quinta-feira, 14 de abril de 2011

Carta de Apoio de Frei Betto à causa da Educação

Carta de apoio - Frei Betto

Frei Betto
Cartas de Apoio
Todo o meu apoio à causa do piso salarial do professor. Não só do professor, mas também dos funcionários da escola, que também merecem tratamento salarial digno e condições de trabalho seguras e saudáveis.


Nenhum país saiu do subdesenvolvimento sem forte investimento na educação. O Brasil investe 5,2% do PIB. Deveria, no mínimo, dobrar este índice. Os países da Ásia, atrasados e devastados pela Segunda Guerra Mundial, hoje são potências mundiais por aplicarem na educação de 8 a 12% do PIB.



Além de assegurar o piso, é preciso instaurar o tempo integral na educação de crianças e jovens brasileiras. Apenas 4 ou 5 horas por dia na escola são insuficientes para uma educação de qualidade.

Fred Teixeira Leite está de parabéns por levar adiante esta causa tão prioritária e necessária para que o Brasil vença a exclusão social.

Frei Betto (escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” [Ática], entre outros livros)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Airton Monte - Insônia 31 Mar 11

Airton Monte 31 Mar 2011 - Insônia


Ah, insônia, parceira indesejável das minhas inúmeras noites mal dormidas, me roubando o desejado descanso do sono como um punguista solertemente bate a carteira de um desavisado no aperto das latas de sardinha dos ônibus urbanos. Por que razão esconsa cumpres o teu desalmado intento de tornar-me impossível alcançar os umbrais do mundo encantado dos sonhos pelas madrugadas afora? Por que me escolheste, entre tantos alvos disponíveis, para com tua implacável e constante presença me torturares assim impiedosamente desde a minha mais remota infância? Por que insistes tanto em me bloquear os caminhos pacificadores que conduzem aos braços de Morfeu? Por que fazeres de mim a tua indefesa vítima preferida?


Quem sofre desse mal noturno conhece muito bem quão profundamente ele crava suas insidiosas garras na carne exposta do humano repouso que nem uma impiedosa ave de rapina, fazendo as noites parecerem longas demais, compridas demais, intermináveis demais. Se por acaso a insônia tivesse forma humana, diria eu, que muito dela padeço, seria inegavelmente a figura assustadora de um carrasco dos tempos medievais, aguardando o condenado ao pé do cepo com as mãos empunhando um enorme machado. É assim de tal modo travestida que ela fica à minha espera ao pé do leito quase todas as noites, que chego a me espantar quando consigo a graça de dormir um sono inteiriço feito um cantar de grilo.


De há muito faz que eu, mui sofrido viajor das noites em claro, sempre chego por demais atrasado ao cais de embarque de onde parte a noctívaga barca que navega, em abençoado silêncio, rumo a uma sonífera ilha onde todos dormem o pacífico e ansiado sono dos justos e dos pecadores. Sim, porque os pecadores também dormem apesar dos mal feitos cometidos, pois desconhecem as palavras culpa, remorso, consciência pesada. A insônia é muito pior do que a latejante dor de uma unha encravada, escorrendo pus e sofrimento. Saber que existem outros como eu a carregar o peso crucial desse madeiro hípnico de nada me serve de consolo. Minha insônia, infelizmente, é unicamente minha para meu crônico desgosto.


Outro dia me falou um amigo, um desses afortunados que logo caem em sono profundo mal encostam a cabeça no travesseiro, que as pessoas acometidas de insônia habitual são dotadas de uma tendência a serem exageradamente otimistas antes de tomar seja lá qual for uma decisão. Por pensarem que tudo que tentarem fazer vai dar naturalmente certo, se arriscam mais tanto na vida pessoal como na profissional. Ao questionar por que pensava desse modo, se ele próprio não sofria de insônia, respondeu-me que viciados em jogo, após algumas horas sem dormir, continuam apostando sem parar até perder as calças. Pra mim, isso não passa de formidanda balela, pois se verdade fosse, seria eu um otimista profissional a ver o mundo sempre pintado de azul com bolinhas brancas. Não sou otimista nem pessimista. Sou realista. Vejo o mundo tal qual é e nem por isso deixo de ser mais um insone.

