quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Airton Monte - Palavras paternas - 19 de setembro 2011

Para minha infelicidade e atiçando o meu desespero de modesto bibliófilo, os malditos cupins atacaram novamente. Ah, como odeio do mais profundo de meu coração esta maldita e desgraçada raça de insetos devoradores implacáveis de livros. Se fosse por mim, e que se danem todos os ecologistas, tal praga seria sumariamente extinta da inteira face do planeta. Somente assim, na base do “genocídio” como solução final, me seriam finalmente devolvidas a paz e a tranquilidade que essa miserável espécie de insetos costuma, de quando em quando, me roubar com a mais cruel desfaçatez. O único jeito de recuperar o meu sossego por algum tempo foi convocar em regime de urgência urgentíssima os dedetizadores de quem já me tornei um freguês habitual há anto tempo que nem lembro mais.

Bem sei das razões e dos motivos que levam os cupins a abandonarem ou serem expulsos de seu habitat natural para infestarem as cidades, mas pouco estou interessado nisso agora. Agora, o que desejo mesmo é exterminá-los das minhas estantes e do resto da casa com a indispensável e providencial ajuda dos especialistas e ponto final. Passado o temporal e tudo parecendo voltar ao normal, já mais calmo, começo a remexer no meu baú de guardados, onde fragmentos do meu passado e de minha história pessoal restam como amareladas preciosidades. São pedaços desencontrados da memória como peças soltas, desarrumadas de um quebra-cabeças que só eu sei como montá-las novamente, colocando cada uma delas em seu preciso e exato lugar. Entre a multidão de manuscritos, fotografias, recortes de jornais e revistas, encontro um envelope pardo, volumoso. Atraído pela curiosidade, abro-o e para minha surpresa está cheio de escritos de meu pai.

Em sua grande maioria são cartas dirigidas a mim sob forma de crônicas. Leio uma delas: ”Meu filho, hoje levantei-me cedo, era quase madrugada ainda, pois algo me provocou tal decisão. Fui direto ao quintal, onde, de repente, uma mansa brisa me lambeu a face. Vislumbrei a nossa velha cacimba. Aproximei-me e olhei suas águas quase centenárias. Sentei-me às suas bordas e ali fiquei perdido mirando a imensidão azul do firmamento. Estrelas retardatárias inda piscavam sem sair do lugar. Mergulhei num passado distante. Abri o livro da vida e me vieram lembranças que me marcaram para sempre. Porém, foi tudo tão sutil, tão rápido como uma lâmpada que repentinamente se apagasse. Súbito, acordei daquele sonho que me dominava. Já liberto, busquei fazer o que mais gosto: escrever. Manejei a caneta e principiei a colocar em ordem um punhado de palavras. Meu filho, você sabe tanto quanto eu que não escrevemos sempre o que agrade a todos. Por isso, procuro deixar de lado o medo da crítica e da opinião dos outros, feito um livre atirador.

Cada um pode escrever à sua própria maneira, como realmente gosta e lhe satisfaz. O papel nos protege feito o mais fiel dos confidentes de tudo que nos vai na alma, tudo que nos alegra ou entristece, que nos revolta, que nos enternece. Há pessoas, e são tantas, que acham ser um desperdício de tempo essa nossa mania de escrever. Não podem calcular o que significa para nós esses momentos de devaneio em que enleamos por completo o nosso eu. As palavras que nascem de mim e ponho no papel, como as amo, como as quero, filhas que são de minha alma. Escrevo em momentos raros como hoje, ao sentir-me desamparado, sozinho. Não tenho certeza se o que escrevo tem alguma poesia. As palavras vivem em mim e brotam que nem flores, um olho d’água no sopé da montanha. De qualquer maneira, chegará um dia em que minhas maiores riquezas serão minhas lembranças. Serão elas, filho, que me ajudarão a viver”. Dobro a carta, devolvo-a ao envelope e fico olhando a tarde me sorrindo com um sorriso poeticamente igual ao de meu pai.

