sábado, 26 de julho de 2014

Radaun Nasser - Aí pelas três da tarde - CONTO

Passei a conhecer esse escritor que é meio "underground" da Literatura brasileira. Compartilho esse excelente conto " Aí pelas Três da Tarde - 

"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances.  Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo."

Texto extraído do livro "
Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Literatura Cearense - Milton Dias - Tarde na Minha praça

Sempre gostei de Literatura ( Literatura com "L" maiúsculo!) notadamente a literatura regional , gostando mais ainda da Literatura cearense, que é riquíssima e não fica devendo nada a Literatura universal.! Infelizmente o mercado editorial não tenha sido tão generoso com nossos escribas. Eis aqui um dos excelentes contos dessa leva de escritores alencarinos, Milton Dias transcreve todo seu lirismo na linhas de TARDE NA MINHA PRAÇA - extraído do livro  FORTALEZA E EU  do ano de 1976 - 


Tarde na minha praça - Milton Dias


Agora eu digo como o velho Cardeal Gonzaga: “tão simples tudo”. E tudo tão bom, tão calmo, tão bonito, tão puro como a benção de Deus Nosso Senhor. São duas horas da tarde duma quarta-feira e um sol radioso ilumina a minha praça, um vento vadio que nasce no mar vem cochichar nos cabelos da moça de vermelho que passa displicente aqui na calçada. Um céu de claro azul, igual, nos cobre agora, sem uma nuvem. Não, minto: ponho a cabeça na janela, alongo o olhar, vejo que por detrás da Escola Normal elas se juntam brancas, paradas como nuvens de papelão. Certamente dentro de algum tempo, comboiadas pelo vento, desfilarão aqui em cima da minha casa.
Quem vê, diz que o sol saiu deitando cor na terra, foi ele quem fez o verde mais verde, o amarelo pálido do telhado defronte está quase abóbora, a grama ganhou brilho, até o capim ralo, a vassourinha verde que nasce e cresce por conta própria, parece mais alegre. Aquele verde desbotado pegou vida. Flores não há, infelizmente. Onde estão as flores desta cidade? Houve tempo em que as havia nos jardins públicos. Se há os que não amam as flores, deve haver os que gostam e cuidam delas. Por que a Prefeitura não cria uma guarda municipal para se ocupar dos canteiros que mandaria plantar? As pacaviras exigem tão pouco, as boa-noites não exigem nada. Até as papoulas são modestas, pedem mínimo.
Tão simples tudo. Um homem dorme tranquilamente, aproveitando a sombra do caminhão, dorme debaixo, é talvez o ajudante que guarda o carro e aproveita a sua proteção, dorme numa atitude de sossego absoluto, tão sem problema, nesta hora em que banqueiros se preocupam com cifras, agiotas ambiciosos protestam letras e industriais discutem a produção das suas fábricas e autoridades se inquietam com o que lhes foi confiado para governar.
Enquanto aquele homem de camisa verde repousa no chão sua pobreza tranquila, na bolsa de valores esperanças crescem e morrem; por toda parte, investidores contam dinheiro, vendedores vendem ações, há cobradores que vão de porta em porta ao sol de junho. Uma criança está nascendo, um homem está morrendo, um automóvel come o asfalto a toda velocidade, o mundo inteiro está rolando, correndo, lutando, sofrendo, amando, odiando.
Nesta mesma hora, alguém parte, alguém chega, há um preso que aguarda julgamento, um outro que espera o inquérito, um homem que mata por ciúme, uma mulher que morre por amor, uma criança desidratada espera a morte ou a salvação, um mendigo pede a sua esmola, alguém está sendo ofendido, alguém está sendo louvado, um que manda, um que obedece, um que protesta, um que perde, um que ganha.
Debaixo da minha janela um grupo ruidoso de meninos joga uma pelada violenta – são não sei quantas vocações de Pelé, que disputam a pelota. São os mesmos que me tomaram a sesta e, não faz muito tempo, fizeram gol dentro da minha casa, a bola atravessou as traves da janela, foi bater no segundo quarto. Por um triz não acertou na minha cabeça indefesa.
Tão simples tudo. Já houve outras tardes assim, há muitos anos e eu não podia desfrutar, preso numa sala de repartição, sofrendo o calor da parede de granito, do lado do sol, escrevendo um livros imensos, ou redigindo ofícios e relatórios, às voltas com o insuportável linguagem burocrática. Já houve outras tardes assim, eu sei, noutros lugares, em muitas idades, tardes de fins d”água, tardes da minha infância sertaneja, tardes de adolescência sonhadora, tardes da juventude, inquieta, em meio à alegre espera dos festejos dos santos de junho, tardes de ontem, tardes de outrora. Ah, quantas tardes perdidas.
Não é hora de cismar, eu sei. Mas esta tarde me devolve compulsoriamente a lugares em que vivi, às tardes que não se abriram para os meus olhos como esta de hoje, porque a bruma as envolvia. Penso na viagem que não fiz, na mulher que não me quis, no filho que não foi gerado, no verso que não compus, na canção grata, na amiga morta, no amigo morto, no outro tresmalhado. Penso no amor sem começo e sem fim, na paixão que o tempo comeu e que a distancia apagou. Penso no meu cavalo de sela, pequeno, pardo, dos tempos de menino, que um dia venderam e me deram em troca um cavalo branco, malhado, grande, um horror de cavalo, desobediente, de estrada dura e galope traiçoeiro. Comércio de cigano.
São duas horas da tarde, eu disse. E a nota lírica do momento na minha praça é aquele de namorados sentado num banco, à sombra do oitizeiro, numa atitude gostosa, tão bela, tão jovem, a eterna, universal atitude dos que se amam, os olhos nos olhos, a mão do moço acariciando os cabelos pretos da menina morena. Em torno deles, o mundo não existe, nem o sol, nem o céu, nem as pessoas que passam, nem as crianças que brincam, nem o homem que dorme, nem os carros que correm, nem as dívidas, nem as dores. Há uma ternura imensa naquele beijo que daqui eu surpreendi, há uma jura de amor, de esperança, de coragem, um toque de eternidade, naquele beijo que eu vejo e nem ouço. Há uma beleza que ninguém saberá contar em verso ou em prosa, neste quadro que a minha janela emoldura – e dentro dele o amor no banco da avenida, à sombra do oitizeiro. E a paz e o sono à sombra do caminhão. A tarde tranquila parece eterna.