Airton Monte - Memória e Chuva 29 Mar 11

Memória e Chuva - 29 Mar 11


Tarde chuvosa, nublada, úmida, fosca como o olhar de quem padece de catarata. Chove a intervalos regulares uma chuvinha chata feito uma chave emperrada num cadeado enferrujado, chacoalhando sobre as telhas numa música monótona, cheia de cacofonias. Céu escuro, o sol parece haver tirado um dia de folga deixando a tarde vestida de luto. Há pouco escutei o estrondar dos trovões ao longe, felizmente. Tenho uma indisfarçável ojeriza a dias chuvosos desde os bons tempos de menino porque era obrigado a permanecer trancado entre quatro paredes, sem poder brincar no meio da rua. Tirânico e irrevogável decreto materno por medo de que a água caída do céu me molhasse o corpo raquítico, de saúde frágil, tornando-me uma provável vítima da temida visitinha da asma ao cair da noite.


Eis porque até hoje, já um adorável sessentão, a chuva ainda é capaz de entristecer meu coração, deixando-me gravebundo, sorumbático, impotente por não poder com um gesto mágico de mão mandar o diabo do chuviscado para o raio que o parta feito um Mandrake suburbano. Pergunto-me angustiado, pensando num futuro de ficção científica, quando será que o homem assumirá o domínio do clima, comandando através da tecnologia os elementos da natureza, fazendo-os acontecer ao seu bel prazer. Não, não se trata de restar, aporrinhado por um dia de chuva, acalentando pensamentos loucos, frutos de quem perdeu completamente o juízo, ficando com os mentais parafusos frouxos, sem ter doutor que os atarraxe novamente.


Sei que um belo dia o progresso científico e tecnológico permitirá ao homem realizar façanhas hoje tidas e havidas como inacreditáveis, impossíveis de serem conseguidas tais quais as estou pensando agora enquanto São Pedro abre as torneiras embutidas nas nuvens acima de minha cabeça. Basta-me parar e matutar um pouco a respeito de um passado não muito distante. Quem acreditaria, cerca de uns vinte anos passados, se alguém afirmasse que um dia os telefones deixariam de ser imóveis, fixados em suportes nas paredes ou nas mesinhas da sala de visitas para se transformarem em minúsculos aparelhos que andam de mão em mão, nos pondo em contato com outros semelhantes em qualquer parte do mundo. Só acreditaria na futura existência atual dos celulares quem, como eu, lia as histórias em quadrinhos de Dick Tracy com seu telefone embutido no relógio de pulso.


E a chuva continua mais forte ainda. Só Deus pode entender como é infinda qual está escrito nos belos versos de uma canção popular das antigas e da qual poucos se lembram, pois a nossa memória tão frágil culturalmente falando esquece rápido tantas preciosas joias do nosso brasílico cancioneiro. Que pena. Que baita saudade tenho da época em que se ouvia no rádio canções que tinham mais de três acordes e melodias do mais fino lavor. Não me vejam como saudosista, vivendo aprisionado num passado que só retorna em raros festivais retrô. Saudosista é uma palavra que não me define nem está grudada em mim feito doença. Apenas sinto saudades das coisas boas que vivi, que fazem parte essencial de meu arquivo pessoal e intransferível, sem motivos para delas largar mão. Um homem é sua memória e eu o sou. Menos a memória dessa chuva tediosa que me ensombrece o dia.

Airton Monte - A um Leitor 28 Mar 11

A um Leitor - Airton Monte 28 Mar 11

Há alguns dias passados, não sei se vocês ainda guardam na memória, escrevi uma crônica sobre uma mulher desconhecida que me escrevia cartas de amor, cada uma delas mais cheia de paixão do que a outra. Pois não é que um de meus parcos leitores enviou-me uma mensagem eletrônica contando uma história que por demais causou-me espanto e admiração. Contou-me ele que um de seus amigos escreveu cartas de amor dedicadas à esposa que jazia em estado vegetativo durante longos e sofridos dez anos, até que finalmente ela morresse. Ao perguntar ao amigo por qual razão as guardava escondidas no fundo do baú sem jamais permitir que outros olhos as lessem, recebeu uma resposta seca. O autor das amorosas narrativas apenas disse que nunca mostrou-as a seu ninguém, nem mesmo aos filhos e amigos mais íntimos porque para ele todas as cartas de amor eram ridículas.

