terça-feira, 15 de novembro de 2011

Airton Monte - O Caçador de Fantasmas - 8 de Novembro 2011

Genial Crônica!!!


Estou sozinho em casa. Todos arribaram do caseiro ninho em busca de outros lugares mais aprazíveis para desfrutar as delícias de um feriadão. Eu, como não sou chegado a encetar viagens nem de longa nem de curta duração, preferi restar no aparente sossego do suburbano tugúrio na ilustre companhia de meus discos, meus livros, meu caderno de escrever e da televisão. Há ocasiões em que me apraz mergulhar numa solitude consentida e, por vezes, para mim decididamente necessária e até mesmo desejada, apesar de ser um sujeito dotado de uma natureza gregária, que gosta de viver arrodeado de gente. Fui criado assim, numa família grande, numa casa grande onde os vizinhos entravam e saíam a todo instante como se fizessem parte da família. Afora as visitas constantes dos amigos, dos tios e da verdadeira multidão de primos que vinham nos dar o ar de sua graça no vetusto Solar dos Monte.

Como os hábitos e costumes da infância em nós permanecem indeléveis mesmo ao ficarmos adultos, está grudado em mim este gosto de viver em grupo com todos os seus incômodos e suas vantagens. Entanto, ficar a sós comigo mesmo em determinadas ocasiões faz um bem danado à alma, Isto é, desde que você aprecie sua própria companhia como acontece no meu caso. A casa me parece maior do que realmente é, embora a ausência das vozes conhecidas, dos passos da mulher e dos filhos faça brotar, de maneira inevitável, um muito de saudade em meu velho coração. Nesses momentos, bendigo a invenção do telefone, essa máquina de encurtar distâncias e aproximar os afetos entre quem se foi e quem ficou. Enquanto permaneço sob o reinado do dia, suporto melhor a falta dos que amo, principalmente quando não chove e a luz, a claridade entram pelas janelas num festival de brilhos e cintilações.

Porém, ao começar a escurecer e o fim da tarde anuncia a noite que chega trazendo as suas sombras indesejadas, é que a ausência dos seres queridos se torna mais dolorida e a solidão me bate com mais força e intensidade. Não que eu tenha um medo infantil das trevas noturnas e me deixe assombrar pela possível aparição de fantasmas e visagens. Afinal, sou um adulto. Além do mais, não acredito em assombrações nem em almas do outro mundo, em espíritos perdidos de caráter malfazejo, cujo esporte preferido é atazanar os vivos com suas imateriais brincadeiras de mau gosto. Os meus fantasmas amados só costumam me aparecer em sonhos, apaziguando meu sono, espantando os pesadelos. Os meus fantasmas prediletos são doces frutos da minha imaginação e como tal, são alegres fantasminhas camaradas que me tornam o adormecer mais fácil, mais suave, mais tranquilo.
 
Ah, Deus sabe e compreende em sua infinita bondade o quanto eu desejaria que os ectoplasmas de meu pai e de minha mãe se materializassem diante de meus olhos incrédulos e comigo falassem, me dessem conselhos tão sábios quanto os que me deram enquanto estavam vivos. Isso sem falar de minha avó Maroca, que foi uma exímia praticante do jogo do bicho, para me soprar ao pé do ouvido as seis dezenas da mega sena, me transformando num milionário da noite pro dia. Todavia, o que deles eu queria mesmo é que me dessem as suas bênçãos e me falassem palavras que me confortassem a alma angustiada e me garantissem que minha vida vai melhorar daqui pra frente e que coisas boas irão me acontecer quando menos esperar. Ah, por que não me vêm visitar os meus fantasmas amados nas noites em que mais me são precisos? Talvez porque jamais me abandonaram e suas presenças, eles sabem, permanecem para sempre vivas na minha lembrança.


Airton Monte - Ócio Criativo - 7 de Novembro 2011


Do meu costumeiro posto de observação, ainda cedo da manhã que mal saiu dos cueiros, sentado na varanda, vigio, feito um sentinela do cotidiano, o que acontece no restrito mundinho de minha rua. Constato que a cada dia, vai aumentando sem parar o número de pessoas que caminham apressadas, empapadas de suor, fazendo o seu exercício matinal numa busca incansável de tornarem-se mais saudáveis e, quem sabe, assim prolongarem a duração do seu existir, protegendo-se das doenças cardíacas, da obesidade e tornando seus corpos em templos de robusta higidez. Enquanto eu, sedentário por vocação, deixo-me covardemente dominar pela preguiça, que em mim já se tornou crônica e acomodadamente permaneço oferecendo uma renitente resistência a qualquer tipo de movimento que ache desnecessário. Dar uma pequena caminhada em volta do quarteirão já me parece concorrer a uma olímpica maratona.

Claro que, como médico, sei que estou incorrendo em crasso erro, pois apesar de ser magro pela própria natureza, tal compleição física de jogador de porrinha de maneira alguma me imuniza contra uma possível pane no cardíaco motor. Quantas vezes não fiz planos, jamais colocados em prática, de começar um roteiro, um calendário de exercícios corporais, mesmo resumidos ao ato de sair pelas calçadas exercendo minha condição de bípede pelo menos umas duas vezes por semana. Inclusive, cheguei a comprar um par de tênis bastante confortável, calção e camiseta no intuito de finalmente transformar-me num modesto atleta e ganhar músculos nas minhas magérrimas canelas. Mas tal preparação física e psicológica logo se esvanece do meu pensamento e o belo uniforme de caminheiro agora resta esquecido no fundo da gaveta do meu guarda-roupa.