Airton Monte - A amiga - 16 de Setembro 2011

Outro dia, estava eu sentado na sala de espera do oftalmologista, ansiosamente esperando a minha vez, quando dou de cara com uma amiga que fazia muito tempo que eu não via. Foi uma agradável surpresa para nós dois, que sempre fomos por demais chegados nos áureos tempos em que a Praia de Iracema reinava soberana nas noites boêmias da cidade. Apesar dos muitos falatórios das más línguas, nunca houve entre nós nada mais do que uma férrea e bela amizade, que se manteve intacta até os dias de hoje, embora não nos vejamos tanto como deveríamos e merecemos, já que nossas vidas seguiram por outros caminhos onde o desencontro foi a tônica dominante. Ela casou, viajou para fora do país, perdemos nossos telefones e endereços e nunca mais nos vimos pelas encruzilhadas da vida, nos perdendo um do outro por obra e graça do destino.

Tomados pela grata surpresa, nos abraçamos e nos beijamos com aquele casto ardor das antigas e verdadeiras amizades que jamais se findam, quer nos vejamos todos os dias ou de século em século. Como nossas consultas se seguiam uma depois da outra e teríamos o resto da tarde livre de outros compromissos, combinamos de esperar um pelo outro e irmos a um barzinho qualquer matar as saudades e botar a conversa em dia. Assim prometido, assim cumprido. Saímos da clínica, procuramos um lugarzinho discreto, agradável e começamos a procura do tempo perdido. Falamos do passado e do presente, das nossas vidas, nossos trabalhos, nossos casamentos, nossos filhos. E à medida que os drinques iam se sucedendo, a conversa foi ficando mais íntima, as confissões e particulares da vida pessoal de cada um foram, naturalmente, sendo revelados sem pudor algum, pois ainda restava entre nós uma velha confiança jamais perdida.

Mesmo adentrada nos umbrais da meia idade, a amiga não perdera em quase nada a sua beleza. Permanecia uma mulher tão atraente como sempre o fora. Claro que havia feito uma plástica ou outra e era uma assídua frequentadora de academias. Em dado momento, perguntou-me sobre meu casamento e eu lhe respondi que ia tudo bem, afora a inevitável rotina de praxe que costuma acometer toda e qualquer relação de longa duração. Evidente que, vez por outra, aparecem as tentações habituais e todos nós sabemos o quão fraca é a carne, tanto para os homens quanto para as mulheres. E eu não estava disposto, a esta altura da vida, a por em risco meu casamento por um rabo de saia numa aventura ocasional. E também já havia vivido, usado e abusado da minha cota de paixões, que em termos de custo e benefício, me tinham trazido mais problemas do que prazeres.

Foi então, nesse exato instante, para meu espanto, que a minha doce amiga, com um sorriso maroto, moleque nos lábios sensuais, abriu-me de par em par as portas da alma e do coração. Revelou-me que, após haver descoberto um tumor benigno no seio direito, sentiu-se despertar para a brevidade da existência e a necessidade de desfrutar certos prazeres proibidos. Apesar de continuar amando o maridão, passou a traí-lo eventualmente o mais discretamente possível e com o indispensável sigilo. Começara a frequentar, através da internet, sites especializados em aproximar pessoas casadas, dispostas a manter ligações extraconjugais desprovidas de qualquer tipo de compromisso, de envolvimento pessoal. Era sua maneira de fugir da rotina e da monotonia dos sagrados laços do matrimônio. Ao nos despedirmos, deixei-me a pensar e desejar que a minha doce amiga haja encontrado realmente um lenitivo para a brevidade do existir e um alívio para a atenuar a descoberta da nossa angustiante finitude.