Após relatar-me tal fato, o leitor indagou-me se eu também partilhava da mesma opinião a respeito de cartas de amor. Para ser absolutamente sincero e fiel ao que penso, devo dizer que sim, mas não de todo. Claro que admito ser uma límpida verdade haver um certo quê de ridículo em toda carta de amor, mesmo havendo sido escrita por um escritor de raro talento. O ridículo faz parte essencial, imprescindível de uma carta de amor. Quando se escreve para o ser amado é quando se escreve livremente, sem medo de usar as palavras mais inusitadas da língua, inclusive as mais tolas, as mais chulas sem apelar para eufemismos e meias palavras desnecessárias. Numa carta de amor, a mais profunda intimidade do autor fica escancarada, com todos os seus segredos desvelados, perdidos todos os pudores. Uma carta de amor é uma espécie de escavação arqueológica da alma de quem a escreve, camada após camada, um legítimo, fiel, verdadeiro mapa do tesouro.

Para mim, uma carta de amor é como se fosse uma tomografia do espírito, se não exagero na metáfora, muito embora eu sempre exagere nas metáforas. Isso porque o amor é pródigo em exageros, em exacerbações dos sentimentos, pois se não for assim não é amor. Concordo plenamente com Alfred de Musset: “a vida é um sonho de que o amor é o sonho, e vós tereis vivido se houverdes amado”. E também faço meu um verso de Emily Dickinson: “que o amor é tudo o que existe/é tudo o que sabemos sobre o amor”. Portanto, numa carta de amor o ridículo carece de importância. Uma carta de amor não pode ser avaliada por nenhum dos padrões estéticos inventados pela humana mente. Uma carta de amor trata-se de um caso à parte em matéria de linguagem. E não se enganem com as aparências nem exigências da gramática e da ortografia.

Até os analfabetos fazem cartas de amor, ditando-as para alguém capaz de escrevê-las. Se todos nós temos o direito de cantar, por mais desafinados que sejamos, todos nós podemos escrever cartas de amor. Duvido que exista um único ser bípede e pensante que jamais escreveu uma carta de amor, mesmo as mais simples, sem arroubos. Pode não a ter enviado ao objeto do seu amor temendo ser ridicularizado ou sofrer uma rejeição. Mas que escreveu, escreveu. Equivocado está quem pensa serem as cartas de amor somente feitas de água com açúcar. Há cartas de amor repletas de ódios, de rancores, de queixumes, de lamúrias, do tradicional adeus para nunca mais. Por isso, meu caro leitor, não se deixe tolher pelo receio de parecer ridículo e escreva as suas cartas de amor de coração aberto, sentimentos à mostra feito uma fratura exposta.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bom texto de Opinião !!!

O dia em que a Isabela chegar certamente eu vou ser uma das pessoas mais felizes do mundo. Isabela, para quem não sabe, é o nome que escolhi para minha filha. Mas a Isabela não deve chegar este ano (nem nos próximos 3), afinal, ela é um projeto para 2015. Até lá eu brinco com meus sobrinhos fofos e me divirto com os amiguinhos que faço por aí. Adoro crianças. Tenho a maior paciência e amo brincar com elas. Só não suporto criança metida e birrenta, que se atira no chão quando quer alguma coisa e dá showzinho.


Sempre achei que os pais têm uma responsabilidade imensa. Não é fácil colocar uma criança no mundo. Acredito que no momento em que você tem um filho transmite tudo de bom que recebeu e tenta melhorar o que viu de errado na educação que seus pais lhe deram.


