo, este maior parque industrial da América Latina , esta latrina de monóxido de carbono.

"Merda de cidade", pensei, mas pensar doía. A cabeça latejava terrivelmente. Eu sofria a pior ressaca da minha vida; não obstante, dentro daquele bloco de granito enroscado no alto do pescoço, no centro daquela pedra dolorida, havia uma idéia; à qual eu me agarrava como última saída, derradeira solução, desfecho final do meu problema. Eu ia me matar.

A maldita certeza de acabar de vez com a existência naquele dia, me dava forças, apesar do porre ciclópico da noite e a ressaca. Escrevo porre ciclópico mas sei que só me entenderão os que, como eu, já passaram por boa carraspana de gim.

É o estraçalhamento total do corpo, até à última gota de sangue. Imagine-se enfiado numa máquina de moer carne, enquanto alguém gira a manivela devagar, devagar. O corpo é moído e triturado e assim fica o dia todo, até o cair da noite, quando sobrevém aquela sensação de alívio e bem-aventurança; aí é hora de começar de novo. Se você tiver caráter suficiente pra enfrentar a parada, é claro.

Pois bem. Eu estava justamente naquela fase do esbagaçamento total. Mas a perspectiva de liquidar de vez com a fatura me dava ânimo pra voltar do país dos mortos. Não sei explicar a razão deste súbito paradoxo; afinal, eu estava exatamente a fim de comprar a passagem de ida pra lá.

Agora, pequena pausa pra meditação. Por que um cara se mata? Ou melhor: existe razão pra estar vivo, só porque se foi parido? No meu caso, e nos milhares de outros — milhares, sim senhor — a resposta é negativa. Nós constituímos a minoria de pessoas que se mata neste país. Se mata a faca, a bala, se enforca, se atira de edifício, toma guaraná com formicida. Segundo o Anuário Estatístico do IBGE, que consultei, os suicidas de São Paulo preferem matar-se a bala. Gente macha.

Eu não sou exceção. Bom paulista quatrocentão, fruto decadente de família tradicional, bisneto de um cara que ajudou a fundar São Carlos, eu acabaria com a vida dignamente, apertando o gatilho de meu Taurus calibre 32 sem tremer. A bala penetraria velozmente neste peito varonil e, num segundo, bumba! Menos um neste festim de merda que nos servem no planeta e mais um na relação de suicida do Anuário do IBGE, capítulo comportamento social brasileiros.

Neste momento você pode pensar que meu desejo de morte seria o resultado da bebedeira, mas ta completamente enganado. Vou dar razões objetivas, claras, irrespondíveis. Como já disse, sou o que geralmente se conhece por fruto podre da família. Recebi minha parte da herança de um avô fazendeiro e, sem o menor arrependimento ou sentimento de culpa, gastei tudo nas bocas do luxo e depois nas bocas do lixo de São Paulo. Só me restou o apartamento do Alto das Perdizes. Aos 42 anos, depois de trinta dissipados numa boa vida, sou hoje o que os bem-pensantes, os bem sucedidos, os que venceram, chamam de fracassado.

Os amigos de infância, das farras de adolescência, das surubas juvenis, dos porres inenarráveis, cada um deles encontrou sua vereda, seu caminho, cada um realizou-se à sua maneira. Por exemplo, os que se meteram em política. Ou estão no exílio, ou no governo. Uns levaram porrada na polícia. Outros estão no poder. Semana passada vi um deles descendo de automóvel oficial - porra, o cara é importante pra caralho. Mas eu conheço ele do tempo de faculdade, tivemos juntos um matadouro na Lapa e por isso sei que não é muito chegado a mulher. Agora, o que ele goza com o poder, não está no gibi.

Outra parte da turma se meteu em negócios e enriqueceu pra burro. Meu Deus, nesta cidade, quem quer fica rico em pouco tempo. E só saber explorar os outros, organizar sua senzala, como diz o Mário. Ou então casar com filhas de imigrantes endinheirados e comer as sobras que turcos e italianos deixam nos pratos. E um vale tudo para o qual não tenho a menor vocação. Assim, enquanto os amigos fraternos, todos irmanados nos ataques de madrugada às domésticas na Avenida Angélica, enquanto eles mamavam nas negociatas, subiam na política ou eram empalados e levavam choques nos culhões, eu calmamente raspava os vinténs finais da arca do avô, com a maior despreocupação.

Também não casei. Deixei passar o que na minha época a família chamava de bons partidos porque não sou de me amarrar em mulher e nem gosto de brancas. Tenho um fraco pelas mulatas, mas nesta altura já estou desiludido e cansado. Acho grande sacanagem pagar mulher, sempre que tenho tesão. Estou farto de pagar mulher! Pombas! Será que nesta puta desta cidade de São Paulo não existe uma só mulata capaz de ir comigo pra cama, por amor? Não existe, já procurei; é tudo no michê, e cada vez mais caro.