Fortaleza e eu – 1976

terça-feira, 11 de março de 2014

Literatura Cearense - Fran Martins -

Belo conto extraído do livro - Noite Feliz, do excelente escritor cearense, Fran Martins

ALMIR
Um dia destes eu ia andando pelas ruas quando, ao dobrar a esquina, senti alguém segurar-me pelo braço:
– Não me conhece mais não? Não se lembra de mim? Eu sou o Almir – se lembra? Almir, aquele da Pedra Lavrada...
Lembrei-me, sim, de Almir – e imediatamente olhei para a sua mão esquerda. Sim, era ele mesmo, lá estava a mão esquerda sem o dedo mínimo, a mão que servia de atestado que ele fora, nos bons tempos, um dos meus maiores amigos – ele e mais o Clóvis, o Carrinho, o Janjoca, o Pedro, o Felinto. Éramos todos moradores da Pedra Lavrada, uma das ruas mais importantes do mundo, situada já quase nos subúrbios da importante cidade do Crato. E juntos dominávamos a rua, fazendo mil diabruras, metendo-nos em aventuras incríveis, com essa sobranceria de verdadeiros senhores que desafiam céus e terra não tanto para glória individual como para maior renome do seu reino.
Quantos anos tínhamos então? Procuro em vão lembrar-me mas não sei. Meninos acostumados a gozar a liberdade admirável daquela rua de subúrbio, o que mais nos valia era a altura de cada um – e eu era um dos mais baixos, portanto dos menos temíveis. Almir, pelo contrário, era alto e forte, quase sempre nos comandava, tinha disposição para brigas, nadava bem. Saberia ler? Mas de que servia saber ler naquela época, se a nossa única preocupação era tomar banhos nas enchentes do rio, dar cangapés nos meninos das outras ruas, enfrentar, dominar o rio, mesmo quando as águas estivessem mais fortes, mesmo quando redemoinhos perigosos ameaçassem nos tragar?
Foi num desses banhos que Almir provou a sua coragem e cresceu mais ainda na nossa admiração. Todas as vezes que o rio enchia, a rua se alvoroçava, a nossa turma perdia o juízo. E projetava-se imediatamente um banho longo, de duas horas, com mergulhos e saltos na água barrenta que passava pelos fundos de nossas casas, derrubando árvores e comendo as ribanceiras.
Uma noite chovera bastante, com trovões e relâmpagos que nos acordaram. A água forte corria pelas biqueiras das casas e respingos caíam sobre nossas redes. Cada um de nós, enrolado nos lençóis, sonhava com o amanhecer, o raiar do dia que seria cheio de aventuras, como eram todos aqueles em que o rio tomava água.
Mal amanheceu, nosso grupo se movimentou. Almir chamou-nos um a um – e acorremos ao seu chamado com entusiasmo e alegria. Foi então que Tia Aninha apareceu e, como sempre, gritou da porta da casa:
– Felinto, Felinto! Não vá tomar banho no rio, Felinto!
Mas Felinto, como sempre, não a ouvia – Felinto nunca ligava àquela velhinha que tinha tantos cuidados com ele. Escondeu-se atrás de Almir e esperou até que sua mãe entrasse em casa. Eu ainda murmurei, como se adivinhasse que alguma coisa triste ia acontecer:
– É melhor você não ir, Felinto. Tia Aninha se zanga é comigo.
Porque Tia Aninha confiava em mim e todas as vezes que não sabia do paradeiro do filho era para mim que apelava:
– Você viu o Felinto, Fernando? Tome conta de Felinto, meu filho. Não deixe ele brigar, não deixe tomar banho no rio. Tenha cuidado com Felinto, Fernando.
E eu quase sempre mentia, defendendo meu amigo, encobrindo suas faltas. Seria que Tia Aninha desconfiava? Ela acreditava em mim – mas julgo que, mesmo assim, ainda guardava certos receios de que eu a estivesse enganando. Mas eu era amigo de Felinto e gostava de sua companhia – por isso mentia, escondia suas faltas, muitas vezes dizia à Tia Aninha que me responsabilizava pelo que acontecesse ao Felinto, sem saber, por certo, a gravidade dessa promessa.
E naquele dia fomos ao rio, que estava com as águas pelas barreiras. Em ocasiões como aquela o rio era perigoso – havia redemoinhos nas curvas, havia poços cavados pelas águas e que poderiam tragar qualquer um de nós. Mas para defender-nos contávamos com a nossa ousadia, com a valentia de Almir, com os nossos anjos da guarda – principalmente os anjos da guarda, que jamais abandonam as crianças.
Fomos ao rio, mergulhamos, brincamos. E Almir dava cangapés, Felinto se afoitava, sem atender às recomendações que, vez por outra, timidamente, eu me arriscava fazer-lhe.
Porque uma coisa me dizia que alguma desgraça estava para acontecer a Felinto. A voz de Tia Aninha não me saía dos ouvidos, triste, angustiada, nervosa:
– Cadê o Felinto, onde anda o Felinto, Fernando? Meu Deus, que fim levou esse menino, que não aparece, não vem para casa?