Desculpas as mais furadas e variadas sempre dou um jeito de inventar e a principal delas é a falta de tempo, que bem sei e tenho clara consciência não passar de uma monumental mentira. Engraçado é que, quando jovem, fui um insaciável praticante de esportes, desde o futebol ao atletismo, pois muito embora os amigos não me acreditem, fui um exímio craque das quadras e dos gramados e um corredor talentoso de cem, duzentos, oitocentos e mil e quinhentos metros nos jogos intercolegiais. Além disso, joguei minhas peladas semanais até perto de completar 40 anos, quando meu oftalmologista me alertou para o risco de um traumatismo descolar minha retina e fui forçado a pendurar precocemente as chuteiras, porque enquanto anda enxergava a pelota com extrema dificuldade, tudo bem. Porém, quando passei a não enxergar o campo, vi que estava mesmo na hora de parar com minhas façanhas de peladeiro contumaz.

Desde então, abandonei por completo qualquer espécie de atividade motora, preferindo incrementar a calistenia dos neurônios, lendo e escrevendo como permaneço fazendo até hoje. Entanto, não posso negar a pontinha de inveja que me assalta ao ver, todas as manhãs, mal raia a aurora, o pelotão de caminhantes desfilando garbosos, com um ar de missão cumprida estampado nos rostos, diante de meus olhos de velho adepto do sedentarismo profissional. Eu os admiro por sua obstinação inabalável, primordialmente quando são idosos exibindo uma invejável vitalidade. Silenciosamente eu os aplaudo por sua recusa a ceder aos percalços da idade. São bons exemplos que eu deveria seguir, imitar porque seria muito melhor para mim. Todavia, há algo que me impede de fazê-lo. Daí, me conformo com a minha imobilidade e, para ocultar os meus remorsos, acabo apelando para o desgastado eufemismo, apelidando minha preguiça de ócio criativo.

Airton Monte - Falando da Vida - 4 de Novembro 2011


O momento do dia em que mais gosto de escrever é de manhã bem cedo, mal começa a raiar o alvorecer. De animal noturno, de hábitos viciosamente noctívagos, fui pouco a pouco me transformando nesse animal diurno, madrugador que hoje sou. Claro que ainda amo a solidão e o silêncio acolhedor das madrugadas. Continuo sendo um sócio remido do Clube dos Corujas, uma antiga associação formada por um grupo de amigos que, com eu, padecem cronicamente de habituais ataques de uma renitente e incurável insônia. E que, para passar o tempo, costumam trocar telefonemas tardios, falando em voz baixa, quase murmurando as palavras para não despertar os familiares que dormem seu sono abençoado. Ah, quão saudabilíssima inveja sinto desses felizardos que bastam encostar a cabeça no travesseiro para cair quase instantaneamente em transe hipnótico, num benfazejo sono de pedra.

Portanto, cá estou eu, em plenas cinco da matina, apetrechado de caneta e papel, caçando fugidias palavras para perpetrar a croniqueta diária que me garante o aluguel da suburbana moradia. Como ainda sou um morador novato na rua, os vizinhos talvez até olhem com certo estranhamento, que considero natural, o homem sentado na mesa da varanda, debruçado sobre um grosso caderno, parecendo completamente alheio a tudo e a todos que o cercam. Sei bem que com o decorrer do tempo, irão se habituando com meu jeito de iniciar o dia como tantos outros vizinhos de tantas outras casas de tantas outras ruas em que já morei. E deixarei de ser um objeto de constantes observações, de comentários furtivos como sempre calhou de acontecer. Por enquanto, ainda devem se perguntar o que escreve tanto esse homem magro, de óculos, todo começo de manhã, nesse caderno misterioso.

Aqueles que leem jornais logo decifrarão o mistério que envolve o novo vizinho, tornando-o um alvo da curiosidade coletiva. Não demora muito e logo me tornarei parte integrante da paisagem, um habitante comum da fauna que povoa a José de Barcelos e não mais chamarei a atenção de seu ninguém. Atualmente pouco sei de meus vizinhos e eles menos ainda sabem de mim. Claro que nos damos civilizadamente os bons-dias, boas-tardes, boas-noites de praxe e lentamente assim vamos nos conhecendo melhor dia após dia. Trata-se até de uma questão de segurança, porque nesta cidade demasiado cheia de perigos nunca se sabe quando se vai precisar pedir socorro em caso de urgência. Afinal, o sábio Confúcio há muito me ensinou que o estranho próximo é mais valioso do que o parente longe. Por isso, gosto de exercer a política da boa vizinhança, porque jamais se sabe quando se vai precisar do próximo mais próximo que é ninguém mais que o seu vizinho.

Graças a Deus, a rua José de Barcelos é relativamente calma e seus residentes conseguem desfrutar de uma certa tranquilidade dia e noite. Pelo que pude observar, me parece que a maioria de seus habitantes costuma dormir cedo, apesar de estarmos cercados de churrascarias. Há uma bodega na esquina frequentada por torcedores do meu glorioso Leão do Pici, que constituem a maior parte de sua assídua freguesia. Nada mais evidente que, em outros tempos mais amenos, quando não me encontrava afastado compulsoriamente das alegres lides etílicas, eu também seria um contumaz frequentador desse simpático bar especializado no atendimento de clientes tricolores. Hoje, vejo-me forçado a resignar-me a ouvir as batucadas que se armam a cada jogo do Fortaleza e mesmo quando não os há, todo sábado a pândega corre solta e a ruazinha se enche de carros. Fico bebendo minha cerveja sem álcool como quem toma remédio, com as saudades da boemia batucando em meu coração abstêmio.