Airton Monte - O Caminho das pedras - 14 de Setembro 2011

Tudo vai bem, tudo legal neste feriado providencial do Sete de Setembro. Pelo menos até as duas horas da tarde. De um dia que parece transcorrer pacificamente, apesar de uma ou outra surpresa um tanto quanto desagradável, porque seria até demais querer uma total tranquilidade o tempo todo. Uma casa é verdadeiramente um mundo, onde não é raro que as coisas de uso habitual de vez em quando se quebrem ou os caseiros objetos findem lá por entrar em pane, gerando aporrinhações de duração longa ou passageira. É a descarga do banheiro que entra em greve, o ferrolho do portão que se solta inesperadamente dos parafusos que o prendem, uma lâmpada que ser queima inesperadamente, o botijão de gás que se esvazia sem dar aviso prévio, a borracha da máquina de lavar que amanhece furada, partida em dois pedaços feito uma cobra dividida ao meio por um facão afiado.

Nessas horas em que campeiam essas domésticas preocupações, mais difícil do que manter-se calmo é encontrar um profissional, em pleno feriado, para resolver a aflitiva situação. Bombeiros, eletricistas, encanadores, todos os quebradores de galhos sumiram de vista, desapareceram na buraqueira como num passe de mágica e não há como encontrá-los nem por força e obra de um milagre. E a sujeitos imprestáveis como eu, totalmente desprovidos de qualquer habilidade numa dessas mecânicas atividades, incapaz até de pendurar um quadro na parede sem derrubar a própria utilizando prego e martelo, só resta esperar que o outro dia chegue para mandar providenciar os devidos e necessários reparos e consertos. Afora esses pequenos distúrbios, nada a mais no céu do que os aviões de carreira, além das brancas nuvens polvilhando o azul solar da tarde.

Sem nada o que fazer, ligo a televisão e começo a me distrair vendo um documentário, longo demais para meu gosto, sobre o tão falado e assaz comentado Caminho de São Thiago, pelo qual transitam em êxtase e em transe os verdadeiros e falsos peregrinos vindos de todos os cantos do mundo, caminhando centenas de quilômetros à procura de um suposto e peripatético nirvana, em busca de supostos conhecimentos místicos e revelações espirituais. Enquanto marcham, rumo a seu anímico destino, apoiados em rústicos cajados, todos trazem estampada nos rostos uma expressão indefinível de quem procura o pote de ouro no fim do arco-íris. Têm no coração a esperançosa certeza de que o simples ato de fazer esta caminhada os purgará de todos os pecados. Como se o Caminho de São Thiago fosse assim uma espécie de lavanderia da alma, uma cornucópia de milagres. Desse ponto de vista, o Caminho de São Thiago tem a mesma serventia mística das romarias pátrias.

A única diferença é que por lá romeiro atende pelo aristocrático apelido de peregrino. Cá por mim, não acredito no pensamento mágico de que andar até Juazeiro, Canindé ou qualquer outro santuário daqui e d’alhures possa mudar magicamente a minha existência. Também não creio que mortificar o corpo com algum tipo de sacrifício físico venha nos causar uma mais que milagrosa evolução espiritual, nos transformando de demônios em anjos da noite para o dia. Ora pílulas, andar nada mais é do que uma condição natural dos bípedes, pensantes ou não, e jamais um passaporte para alcançar a paz e a felicidade de espírito. Se o fosse, o homem feliz não seria o homem sem camisa, seria o carteiro. E o esmoler pediria esmolas dando gargalhadas de porta em porta. Entanto, o Caminho de São Thiago virou moda, “point” místico, uma estrada mágica, cujo garoto propaganda chama-se Paulo Coelho, que descobriu o que para ele foi o verdadeiro e legítimo caminho das pedras.