Ontem eu fiquei realmente preocupada. Assisti um programa chamado "Pequenas Misses", no Discovery Home & Health. É um absurdo o que fazem com menininhas de 3, 4, 5, 6 anos. As pequenas se depilam, fazem bronzeamento artificial, usam maquiagens pesadas, roupas totalmente fora de propósito. Tudo isso pra quê? Para massagear o ego das mães? Para elas se realizarem vendo as filhas ganhando títulos? Acho um completo absurdo.


Criança tem que brincar de boneca, não andar de salto alto. Criança tem que usar maquiagem de criança, pular amarelinha, andar de balanço, brincar de pega-pega, de boneca, de Barbie, de casinha. Ao invés de se depilarem elas têm é que correr de pé no chão. Fiquei me perguntando: o que passa pela cabeça dessas mães (se é que elas têm algo dentro da cachola)?


O que vejo por aí são mães completamente alucinadas e sem a menor noção da realidade. O Fashion Weekend Kids reúne diversas socialites mirins (clique no link e se horrorize com a matéria que saiu no Estadão) e suas mães sem cérebro. Tanto que uma delas fez a seguinte afirmação: "Eu não imagino minha filha colocando uma roupa da Renner nem para dormir." É desse jeito que elas querem passar bons valores para as filhas? Elas acham que vivem em que mundo? "Elas não querem mais bufê infantil. Querem ir para Paris."


Qual será o futuro dessas meninas? Fico com pena. Não deve ser fácil crescer em um ambiente onde a futilidade impera. Tem que ter muita cabeça e saber segurar a própria onda para não se tornar uma perua maluca ou uma adolescente rebelde drogadita. Não pense que estou generalizando, já vi isso acontecer muitas vezes. É por isso que quando a Isabela chegar vou procurar mostrar o mundo - exatamente como ele é - desde cedo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Airton Monte - Salão de barbeiro - 21 Mar 11

Sou um desses homens de sorte que não possui razão de se queixar da infância que teve. Menino criado solto no vasto parque de diversões das ruas, ainda pouco frequentadas pelos carros e se podia brincar pelas calçadas, disputar encarniçadas peladas no meio do calçamento pavimentado com paralelepípedos irregulares. O maior risco que corríamos era quebrar um braço ou uma perna ao saltar dos muros ou cair de mau jeito do galho de uma árvore. Ah, havia também pairando sobre nossas cabeças a eventual ameaça de uma surra de criar bicho aplicada pelo cinturão implacável do pai depois de perpetrar uma danação daquelas. Afora isso, depois de nos livrarmos da prisão da escola e da chatice do dever de casa, tínhamos o resto do dia para desfrutar da imensa liberdade que os meninos de hoje desconhecem, coitadinhos.


Quando aprendi a ler, a saber mais das coisas do mundo e da vida, um dos meus lugares preferidos, onde ficava horas seguidas, era o salão de barbeiro de meu avô João Eusébio do Monte, instalado na sala da frente de sua casa. Até hoje guardo intacto na memória aquele local mágico, uma fonte inextinguível de novidades que saciavam muito da minha sede de infantil curiosidade. Dominando o ambiente, reinava a grande cadeira de barbeiro da conhecida marca Ferrante, de uma cor negra, lustrosa na qual tantas vezes me sentei para cortar o cabelo e me sentir tão importante quanto um adulto, embora dali saísse de cabeça quase pelada, um mais que eficaz preventivo contra os piolhos que costumavam infestar a meninada. Inclusive eu, que como todo menino não era muito chegado a tomar banho e geralmente obrigava os que me cuidavam a me banharem à força feito um bicho selvagem.


Defronte à imperial cadeira, havia um grande espelho a refletir imagens como o olho de uma câmera espiã. Abaixo dele, um balcão comprido de jacarandá, onde repousavam os instrumentos de trabalho de vovô. Os vidros de loção, os potes de brilhantina, os pincéis, tesouras, navalhas, os aventais, toalhas de um branco imaculado, os pentes de variados tamanhos, o espelho de mão para que o freguês pudesse apreciar o resultado do corte da cabeleira sob os mais diversos ângulos. Minha avó Maroca cuidava de tudo, da limpeza à contabilidade, além da sua constante presença impor ordem e respeito dentro do estabelecimento. A um canto, perto da janela, um rádio de válvulas sobre uma mesinha irradiando música e noticiários para distrair a freguesia enquanto se cumpria o masculino ritual da barba, cabelo e bigode.