Felizmente Almir nos inspirava confiança, era corajoso, disposto, um dos maiores nadadores da Pedra Lavrada. Quantas vezes, no Poço das Mulheres ou na Batateira, Almir conseguira desbancar os mais velozes nadadores do Crato! Mergulhava e tinha fôlego, nadava de costas, de peito, de braço. E sempre estava decidido a se arriscar por um amigo, mais de uma vez deu provas disso, em acontecimentos que ficaram memoráveis na rua. Por isso eu ainda procurava abafar aquela voz que não me saía da cabeça, a voz da Tia Aninha, angustiada, nervosa, triste.
Foi passado muito tempo, já quase quando nos dispúnhamos a abandonar o rio, que ouvimos aquele grito surdo. Imediatamente todos ficamos tomados de pavor e olhamos alarmados para o lugar de onde partira o brado. Então vimos Felinto aparecer à flor das águas, submergir, depois reaparecer, balançando doidamente a cabeça, agitando as mãos nervosamente e de novo, aos poucos, o seu corpo baixando, as águas tragando a cabeça, os braços, as mãos que nos acenavam, os dedos...
Almir atirou-se na água imediatamente, nadando com rapidez para o lugar onde estivera Felinto. Lá chegando, mergulhou, mergulhou, mergulhou. Cada vez que retornava, uma centelha de esperança faiscava nos nossos olhos, para logo se desfazer e nos deixar numa angústia martirizante. Porque o corpo de Felinto não aparecia.
Quanto tempo durou aquela luta? É impossível avaliar hoje. Almir nos parecia um gigante e o seu rosto tinha feições diferentes. Não, ele não podia deixar que Felinto morresse, ele era forte, disposto, havia de salvar nosso amigo. Foi justamente quando mergulhou pela última vez, passando um tempo enorme debaixo d’água.
Nossos corações batiam fortemente, nossas pernas tremiam, tínhamos, com certeza, os olhos esbugalhados de medo, de terror. Aquele mergulho nos parecia a última esperança, o último esforço para salvar nosso amigo. Os olhos aterrados de todos estavam volvidos para o lugar onde Almir havia mergulhado – e sei que todos nós estávamos também apelando para os santos, para Deus, para os nossos anjos da guarda no sentido de salvarem o nosso amigo. Que diria Tia Aninha quando voltássemos e tivéssemos de contar-lhe que Felinto ficara, morrera?
A cabeça de Almir finalmente surgiu – e vimo-lo, num esforço desesperado, nadando para a terra, o braço passado no pescoço de Felinto. Uma assombrosa angústia saiu de cima de nós – e já estávamos todos chorando, nós que nunca chorávamos em uma briga com as outras ruas. Temíamos que os dois tivessem se finado, que os espíritos maus que residem nos rios houvessem tragado os nossos amigos. Não, os anjos da guarda não os desprezaram – lá vinham Almir e Felinto, já estavam perto da areia.
Foi então que notamos o estado do dedo de Almir. Ele nos disse, de maneira confusa, como encontrara Felinto debaixo d’água – enganchado em um toco, certamente sem sentidos. Por isso teve aquele trabalho enorme para tirá-lo. Porque, quando foi puxá-lo com mais força...
Olhamos o dedo do menino: todo rasgado, os ossos aparecendo. O dedo enganchara no toco, parece que uma pedra caiu também por cima. Os pedaços da pele estavam dependurados e, vendo aquilo, quase esquecíamos Felinto, que ainda permanecia sem sentidos. Pedro deu uma vertigem justamente quando Janjoca virava Felinto para vomitar a água bebida.
Almir foi levado para casa, apareceu um homem dizendo que era preciso cortar o dedo. Eu fiquei ao lado de Felinto, pensando no sacrifício que o outro fizera para salvá-lo. Iria ficar sem um dedo, como prova de sua amizade ao companheiro. Sem um dedo pelo resto dos tempos – mas salvara a vida de Felinto, salvara, quem sabe, até a vida de Tia Aninha.
Depois de muito tempo Felinto voltou a si. Já era sol alto quando afinal nos dirigimos para casa. Então, ao passar pela rua, a voz de Tia Aninha soou aos meus ouvidos:
– Onde anda Felinto, Fernando? Cadê esse menino, cadê meu filho, Fernando?
E eu menti mais uma vez – a última vez posso assegurar. Disse à Tia Aninha que não vira seu filho – sem dúvida andava pelas outras ruas, pois não fora tomar banho conosco. E depois saí chorando para casa – como estaria o Almir, que iria acontecer ao dedo de Almir? E a voz de Tia Aninha não me saía da cabeça:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando?
Agora Almir está a meu lado, sorri alegre, contente porque me lembrei dele. Olho de vez em quando para a sua mão esquerda – como eu poderia jamais esquecê-lo, se já naquele tempo Almir era um grande homem? Abraço-o com satisfação, bato-lhe no ombro, tento recordar algumas passagens de nossa vida de meninos na mais importante rua do mundo, naquela importantíssima cidade do Crato. Mas enquanto Almir responde às minhas perguntas e me conta como tem levado a vida no decorrer desses anos – é a voz de Tia Aninha que eu ouço, angustiada, nervosa, triste:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando? Onde anda esse menino, que fim levou meu filho, Fernando?