Airton Monte - cena de bar - 3 de novembro 2011


Baseado em minha vasta e duradoura experiência de quarenta e tantos anos de profícuo exercício das atividades etílicas e boêmias, iniciadas mui precocemente, cheguei a uma decisiva conclusão, que mesmo hoje, afastado, penso que de modo definitivo, dos atraentes prazeres do copo, ainda a mantenho com uma quase absoluta certeza. Nada de querer ser metido a dono da verdade, porque há muito já deixei de lado esses pendores onipotentes tão comuns aos arroubos próprios da juventude, quando imaginamos tolamente que não somente o mundo, mas o universo inteiro gira em torno do nosso ignorante umbigo. Parvas tolices que vamos deixando de acalentar à medida que a vida e a realidade dos fatos vai nos ensinando o beabá das coisas como elas são e não como queremos que elas sejam. Aprendemos que viver não é para amadores e, sim, para profissionais do existir em que findamos nos tornando.
Claro que há aqueles que jamais conseguem nada aprender com os duros ensinamentos da escola da existência, porque bestamente acreditam que já nasceram sabendo de tudo que lhes é preciso saber, e as experiências que vivenciam passam por eles e através deles sem modificá-los, seja no pensar e no agir. Tendem a reagir do mesmo modo a situações diferentes, de tão enquadrados que estão, eternamente presos aos rígidos padrões de comportamento em que foram moldados. Partem do princípio pétreo de que estão sempre certos e todos os demais, que não agem como eles, estão inevitavelmente errados. Ignoram completamente que as coisas estão no mundo, só que é preciso aprender na velha base do erro e do acerto. Quem, por acaso, acredita ferreamente estar constantemente coberto de razão, mais dia, menos dia, quando quebra a cara ao levar uma rasteira do destino, trava uma luta titânica para se levantar e dar a volta por cima.
 
Entanto, encurtemos esse preâmbulo que já se estende em demasia e vamos ao que interessa. Geralmente, conterrâneo leitor, acho que não há quem goste de beber sozinho, entornando solitariamente algumas umas e outras. Pelo menos, no meu caso, nunca vi a menor graça em tomar uns birinaites sem ter ao lado um amigo para trocar conversa e dividir o copo. Tirante certas especiais ocasiões, alguém que se resigna a beber sozinho só pode andar atravessando um inferno astral. Ou está de mal consigo mesmo ou com a vida, com Deus e o mundo. Ao ver alguém bebendo sozinho, logo começo a imaginar que tragédia se esconde por trás de sua solitude. Quem sabe uma briga de amor, um chifre, uma partida inesperada, um emprego perdido. Pode ser um machão empedernido que acabou de descobrir ter um filho gay. Quiçá um sujeito casado de novo cujo exame de HIV deu positivo, uma amante que engravidou na hora errada.
 
Ou simplesmente um bêbado retardatário tomando a saideira antes de voltar pra casa. As pessoas que bebem sozinhas tecem em torno de si um casulo impenetrável que as mantêm longe dos outros tanto quanto possível. Viram ilhas humanas, sem barcos nem pontes. Agora mesmo, bem aqui na minha frente, uma jovem senhora bebe sozinha com o celular ligado sobre a mesa como se esperasse um telefonema salvador como quem espera uma ambulância. Embora sendo uma jovem senhora de balzaqueanos encantos, ostenta uma olímpica indiferença diante dos olhares insistentes dos homens das mesas vizinhas. Com um ar soberbo, nem sequer parece estar ali, naquele bar e naquele momento. Vez em quando, com um lencinho rendado, enxuga uma traiçoeira lágrima furtiva na bela face triste. Súbito, o celular tocou. Atendeu apressada e sorriu. Esperou com visível impaciência o garçom trazer a dolorosa. Ao sair, quase correndo, pelo jeito que seus olhos brilhavam, não era mais uma mulher sozinha.

Airton Monte - História de casal - 2 de Novembro 2011


Bela manhã de domingo. Sentados na varanda, lado a lado, como se unidos por um fio invisível, Sônia e eu lemos juntos o jornal recém-chegado, ainda fresquinho como um pão saído do forno da padaria. Ela acordou tão cedo quanto eu, nossos relógios biológicos parecendo cronometrados para nos despertar na mesma hora matinal. Sua presença me faz um bem incomensurável à alma. Enquanto dividimos irmamente os cadernos do matutino, vamos conversando sobre os mais variados assuntos, inclusive a respeito de nós mesmos, de nossos problemas mútuos, de nossas preocupações em comum, da vida um tanto quanto aperreada que levamos, dos nossos esforços, da nossa luta cotidiana para manter o barco da família à tona das eventuais procelas. Faz muito que caminhamos de mãos dadas seguindo a mesma estrada, percorrendo, entre quedas e levantes, o mesmo caminho desde que nos conhecemos ainda adolescentes.
Em tom de blague, costumo dizer que Dona Sônia é minha cruz que o destino me ofereceu. Todavia, uma cruz diferente, pois ao invés de ser carregada por mim, na verdade é ela quem me carrega nos ombros que parecem frágeis, mas que são muito mais fortes que os meus. Reconheço que sou um fraco, que me deixo abater facilmente por qualquer percalço mais grave, enquanto ela resiste bravamente às intempéries que nos acometem como legítimos representantes do que eu chamo de classe média aperreada. Ela é a verdadeira comandante do navio. Eu não passo de um simples marujo, apesar de tentar manter minha pose de falso capitão de longo curso. Minha mulher parece demasiado com minha mãe, pois demonstra nos momentos de aperreio a mesma fortaleza inquebrantável de minha genitora, que não desabava em lágrimas por qualquer besteira e enfrentava as dificuldades do existir com uma coragem de leoa.
 