Sentiram o drama? Hipertenso, míope, lerdo, meio brocha, gordo feito um capado, e o que é pior, na beira da falência; abandonado pelos amigos que, dispersos pela vida só pensam em ganhar dinheiro e empanturrar os filhos com pizzas e quibes; eu estava só; só, fudido e mal pago. Estava no fim da linha. E em excelentes condições de meter uma bala na cabeça. E me mandar de vez.

Mas devo dizer por obrigação de consciência que atribuo ao gim, esta santa bebida, a força moral e a coragem para pôr em prática tal decisão. Ouvi dizer que bebedor de gim é mau caráter. Discordo — ou então sou a exceção. Devasso, dissipado, preguiçoso e prevaricador, sim. Mas mau caráter, não. Depois, o gim dá a clarividência cética, objetiva, que só o bebedor tem. Se você passa trinta anos de sua vida enchendo a cara e encharcando o organismo diariamente com este líquido perfumado e amargo, tua visão do mundo se transformará completamente; e você então chegará à definitiva conclusão. Nada mais a fazer senão aquilo. E o gim também te dará forças pra disparar a arma.

Assim, resolvido e reconfortado, ao levantar da poltrona arrastei a carcaça até o banheiro e dei uma boa mijada. Depois, em direção à cozinha. Como de hábito, tomei quatro engoves com meio litro d'água. Eu precisava equilíbrio pra realizar meu plano. No apartamento estava tudo quieto, aquela placidez a indicar a ausência de empregada. Melhor. Arrumei uma pequena mala de papelão onde botei camisa, cueca, a escova de dentes e outra pasta de vinil onde botei o revólver. Comi um pedaço de queijo de Minas e dei a última olhada no apartamento herdado do avô. Ficaria pra um distante sobrinho, que morava em Franca. Escrevi o tradicional bilhete de adeus pros amigos, deixei em cima da mesa da sala. Eles iam ter uma puta surpresa. Saí de casa e peguei um táxi.

— Para o hotel Mayflower — eu disse.

O hotel Mayflower, no fim da Avenida São João, foi escolhido com cuidado e atenção. É discreto, ao lado do Médico Legal. Eu não queria dar trabalho a ninguém. Quando cheguei na portaria, o espanhol do balcão, meu conhecido de outros carnavais, nem levantou a cabeça. Mas quando virou a folha do jornal, percebeu que estava sem mulher ao lado.

- Hoje veio de bagagem?

— Vou ficar uns dias.

— Então paga adiantado.

Paguei três diárias.

Para ir até o quarto 32. o meu preferido, eu teria de subir dois lances de escada. O elevador pré-diluviano estava enguiçado. A perspectiva me deixou meio morto. Levar noventa e cinco quilos escadas acima. Só uma coisa me animava: acabar logo com a história. Um tiro rápido, bang, e pronto.

O quarto 32 era simples e limpo, como qualquer quarto de hotel de terceira. A cama, o armário. a mesinha. Examinei o pequeno banheiro; abri a torneira da pia, saiu um fio d'água. "País subdesenvolvido é fogo", pensei. Voltei pro quarto, me estirei na cama. Espichei bem o corpo, como se quisesse crescer mais. Relaxei os músculos, quer dizer, aquela massa de carne e sebo, o que restava dos meus músculos. Aí fiquei deitado, quieto, tentando recordar alguns momentos da minha infância. Não é o que acontece com quem está prestes a passar desta pra melhor? Mas de infância, nada.

Em seguida levantei-me. sentei na cama e peguei a pasta onde trazia o Taurus. Abri lentamente o fecho e deixei que o revólver deslizasse para cima da cama. Quero ser preciso: exatamente neste momento, tive pequena ereção. Não foi nada demais. No momento em que o Taurus saiu da pasta, o pau deu aquele pequeno impulso pra cima. Achei engraçado. Mulher seria a última coisa em que eu pensaria naquele momento.

Quando o pau se acalmou, peguei o revólver com carinho e desvelo, até com certa ternura. Alisei aquela peça metálica que finalmente acabaria com o meu problema. Procurei as balas no bolso do paletó e encaixei uma a uma, no tambor. Depois de alimentá-lo, dei pequeno impulso pra direita; o tambor aninhou-se de volta na arma. Destravei o cão e preparei-me para morrer.

Meu plano previa que tudo corresse discretamente — isto é, não queria matar-me no apartamento para não causar escândalo na vizinhança. Também não queria escândalo ali no hotel, aquele esporro, todo mundo ouvindo o tiro, gente correndo, o escambau. Por isto, resolvei botar dois travesseiros entre o cano do revólver e o peito, pra abafar o som do tiro. Botei os travesseiros bem em cima do coração. Peguei o revólver e firmei o cano de encontro ao travesseiro. Desajeitadamente preparei-me para puxar o gatilho.