(Extraído de Noite Feliz, 2ª ed. Fortaleza, CE, edição UFC/Casa de José de Alencar, 1999)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

DIFERENÇA ENTRE INTELIGÊNCIA E ENGENHOSIDADE

1 - UMA CANETA PARA O ESPAÇO.

Quando, antes dos anos 60, a NASA iniciou o envio de astronauta para o
espaço, advertiram que as suas canetas não funcionariam à gravidade
zero, dado que a tinta não desceria à superfície onde se desejaria
escrever.

Ao fim de 6 anos de testes e investigações, que exigiu um gasto de 12
milhões de dólares, conseguiram desenvolver uma esferográfica que
funcionava em gravidade zero, debaixo de água, sobre qualquer
superfície incluindo vidro e num leque de temperaturas que iam desde
abaixo de zero até 300 graus centígrados.

Os Russos, por seu lado, descartaram as canetas e, simplesmente deram
lápis às suas tripulações para que pudessem escrever sem problemas.

2 - O EMPACOTADOR DE SABONETES:

Em 1970, um cidadão japonês enviou uma carta a uma fábrica de
sabonetes de Tókio, reclamando ter adquirido uma caixa de sabonetes
que, ao abri-la, estava vazia. A reclamação colocou em marcha todo um
programa de gestão administrativa e operacional; os engenheiros da
fábrica receberam instruções para desenhar um sistema que impedisse
que este problema voltasse a repetir-se. Depois de muita discussão, os
engenheiros chegaram ao acordo de que o problema tinha sido desencadeado
na cadeia de empacotamento dos sabonetes, onde uma caixinha em movimento
não foi cheia com o sabonete respectivo.

Por indicação dos engenheiros desenhou-se e instalou-se uma
sofisticada máquina de raios "X" com monitores de alta resolução,
operada por dois trabalhadores encarregados de vigiar todas as caixas de
sabonete que saíam da linha de empacotamento para que, dessa maneira se
assegurasse de que nenhuma ficaria vazia. O custo dessa máquina superou
os 250,000 dólares.

Quando a máquina de raios "X" começou a falhar ao fim de 5 meses de
operação nos três turnos da empresa, um trabalhador da área de
empacotamento pediu emprestado um ventilador de 50 dólares e o apontou
para o final da passadeira transportadora. À medida que as caixinhas
avançavam nessa direção, as que estavam vazias saíam voando da linha
de empacotamento, por estarem mais leves.

3 - O HOTELEIRO de NY:
O gerente geral de uma cadeia hoteleira americana viajou pela segunda
vez para Seul no lapso de um ano; ao chegar ao hotel onde devia
hospedar-se foi recebido calorosamente com um "Bem-vindo novamente
senhor, que bom vê-lo de volta em nosso hotel". Duvidando de que o
recepcionista tivesse tão boa memória e surpreendido pela recepção,
propôs-se que - no seu retorno a New York- imporia igual sistema de
tratamento ao cliente na cadeia hoteleira que administrava.

No seu regresso convocou e reuniu todos os seus gerentes pedindo-lhes
para desenvolver uma estratégia para tal pretensão. Os gerentes
decidiram implementar um software de reconhecimento de rostos, base de
dados atualizada dia a dia, câmaras especiais, com um tempo de resposta
em micro segundos, assim como a pertinente formação dos empregados,
etc., cujo custo aproximado seria de 2.5 milhões de dólares. O gerente
geral descartou a ideia devido aos elevados custos.

Meses depois, na sua terceira viagem a Seul, tendo sido recebido da
mesma maneira, ofereceu uma boa gratificação ao recepcionista para que
lhe revelasse como o faziam. O recepcionista disse-lhe então: “Repare
senhor, aqui temos um acordo com os taxistas do aeroporto; durante o
trajeto eles perguntam ao passageiro se já antes se hospedou neste
hotel, e, se a resposta é afirmativa, eles, à chegada ao Hotel,
depositam as malas do hóspede do lado direito do balcão de
atendimento. Se o cliente chega pela primeira vez, as suas malas são
colocadas do lado esquerdo. O taxista é gratificado com um dólar pelo
seu trabalho"

Leonardo Boff - Balanço anual no micro: brotos no deserto


Desde Santo Agostinho ("em cada homem há simultaneamente um Adão e um Cristo), passando por Abelardo ("sic et non”), por Hegel e Marx e chegando a Leandro Konder sabemos que a realidade é dialética.