Ninguém entendia muito bem que motivo levaria um menino feio, cabeçudo, usando uns óculos com grossas lentes de míope que quase lhe cobriam a cara inteira, a permanecer tanto tempo naquele ambiente, sentado muito quieto numa cadeirinha, sempre com um livro nas mãos. Se me perguntavam o porquê de eu estar ali ao invés de estar brincando com outros petizes, eu dava respostas evasivas, qualquer uma que me viesse à cabeça, menos a única verdadeira. E mesmo se eu a contasse, dificilmente alguém acreditaria que estava ali apenas para ouvir as histórias da vida real que os fregueses comentavam com meu avô. Fofocas da vizinhança, fatos do cotidiano que eu escutava atento como se ouvisse contos de aventura. O salão de barbeiro de vovô mais parecia uma redação de jornal, de tão povoado de notícias. Mal sabia eu que ali, no salão de barbeiro de meu avô, de tanto ouvir histórias, estava aprendendo a escrevê-las.

Airton Monte - O Não Poeta - 18 Mar 11

Como há coisas que ingenuamente penso que só acontecem comigo, espantar-me eu nem sequer me espanto mais quando bato de frente com o inesperado. De tanto ocorrerem, quase já se tornaram rotina em meu atribulado cotidiano. Ontem, por exemplo, num dia absolutamente comum, desses que vive qualquer cidadão, conheci, na padaria a poucos quarteirões de casa, o primeiro “Não - Poeta” de minha existência. E olhem que já faço parte do alencarino cenário literário faz muito, muito tempo. Aliás, há mais tempo do que gostaria, porque haja paciência para aguentar e tratar civilizadamente o batalhão de chatos profissionais que proliferam nesse ramo da atividade humana. São os chamados ossos do ofício, percalços inevitáveis de quem escolhe percorrer esse mais que concorrido caminho das letras. E não foi por falta de aviso.


Pois muito bem. Onde estávamos mesmo? Ah, sim. Numa padaria bem sortida, na qual este suburbano escriba tentava calmamente comprar um saco de pão de forma e algumas rodelas de salame. Mal cheguei a escorar-me no balcão, o tal de “Não – Poeta” não perdeu tempo assim que me reconheceu. Prontamente, foi logo se apresentando com a maior desenvoltura. Estendeu-me a mão num gesto largo, cheio de sorriso e de uma discreta empáfia, assim falou: - Prazer, você é Fulano de Tal, cronista de jornal. – Respondi que sim e ele retrucou: - Meu nome é Sicrano da Silva e sou um Não – Poeta! – Que sorte a minha, pensei cá com meus inexistentes botões, já que estava envergando uma gloriosa camiseta do meu amado Botafogo. Eu, que entrei aqui para levar salame e pão de forma, tenho agora, de lambugem, o supremo privilégio de conhecer o único “Não – Poeta” de todo o universo.


A esta altura do campeonato, eu talvez carecesse de indagar o que diabo seria um “Não – Poeta”. O próprio me poupou o trabalho de cansar o bestunto com tal perquirição, definindo, de modo preciso, sem que eu precisasse dizer mais nada, a sua literária condição. Ora, nada mais fácil de saber, pois “ Não – Poeta” trata-se de todo aquele que cultiva a suma pretensão de fazer a “Não - Poesia”. Mas, afinal de contas, que seria essa tal de “Não – Poesia” no jogo do bicho? Que apito ela tocaria na charanga dos poemas? Em primeiro lugar, explicou-me ele, é importantíssimo jamais confundir a “Não – Poesia” com a “Anti – Poesia”, que é a negação da poesia e, portanto, tão poética quanto aquela que almeja negar. Em verdade, a “Não – Poesia” define-se como o nada multiplicado por coisíssima nenhuma elevado à concretina potência. Entendido? Ficou claro? Limpo de dúvidas? Querem um exemplo?