No momento final lembrei que estava deitado na cama exatamente como o Getúlio. Achei engraçado. Eu ia morrer da mesma forma que o Getúlio, vinte anos depois. Naquele mesmo dia, vinte anos antes, eu estava nas ruas de São Paulo, comemorando com a turma a morte do homem. Fizemos passeatas, baderna, tomamos porres homéricos — nós, a jeunesse dorée de São Paulo, a garotada boa, filhos de gente fina, da UDN histórica, os meninos de ouro contra o ditador que chafurdava no mar de lama. A recordação era engraçada e triste ao mesmo tempo. Por que eu me lembrava do Getúlio?

Num segundo, pensei naqueles vinte anos. Em tudo o que tinha acontecido com o pessoal que no dia 24 de agosto de 1954 festejava com bebedeiras a morte do Getúlio. O crescimento de cada um, a dispersão pela vida; o grupo que vivia atrás do dinheiro. Os que queriam o poder. Os que desejavam a glória. Os casamentos, a dissipação, os estudos, as bebedeiras, a conscientização, o esquerdismo, a riqueza, a miséria, as traições, a loucura. E o que sobrou de tudo? Para uns, boas posições no governo, tão mandando pra burro; pros executivos, as grandes indústrias, os proletas no eito e eles poluindo tudo; e pros fudidos, os conscientizados, as prisões, as torturas, o exílio. Vinte anos. Um ciclo. Que pra mim terminava ali, naquele quarto, com um tiro no peito. Como o Getúlio.

Um tiro a queima roupa, mesmo quando a bala é de calibre 22 e antes deve passar por dois travesseiros, causa um impacto desgraçado. Você sente aquele murro, é empurrado pra trás com violência. Então uma dor terrível se espalha pelo corpo e você empacota. Senti o impacto violento, mas nada de dor. O cano do revólver continuava encostado no meu peito, amassando os travesseiros. Um cheiro de pólvora tomou conta do quarto. Mas não senti dor nem vi sangue. Fiquei intrigado.

Será que mesmo com o revólver apoiado no meu peito, eu, sempre gauche, teria errado a pontaria?

Revolvi dar outro tiro. Apertei o gatilho mais uma vez. Novo tiro, novo impacto, mas novamente não senti dor. Que diabo estava acontecendo? Eu já devia estar nas profundas dos infernos e continuava ali, vivinho, naquele quarto miserável.

Exatamente neste ponto, começou aquela dorzinha fodida; no início, um fino estilete enfiado entre as costelas. Dois minutos depois, eu já estava berrando feito um bezerro desmamado. Eu queria morrer, morrer sim, mas não sentir a puta de uma dor miserável. Eu queria sair deste mundo de vez, pra não sofrer. Mas estava ali, num quarto de hotel de terceira, sangrando, sofrendo e berrando.

Berrei com todas as forças, chamando por socorro, sentia que ia desmaiar a qualquer momento. O esporro movimentou o hotel. O espanhol, quando abriu a porta do quarto e viu a cena, eu na cama, todo empapado de sangue, compreendeu tudo e acho que quis me dar porrada.

— Filho da puta! Tu queres desgraçar meu hotel!

Naquele momento eu não era homem pra responder o insulto. Mas guardei lembrança do que ele disse. Se escapasse, ainda ia dar porradas no espanhol. Pra dizer a verdade estava quase perdendo a consciência. Olhei pro homem com ódio e raiva quando dois imensos crioulos entraram no quarto me embrulharam num lençol e me puxaram escadas abaixo. Pensei no pior: vão me jogar por aí, num terreno baldio ou no rio Tietê. No mesmo instante lembrei que tinha pago três diárias, portanto havia saldo a meu favor na caixa. Mas num instante percebi que qualquer objeção tanto quanto ao destino que me aguardava como ao saldo seria completamente inútil. O espanhol estava realmente furioso.

Carregado pelos dois crioulos, fui levado até a saída dos fundos, beco onde já estava estacionado um fusca meio arrebentado. De dentro do lençol eu percebia as coisas muito vagamente, mas senti quando me atiraram com brutalidade pra dentro do carro. "Estou nas últimas" pensei. O fusca saiu em disparada, eu rezava as derradeiras orações de despedida da cidade que passava célere na janela. Eu já tinha perdido um bocado de sangue, mas não sei como, num certo momento, a hemorragia estancou. A dor também diminuiu, mas ainda era intensa. Enquanto um dos crioulos dirigia o fusca, o outro me vigiava, voltava-se para trás constantemente e me lançava olhares de facínora.

