segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Reproduzindo Vinicius de Moraes - Invocação à mulher única

 Após assistir a uma vídeo no qual o excelente escritor infanto-juvenil Pedro Bandeira recitava esta bela peça da Literatura de Vinicius de Moraes, resolvi reproduzir por aqui!





Invocação à mulher única – Vinícius de Moraes


Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!…)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio

E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.

Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua…
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência

De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!

Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue

Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!… eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne

Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir… – as viagens remontam à vida!… e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura

A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando

Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia

No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pequena Crônica - Tudo pra Ser Reunido Agora - 25 de Fevereiro de 2022

 


Pequena Crônica – Tudo para ser reunido agora

 

            Manhã de um dia qualquer. Ainda sofrendo as consequências físicas da carraspana da noite passada, mesmo não tendo sido uma pândega das maiores. Despertei hoje acompanhado por uma vontade de perambular por alhures a esmo, rua a rua. A este momento o horizonte pros lados do nascente, está carregado por nuvens plúmbeas e carregadas que denunciam a qualquer momento uma chuva. Mesmo com estes iminentes contratempos, dou início a meu itinerário errante. Nas calçadas das casas por onde passo há poucos sitiantes para esta hora tradicional de tertúlia. Passeio por ruas tortuosas e de pisos irregulares. Meus pés de anatomia imperfeita, sofrem com os impactos causados pelo sobrepeso de meu corpo, mesmo estando os pés sobre proteção de macio calçado. E por estas andanças tenho a companhia de uma vitrola portátil que trago junto ao bolso do meu “curto”. Executado pelo aparelho eletrônico, seleciono para o “convencional” o extraordinário músico Eumir Deodato e sua excelente “World Music” quase inclassificável pela mistura de influências mil da música.

            O jogo segue e o percurso percorrido pelos meus combalidos pés estão cada vez mais aleatórios. Muitas vezes pareço está andando em círculos, quase em moto perpétuo. E neste caos do itinerário, incidentalmente eu circundo a casa da moça da loja de secos e molhados. É uma modesta choupana sem nenhuma arquitetura mais elaborada, luxo ou outros detalhes que chamem a atenção de quem passa por ali indiferente no dia a dia.  É um modesto casebre num recanto de uma tortuosa rua. O frontispício urge melhoramentos. A distância se observa a sala escura e inóspita, ali jaz um varal repleto de roupas recém lavadas. Momentaneamente não surge por ali sinal que há algum locatário do local, parece que todos já saíram pra seus afazeres.

            Agora o tempo avança, e meu caminhar segue a esmo. Percorro ruas, vielas, becos e alamedas. Passo por uma casa de saúde que está bastante movimentada pois estamos num tempo de doenças sazonais. Passo ainda por um suntuoso templo religioso que está sendo preparado para receber logo mais um sem número de anacoretas.  Cruzo caminho de pessoas que me cumprimentam e de chofre respondo maquinalmente um a um. As nuvens que ainda a pouco denunciavam chuva, se esvaíram por todos os cantos e a chuva não veio. Quem domina agora o espaço é um sol que brilha intensamente. O fenômeno é a ordem de todos os dias por aqui. A temperatura sobe rapidamente. Pessoas procuram os filetes de sombras. Até os cachorros procuram guarida na areia úmida da chuva que caiu na noite passada.

            Volto para meu tugúrio e o contador de passos que eu acionei para tal tarefa avisa que eu dei aproximadamente nove mil passos desde o início desta légua tirana! Findo o expediente tendo o corpo tomado por suor. Faz-se necessário imediatamente um asseio demorado. Tudo é verossimilhança, ou quase tudo.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

Pequena Crônica - Alhures - 6 de Fevereiro de 2022

 


6 de Fevereiro  - Pequena crônica – Alhures

 