Se assim o querem, lá vai um: “o pássaro e outra encruzilhada e torre de radar e ninho, o voar que as asas têm dentro do quarto”. Alguém capaz de compreender? Nem eu. Entanto, que ninguém se sinta vexado por causa disso, pois propositalmente a “Não – Poesia” há de ser feita para não ser compreendida. Sabem como é essa questão ambígua de princípios, vamos dizer assim, supostamente estéticos. Como é do conhecer de todos, desde tempos imemoriais, o poeta é poeta pelo simples fato de que não pode deixar de sê-lo. Agora, “Não – Poeta” qualquer um o pode ser. Basta dizer que é, nem precisa escrever. O “Não – Poeta” comete o seguinte modus operandis: cerca-se de vários dicionários e sai catando palavras ao léu. Mistura tudo, depois despeja no primeiro papel à vista. O “Não- Poeta”, quando em fase radical, prefere papel de embrulho de açougue ou peixaria. A única desvantagem de ser “Não – Poeta” são as não – musas, a não – paixão, o não – aplauso, o não – leitor.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Airton Monte - A Mulher Ignota - 17 Mar 11

Boa de mais Airton Monte !!!

Sinto uma enorme falta das belas cartas de amor que uma mulher desconhecida e misteriosa costumava me escrever e que apareciam, como num passe de mágica, ma minha caixa do correio. As cartas vinham envoltas em um olor de perfume e cheiravam a jasmim. A letra dela era tão bonita que chego a ter certeza de que a mão que as escrevia estudou caligrafia. Os envelopes não continham o nome da remetente e eram mandadas sempre de uma agência dos Correios situada no centro da cidade. Chegavam tão regularmente de 15 em 15 dias que foram se tornando parte da rotina e eu me habituei a recebê-las e as lia, escondido da minha mulher, com a satisfação de um amante que acalenta um amor proibido. Com pejo, confesso que as lia, altas horas da noite, trancado na solidão do banheiro feito um menino pecando solitariamente.


A cada vez que as lia, brotava em mim uma lírica comoção, não fosse eu um desses românticos irremediavelmente incuráveis que ainda se emocionam sinceramente com um gesto de ternura alheia, quanto mais vindo de uma mulher que me era e permanece sendo completamente desconhecida. Se me perguntassem qual o nome dessa mulher que me escrevia cartas de amor, eu responderia com a única verdade: não sei. Poderia, quem sabe, chamar-se Ana, Maria, Clarice, Cecília, Joana ou Sylvya com ipsilones. Foi como a batizei. Dei-lhe o fictício nome de Sylvya com ipsilones simplesmente porque jamais tive em minha vida uma namorada chamada Sylvya com ipsilones. Pensei e ainda penso, talvez por poética ingenuidade, não existir no mundo nenhuma mulher chamada Sylvya com ipsilones. A namorada que eu nunca tive e por quem sofro de saudades fantasmas até hoje.


E não ficou só nisso a caminhada da minha imaginação. Também me deu na cabeça inventar-lhe um codinome que traduzisse a distância que de mim separava a mulher que me escrevia apaixonadas cartas de amor. Portanto, passei a chamá-la simplesmente de A Mulher Ignota, a mulher que me amava pelo que eu escrevia sem sequer desconfiar que todo escritor não passa de um falso mendigo, a mão estendida pedindo uma moeda de reconhecimento. A mulher que me escrevia cartas de amor passei a chamá-la somente de A Mulher, sem mais delongas nem explicações desnecessárias, pois cartas misteriosas de amor dispensam explicações, razões plausíveis, motivos certos, pesados, medidos. Da mulher que me escrevia cartas de amor sabia tão pouco, quase nada. Foi bom que assim o fosse. Atraía-me o seu doce mistério, fascinava-me seu bem guardado segredo. Ela, a desconhecida, a inesperada.