De repente o carro estancou. Os dois crioulos desceram. "É agora" pensei. Eles me pegaram com violência, me atiraram na calçada e partiram em disparada. No chão, ferido, embrulhado num lençol eu comecei a dar graças ao bom Deus e ao espanhol; ainda estava vivo. E fiquei numa puta alegria ao olhar pra cima; os crioulos me deixaram em frente ao Pronto Socorro. Me arrastei até à porta, tentei levantar e entrei cambaleante. Na verdade eu estava dando espetáculo lastimável mas o que fazer? Precisava ser medicado com urgência.

Esbarrei num cara que parecia ser enfermeiro e perguntou:

— O que foi?

O cara perguntou isso com a maior calma do mundo. Parecia que eu era um sujeito normal, e não o molambo ensangüentado, enrolado num lençol. Senti todo o ridículo da minha situação, mas o cara estava na maior tranqüilidade.

— Tiro — eu disse.

— Assalto?

Respondi timidamente:

— Não.

O homem me fitou com um olho de peixe morto. Não resisti e confessei:

— Acho que eu queria me matar.

Ele disse "Anh" e fez um gesto com a cabeça indicando um banco de madeira no fundo do corredor.

— Senta ali e espera a sua vez.

Se você tem duas balas encravadas no corpo, está à procura de socorro urgente e é recebido com frieza de gelo, só tem duas alternativas: ou faz uma cena, cai estrebuchando no chão, berra até que te atendam, ou então senta humildemente, faz o que te mandam e espera a tua vez. Não dá praquela explicação normal que qualquer ser humano decente entenderia: "Olha aqui, estou ferido, ta saindo sangue, providencie um quarto...” Não dá. Eu não sei fazer cenas, então sentei, enrolado no lençol, no banco de madeira da sala encardida, em frente da mesa onde, sonolento, o enfermeiro preenchia fichas.

Aí começou o pequeno calvário. Teria de esperar que ele atendesse um cara que levou um tombo na calçada e estava com a testa rachada e uma mulher ferida, parece que num desastre, quando dirigia embriagada. Esta dona não parava de falar e dava um esporro tremendo no enfermeiro. Dizia que trabalhava no La Licorne, conhecia políticos e delegados, ia mandar prender todo mundo se não fosse atendida logo.

Ela estava meio fudida mesmo, tinha sangue em todo o corpo, mas o enfermeiro primeiro anotava as informações do testa rachada. E eu ali, sofrendo como o diabo, atônito e humilhado. Não sentia vontade de dizer coisa alguma, queria estirar-me no banco, tomar uma injeção para que a dor passasse, queria dormir, sei lá. Mas o testa rachada engrolava as palavras, acho que ele ficou meio biruta com o tombo e não dizia coisa com coisa. Depois de muito esforço a ficha dele ficou pronta e então chegou a vez da dona do La Licorne. Ela gritava dizendo que antes de dar qualquer informação queria ser tratada. Aí apareceu o guarda parrudo e disse que se ela não fechasse a matraca ia ser jogada na enfermaria dos matusquelas; então ela se acalmou.

Quando chegou minha vez — meu Deus, como meu peito doía! o enfermeiro me olhou com uma cara de cansaço mortal. Eu percebi, na expressão do rosto dele, censura à minha incompetência como suicida. Ele gostaria de gritar na minha cara: "por que é que você não se matou direito, seu filho da puta? Por que veio dar trabalho pra gente, seu traste?" Ele estava com vontade de terminar o meu trabalho. Com o mais profundo desprezo, e preguiça infinita, puxou a ficha da gaveta e começou interminável interrogatório que eu respondia com a alma na garganta. Foram os minutos mais humilhantes de toda minha vida. Responder questionário burocrático com duas balas nas costelas é das situações mais degradantes pelas quais alguém pode passar.

Felizmente fiquei pouco tempo no Pronto Socorro. Minha empregada encontrou o bilhete de adeus, achou estranho e avisou meus amigos. Santa empregada, santos amigos! Politiqueiros, exploradores da classe operária, negocistas, mas santos. O pessoal chegou ao galpão em que eu estava quando me levavam aos trambolhões para a enfermaria. Fui praticamente arrancado de lá na base do prestígio dos meus amigos, pois além do tratamento sórdido, esperavam-me várias complicações com a justiça. Mas os santos canalhas resolveram tudo. Quase chorei, quando senti o carinho da turma por mim. Por alguns momentos eles abandonaram as gordas vacas das esposas, as sôfregas amantes e os bezerrinhos dos filhos para acudir um amigo em situação desesperada.