Uma das práticas que mais encantam as pessoas é conhecer lugares desconhecidos, lugares nunca vistos e nem situados dantes. E para se deslocar, a depender da distância, faz-se necessário a utilização de semoventes. Eu na minha limitação para tal apropriação enfrento bastante dificuldades para tal. Mas hoje é mais fácil ver virtualmente as várias paisagens (urbanas ou não) mundo a fora. E é isto que eu faço nas raras horas de ócio que me são gratuitas. Hoje eu perambulei por ruas tortuosas de alguma urbe Brasil afora. (Não citarei que cidade é esta e muito menos qual bairro). Como citado, as ruas e vias urbanas são tortuosas e sem nenhum planejamento urbanístico. Nenhum traço de enxadrezamento da construção das ruas, vielas, becos e alamedas.  Percorro aleatoriamente as ruas sem me preocupara com os prédios ou paisagens naturais que cruzarão meu caminho. Há prédios de vários pavimentos sem nenhum rigor de engenharia ou arquitetura. Verdadeiros monstrengos que parecem que cairão a qualquer momento. Há um largo e uma praça pública mal assistida pela máquina estatal. Campeiam por lá os invisíveis sociais que o sistema econômico/político produziu. Há uma birosca pouco espaçosa que tem mesas e cadeiras na calçada atrapalhando os transeuntes do local. Há uma igreja onde poucos fiés foram flagrados a esta hora da manhã ( suponho que o registro fotográfico foi numa manhã de sol!). O espaço urbano se expande de forma infinda e eu cesso meu passeio virtual.

As horas avançam, minhas obrigações do lar precisam ser cumpridas. Preciso cumprir horas e tarefas para ser um eterno escravo do tempo. Preciso planejar as lides diárias desta semana que começará daqui a poucas horas. Consulto o aplicativo de mensagens para saber a que horas a moça da loja de secos e molhados o consultou pela última vez. Já é um tempo razoável desde da última vez. Estico a vista e aprecio um pequeno morro que fica ao fundo do meu quintal. Preciso voltar a rotina, preciso voltar a normalidade imposta. Hoje é mais um dia no calendário. Tudo se deu num átimo e eu comprei tudo isto sem dinheiro.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Pequena Crônica do Natal - 24 de Dezembro 2021

 Pequena Crônica do Natal


Hoje é natal, mesmo que haja controvérsias quanto a data exata do nascimento de Cristo, hoje é natal.  Se pensarmos com o sentido espiritual e transcendente, pouco importa a data.


Outrora eu acreditava em um Papai Noel fantástico e onipresente que visitava todas as casas de todas as crianças do mundo numa noite só. Depois cresci e fui entender as condições precárias nas quais nasceu Jesus Cristo. Fui compreender que as palavras Estábulo, estrebaria e manjedoura foram romantizadas para os termos curral, cocheira e outras palavras vulgares. 


Anos mais tarde eu fui celebrando precariamente  cada data do Natal nos mais distantes e profundos rincões de nosso país. E os os ornamentos das festas eram extremamente pobres e desprovidos de luxo de qualquer natureza.


Passados muitos anos, e já nas grandes urbes, vi presentemente a desigualdade social daqueles que ficam à margem de todo o Natal e por conseguinte da sociedade em geral. Pessoas desalentadas e abandonadas pelos donos do poder. Que Natal é este onde pessoas não têm as condições mínimas de se alimentar e realizar higiene pessoais básicas? Onde estão os donos do poder? Por que a opulência do Natal de outras pessoas, dos vários lares, não chegou até aqueles locatários das ruas citadinas? Ruas tão desprotegidas e tão inseguras!


O Natal não é apenas uma data que se repete no ciclo do calendário. Calendário este que é justamente regrado pelo próprio natalício daquele que vem nascer na noite de hoje. Esta data é para que possamos nos tornar humanamente mais humano e enxergar no outro alguém que é meu semelhante e humanamente igual a mim e a todos.




segunda-feira, 19 de julho de 2021

Pequena Crônica - Ele não é um peso, ele é meu irmão - 19 de Julho 2021

 

Ele não é um peso, ele é meu irmão

Noite qualquer. Não tenho saído mais as noites. Meus hábitos estão diametralmente opostos ao dos vampiros. Me encontro na rua principal da pequena urbe e constato que muita coisa mudou por aqui ou ali. Outrora, não faz muito tempo, nesta pequena alameda, as calçadas eram sitiadas por locatários deste espaço semi público. Em dias de hoje tudo está diferente. Os espaços das calçadas das casas foram tomadas por vazios por quase toda extensão da rua. A esta hora da noite e nas próximas horas profundas, mais ainda. Não que a formação do elenco dos que ali habitam tenha sido sofridos mudanças na composição, embora os mais jovens tenham buscado outras paragens nos grandes centros urbanos das maiores cidades. Tudo bem que os locatários mais velhos tenham se enfastiados daquelas práticas de outros tempos e que o celular individualizou mais ainda os indivíduos. Só sei toda esta cena mexe comigo e me causa uma grande estranheza! Merece destaque nesta rua ainda a grande loja de secos e molhados que fica funcionando até altas horas da noite e atrai consumidores sedentos por coisas totalmente supérfluas para o consumo individual.