Vale dizer, ela é contraditória porque os opostos não se anulam mas se tencionam e convivem permanentemente gerando dinamismo na história. Isso não é um defeito de construção mas a marca registrada do real. Ninguém melhor o expressou que o pobrezinho de Assis ao rezar: "onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver trevas que eu leve a luz, onde houver erros que eu leve a verdade...”. Não se trata de negar ou anular um dos polos, mas de optar por um, o luminoso e reforçá-lo a ponto de impedir que o outro negativo não seja tão destrutivo.
A que vem esta reflexão? Ela quer dizer que o mal nunca é tão mau que impeça a presença dobem; e que o bem nunca é tão bom que tolha a força do mal. Devemos aprender a negociar com estas contradições. Num artigo anterior tentei um balanço do macro, negativo; assim como estamos, vamos de mal a pior. Mas dialeticamente há o lado positivo que importa realçar. Um balanço do micro nos revela que estamos assistindo, esperançosos, ao brotar de flores no deserto. E isso está ocorrendo por todas as partes do planeta. Basta frequentar os Fóruns Sociais Mundiais e as bases populares de muitas partes para notar que vida nova está explodindo no meio das vítimas do sistema e mesmo em empresas e em dirigentes que estão abandonando o velho paradigma e se põem a construir uma Arca de Noé salvadora.
Anotamos alguns pontos de mutação que poderão salvaguardar a vitalidade da Terra e garantir nossa civilização.
O primeiro é a superação da ditadura da razão instrumental analítica, principal responsável pela devastação da natureza, mediante a incorporação da inteligência emocional ou cordial que nos leva a envolvermo-nos com o destino da vida e da Terra, cuidando, amando e buscando o bem-viver.
O segundo é o fortalecimento mundial da economia solidária, da agroecologia, da agricultura orgânica, da bioeconomia e do ecodesenvolvimento, alternativas ao crescimento material via PIB.
O terceiro é o ecossocialismo democrático que propõe uma forma nova de produção com a natureza e não contra ela e uma necessária governança global.
O quarto é o biorregionalismo que se apresenta como alternativa à globalização homogeneizadora, valorizando os bens e serviços de cada região com sua população e cultura.
O quinto é obem viver dos povos originários andinos que supõe a construção do equilíbrio entre seres humanos e com a natureza à base de uma democracia comunitária e no respeito aos direitos da natureza e da Mãe Terra ou o Índice de Felicidade Bruta do governo do Butão.
O sexto é a sobriedade condividida ou a simplicidade voluntária que reforçam a soberania alimentar de todos, a justa medida e a autocontenção do desejo obsessivo de consumir.
O sétimo é o visível protagonismo das mulheres e dos povos originários que apresentam um nova benevolência para com a natureza e formas mais solidárias de produção e de consumo.
O oitavo é a lenta, mas crescente, acolhida das categorias do cuidado como pré-condição para realizar uma real sustentabilidade. Esta está sendo descolada da categoria desenvolvimento e vista como a lógica da rede da vida que garante as interdependências de todos com todos assegurando a vida na Terra.
O nono é penetração da ética da responsabilidade universal, pois todos somos responsáveis pelo destino comum nosso e o da Mãe Terra.
O décimo é o resgate da dimensão espiritual, para além das religiões, que consente nos sentir parte do Todo, perceber a Energia universal que tudo penetra e sustenta e nos faz os cuidadores e guardiães da herança sagrada recebida do universo e de Deus.
Todas estas iniciativas são mais que sementes. Já são brotos que mostram a possível florada de uma Terra nova com uma Humanidade que está aprendendo a se responsabilizar, a cuidar e a amar, o que afiança a sustentabilidade deste nosso pequeno Planeta.
[Veja L. Boff e M. Hathaway O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação (Vozes 2012)].

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pais e professores, uma relação difícil - 31 de Janeiro 2012

Pais e professores, uma relação difícil


São comuns os conflitos acerca da responsabilidade de cada um na formação das crianças. A solução está na aproximação entre as partes