Airton Monte - Em feitio de oração - 13 de Setembro 2011

Crônica cheia de espiritualidade

De há muito, meus lábios não se abrem para fazer uma oração ajoelhado em um banco de igreja ou mesmo quando estou em casa, sozinho com minhas angústias e aflições. Faz tanto tempo que não converso com Deus a sós, pedindo ajuda, tirando minhas dúvidas que são muitas, ou mesmo para agradecer as pequenas e grandes graças que tenho recebido pela vida afora. Sim, há momentos em que meu ateísmo vacila, balança, balança como um prédio em meio a um terremoto, mas não cai. O Deus, no qual por vezes creio, é bastante diferente Daquele ou Daqueles em que as outras pessoas acreditam (ai de mim, que não perco essa tola mania de querer ser original). Do meu Deus não tenho um pingo de medo, mas um amoroso respeito e com todo respeito, Senhor, igual ao que eu sentia por meu pai. O meu Deus não me ameaça com castigos terríveis nem me tiraniza com ordens de cruento ditador. Sempre que converso com Ele, parece até que estou batendo um papo descontraído com um velho e querido amigo.

E quando conversamos, jamais Ele me fala em céu ou inferno, em graças e castigos, em fiéis ou infiéis, em hereges ou santos. Nosso assunto preferido é sempre a bondade que reside no fundo da alma de cada homem e que nos faz ser verdadeiramente humanos. O meu Deus, além disso, é dotado de um incomensurável senso de humor e dá divinas gargalhadas com o que se comenta a respeito Dele. Todos estão certos e todos estão errados, já que sou, por definição, o Indefinível. Ele me diz, piscando-me o olho e com um sorriso maroto no rosto. Às vezes, Ele assume a aparência de um velho, às vezes a de um garoto, numa espécie de brincadeira só permitida aos seres onipotentes e oniscientes. E aproveitando dessa intimidade que Ele me concede, fiz-lhe alguns poucos pedidos, na ansiosa espera de me serem concedidos e que tornarão a minha existência mais leve e mais aliviada das chatices do dia a dia e às quais todos nós estamos indefesamente sujeitos, seja lá quem formos ou deixamos de ser.

Livrai-nos, Senhor, dos que ferem a espontaneidade anárquica do botequim, filosofando a sério sobre mulher, futebol e vida alheia. Pois o botequim é espontaneidade, o imprevisível, o inusitado, o quando menos se espera é que acontece. Livrai-nos, Senhor, dos falsos amigos, esses Judas do afeto, fariseus do bem querer. Livrai-nos, Senhor, dos falsos pastores, cujo rebanho nada mais é do que a salvação da lavoura. Do pastor, é claro. A eles, os que enganam e traem a boa fé do semelhante, castigai-os com uma mulher estabanada, que fale mais do que o locutor do jóquei clube. Livrai-nos, Senhor, do imposto de renda, do bolso vazio, da firma reconhecida, dos credores inoportunos que tocam a campainha de madrugada, nos roubando o sono e o sossego. Livrai-nos, Senhor, da fila do banco, do cheque especial, da promissória vencida, do salário atrasado. Por via das dúvidas, Senhor, livrai-nos precipuamente das pragas de ex-mulher rancorosa, que são pior do praga de mãe e nos atormentam pela vida afora.

Dos maus poetas, livrai-nos, Senhor, urgentemente, que deles a poesia quer distância por uma questão de sobrevivência. Livrai-nos, Senhor, do sexo feito às pressas, num simulacro de paixão. Das pobres e tristes criaturas castas, que odeiam o próprio corpo e seus desejos e para quem Deus tornou-se sinônimo perfeito de mortificação e de martírio, livrai-nos, Senhor, para todo o sempre. Livrai-nos, Senhor, dos assassinos de árvores, que trucidam o verde cinturão de Fortaleza e a transformam num deserto de cimento armado por onde os hunos contemporâneos passeiam suas patas. Livrai-nos, Senhor, dos políticos safados, dos padres de passarela, dos juízes marreteiros, das baratas, das traças, dos cupins que infernizam aqueles que amam os livros. Das desilusões paternais livrai-nos, Senhor. Das mulheres que não sabem cozinhar, nem fazer cafuné e caldo de caridade, livrai-nos, Senhor. Livrai-nos, Senhor, de todos os relógios que nos escravizam ao tempo. E se não for pedir muito, Senhor, livrai-nos jamais dessa capacidade infinita de sonhar e que nos faz sublimemente acreditar na esperança.