O relógio acelera e estamos no “Day After”. Manhãzinha no centro comercial citadino. Os rentistas do escambo mercadológico, ainda afetados pela última crise, estão em processo de recuperação lenta e gradual. Na esperança de um “upgrade” em seus negócios eles ali chegaram quando as sombras da noite passada ainda se despediam. A crise fez crescer pelas cercanias do comércio, o número de pedintes famélicos. Aumentaram ainda os vendedores de bilhetes do jogo do bicho (sempre o jogo alimentando a esperança do dinheiro fácil), os operadores de motocicletas em regime de entrega de encomendas. Na esquina da rua direita com a rua Nova, um jovem motoboy ouve em seu smartphone de som estridente e agudo uma canção em inglês do cantor Bill Medley. Ele não compreende uma palavra da língua de Byron. E eu também não entendo bem a metáfora que o Yankee quis transmitir naquela música, naquela língua! Caso o jovem da moto tivesse consciência de classe, estaríamos nas fileiras daquelas que fazem a revolução contra o sistema estabelecido! Ele não é um peso, ele é meu irmão.

As horas avançam com uma velocidade naturalmente maior mais uma vez.  E mais e mais.  Minha cabeça está cheia de ideias. Ideias profusas e caóticas. Elas chegam como uma tempestade cerebral. Tal qual uma Brainstorming as ideias pululam em meu limitado cérebro. Preciso de um local sossegado para domar estas ideias e pô-las em ação. Preciso repor meu déficit de sono de várias noites passadas. Preciso cumprir minha obrigações dionísicas da noite de sexta feira. Preciso guardar meu segredo bilateral ( ou seria unilateral?) com aquela mulher. Preciso encontrar um pouso alegre na meditação teológica. Preciso não enlouquecer com a situação social e política convulsionada da nação brasileira. Vou dormir antes que eu seja engolido por isto tudo.

segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de Março -

 



Oito de março, esta data que o sistema capitalista se apropriou para uso de uma data comemorativa comercialmente, quando na verdade esta data é para lembrar da luta da classe trabalhadora, mais especificamente da luta de mulheres que reivindicavam melhores ou mínimas condições de trabalho. Mulheres que neste dia foram brutalmente assassinadas dentro de seus locais de trabalho pelos donos dos meios de produção que não aceitavam a justa reivindicação das mulheres. 

O capitalismo é sabido, sempre se apropriou de eventos reivindicatórios e contestadores do próprio sistema e revertem ao seu favor com ganhos capitais (trocadilho perfeito) para si. Basta ver o que fizeram com o contestador festival de Woodstock e também coma imagem de Chê Guevara na qual foi comercializada e gerou um produto bastante rentável até hoje. 

Esta data é para lembrar da irmandade de gêneros dos que sempre lutaram no bom combate para o bem da classe proletária. Este dia é para ser lembrado por isto e não como uma data meramente comercial. Hoje ainda existe um abismo muito grande entre os gêneros da classe trabalhadora, mas este abismo foi produzido e é mantido pelos donos dos meios de produção. 

Lembremos deste dia de luta constante da classe trabalhadora e das trabalhadoras. Mais ainda nesta fase na qual estamos passando por uma precarização  do trabalho e do trabalhador, onde os donos do meio de produção tentam enfraquecer os trabalhadores  e as associações de classes, reduzindo os postos de trabalhos e desarticulando as massas trabalhadoras. 

Lembremos desta data como uma vitória da classe trabalhador, de um evento que contribuiu para o fortalecimento da luta e que até serve para encorajar as trabalhadoras. 

sábado, 7 de novembro de 2020

Pequena Crônica - Valete de Ouros - 7 de Novembro de 2020

 

Pequena crônica – Valete de Ouros

 