A relação entre pais e professores inclui, já faz algum tempo, boa dose de tensão. O assunto voltou à tona com força no fim do ano passado, quando um professor americano chamado Ron Clark resumiu as reclamações de boa parte dos mestres da seguinte maneira: professores não são babás de alunos, ao contrário do que pensam seus pais. Ele acusa os pais de repassar à escola suas responsabilidades, recusando, contudo, as regras impostas pela instituição educadora. Seu artigo, chamado "O que os professores realmente querem dizer aos país", tornou-se o segundo mais compartilhado no Facebook em 2011 (o primeiro trata do desastre da usina de Fukushima, no Japão), trocado mais de 630.000 vezes – prova de que a discussão é, no mínimo, pertinente. O texto ecoou em outros países e também no Brasil. "Por aqui, os pais perderam a habilidade de impor limites a seus filhos. Agora, tentam impor limites à escola, interferindo na atividade dos professores", diz a educadora Tânia Zagury, autora do livro Escola sem Conflito: Parceria com os Pais. De acordo com uma pesquisa realizada pela escritora, 44% dos professores apontam a ausência de limites como causa principal da indisciplina em sala de aula: um quinto dos profissionais responsabiliza a família pelo problema.
Do outro lado da linha, os pais também reclamam de intromissões da escola em disposições que acreditam justas. É o que vive a empresária Marcela Ulian, de 34 anos, mãe de um garoto de 6 anos – o nome dele, assim como o da instituição, um renomado colégio privado paulistano, serão omitidos a pedido da empresária. Há alguns meses, Marcela contesta uma determinação da escola que proíbe alunos de portar dispositivos eletrônicos, como celular ou tablet, no interior da instituição. "As crianças não podem ficar alheias às novas tecnologias. Acho inclusive que os professores podem ensinar que aqueles aparelhos podem servir como material educativo", diz Marcela. Não houve acordo. Para a escola, é em casa que as crianças devem aprender a fazer uso dos aparelhos. "Continuo não concordando com a escola e seguirei tentando provar que estou certa."
Não raro, as queixas de um lado e de outro são mais severas; outras revelam exageros flagrantes. Há, por exemplo, relatos de professores contestados por pais porque atribuíram uma nota baixa a um aluno, ou por tê-lo repreendido por comportamento inadequado. Preocupados com as reclamações de parte a parte, educadores se debruçaram sobre a questão. Descobriram duas razões principais para os desentendimentos. A primeira é uma transformação sofrida pela engrenagem familiar, fruto das mudanças sociais dos últimos 50 anos. Um exemplo disso: nesse período, as mulheres, tradicionalmente encarregadas de acompanhar o crescimento das crianças em casa, ganharam definitivamente o mercado de trabalho, distanciando-se da antiga função. "A consequência disso é que as escolas passaram a ser responsáveis também pela educação moral das crianças. A família moderna demandou isso delas", diz Maria Alice Nogueira, educadora e especialista em sociologia da educação.
A segunda razão envolve um movimento em sentido oposto: a intromissão dos pais em assuntos sobre os quais as escolas antes mantinham monopólio. À medida que as famílias perceberam que a ascensão nos bancos escolares é sinônimo de ascensão social e econômica, passaram a cobrar mais de instituições e professores, que antes davam as cartas na sala de aula – não por acaso, "mestre" é uma designação que quase não se aplica mais a professores. "O êxito proveniente da educação formal levou a família a interferir nos assuntos escolares", diz Maria Alice.
Excetuados os exageros, os educadores de olho na questão alertam que a nova realidade exige nova atitude. "O que ouço dos docentes em momentos como esse é aquela velha história de que, antigamente, eles eram mais respeitados", diz a educadora Elaine Bueno. "Esse é um discurso velho, pois os tempos mudaram: os pais não enxergam mais o professor e a escola como autoridades inquestionáveis. Eles precisam aceitar isso e prestar contas de seu trabalho."
O caminho da convivência harmoniosa exige trabalho intenso de pais e professores, garantem escolas que já o perseguem. Entre as lições aos professores (confira o quadro abaixo), estão orientações como jamais desqualificar ações dos pais diante dos filhos. É o que prega Sylvia Figueiredo, sócia-fundadora do colégio Castanho Lourenço, de São Paulo. Certa vez, ela descobriu que uma mãe fazia o dever de casa do filho. "Em nenhum momento, desmereci a atitude da mãe diante do menino, apesar de estar certa de que a conduta dela interferia negativamente no desempenho dele", conta. O assunto foi tratado em uma conversa a portas fechadas, cara a cara, entre a educadora e a mãe. "É preciso muito treinamento para lidar com os pais. A relação é uma bomba-relógio e pode explodir a qualquer momento se você puxa o fio errado na hora de desarmá-la." Aos pais, em situações como essa, cabe a lição de ao menos ouvir atentamente a posição do educador.
O esforço vale a pena. A harmonia entre as partes é valiosa para a educação – é o que apontam estudos na área. Uma pesquisa encabeçada pela Fundação Getulio Vargas, por exemplo, mostra que os efeitos da presença dos pais na vida escolar se fazem notar por toda a vida adulta. Na infância e na adolescência, a participação da família está associada a notas até 20% mais altas e riscos de evasão até 64% inferiores. "Gostamos de deixar claro aos pais que a interferência deles no processo educativo é saudável. Mas ambas as partes precisam estar abertas ao diálogo", diz Celina Cattini, diretora geral do Colégio Visconde de Porto Seguro. "Muitos professores sentem saudade do tempo em que os pais respeitavam a autoridade da escola. Mas é preciso lembrar que aqueles eram tempos em que havia respeito, mas não havia interação entre escola e família: isso não é bom para as crianças." Celina tem razão.
Com reportagem de Renata Honorato

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Frei Betto - Feliz 2012

Que texto mais humano esse!! Esse texto deveria ser traduzido apra todas as línguas e dialetos para que toda HUMANIDADE conheça a HUMANIDADE desse belo texto do nosso FREI BETTO - Maravilhoso texto!!


Desejo um Feliz Ano-Novo onde, se Deus quiser, todas as crianças, ao ligarem a televisão, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; e durmam após fazer suas orações.

Quero um Ano-Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra. Na cidade, um teto sob o qual haja um fogão com panelas cheias.


Desejo um Ano-Novo em que a cada um sejam assegurados o direito ao trabalho, a honra do salário digno e as condições humanas de vida.


Rogo por um Ano-Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social.


Um Ano-Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.


Desejo um Ano-Novo em que o governo evite que o nosso povo seja afetado pela crise do capitalismo, livre a população do pesado tributo da degradação social e tome no colo milhões de crianças condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte.


Espero um Ano-Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais nenhum ser humano sequer se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.


Um Ano-Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação, à partilha; a agressão, ao respeito; a idolatria por dinheiro, ao espírito das Bem-Aventuranças.


Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

Frei Betto é escritor, autor de ‘Mística e Espiritualidade’, em parceria com Leonardo Bof




quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Airton Monte - O espelho de Alice - 1 de Dezembro 2011

Esse negócio de que amanhã será outro dia por vezes me soa como a mais lídima das verdades contidas nos ditados populares que crescemos ouvindo da boca de nossos pais e que o futuro a Deus pertence. De outras, me parece não passar de uma pura balela que inventamos para amenizar os nossos problemas e as nossas humanas dificuldades. Para mim, que sou naturalmente dotado de um certo ceticismo em relação à sabedoria do sofrido canelau, o dia é sempre hoje. Porque é impossível parar o correr da ampulheta do tempo, este nosso implacável inimigo íntimo. O amanhã vai nos vai exigir outras soluções e novas atitudes diante do que nos aparecer pela frente, ora para nos alegrar, ora para nos afligir, enquanto estivermos vivos. É justamente para evitar inúteis mortificações causadas pelo se e pelo talvez, duas palavrinhas que detesto, que procuro de todas as maneiras focar, concentrar minha atenção e minhas forças no hoje, porque não sou peru para morrer de véspera.