Internaram-me no melhor hospital de São Paulo, pediram o melhor apartamento. Apartamento jóia. Senti-me reconfortado, depois que os médicos fizeram o exame completo e constataram que as balas não tinham afetado qualquer órgão vital; ficaram alojadas na gordura, entre as costelas flutuantes. No dia seguinte resolveriam se seria o caso de operar para retirá-las. Desejavam que eu passasse uma boa noite, e sugeriram que um dos meus amigos ficasse comigo, como acompanhante. Os médicos não confiavam em mim. Senti um certo mal estar entre a turma. Cada um queria safar-se o mais depressa possível — é compreensível. Mas finalmente ficou decidido que Mário seria o meu guardião. Todos se retiraram, menos o Mário, que entrou no banheiro e, ao voltar, de cuecas, perguntou:

— Tá tudo bom aí contigo?

Olhei para ele com um olhar meio morno, meio morto. Eu estava cansado. Olhei o teto, virei-me e pedi:

— Me dá um copo d' água.

Mas o filho da puta nem me ouviu. Pulou na cama, tomou o meu mandrix, disse boa noite e encornou no mais profundo dos sonos.






sexta-feira, 3 de junho de 2011

Contos : Nilto Maciel - O ouro de um pobre Diabo

Mais um excelente conto do meu conterrâneo Nilto Maciel - Percebam o fatídico desfecho desse conto, coisa de gênio!!!

Nilto Maciel

O ouro de um pobre-diabo

Passei toda minha longa vida imaginando riquezas, sonhando tesouros e prêmios lotéricos. Vivia numa pobreza de causar dó. Trabalhava feito um desgraçado. Cometi mil pequenos erros, de tanto querer escapar à má sorte. Embriagava-me, jogava dados, batia na mulher e nos filhos. Terminei por abandoná-los. Vagueei pelas ruas, por vilas e cidades, sempre em busca de dinheiro, muito dinheiro, fortuna.

Já velho, cansado, doente, resolvi parar. O destino não me queria rico. Restava trabalhar, pedir, roubar migalhas. E esperar a morte. A mais miserável morte.

Uma noite, deitado numa esteira, eu fazia um balanço de minha vida. E olhava para um buraco no teto. Talvez visse estrelas e seu brilho distante, infinito.

Absorto, senti cair sobre meu peito um pequeno objeto. Assustado, ergui-me. A coisa rolou para um lado. E tiniu. Parecia uma moeda. Dei um bote, agarrei-a. Trêmulo, aproximei dos olhos o brilho encantador do ouro. Sim, era moeda de ouro.

Ainda encantado, ouvi outro tinido no quarto. Arregalei os olhos, para não perder de vista um só instante do trajeto daquele maná. A rodinha rodopiou no chão e parou junto à parede. Ia eu apanhá-la, quando novo baque sucedeu. Olhei para o teto. Não vi mais estrelas. Em compensação, o buraco parecia entupido de moedas, que caíam lentamente, uma a uma.

Primeiro enchi os bolsos, a seguir sacos e sacolas. Cheguei a esvaziar a mala de roupas e pequenos objetos de uso pessoal. Imaginava fugir dali, tão logo caíssem todas as moedas. Com certeza haviam sido roubadas e escondidas no telhado da casa.

Porém não consegui fugir. Pois, abarrotados bolsos, sacos e mala, continuaram a cair moedas. E cada vez com mais intensidade. Decidi, então, sentar-me a um canto e simplesmente observar o espetáculo.

Acumulavam-se moedas no chão. E eu maravilhado, sem mais nenhum pensamento, a não ser o de estar finalmente rico.

No meio da noite, já todo o chão se cobrira de moedas. E eu passeava, sonolento, de um lado para outro, a pisar, orgulhoso, minha incalculável riqueza. Olhava de vez em quando para cima. O buraco expelia ouro, sem parar.

Pela madrugada, senti sono e cansaço, e recostei-me à porta. Acordei já de manhã. Um peso enorme parecia me sufocar. Eu devia estar sentado. As moedas chegavam à altura do pescoço e todo o quarto cheirava a ouro e brilhava como um sol.

Tentei desenterrar-me. Nem sequer consegui arrancar as mãos do monte de moedas. E do teto mais e mais ouro escorria.

Apavorei-me. Se aquilo não parasse logo, eu poderia morrer sufocado. Pus-me a gritar, ao mesmo tempo que fazia força para me soerguer.

Quando conseguiram entrar no quarto, minha alma já havia sumido.


Nilto Maciel In Contos Reunidos Volume I , Editora Bestiário , páginas 46 e 47.

Contos : Nilto Maciel - O pecado de André Gide

Agora eu reproduzo o excelente conto do excelso escritor Nilto Maciel - Ele que é meu conterrâneo da cidade de Baturité -Nilto Maciel tem projeção nacional e já conquistou vários prêmios por sua obra. Isso sim é LITERATURA.

O pecado de André Gide

Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.

Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.

Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.

A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.

Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.