Minha insônia marcou presença na eterna batalha com meu complexo sono mais uma vez. Desinteressado em saber da hora do acontecimento, procurei evitar o relógio  e as horas do momento. Silêncio. Sombras. Breu. Silêncio que é quebrado pelos latidos de meu cachorro no quintal a fora. Provavelmente o cãozinho vê fantasmas que insistem em cruzar o habitat do cachorrinho. Aqui dentro de casa todos dormem, menos eu. A insônia é minha companheira de longa data. Fico divagando por horas a fio, começo a lembrar de fatos ocorridos no dia anterior, na tarde anterior. Neste momento de total falta de sono. Lembro que emiti opinião contrária a um ocupante de uma fila do banco e houve breve desentendimento de parte a parte. Ainda nas lembranças do dia anterior veio a mente a cena do vendedor de água, do homem que dava milho aos pombos na praça pública, do estafeta de uma estatal suando em bicas e percorrendo velozmente as ruas afim de entregar todas as correspondências que enchiam suas duas mãos. Eu ainda rememorei o agente de saúde pública que visitava pontualmente a casa dos necessitados de seus serviços. A falta de sono e a introspecção seguem agora para cenas de um passado mais distante deste presente, volto a cenas de minha infância, lembro de fatos banais do passado: um passeio de domingo, um almoço na casa de parentes, a viagem para um lugar distante. Veio em minha memória cheiros, paladares, imagens, lembranças.

As horas avançam, as primeiras luzes do dia dão o ar da graça e finalmente saio desta batalha insana com a insônia. Saio da minha estaticidade e vou perambular pelas ruas da urbe ladeado pelo meu fiel escudeiro, meu cachorro SRD.

As ruas das cercanias estão sitiadas por vendedores, mascates, pregoeiros e clientes necessitados de coisas desnecessárias. Há o vendedor de fígado, o vendedor de hortifrutigranjeiros, o vendedor de picolés e os cambistas do jogo do bicho que vendem a sorte ilusória dos vinte e cinco animais.

Passo pela colina histórica onde outrora passava o trem de passageiros. Da ponta do morro vislumbro os trilhos paralelos carcomidos pela ferrugem da inatividade. Fico a imaginar quantas pessoas passaram por aquele trajeto demarcado e limitado do trem! Quantas almas ali passaram?! Quantas almas que ali passaram já desencarnaram? Quantos estão por ali procurando o rumo do seu passado?

Sigo meu itinerário incerto pelas tortuosas ruas e alamedas da urbe, passo rente a calçada da cadeia pública onde da grade, um encarcerado me solicita penosamente um cigarro pra saciar seu vício tabagista. De pronto, atendo o pedido do infeliz. Mas adiante alcanço o frontispício do campo santo que reflete fortemente a luz do sol desta hora da  manhã, minhas retinas gastas reclamam o excesso de luz refletida e eu me apresso em sair dali. Sigo em frente e a alguns mais passos a frente observo no chão de um terreno baldio uma carta de baralho com a face voltada pra cima. A carta é um valete de copas. Uma carta jogada ao leu, uma simples carta mas que talvez tenha algum significado para mim. O que ela trás pra mim neste momento? Uma possível sorte no jogo ou noutras circunstâncias quaisquer? Não sei dizer ao certo, só sei que eu de imediato mudei a rota de minha caminhada aleatória e fui em busca da casa de jogo mais próxima, lá adquiri vários bilhetes da loteria federal! Quem sabe aquela carta de baralho aleatória não era um presságio que minha sorte estaria no jogo?

Volto para casa na ilusão do jogo ou de outra coisa qualquer. No tugúrio todos estão de pé, bem diferente da cena que eu deixei a cerca de uma hora atrás, agora todos estão prontos para saírem em busca de suas obrigações e afazeres vários. Após a saída de todos, eu quedo na solidão de minhas introspecções, acompanhado apenas de meu cachorro vira latas e de meus fantasmas que me perseguem desde sempre.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Pequena Crônica – A monotonia de uma insônia – 7 de Março de 2018


Pequena Crônica – A monotonia de uma insônia – 7 de Março de 2018
Manhã cedo. A luz natural do astro rei ainda não deu as caras, meu sono é interrompido de súbito no momento em que eu não queria. De minha alcova insone observo o telhado de quarto sem nenhum sinal de luz, apenas um filete de luz de um abajour ilumina minhas pupilas míopes. Numa guinada de cabeça de leste a oete faz com que meus olhos se encontrem a luz vermelha de xênon do rádio relógio, os numerais marcam quatro horas e nove minutos, volvo meu olhar em direção oposta ao rádio relógio e vejo na penumbra minha consorte jazida profundamente nos braços de Morfeo. O rádio de pilhas jaz sobre o lado direito da cabeceira de minha cama, estendo o braço e alcanço este companheiro das insônias que me acompanham ao alongo dos anos. Meu companheiro de solidão trás notícias de lugares longínquos, de amores mal sucedidos, de vida e de morte.