Falando nisso, hoje tive que ir ao banco, uma viagem que me irrita de todo coração, para tentar resolver algumas financeiras pendências, negociando na medida do possível o prazo para o pagamento de papagaios que já estão quase vencidos. Sei que quanto mais dilato o solver das minhas dívidas, mais fico devendo, eternamente preso num círculo vicioso que inferniza a vida dos indigitados insolventes feito eu. Mas, fazer o quê? Deve-se pagar o que se deve por cima de pau e pedra, nem que seja apelando para o velho jeitinho brasileiro, aprendido desde que nascemos e para a boa vontade do gerente desses entrepostos da agiotagem oficializada dentro dos ditames da lei. E assim, saio de asa sobraçando a pasta com os imprescindíveis documentos necessários à postergação dos juros, que certamente me deixarão com as calças na mão. É por isso que dizem ser mais lucrativo fundar um banco do que assaltá-lo e tal afirmativa não se trata, em absoluto, de uma mera figura de retórica nem piada de salão.

Percorrendo o meu caminho rumo ao meu monetário calvário, vou andando pelas ruas prestando atenção em tudo como se houvesse nascido exatamente hoje, agora, nesse justo minuto. É uma sensação que posso descrever como sendo ao mesmo tempo magnífica e inquietante que nem o primeiro coito (eu bem me lembro e como esquecer?) quando o corpo da primeira mulher possuída com uma feroz voracidade aparece aos nossos olhos deslumbrados como um espantoso abismo de luz, de medo e descoberta. A cidade por onde transito, nesse comecinho nebuloso de tarde, num estado de plena iluminação, nem me parece ser a minha, onde nasci, cresci e à qual estou acostumado a conviver desde a mais tenra meninice. Tudo nela é revelação, encantamento, fascínio, estranhamento, espera. Uma canção imaginária solta pelo ar, uma cidade a cantar seus cânticos de guerra e de paz numa fascinante mistura de amor e ódio.

E partindo do ilusório princípio de que nasci hoje, aqui, agora, nesse instante inesquecível, a cidade inteira me surge como nova, embora velhas e caóticas lembranças me perpassem o pensamento de um recém-nascido já adulto. Sou tudo isso que meu deslumbrado olhar observa, constata, confirma e testemunha enquanto rumo em direção ao banco onde reside a mais dura e cruel das faces da realidade. Palavras ainda não escritas dependuram-se em minhas mãos, peixes debatendo-se na ponta de um anzol, pescados por onde passo e vou, pois sei que estou no que mais tarde escreverei, sem nenhuma dúvida. Uma profusão de personagens me acompanha os passos, em meu febril furor de tudo registrar no cofre da memória. Sinto-me um tanto quanto onipotente. Uma onipotência infantil, escandalosamente ingênua, nesta cidade em que me perco e me encontro. Entro no banco. A cidade perde a graça. Transforma-se numa miragem e rescende ao impossível. A porta giratória do banco é o espelho de Alice visto e atravessado pelo avesso.

Airton Monte - O direito de errar - 30 de Novembro 2011

Apesar do meu parco talento como escritor, geralmente costumo tomar muito cuidado com tudo que escrevo, seja com o que pretendo publicar em futuros livros, seja com estas cotidianas mal traçadas impressas nesse meu cantinho de página de jornal. Sou até um tanto obsessivo quanto a isso. Depois de digitar a crônica, antes de enviá-la ao editor, faço questão de pentear cuidadosamente o texto em busca de possíveis erros cometidos, ou por falha na digitação ou oriundos de minha crassa ignorância da nossa Flor do Lácio inculta e bela, sempre contando com a indispensável ajuda do popular “Pai dos Burros”, porque nunca sei quando vou precisar de seu precioso adjutório. Porém, por mais precauções que se tome, por vezes torna-se impossível evitar algumas falhas e atentados contra o vernáculo, que a gente só vem perceber depois do texto publicado. E aí, não tem mais jeito, porque no meu ofício vale o que está escrito tal e qual acontece no jogo do bicho.

Outro dia, perpetrei dois erros imperdoáveis e dos quais me penitencio antes que algum leitor mais atento me lance a primeira pedra. Não sei onde estava a minha cabeça quando grafei a palavra paçoca com dois esses e parêntese no singular com um esse no final. Sei que errar é próprio da humana condição, mas que direito eu tinha de maltratar tão duramente a nossa já tão maltratada língua pátria? Bons tempos aqueles em que ainda existia a figura do revisor, nosso mais costumeiro bode expiatório e que era sempre o imperdoável culpado pelos nossos erros como os mordomos dos romances policiais eram sempre os primeiros suspeitos do crime. Entanto, com a entrada em cena dos computadores, o revisor acabou sendo extinto pela tecnologia e adeus nossa mamata, nosso salvador muro das lamentações. Sem o indigitado revisor, ficamos entregues à nossa própria sorte não há mais como escapar de nossas aberrações linguísticas.