Súbito o braço agudo saltou de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.

No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.

De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo do quarto rescendia. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.

E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.

De manhã correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima.

O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.
Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?

Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”


Nilto Maciel - Contos Reunidos Volume I - Editora Bestiário


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estação de Trem de Aracoiaba- Ceará



Situação de abandono da antiga estação de trem de Aracoiaba-CE - Reflexo do desprezo total da administração pública pelo seu patrimônio cultural!!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Carta de Apoio de Frei Betto à causa da Educação

Carta de apoio - Frei Betto

Frei Betto
Cartas de Apoio
Todo o meu apoio à causa do piso salarial do professor. Não só do professor, mas também dos funcionários da escola, que também merecem tratamento salarial digno e condições de trabalho seguras e saudáveis.


Nenhum país saiu do subdesenvolvimento sem forte investimento na educação. O Brasil investe 5,2% do PIB. Deveria, no mínimo, dobrar este índice. Os países da Ásia, atrasados e devastados pela Segunda Guerra Mundial, hoje são potências mundiais por aplicarem na educação de 8 a 12% do PIB.



Além de assegurar o piso, é preciso instaurar o tempo integral na educação de crianças e jovens brasileiras. Apenas 4 ou 5 horas por dia na escola são insuficientes para uma educação de qualidade.

Fred Teixeira Leite está de parabéns por levar adiante esta causa tão prioritária e necessária para que o Brasil vença a exclusão social.

Frei Betto (escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” [Ática], entre outros livros)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Airton Monte - Insônia 31 Mar 11

Airton Monte 31 Mar 2011 - Insônia


Ah, insônia, parceira indesejável das minhas inúmeras noites mal dormidas, me roubando o desejado descanso do sono como um punguista solertemente bate a carteira de um desavisado no aperto das latas de sardinha dos ônibus urbanos. Por que razão esconsa cumpres o teu desalmado intento de tornar-me impossível alcançar os umbrais do mundo encantado dos sonhos pelas madrugadas afora? Por que me escolheste, entre tantos alvos disponíveis, para com tua implacável e constante presença me torturares assim impiedosamente desde a minha mais remota infância? Por que insistes tanto em me bloquear os caminhos pacificadores que conduzem aos braços de Morfeu? Por que fazeres de mim a tua indefesa vítima preferida?


Quem sofre desse mal noturno conhece muito bem quão profundamente ele crava suas insidiosas garras na carne exposta do humano repouso que nem uma impiedosa ave de rapina, fazendo as noites parecerem longas demais, compridas demais, intermináveis demais. Se por acaso a insônia tivesse forma humana, diria eu, que muito dela padeço, seria inegavelmente a figura assustadora de um carrasco dos tempos medievais, aguardando o condenado ao pé do cepo com as mãos empunhando um enorme machado. É assim de tal modo travestida que ela fica à minha espera ao pé do leito quase todas as noites, que chego a me espantar quando consigo a graça de dormir um sono inteiriço feito um cantar de grilo.


De há muito faz que eu, mui sofrido viajor das noites em claro, sempre chego por demais atrasado ao cais de embarque de onde parte a noctívaga barca que navega, em abençoado silêncio, rumo a uma sonífera ilha onde todos dormem o pacífico e ansiado sono dos justos e dos pecadores. Sim, porque os pecadores também dormem apesar dos mal feitos cometidos, pois desconhecem as palavras culpa, remorso, consciência pesada. A insônia é muito pior do que a latejante dor de uma unha encravada, escorrendo pus e sofrimento. Saber que existem outros como eu a carregar o peso crucial desse madeiro hípnico de nada me serve de consolo. Minha insônia, infelizmente, é unicamente minha para meu crônico desgosto.


Outro dia me falou um amigo, um desses afortunados que logo caem em sono profundo mal encostam a cabeça no travesseiro, que as pessoas acometidas de insônia habitual são dotadas de uma tendência a serem exageradamente otimistas antes de tomar seja lá qual for uma decisão. Por pensarem que tudo que tentarem fazer vai dar naturalmente certo, se arriscam mais tanto na vida pessoal como na profissional. Ao questionar por que pensava desse modo, se ele próprio não sofria de insônia, respondeu-me que viciados em jogo, após algumas horas sem dormir, continuam apostando sem parar até perder as calças. Pra mim, isso não passa de formidanda balela, pois se verdade fosse, seria eu um otimista profissional a ver o mundo sempre pintado de azul com bolinhas brancas. Não sou otimista nem pessimista. Sou realista. Vejo o mundo tal qual é e nem por isso deixo de ser mais um insone.