Quando me encontro sozinho comigo mesmo na solidão das noites insones, uma indefectível pergunta logo me cutuca com vara curta o bestunto, cortando o fluxo dos pensamentos vadios que me povoam a mente inquieta. O que de mim seria se eu ficasse sem minha mulher? Uma certeza me bate avassaladora: certamente me transformaria num quase nada, num inútil, insignificante zero à esquerda, um cachorro caído do caminhão de mudança. Da morte não tenho medo, porém me apavora o simples pensar que minha mulher possa morrer antes de mim. Vergonha não tenho de confessar isso. E por que haveria de ter se estou falando a mais pura, a mais lídima das verdades? Pois além de amá-la com um amor intenso e permanente, eu dependo dela para tudo. Sem ela, minha existência perderia a maior e a melhor porção do seu sentido, do seu significado. Ser-me-ia quase impossível continuar a viver sem ela.
 
Enquanto escrevo, quando em vez, sem que ela perceba, pouso nela meu olhar repleto de carinho e recebo de volta uma corrente intensa de força, de segurança. Perto ela sinto-me envolto em uma aura de bendita proteção, a sensação feliz de que tenho alguém que estará sempre do meu lado, pronta para me ajudar, me socorrer nos momentos de urgente precisão. Minhas fraquezas todas ela as conhece uma por uma e sabe de mim muito mais do que eu jamais saberei. Acredito até que é capaz de ler meus pensamentos feito uma feiticeira do Bem. Bendigo o dia em que nossos destinos se cruzaram e fomos naturalmente atraídos uma para o outro por obra e graça de algum deus que desconheço o nome. Se é mesmo verdadeira a lenda de que há pessoas que já nascem destinadas a viver juntas, nós dois somos a prova viva de que essa lenda conosco deixou de ser somente uma lenda para tornar-se um fenômeno real e incontestável. Ainda bem.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Conto - O preso - Moreira Campos

Que belo e bem trabalhado conto desse excelente literato cearense chamado  MOREIRA CAMPOS - Ele não deve nada a nenhum dos escritores da literatura universal - o conto se chama " O Preso" - percebam o paradoxal desfexo desse conto : 