Ainda me restava uma biológica alternativa, que seria jogar a culpa na minha catarata iniciante, mas logo cheguei à conclusão de que nenhuma doença, por pior que seja, pode ser responsabilizada por nossa obtusidade, nosso desconhecimento da gramática. Portanto, só me resta assumir a minha responsabilidade e ser honesto com meus raros leitores e comigo mesmo. Eu errei de um modo fragoroso, indesculpável e mereço justificadamente todas as críticas que me forem dirigidas, por mais acerbas que sejam. E nem me adianta esconder-me atrás da manjada desculpa de que todo mundo erra, aqui e ali, por que não eu? É agindo dessa maneira covarde que contribuímos para perpetuar, justificar nossos erros e deslizes com os erros e deslizes alheios, mesmo que, muito raramente se concretize a premissa popular de que o errado é que está certo. Todavia, é errando que se aprende, muito embora pessoas haja que jamais aprendem com seus erros e seguem errando vida afora ostentando uma olímpica indiferença pelos prejuízos que vão deixando no rastro de sua passagem.

Alguns amigos escritores, a quem envio minhas croniquetas antes mesmo de mandá-las para o jornal, me telefonaram sem detença, me alertando para meus ortográficos escorregões, tentando me consolar afirmando que tenho um certo crédito junto aos meus leitores mais assíduos, que me perdoarão com generosidade meus desacertos últimos. Agradeci penhoradamente a solícita cumplicidade dos afáveis companheiros, mas lhes dizendo, em resposta, que escritor não tem crédito nem na bodega da esquina. E que escritor é como os goleiros, que podem passar noventa minutos fazendo milagres, mas se derem o azar de engolir um frango no encerrar das luzes da partida, saem do campo tratados que nem um Judas de semana santa. Escritores também são solitários como os artilheiros, aos quais dificilmente se perdoa um gol perdido em horas decisivas. Nosso destino é viver na corda bamba, feito os equilibristas de circo.

Airton Monte - Meu Oásis - 29 de Novembro 2011

Dos pequenos acontecimentos se fazem as maravilhas. Das coisas mais prosaicas que nos rodeiam no dia a dia, se as observarmos com um pouco mais de atenção em nosso olhar, podem nascer sutis descobertas que jamais imaginamos. Sei que as inadiáveis obrigações e os implacáveis compromissos naturais do cotidiano exigem de nós uma pressa que nos cega e turva a nossa percepção, só nos fazem enxergar o óbvio que nos transforma em pobres máquinas sonâmbulas, presas à uma enfadonha realidade onde não há lugar para o sonho, o deslumbramento, uma revelação que nos torne maiores do que somos, mais plenos de humanidade do que pensamos. O mundo, meus amigos, não é só isso que comumente vemos em meio à talvez inútil azáfama pragmática em que vivemos mergulhados por uma questão de garantir a nossa sobrevivência como meras peças da engrenagem produtiva enquanto fazemos parte do mercado de trabalho.

Minha mulher encheu nossa varanda e a estreita faixa de cimento armado que eu, num doce exagero, chamo de jardim, de vários jarros e jardineiras dos mais diversos tamanhos, onde florescem plantas de variadas espécies e até mesmo algumas flores e dois ou três pés de rosas vermelhas que dão um brilho, um colorido todo especial ao nosso suburbano refúgio. Geralmente, no começo das manhãs e no finzinho das tardes, os passarinhos vão se chegando e pousando, descansando de seus passeios alados. Eis a razão porque a varanda enfeitada dessa humilde, mas de todo modo bela flora é o lugar da casa em que mais gosto de escrever, de ler, ouvir música, receber os amigos, de conversar à noite com a amada nossos assuntos, trocando impressões sobre o dia que passou. Além do mais, através das grades posso ver a rua e as pessoas que por ela passam, anônimos personagens do cenário citadino.

Vez em quando, para refrescar o ambiente, sopra uma brisa mansa que nos acaricia o corpo e ameniza o calor do verão. Posso admirar o sol quando ele nasce e as estrelas refulgindo lá no alto do céu e namorar a lua cheia se é noite de lua cheia. Nesse momento, um passarinho aterrissou a poucos passos de mim e me fitou sem medo algum, pois seu instinto certamente já lhe sinalizou que aquele homem ali sentado naquela mesa, com um radinho de pilha grudado ao pé do ouvido, mal nenhum lhe fará nem oferece qualquer perigo. Os passarinhos já sabem que o meu jardim é um local seguro para eles, onde estão protegidos provisoriamente da maldade humana. Acho que a beleza se resume nisso: em aproveitar as pequenas dádivas que nos são ofertadas graciosamente pela natureza. E é nessa varanda florida que me alivio das tensões que me acometem e limpo a minha alma e minha cabeça fica leve e meus pensamentos voam livres pelo território da mente.

E estar assim cercado do meu pedacinho de verde me faz lembrar, com uma alegre saudade, da infância na casa paterna, onde havia um grande jardim povoado de plantas, roseiras, moitas de jasmim e uma vetusta mangueira que dava sombra o dia inteiro. Havia dois oitões que circundavam o Solar dos Monte e bem em frente à janela do meu quarto vicejava um pé de siriguela, sempre repleto de frutas de cujo sabor minha memória jamais esqueceu. E havia o quintal enorme, cheio de árvores frutíferas, com uma cacimba no centro, um galinheiro sempre prestes a nos servir o almoço dos domingos. Se existe uma época da minha vida da qual não posso me queixar é da infância, da minha agora tão longínqua meninice. Uma lembrança que se vai tornando cada vez mais preciosa à medida que envelheço. E é neste meu pedacinho de verde, isolado como um oásis na paisagem desértica da cidade, que a recobro de vez em quando. O menino que ainda não morreu em mim viaja, passageiro perpétuo da imaginação, em busca de um tempo que não foi perdido.