Airton Monte - A Última passeata - 12 de Setembro 2011

Agosto passou e deixou atrás do seu rastro as suas marcas agourentas, fazendo jus ao seu mórbido apelido de “mês do desgosto”. Perdi, para sempre, um velho e grande amigo ceifado pela implacabilidade costumeira da Bela Dama sem Piedade. Era médico, sanitarista e chamava-se Francisco das Chagas Dias Monteiro, mais popularmente conhecido como “Chico Passeata”, desde os heroicos tempos do movimento estudantil durante a luta contra a Ditadura. Éramos amigos há pelo menos 30 anos e nos formamos juntos na mesma turma de medicina nos longínquos idos de 1976. Demorávamos a nos ver, mas quando nos encontrávamos pelas esquinas da vida era como se fôssemos vizinhos do mesmo prédio e acabássemos de nos ter visto ontem. Entre nós dois, o tempo e a distância, a frequência com que nos víamos não tinham a menor importância. Nossa amizade superava tudo.
Na noite em que recebi a infausta notícia de sua morte, eu estava sozinho em casa, tentando escrever algumas palavras vadias para a crônica do dia seguinte e, a princípio, fiquei tão chocado que não acreditei no que me diziam pelo telefone. Com a cabeça atarantada, sem conseguir colocar os pensamentos em ordem, liguei para outros amigos comuns que me confirmaram o triste acontecimento. Era como se a cada telefonema que eu dava, a notícia reboasse em eco pela cidade:” O Chico Passeata morreu! O Chico Passeata morreu!”. Depois, minha mulher chegou e repartimos os dois a grande dor que ora me consumia. Fazia tanto tempo que eu não sabia o que era chorar, que já nem me lembrava mais do gosto de uma lágrima sequer. Entanto, naquela noite sombria, eu chorei pelo Chico umas pequeninas lágrimas envergonhadas e tímidas. E logo vieram as saudades, as lembranças, essas companheiras inseparáveis das trágicas horas em que nossa alma se veste de luto.
 
Sim, bem sei que as perdas são decorrências inevitáveis do existir. Porém, à medida que envelhecemos, elas vão se tornando cada vez mais difíceis de suportar. A cada pessoa querida que morre, parece que a gente vai ficando cada vez mais sozinho, meio desamparado, meio órfão. Parece que vamos ficando cada vez mais frágeis do que quando ainda rebrilhava em nós o fulgor da juventude. Nestes dois, três últimos anos, tenho perdido alguns bons amigos que se mandaram para o andar de cima mais cedo do que eu. E a cada vez que frequento nossos bares preferidos, habituais pontos de encontro, percebo que as rodas estão diminuindo, as mesas cada vez mais vazias e as ausências começam a deixar de ser provisórias para tomarem um ar de eternidade. Custa-me dizer isso, mas os amigos estão começando a se ir de nossa presença um após outro, lentamente. De repente, estão aqui entre nós. De repente, já não estão, sumiram sem aviso prévio ou com partida anunciada. É assustador e triste.
 
Dessa vez, o escolhido pela fatídica roleta do destino foi o velho Chico Passeata de guerra. Desolado, procuro nas estantes confusas da biblioteca caseira um dos seus livros de poemas. E não acho. Sim, para quem não sabe, o Chico escrevia versos. Tinha alma de poeta e espírito de combatente. E uma risada larga, potente, verdadeira. Uma gargalhada somente possuída por aqueles que são apaixonados pela vida. O Chico ria por fora e por dentro, despido de qualquer pudor de demonstrar sua alegria por estar vivo. Era um homem sem rancores. Não guardava ódio nem daqueles que o torturaram na prisão Devia ter lá com ele os seus demônios íntimos feito todo mundo. Mas se os tinha, pelo que sei, convivia muito bem com todos eles. O Chico jamais deixou de sonhar e seu generoso coração era inimigo número um do talvez, do se, do quem sabe. Desculpa, meu velho amigo, por não haver participado da tua última passeata. Preferi te chorar sozinho, com tuas lembranças e tuas saudades. Até mais ver, Camarada!.