José Maria Moreira Campos

Dr. Antero, charuto na boca, em mangas de camisa e suspensórios, derramava-se na espreguiçadeira naquela tarde de sábado, os braços para cima, no alto da calçada. Já a sombra das casas deitava-se larga sobre a praça da estação. Viera até ali para uma questão de terras e hospedara-se na casa do próprio tabelião, conhecido velho. Estudara o processo, arrazoara, a pedido seu o do cartório antedatou um documento, e o Dr. Antero deveria voltar na manhã seguinte.
Ao lado, o tabelião, na blusa de pijama e chinelos, jogava gamão com o farmacêutico, figura seca e encurvada, num grande nariz.
- Quina, compadre! - disse o serventuário, esfregando os pés um no outro embaixo da cadeira. - Dou-lhe uma, dou-lhe duas. Tire esta.
O farmacêutico recolheu a pedra num silêncio concentrado. Homem de poucas palavras, quando perdia ficava mudo e aborrecia as expansões do outro.
Dr. Antero tornou a estender a vista sobre a praça. Tirou o charuto melado da boca, cuspindo peles de fumo:
- Há vinte anos que conheço esta terra, e não muda! Já vinte! A mesma coisa. Agora pior, parece.
O do cartório, que era do situacionismo, guardou silêncio. O da farmácia aproveitou-se:
- Falta de um homem na Prefeitura.
- Ah!, isso não, compadre, que ele até tem se esforçado.
- Aonde? Quer dizer a mim?
Dr. Antero escarrou:
- A falta de administração é geral. Uns irresponsáveis!
- Muito bem!
- Cinco e três. Casa de novo, compadre. Tira a sua pedra.
Dr. Antero falava por fado. Mas no momento até aprovava aquela falta de progresso: saturado da capital, todo ele repousava na paz dormente do lugarejo.
A estação em frente. Carros de carga no desvio. Um empregado da estrada de ferro passou firmado na muleta, a lanterna apagada na mão. Um carro de boi esquecido à sombra de velha mangabeira. Perto da cerca, mais à distância, na grama verde, porque era fim de inverno, crianças se divertiam com uma bola de meia, possivelmente. Trecho de serra em frente, saindo por trás da estação, onde as nuvens caíam em grandes manchas na tarde.
O tabelião lembrou-se de que estava na hora do café, e dali mesmo, curvando-se um pouco, gritou para dentro de casa através do corredor úmido e escuro:
- Belinha, um cafezinho aqui, nega.
- Vai já.
Foi aí que Dr. Antero resmungou na cadeira:
- Lá vem gente presa.
Os olhos ergueram-se do gamão e o dono da casa girou a cabeça para ver melhor:
- Vem mesmo.
Um velho mirrado e de pele escura puxava um jumento pelo cabresto, entre dois soldados do destacamento. Atrás vinham alguns moleques, guardando distância, já enxotados pelos soldados.
Ao aproximarem-se da casa, Dr. Antero levantou-se:
- Que há?
O grupo estacou. Os moleques tomaram chegada e se postaram de braços cruzados e escorados nas pernas.
- Ele estava na feira... - iniciou-se um dos soldados.
- Doutor, me solte pelo amor de Deus! Eu peço a vosmecê pela sua bondade. Não fiz nada, acredite.
Esqueceu-se o jogo. Já havia gente nas calçadas e janelas das outras casas. Dona Belinha trouxe a bandeja com café e ficou esquecida também, nas pontas dos pés, para olhar por cima do ombro de Dr. Antero. Alguém derrubou o tabuleiro de gamão: bozó, pedras e dados por baixo das cadeiras.
- Um momento. Mas, afinal? - tornou Dr. Antero.
- Ele tem um apelido. Caroço.
- Mas me chamo Inácio! Que eu não posso atender por um nome desses...
Houve risos em volta e os olhos se detiveram num lobinho que quase cobria a vista esquerda do velho.
- Como? - fez Dr. Antero, pondo a mão em concha no ouvido.
- Caroço. É um apelido. Brincadeira de menino. Começaram a aperrear ele na feira. Zangou-se, deu com o cacete pra trás e pegou no menino na altura da testa.
- Mas só foi na pele. E eu mesmo fiquei agoniado e procurei estancar o sangue. Um vexame, doutor. Frecham em riba de mim todo o tempo. Empurram, atiram casca de banana, toda porqueira que dão de garra (com licença de vosmecê). Vem isto de anos. Já quis até me mudar de canto, se pudesse. Apelo para vossa senhoria.
Dr. Antero irritou-se:
- Isto vale nada! Soltem o pobre homem!
Inácio tomou-se de grande esperança, enquanto olhava para os que o detinham:
- Muito bem, muito bem, doutor!
- Não pode. O menino ferido é filho de Dr. Targino - falou o soldado.
- De quem?
- É filho do juiz de direito - esclareceu o farmacêutico ao lado.
- Meu velho, pra que você fez isso! - disse Dr. Antero, já sorvendo o café e perdendo um pouco do primeiro entusiasmo.
- Não 'tava no meu propósito. Eu peço aos senhores. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Nunca fui. É o que eu digo aos meninos lá em casa. Não tenho paciência de ser preso.
Riram muito com a frase. O tabelião divertia-se, vermelho e todo sacudido pela novidade. Sungava as calças com os cotovelos e comentava em volta de um para outro:
- Hein? Hein? Que tal? Esta é boa! "Não tenho paciência...". Como é que ele diz?
- Eles soltam logo, meu velhinho - adiantou Dona Balinha, fazendo sinal ao marido para conter-se.
- Soltam não, dona. Eu sei o que é isso.
velho apanhava numa das mãos o chapéu de palha desfiado nas abas, o cabresto do jumento enrolado na outra. Pés descalços. Os cotos de unhas negros, comidos pela terra, lembravam nós. Calcanhares gretados. As calças de morim ralo e sujo, curtas nas pernas e com joelheiras. No pescoço fino e de pele engelhada, uma medalha barata num cordão sebento. Os olhos miúdos e escuros confundiam-se com a pele, lá dentro, um deles diminuído pelo lobinho.
Era grande o seu ar de aflição, dirigindo-se a todos os lados, com apelos gerais:
- Vim vender banana nesses caçuás. Antes não tivesse vindo.
Repetia-se, pedinte:
- Moços, vosmecês todos, me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso.
Voltavam a rir:
- Ora, veja!
O jumento, de quando em quando, soprava forte nas narinas, baixando a cabeça, ou dava com a pata traseira para tanger as moscas que lhe mordiam a pisadura na cilha.
O soldado mais novo insistia em que a prisão fosse feita. O outro quase não falava. Limitava-se a soltar cusparadas de lado: nariz vermelho, gordo, o casquete colocado ridiculamente no alto da cabeça, o cinto frouxo na barriga. Piscava e comia os beiços, num tique comum aos que bebem. Dava a impressão de que tudo aquilo para ele era uma grande maçada. Obedecia.
- Toca! - falou o mais novo.
O grupo retomou a marcha.
- Eu não tenho paciência de ser preso.
Já iam distantes, e aqui na calçada o tabelião rindo, enquanto procurava pelo chão um dos dados:
- Como é que ele dizia mesmo?
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
- Aparece cada uma!
- Isto é uma judiação! - falou Dona Belinha.
- É assim mesmo. Talvez ele tenha bebido, e foi violento - concluiu Dr. Antero, derramando-se na espreguiçadeira.
Era frente à cadeia, amarraram-lhe o jumento no tronco da mangueira e o meteram na primeira cela, com grades para a praça. Ele ainda se agarrou às barras de ferro da porta, numa súplica:
- Me soltem... eu peço ao senhor.
O soldado girou o molho pesado de chaves e os seus passos se perderam ao longo do corredor.
Vindo da luz, Inácio enxergava pouco ali dentro. Apertava os olhos, pondo a cabeça de lado para orientar-se. Acocorou-se a um canto, onde os olhos miúdos brilhavam. Por fim, foi-se acostumando à sombra: a cela era espaçosa e alta, chão de tijolo úmido, em cima um travejamento forte e antigo. Passou o dedo no tijolo e provou o barro vermelho, supondo que ali tinham guardado sal noutros tempos. Descobriu um caixão de querosene perto da janela, e acomodou-se melhor. Revia os seus: a filha, a mulher e os meninos. Dizia-lhes sempre: "Nunca fui preso, e filho meu não me dá esse desgosto. Está no bom comportamento de cada um". Não sabia porquê, insistia o rosto da filha, que tinha os seus pequenos olhos, o cabelo apanhado num cocó. Encarregava-se de levar-lhe o prato de comida ao roçado, enrodilhado num pano, a colher de latão de través. Ficavam os dois no canto da cerca, sob a sombra do cajueiro, enquanto ele almoçava. O rosto da filha agora encarava-o de perto, em cima, sem compreender o olhar espantado.
Levantou-se e deu várias passadas na cela. Parou em frente à janela. Os olhos ficavam no plano do peitoril e podia avistar o jumento, que cochilava paciente, o cabresto muito curto, os caçuás ainda na cangalha. De quando em quando dava com a pata traseira para frente, tangendo varejeiras.
Ao fundo, a calçada alta, com batentes, de um trecho do mercado. O sol cambava, filtrando-se horizontal e vermelho na luz branda da tarde, e punha na parede da cela os retângulos da grade.
Inácio aproximou o caixão de querosene da janela e alçou-se até a soleira.
O menino que ia passando em frente à cadeia assustou-se vendo aquele braço escuro a acenar-lhe entre as barras de ferro:
- Tenha medo não, meu filho.
- Hem?
- Ouça. Aí mesmo da ponta da calçada.
- Que e?
- Olhe, solte ali aquele jumento. Ele é meu. Quer se deitar e não pode. Tire o cabresto e me dê.
- Vai embora.
- Faz mal não. O menino obedeceu e entregou-lhe a corda pela janela.
Quando no outro dia pela manhã o soldado empurrou a porta pesada, Inácio pendia enforcado da grade da janela, o nó apertando-se no terceiro varão, o caixão de querosene caído de lado.
- Oh!
O rosto estava arroxeado e intumescido, a língua de fora, os pés esticados para baixo, roçavam a parede. O lobinho parecia tragicamente maior.
- Que coisa! Aqui, aqui! Ora, vejam!
Presos, soldados, gente das casas vizinhas, e, dentro em pouco, uma grande multidão à porta da cadeia.
A frase tomou conta das consciências. Pelas nove horas, o tabelião, ao assinar uma escritura, ainda a repetia, arrastando a pena no papel:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Dona Belinha misturava-a com o caldo na cozinha, enquanto girava a colher de pau. 0 farmacêutico triturava-a com o pó que mexia no almofariz.
Já o trem de Dr. Antero partira. Tentou a leitura de uma revista, que atirou de lado. - "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Ergueu-se, foi ao carro-restaurante, tornou à sua cadeira. Olhou pela janela. Um açude, bois que pastavam, carnaubeiras e, logo a seguir, a ponte de ferro. As rodas do carro matraqueavam nos trilhos num ritmo que reproduzia a frase inesperada:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".

("Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro" – Editora Cultrix)

Airton Monte – Em compasso de Espera – 28 de Outubro 2011

Airton Monte – Em compasso de Espera – 28 de Outubro 2011

Nos distantes confins da Líbia, o reinado de quarenta e dois anos de Kadhafi chegou ao fim melancolicamente. O ditador foi morto em um linchamento pelos rebeldes depois de ser arrancado, como um guabiru, de dentro de uma toca de um cano de esgoto. Mais um sangrento fruto da chamada “Primavera Árabe”. O povo, liberto das garras da tirania, comemora a sua morte pelas ruas e as grandes potências que dominam e regem os destinos do mundo também participam das comemorações, fingindo esquecer que, num passado não muito distante, colaboraram ativamente para manter o tirano no poder, enquanto tal estado de coisas lhes interessava. Coisas da politicagem internacional. Nuances dos sempre onipresentes interesses comerciais.

Afinal, o petróleo é um tesouro que os donos do mundo não podem e nem querem desprezar e, na verdade, pouco estão ligando para um pequeno detalhe que se conhece por democracia.



Já no Brasil, festeja-se outro, para nós, importantíssimo acontecimento. Saiu, enfim, a tabela da Dona Fifa com o roteiro dos jogos da copa do mundo e as cidades que os sediarão, principalmente os da seleção brasileira, entram em clima de frenesi, inclusive a nossa equatorial Lourinha Desposada do Sol. Espetacular vitória de Fortaleza, estrondeiam com alarde, em manchetes de primeira página, os matutinos da Taba de Alencar. O povo parece estar vivendo um clímax de alegria e satisfação, se se levar em conta a cara de felicidade estampada na face dos operários que trabalham na construção dos estádios. Talvez a maioria ignore por completo que benefícios a copa nos trará e o que sobrará de bom para esta cidade e seus habitantes depois que a festa acabar. Para usar a palavra mais em moda atualmente, qual será o nosso tão decantado legado.
 

Eu, pessoalmente, nada tenho contra a realização do maior evento esportivo do planeta em nossos sortudo país, pois sou um incurável apaixonado por futebol, embora me acometam certas dúvidas se essa montanha de dinheiro que estamos gastando a rodo, como se fôssemos potentados nadando em bufunfa de sobra, não poderia ser usado em outras vitais necessidades das quais andamos há séculos urgentemente precisados. E a saúde? A educação? A segurança? Os meios de transporte público? E quando poremos um fim no sofrimento secular da população do interior que ainda depende dos carros-pipa para ter o direito de beber um prosaico copo d’água limpa? Entanto, diante do orgulho de receber as seleções estrangeiras e a esperada multidão de turistas, tudo o mais que nos aflige sai da boca de cena e passa a ser relegado a terceiro plano. É isso aí.
 

Nunca será demais lembrar que grande parte dos geraldinos e arquibaldos que, em essência, sustentam o nosso futebol com sua assídua presença nas arenas futebolísticas, haverá que se contentar em assistir aos jogos em casa ou nos bares pela televisão, devido ao preço estratosférico dos ingressos, muito além de suas posses. De qualquer modo, sinto-me até incomodado por uma certa culpa por não estar celebrando com todo entusiasmo que deveria a nossa participação no monumental acontecimento. Confesso, um tanto quanto encabulado, que meu coração não decretou um carnaval íntimo. Nem saí pelas ruas envolto em bandeirinhas verde-amarelas, soltando fogos de artifício, eivado de bairrismo e de patriotismo, mesmo sabendo que esta poderá ser, talvez, a última copa que eu veja ou talvez não. Estou quieto no meu canto, aguardando o desenrolar dos acontecimentos, esperando para ver no que vai dar tudo isso.