Dizia me amar desesperadamente, que criava cachorros no quintal, cultivava flores no jardim e no peitoril das janelas, que gostava de vinho, música, mar, luar, serenatas, dos sonetos de Florbela Espanca e que adivinhava, pelo foto do jornal, um quê de inextinguível tristeza e de ironia em meu olhar. Isso é tudo que sabia dela e me bastava. Pela vez primeira, uma mulher dizia que me amava sem restrições e nada exigia de mim, nada pedia em troca de seu doidivanas amor. Nem compromisso, nem sentimentos recíprocos. Pedia-me unicamente que me deixasse amar sem medos nem constrangimentos. Depois de algum tempo, parou de me escrever. As cartas sumiram, desapareceram e nunca mais soube da mulher que me escrevia cartas de amor e que tanta falta me fazem, mal sabe ela o bem que me causou. Suas cartas espantavam, enquanto as lia, essa tristeza mal cicatrizada nos meus olhos e que A Mulher Ignota poeticamente descortinou.

Airton Monte - Um Anjo Torto 14 Mar 11

Airton Monte - Dedicada ao poeta Carlos Drummond


Pois teve um Drummond no meio do caminho da minha vida. Um tal de Carlos Drummond de Andrade. Um poeta mais do que moderno: eterno. Ele se dizia poeta menor e de ritmos elementares. Que milagre é Drummond? Que sonho? Que sombra? Um mago? Um bruxo? Uma verruma do mais puro diamante a poesia deste poeta Carlos. Sempre perguntando, indagando, sugerindo. Investigando a vida e o depois da vida exaustivamente. Percebo em Drummond a vitalizante floração do cotidiano, a vivência do homem enfiado no seu tempo, embora a agulha do seu bordado poético vá cerzindo passados, presentes e futuros. Um poeta sem nenhum medo das palavras. Pois quantas palavrinhas marginalizadas do universo poético não foram alforriadas por ele? Mesmo ao mergulhar na subjetividade, quando se escreve, nos conduz além da aparência habitual das coisas, na busca desesperada de uma realidade mais profunda.


Pra mim, Drummond é um mergulhador. Um caçador de pérolas. Sem pejo de sujar as suas asas de anjo torto na lama, no lodo, no limo dos abismos da alma. Soube assumir, com toda a dignidade de um poeta, a sua própria miséria, a sua própria beleza. Que jamais lhe peçam a mordaça da coerência. Um homem livre, sem peias, sem freios. Este poeta ensinou-me que a minha história pessoal, a história de qualquer ser humano pode ser mais bonita que as aventuras de Robinson Crusoé. E que a Terra do Nunca é o território do meu coração. E que dentro de nós há sempre um Peter Pan moleque disfarçado na figura de um senhor de rosto grave, de reto crânio calvo e uns óculos espessos. De ar tímido e olhar irônico. Um sujeito que não xingava a vida, pois sabia que a gente vive, depois esquece. E que a história do homem sobre a Terra está cheia de teias de aranha.


Quando leio seus poemas, sinto-me inevitavelmente confrontado com a humanidade empenhada na infindável luta contra o destino e suas armadilhas. O poeta está sempre a nos propor os dilemas fundamentais do existir, do estar-no-mundo: amor, ódio, beleza, vida, morte entremeados num pano de fundo de angústia, esperança, desespero, solidão, todas as forças poderosas que movem nossas ações que precipitam os acontecimentos, as tragédias, o horror, erros, paixões e violência. Apesar disso, põe sua poesia a favor de um mundo melhor ao mesmo tempo que nos exorta a ter mais coragem de viver em um mundo pior. E que chega um tempo em que a vida é uma ordem. A vida, apenas, sem mistificação. Um tempo em que nos dizemos que de nada adianta morrer, apelar para a fuga sem volta rumo ao nosso freudiano impulso de morte.