Airton Monte - Memória e Chuva 29 Mar 11

Memória e Chuva - 29 Mar 11


Tarde chuvosa, nublada, úmida, fosca como o olhar de quem padece de catarata. Chove a intervalos regulares uma chuvinha chata feito uma chave emperrada num cadeado enferrujado, chacoalhando sobre as telhas numa música monótona, cheia de cacofonias. Céu escuro, o sol parece haver tirado um dia de folga deixando a tarde vestida de luto. Há pouco escutei o estrondar dos trovões ao longe, felizmente. Tenho uma indisfarçável ojeriza a dias chuvosos desde os bons tempos de menino porque era obrigado a permanecer trancado entre quatro paredes, sem poder brincar no meio da rua. Tirânico e irrevogável decreto materno por medo de que a água caída do céu me molhasse o corpo raquítico, de saúde frágil, tornando-me uma provável vítima da temida visitinha da asma ao cair da noite.


Eis porque até hoje, já um adorável sessentão, a chuva ainda é capaz de entristecer meu coração, deixando-me gravebundo, sorumbático, impotente por não poder com um gesto mágico de mão mandar o diabo do chuviscado para o raio que o parta feito um Mandrake suburbano. Pergunto-me angustiado, pensando num futuro de ficção científica, quando será que o homem assumirá o domínio do clima, comandando através da tecnologia os elementos da natureza, fazendo-os acontecer ao seu bel prazer. Não, não se trata de restar, aporrinhado por um dia de chuva, acalentando pensamentos loucos, frutos de quem perdeu completamente o juízo, ficando com os mentais parafusos frouxos, sem ter doutor que os atarraxe novamente.


Sei que um belo dia o progresso científico e tecnológico permitirá ao homem realizar façanhas hoje tidas e havidas como inacreditáveis, impossíveis de serem conseguidas tais quais as estou pensando agora enquanto São Pedro abre as torneiras embutidas nas nuvens acima de minha cabeça. Basta-me parar e matutar um pouco a respeito de um passado não muito distante. Quem acreditaria, cerca de uns vinte anos passados, se alguém afirmasse que um dia os telefones deixariam de ser imóveis, fixados em suportes nas paredes ou nas mesinhas da sala de visitas para se transformarem em minúsculos aparelhos que andam de mão em mão, nos pondo em contato com outros semelhantes em qualquer parte do mundo. Só acreditaria na futura existência atual dos celulares quem, como eu, lia as histórias em quadrinhos de Dick Tracy com seu telefone embutido no relógio de pulso.


E a chuva continua mais forte ainda. Só Deus pode entender como é infinda qual está escrito nos belos versos de uma canção popular das antigas e da qual poucos se lembram, pois a nossa memória tão frágil culturalmente falando esquece rápido tantas preciosas joias do nosso brasílico cancioneiro. Que pena. Que baita saudade tenho da época em que se ouvia no rádio canções que tinham mais de três acordes e melodias do mais fino lavor. Não me vejam como saudosista, vivendo aprisionado num passado que só retorna em raros festivais retrô. Saudosista é uma palavra que não me define nem está grudada em mim feito doença. Apenas sinto saudades das coisas boas que vivi, que fazem parte essencial de meu arquivo pessoal e intransferível, sem motivos para delas largar mão. Um homem é sua memória e eu o sou. Menos a memória dessa chuva tediosa que me ensombrece o dia.

Airton Monte - A um Leitor 28 Mar 11

A um Leitor - Airton Monte 28 Mar 11

Há alguns dias passados, não sei se vocês ainda guardam na memória, escrevi uma crônica sobre uma mulher desconhecida que me escrevia cartas de amor, cada uma delas mais cheia de paixão do que a outra. Pois não é que um de meus parcos leitores enviou-me uma mensagem eletrônica contando uma história que por demais causou-me espanto e admiração. Contou-me ele que um de seus amigos escreveu cartas de amor dedicadas à esposa que jazia em estado vegetativo durante longos e sofridos dez anos, até que finalmente ela morresse. Ao perguntar ao amigo por qual razão as guardava escondidas no fundo do baú sem jamais permitir que outros olhos as lessem, recebeu uma resposta seca. O autor das amorosas narrativas apenas disse que nunca mostrou-as a seu ninguém, nem mesmo aos filhos e amigos mais íntimos porque para ele todas as cartas de amor eram ridículas.

Após relatar-me tal fato, o leitor indagou-me se eu também partilhava da mesma opinião a respeito de cartas de amor. Para ser absolutamente sincero e fiel ao que penso, devo dizer que sim, mas não de todo. Claro que admito ser uma límpida verdade haver um certo quê de ridículo em toda carta de amor, mesmo havendo sido escrita por um escritor de raro talento. O ridículo faz parte essencial, imprescindível de uma carta de amor. Quando se escreve para o ser amado é quando se escreve livremente, sem medo de usar as palavras mais inusitadas da língua, inclusive as mais tolas, as mais chulas sem apelar para eufemismos e meias palavras desnecessárias. Numa carta de amor, a mais profunda intimidade do autor fica escancarada, com todos os seus segredos desvelados, perdidos todos os pudores. Uma carta de amor é uma espécie de escavação arqueológica da alma de quem a escreve, camada após camada, um legítimo, fiel, verdadeiro mapa do tesouro.