Airton Monte – Carta ao Poeta – 27 de Outubro 2011


Airton Monte – Carta ao Poeta – 27 de Outubro 2011

Pois é, meu caro e saudoso amigo Rogaciano Leite Filho, como sempre, quando as saudades suas me batem mais forte, mais fundas e mais fecundas, escrevo para você, sob color de crônicas, cartas que nunca mando, mas que talvez você até as receba, seja lá onde você estiver, através dos mensageiros misteriosos que a nossa vã filosofia nem sequer é capaz de supor, imaginar. Desde que você, meu poeta, nos deixou em busca dos etéreos campos do além, que ninguém sabe onde ficam ou se verdadeiramente existem, naquele fatídico dia cinco de março de 1992, tragado por uma terrível doença. Era uma quinta-feira, eu não consigo esquecer esta data nem jamais ela fugiria de minha memória mesmo que eu tentasse dela escapar desesperadamente. E eu assim prefiro permanecer indefinidamente preso à sua lembrança porque você fez e faz parte essencial do meu existir.

Estava eu posto em sossego, aboletado numa das mesas do Cirandinha, costumeiro ponto de encontro de nossa turma de jovens boêmios, por volta de umas nove horas da noite de uma quarta-feira repleta de promessas noturnas a nos esperar pelas esquinas líricas do território poético da Praia de Iracema. Eu entornava solitariamente umas cervejas, esperando a ansiada chegada de uma doce amiga. Súbito, o companheiro Pedro Álvarez adentra o recinto feito um vendaval, senta-se a meu lado e com os vermelhos, marejados me conta de sopetão, com a voz embargada pela intensa emoção que o consumia, que você havia morrido há pouco, mal soara as oito da noite. Na hora não chorei, de minha boca repentinamente emudecida não saiu uma palavra, um tímido gemido, um murmúrio. Naquele momento eu era apenas um homem feito de silêncio e dor, nada mais.
 

Deixei-me fitando longamente o azul escuro do mar do alto daquele terraço de um restaurante que hoje não mais existe e lembrei de um verso triste de Antonio Girão Barroso: “Todos nós envelhecemos e um dia morreremos. Mas a vida é isso, mas felizes somos no minuto que passa, e não nos lembramos da velhice nem da morte, que é fatal”. Porém, você ainda não era um velho, meu poeta. Ia fazer trinta e oito anos dali a três meses. Diabos, eu ia entrar na casa dos quarenta e três e estava vivo. E você morto em solo estranho, exilado no Hospital Albert Einstein em São Paulo. Por aqui ficamos todos nós à espera de notícias suas, que iam chegando de forma desencontrada e dúbia. Umas diziam que você havia melhorado. Outras que seu estado se agravava a cada dia e da verdade sabíamos tão pouco. Entanto, eu sabia que, em virtude de sua enfermidade e da pobreza do terapêutico arsenal da época, você estava irremediavelmente condenado.


Para lhe ser sincero, eu só esperava que sua morte, quando chegasse, fosse misericordiosamente rápida e sem dores, sem sofrimento. Daí, me veio uma cena acontecida no festival ”Massafeira”, no Theatro José de Alencar lotado até a tampa e uma multidão do lado de fora querendo entrar de qualquer maneira. Um policial, sentindo-se acuado, fez menção de sacar a arma. Você, todo vestido de preto, enfrentou o PM e mandou que abrissem os portões. O povo entrou, você subiu ao palco e disse um poema. Essa a imagem que guardo de você, amigo. Também não fui a seu enterro. Tranquei-me em casa, desliguei o telefone e bebi em sua companhia até o sol raiar, numa longa e solitária despedida. Vinte anos depois, sua ausência me dói como em doença. Por isso, vez em quando lhe escrevo cartas tentando encurtar a enorme distância que se abriu entre nós. Você vagando aí por cima e eu aqui embaixo vivendo o tempo que me deram pra viver. Saudade também é uma forma de imortalidade.


Airton Monte – Adorador do Sol – 26 de Outubro 2011

Airton Monte – Adorador do Sol – 26 de Outubro 2011

Depois de tantos dias de líquida ameaça por parte do nosso clima temperamental, hoje amanheceu chovendo aos cântaros. Aos cântaros, não. Seria um exagero de avaliação tal afirmativa. Todavia, ao que parece, o dia irá transcorrer nesse chove não molha, nesse nem usa nem desocupa a moita. Ao contrário do meu velho amigo Antonio Maria, cronista e compositor emérito de vários clássicos do nosso cancioneiro pátrio, eu me sinto, de um certo modo, meio incompleto quando chove. Por incrível que possa parecer aos olhos de quem me lê, talvez eu seja um dos poucos, raros nordestinos que não nutre essa simpatia toda pela chuva. Principalmente nessa casa onde atualmente encosto e abrigo meus sambados ossos, porque quando as nuvens se liquefazem, caem respingos nas varandas e eu sou compulsoriamente expulso dos lugares em que mais gosto de escrever.

Nas varandas do meu tugúrio suburbano, há mais luz e claridade, o que significa uma bem-vinda bênção para meus olhos míopes e que, vez por outra, ficam um tanto quanto embaçados por conta de uma catarata iniciante. Felizmente, o sol voltou a brilhar, a dar o ar de sua graça e as cores do mundo recobram a sua indispensável nitidez. Ansiosamente espero que o tempo continue assim, pleno de limpidez para mim tão necessária e cara. Ergo o olhar para o alto e vejo que algumas nuvens brancas se intrometem pelas brechas que as escuras vão lentamente abrindo, levadas pelo vento. E já não tarde e atrasado, porque o tempo urge, as horas avançam pela manhã adentro de forma inexorável. Além do mais, tenho prazo certo para enviar a crônica do dia ao editor, meu diário e inadiável compromisso, um encontro ao qual não me é permitido faltar nem chegar atrasado. Ossos do ofício de cronista.
 