Tudo no coração é ceia. Tudo se come, tudo pode ser transformado. Drummond prepara uma canção onde todos nós nos reconhecemos. Uma canção que acorda os homens e adormece a criança que reside no âmago de cada um. O mais é simples barro sem esperança de escultura. A poesia de Drummond a vejo como um ritual de celebração à liberdade, à justiça. Os homens de mãos dadas, prenhes do sentimento do mundo. Este, o verdadeiro poema da necessidade humana. É ou não é, José? O poeta nos fala que o último dia do tempo não é o último dia de tudo. Onde a rosa do povo se despetala. Pode ser feia, suja, desbotada, mas é realmente uma flor. Era preciso que um anjo torto nos revelasse o que já sabemos. Em essência, todos os homens se parecem em qualquer parte do mundo. Quando leio Drummond ilumino-me com sua tamanha poesia. Quando morreu, pensei: o último dia na vida de um poeta não é o último dia da sua poesia.

Airton Monte - Sem Explicação - 11 Mar 11

"Apesar de ser domingo, para minha surpresa, nenhum dos telefones deu sinal de vida até agora, o que é coisa rara de acontecer. Nem mesmo os filhos, que para outras plagas viajaram, se deram ao trabalho de enviar uma mensagem sequer pelo Graham Bell. Pelo menos, deve ir tudo bem com meus desdobramentos celulares, assim interpreto de maneira positiva esse filial silêncio. Enquanto estão mergulhados em plena diversão, os filhos costumam esquecer que possuem pai e mãe. A regra habitual é só telefonarem, seja lá que hora for, quando estão passando por aperreios e dificuldades. Portanto, por enquanto, deixo-me restar quieto no meu canto, aproveitando a paz e o sossego que me foram concedidos provisoriamente. Digo provisoriamente, porque quem tem filhos se acostuma a viver no que chamo de estado espiritual de por enquanto, em um infindável compasso de espera até que eles voltem para casa sãos e salvos de suas semanais aventuras.


Devo confessar, antes de tudo, que há pouco eu estava realmente perdido, enredado em um cipoal de pensamentos vagos, ideias vadias, sem saber como começar esta crônica. De quando em vez tal situação de branco acomete a inquieta mente de quem se vê forçado pela dura missão de escrever todos os dias, quer esteja com vontade ou não e eu desconfio muito da tão decantada fidelidade das minhas volúveis musas de plantão. Nem sempre elas estão dispostas a colaborar com este humilde cronista pousando-me nos ombros feito dóceis passarinhos, sussurrando-me as palavras necessárias, as frases indispensáveis que me despertem a imaginação. A inspiração soprada pelas musas é passageira e imprevisível qual as chuvas de verão. Impossível confiar verdadeiramente nesse eventual auxílio.


No fim das contas, aquele que escreve por ofício só pode contar é consigo mesmo e haja sangue, transpiração e, por vezes, um esforço hercúleo do já sambado juízo. Foi o que aprendi desde que sonhava em tornar-me escritor. O resto não passa de conversa fiada de certos turistas das letras que escrevem por puro diletantismo. Eu não escrevo porque assim o quero, eu escrevo porque não posso viver sem fazê-lo. Mexer com as palavras, contar histórias faz parte do meu show e da minha humana essência. Se exerço esse ofício bem ou mal passa por outro nível de discussão, cujo resultado final não reside nas mãos dos críticos, como muita gente pode pensar. A decisão de ler o que escrevo ou ignorar as minhas mal traçadas fica a cargo dos leitores. Eis uma lídima verdade incapaz de ser negada. É ou não é, Seu Zé?


Claro que eu continuaria escrevendo as minhas lérias quer fossem publicadas ou jazessem enterradas nas gavetas da escrivaninha, em caixas inúmeras espalhadas pela casa, servindo de repasto para traças e cupins. Escrever nem é fácil nem difícil. É uma coisa natural, espontânea para cujo nascimento quem escreve não encontra explicação. Também desconheço se é um dom, uma bênção ou maldição. Quem sabe, não seja uma vocação herdada de algum antepassado. Meu bisavô, por exemplo, era poeta e foi um dos fundadores da Padaria Espiritual. Quiçá não passe de uma mera coincidência e eu tenha nascido escritor por obra do acaso. De nada tenho certeza, quanto mais dessas sutis artimanhas dos genes. Só sei que vou levando a vida enfiado até os gorgomilhos nos misteriosos desvãos da literatura. Não escolhi esse caminho. Por ele fui escolhido."