Para mim, uma carta de amor é como se fosse uma tomografia do espírito, se não exagero na metáfora, muito embora eu sempre exagere nas metáforas. Isso porque o amor é pródigo em exageros, em exacerbações dos sentimentos, pois se não for assim não é amor. Concordo plenamente com Alfred de Musset: “a vida é um sonho de que o amor é o sonho, e vós tereis vivido se houverdes amado”. E também faço meu um verso de Emily Dickinson: “que o amor é tudo o que existe/é tudo o que sabemos sobre o amor”. Portanto, numa carta de amor o ridículo carece de importância. Uma carta de amor não pode ser avaliada por nenhum dos padrões estéticos inventados pela humana mente. Uma carta de amor trata-se de um caso à parte em matéria de linguagem. E não se enganem com as aparências nem exigências da gramática e da ortografia.

Até os analfabetos fazem cartas de amor, ditando-as para alguém capaz de escrevê-las. Se todos nós temos o direito de cantar, por mais desafinados que sejamos, todos nós podemos escrever cartas de amor. Duvido que exista um único ser bípede e pensante que jamais escreveu uma carta de amor, mesmo as mais simples, sem arroubos. Pode não a ter enviado ao objeto do seu amor temendo ser ridicularizado ou sofrer uma rejeição. Mas que escreveu, escreveu. Equivocado está quem pensa serem as cartas de amor somente feitas de água com açúcar. Há cartas de amor repletas de ódios, de rancores, de queixumes, de lamúrias, do tradicional adeus para nunca mais. Por isso, meu caro leitor, não se deixe tolher pelo receio de parecer ridículo e escreva as suas cartas de amor de coração aberto, sentimentos à mostra feito uma fratura exposta.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bom texto de Opinião !!!

O dia em que a Isabela chegar certamente eu vou ser uma das pessoas mais felizes do mundo. Isabela, para quem não sabe, é o nome que escolhi para minha filha. Mas a Isabela não deve chegar este ano (nem nos próximos 3), afinal, ela é um projeto para 2015. Até lá eu brinco com meus sobrinhos fofos e me divirto com os amiguinhos que faço por aí. Adoro crianças. Tenho a maior paciência e amo brincar com elas. Só não suporto criança metida e birrenta, que se atira no chão quando quer alguma coisa e dá showzinho.


Sempre achei que os pais têm uma responsabilidade imensa. Não é fácil colocar uma criança no mundo. Acredito que no momento em que você tem um filho transmite tudo de bom que recebeu e tenta melhorar o que viu de errado na educação que seus pais lhe deram.


Ontem eu fiquei realmente preocupada. Assisti um programa chamado "Pequenas Misses", no Discovery Home & Health. É um absurdo o que fazem com menininhas de 3, 4, 5, 6 anos. As pequenas se depilam, fazem bronzeamento artificial, usam maquiagens pesadas, roupas totalmente fora de propósito. Tudo isso pra quê? Para massagear o ego das mães? Para elas se realizarem vendo as filhas ganhando títulos? Acho um completo absurdo.


Criança tem que brincar de boneca, não andar de salto alto. Criança tem que usar maquiagem de criança, pular amarelinha, andar de balanço, brincar de pega-pega, de boneca, de Barbie, de casinha. Ao invés de se depilarem elas têm é que correr de pé no chão. Fiquei me perguntando: o que passa pela cabeça dessas mães (se é que elas têm algo dentro da cachola)?


O que vejo por aí são mães completamente alucinadas e sem a menor noção da realidade. O Fashion Weekend Kids reúne diversas socialites mirins (clique no link e se horrorize com a matéria que saiu no Estadão) e suas mães sem cérebro. Tanto que uma delas fez a seguinte afirmação: "Eu não imagino minha filha colocando uma roupa da Renner nem para dormir." É desse jeito que elas querem passar bons valores para as filhas? Elas acham que vivem em que mundo? "Elas não querem mais bufê infantil. Querem ir para Paris."


Qual será o futuro dessas meninas? Fico com pena. Não deve ser fácil crescer em um ambiente onde a futilidade impera. Tem que ter muita cabeça e saber segurar a própria onda para não se tornar uma perua maluca ou uma adolescente rebelde drogadita. Não pense que estou generalizando, já vi isso acontecer muitas vezes. É por isso que quando a Isabela chegar vou procurar mostrar o mundo - exatamente como ele é - desde cedo.