Ah, que venha o sol trazendo seus raios benfazejos e lá bem alto, reinando no cume dos céus, assim permaneça impávido e colosso, iluminando tudo cá embaixo, tornando esta quinta-feira belamente translúcida feito a vidraça de uma janela que acabou de ser lavada, espantando as sombras, os ventos molhados, a umidade das paredes, secando as poças d’água acumuladas no cimento do quintal e do jardim, sossegando meu agoniado coração. Lembro-me agora, exatamente agora, que quando menino do buchão, na saudosa inocência dos meus cinco anos, minha avó achou por bem levar-me a um centro espírita que costumava frequentar. Sei lá quais foram os seus motivos. Quem sabe, Dona Maroca pensasse que eu estivesse sendo vítima de algum encosto por causa do meu comportamento meio estranho. Já me tinham submetido a um psiquiatra que em mim nada de loucura detectou e que eu padecia mesmo era de uma prosaica falta de peia.
 

Esgotada a opção médica e como apesar das surras de criar bicho eu continuasse aprontando mil e uma peripécias, o Centro Espírita bem que poderia ser uma solução. Em lá chegando, cedo da noite, fui entregue aos cuidados do Irmão Damásio, cuja fama como poderoso médium corria de boca em boca no Benfica. Era realmente uma figura impressionante o Irmão Damásio aos meus olhos de menino. Alto, forte, pele rosada, uma vasta cabeleira branca a emoldurar-lhe a olímpica cabeça e transmitia a todos que o procuravam para um passe espiritual uma tranquilidade de monge. Levou-me para um aposento, com aparência de um consultório, fez-me sentar em uma cadeira, pediu para que eu ficasse quieto, apôs suavemente a mão em minha cabeça e após alguns minutos, afirmou que eu era um espírito velho em corpo jovem, com muitas reencarnações. Pode ser que em uma delas, eu tenha nascido no Egito dos faraós e sido um adorador do sol. E continuo sendo até hoje.



Airton Monte – Da esperança – 25 de Outubro 2011-10-31

Airton Monte – Da esperança – 25 de Outubro 2011-10-31


Folheio, sem nenhuma pressa, os jornais do dia. Há notícias boas, alvissareiras espalhadas pelas páginas diversas dos nossos matutinos. Em algumas grandes capitais do país, os jovens saíram às ruas em marchas pacíficas protestando contra a corrupção que grassa e enlameia as nossas respeitáveis instituições. É, acho que já estava mesmo na hora de criarmos um pouco mais de vergonha na cara e abandonar o omisso papel de boi no pasto, esperando que as necessárias mudanças caiam do céu pondo milagrosamente um ponto final na deslavada roubalheira que infesta a nação. Havemos deixar, a qualquer custo, de bancar os palhaços, observando de boca calada a cada vez mais crescente quadrilha de ladrões do dinheiro público cometer as suas bandalheiras e permanecer impune ostentando sua eterna cara de pau e cheia de absoluta certeza que permanecerá impune com a habitual desfaçatez. A juventude nos deu, a todos, um belo e magnífico exemplo de rebeldia civil. Resta-nos seguir o seu exemplo.



Finalmente, após um longo e tenebroso inverno, teve fim a epidemia das greves. Professores, carteiros, bancários enfim retomaram as suas essenciais atividades, livrando-nos do desamparo a que estávamos sofridamente relegados. Entanto, os policiais civis agora iniciam seu movimento paredista e a bandidagem ri às bandeiras despregadas, feliz com a situação e com o aumento livre dos seus territórios de caça. E nós, pobres cidadãos comuns, vamos ter de nos habituar, resignadamente, a viver sob o domínio do medo e o reinado da insegurança, além de percorrer uma verdadeira via-crucis para registrar um simples boletim de ocorrência. Viver em Fortaleza vai, a cada dia, se tornando uma atividade de alto risco e demasiado povoada de perigos. Num único fim de semana, em pouco mais de 24 horas, 15 pessoas foram assassinadas; 13 homicídios ocorreram somente na área da chamada “Grande Fortaleza”. Meu Deus, aonde vamos parar com tanta disseminação desenfreada de violência?
 

Nem eu sei e acredito que não há quem saiba quando voltaremos a desfrutar de um pouquinho, um tiquinho de paz em nosso agoniado cotidiano. Assaltos também viraram um acontecimento comum nas cidades do interior e não se passa um dia sem que as quadrilhas de modernos cangaceiros explodam caixas eletrônicos, colocando em polvorosa os aterrorizados habitantes de cidadezinhas outrora calmas e nelas podia-se dormir de janelas abertas em sossegada tranquilidade. Não dá para negar o óbvio. Os quadrilheiros estão mais organizados e audaciosos do que jamais estiveram. Os bandos de criminosos estão cada vez mais poderosos, muito do bem armados com artilharia pesada, dispostos a tudo e de há muito perderam o medo das frágeis e impotentes forças da lei. Formam organizações bem estruturadas e fundaram a empresa Crime S.A. e só nos falta mesmo que a registrem nas juntas comerciais, de tão organizadas que são e se tornaram.
 

Isso sem falar nas crises que afetam a economia mundial, nas guerras civis que se alastram pelo Oriente Médio, com a população se rebelando contra a tirania secular dos ditadores a ferro e a fogo, no recrudescimento dos atentados terroristas, nos banhos de sangue, no genocídio dos inocentes por todos os cantos do planeta. Entre nós, paira novamente, após estar ilusoriamente posto sob controle, o apavorante fantasma da inflação, nos tirando o sono, nos amedrontando com a possibilidade de que nos aconteça o pior, muito embora os brasílicos mandatários garantam que o Brasil está imunizado contra um vendaval inflacionário. E não precisamos temer a volta das maquininhas de remarcar preços nas gôndolas dos supermercados. Porém, apesar de tais declarações apaziguadoras de aflições, cá por mim, permaneço com o desconfiômetro ligado e me apegando com todos os santos para que o pior não venha a suceder e a esperança não seja a primeira a morrer em nossos corações.