O tempo passa e o sono não vem, nas frestas do telhado de meu quarto surge um filete de luz natural denunciando a aurora que se anuncia, o chilrear estridente  da passarada  denuncia mais ainda o novo dia. O rádio continua ligado, só que agora ele não trás mas notícias, neste exato momento ele toca uma velha canção do Johnny Rivers – a canção fala em perca de sentimento em relação ao amor. De fato as pessoas parecem não se amarem mais!

As horas avançam e o silêncio é quebrado pelo ensurdecedor barulho de despertador de minha senhora, após o barulho ela ressona e se espreguiça, olha para mim com cara de espanto e me deseja bom dia, nesse ínterim sou forçado a me por de pé maquinalmente num átimo, mais um dia monótono e sem maiores novidades, um novo dia de nova faina repetida Neste repetido dia .concordarei com alguns, discordarei de muitos e assim será mais um dia comum, entre expedientes burocráticos de um amanuense comum que cumpre religiosamente seu horário de burocrata do tempo.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Crônica - Um livro, uma insônia – 9 de Fevereiro de 2018

Crônica - Um  livro, uma insônia – 9 de Fevereiro de 2018

Trovões  ecoam anunciando chuva próxima, torres de nuvens  brancas que mais parecem nacos de algodão surgem no horizonte , mais um sinal de chuva.Estou voltando para meu tugúrio suburbano após cumprido o médio expediente do dia de hoje, logo mais estarei voltando à segunda metade da minha faina. Meus passos tem pressa de consumir a média distância entre o  trabalho e meu bangalô. Neste meio tempo entre um expediente e outro acontece muita coisa. Famélico, devoro rapidamente o  todo conteúdo  do prato de ágata, é hora do almoço. Mesmo sem muito tempo, ainda acho espaço para um rápido culto à Vênus em celebração com minha consorte. Em minha escrivaninha jaz um livro que eu iniciei faz três dias, um pedaço de folha marca a exata página onde parei a leitura, provavelmente terminarei de ler seu conteúdo completo se a insônia me for fiel na noite vindoura.
Outra vez um trovão soa denunciando chuva, acompanhado na sequência um vento frio, provavelmente o Aracati, e logo em seguida uma chuva fina molha o chão seco pelo longo período de estiagem dos últimos dias. O relógio avança os ponteiros e estou voltando ao batente para a segunda jornada. Num átimo sinto necessidade  de sufocar os vícios tabagistas, mas lembro que estou abstêmio deste mal prazeroso . Observando o calendário percebo que estamos no quadragésimo dia do ano, impressionante pelo fato dos dias estarem transcorrendo tão rápidos, parece que há ainda no ar um cheiro de pólvora queimada dos desnecessários fogos de artifício que anunciam um novo ano à meia noite do primeiro dia do ano.
                Agora volto ao mesmo itinerário de volta ao trabalho, itinerário feito ainda a pouco a só que agora estes passos são contrários dos de ainda a pouco mas talvez estou a pisar nas mesmas pegadas do caminho de ida a minha casa, o sol está á pino, um calor abafado, comum a esta época faz com que rapidamente meu corpo  transpire suando em bicas. Nas ruas as pessoas estão sempre buscando algum filete de sombra, eu também, claro. Cumprimento algumas transeuntes que cruzam meu caminho, notadamente aqueles que fazem caminho reverso ao meu. Ao longe já posso avistar a fábrica onde vou ceder minha força de trabalho em troca de um parco salário que receberei ao final do mês.  A sirene da empresa de manufatura soa convocando seus proletários a se dirigirem a seus postos de trabalho. Tudo volta ao normal nesta quarta feira que é o dia mais  comum dentre todos do calendário.

                 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Sonho - 23 de Janeiro 2018

   Sonho. 

No meio da madrugada sou tomado por sonhos libidinosos. Uma ansiedade, respiração ofegante, uma ansiedade de morte, o medo de ser flagrado em adultério,  tudo as pressas. O medo  de ser flagrado pela consorte,  a traição se consumiu ou não? Não houve conjunção carnal  mas houve carícias, fricção, ósculos e felação. Luxúria, lascívia, lubricidade, tudo de uma vez. O medo era tanto que o sono foi interrompido, o sonho também a fornicação não se consumou, a insônia veio juntamente com a ilusão e o resto do medo do sonho. Ainda é escuro, nem os pássaros despertaram com seus cantos da aurora. Os lençóis estão amarrotados, o surto e incertezas me cercam.