"O Chico jamais deixou de sonhar e seu generoso coração era inimigo número um do talvez, do se, do quem sabe"

Airton Monte - Pátria Minha - 9 de Setembro 2011

Airton Monte - Pátria Minha - 9 de Setembro 2011

Claro que eu bem sei que já é tarde e atrasado escrever, falar a respeito daquela que aprendemos, desde a mais tenra idade, ser a data magna da brasílica História. Acontece que, talvez por ser um mau patriota, quase me passou despercebido o não tão festejado dia da Independência do Brasil, quando nos tornamos, enfim, uma nação não tanto independente de Portugal. Pois é. O Sete de Setembro, para muitos brasileiros, não teve maior significado do que o aguardado início de mais um feriadão, dos inúmeros que povoam o nosso pátrio calendário. Até posso estar redondamente enganado em minha pessimista opinião, mas sinceramente vejo-me obrigado a constatar que para nossa festeira tribo tupiniquim, o Sete de Setembro foi, pouco a pouco, perdendo o seu real sentido.

Diferentemente de outros países e de outros povos, não comparecemos em massa ao desfile das Forças Armadas e dos estudantes marchando garbosamente diante dos palanques das autoridades, que ficam cheios de políticos enquanto grande parte das ruas fica praticamente vazia feito um amontoado de bocas banguelas. As pessoas não se vestem orgulhosamente de verdeamarelo. A bandeira nacional não tremula na frente das casas nem nas janelas e varandas dos apartamentos. O Sete de Setembro é como se não fosse. O dia de nossa Independência torna-se apenas uma mera desculpa para beber e festejar a longa folga do trabalho e dos estudos.

Será realmente um fato por demais incontestável que o patriotismo dos brasileiros somente nasce, brote, floresce, desabroche de quatro em quatro anos durante a Copa do Mundo? Quando as cores nacionais enfeitam esta Taba de Tupã do Oiapoque ao Chuí? Acho que nem mais tamanho e tradicional fervor patriótico acontece como acontecia dantes neste patético e imprevisível Quartel de Abrantes. Também, não é para menos, pois muito tempo faz que a nossa amada seleção se nega a dar-nos a alegria de uma conquista por mais chinfrim que seja, se distanciando cada vez mais do coração do povo. Do meu, inclusive. Além do que, pra piorar a situação, se já somos um povo desprovido de memória, nossa histórica amnésia está ficando cada vez pior. Nossos heróis pátrios vão sendo gradativamente esquecidos geração após geração e se tornando uns ilustres desconhecidos, como se nunca houvessem existido. Um país sem memória é um país sem identidade própria.

E assim, desmemoriados, tendemos a nos tornar um simulacro triste de nós mesmos. Chego a pensar que nosso nacionalismo é de fancaria e que não amamos o Brasil como devíamos naturalmente amá-lo. Quem sabe, porque pensamos que o Brasil não nos ame tal qual o merecemos. Todavia, temos orgulho do nosso famoso e popularíssimo “jeitinho brasileiro”, que sempre quebra o nosso galho quando dele precisamos e que se dane a ética, uma palavra quase riscada do nosso dicionário, infelizmente. Muitos de nós ainda creem que o futuro do Brasil é como filho de mulher estéril: jamais chega. Muitos de nós, embora neguem com veemência, têm vergonha do Brasil e de ser brasileiros. Querem ser tudo, menos brasileiros. Muitos de nós costumam fazer piada com a expressão “Brasil, país do futuro”. Mal sabem ou olvidam que esse futuro já chegou.

Airton Monte - Embriaguez - 8 de Setembro de 2011


Crônica que não precisa elogios - ela se elogia por si só!!! 

Airton Monte - Embriaguez - 8 de Setembro de 2011

O dia amanheceu radioso, belo como se o domingo estivesse estreando uma roupa nova feita do mais puro e límpido esplendor.Tudo ao meu redor veste-se de claridade e luz tal e qual deveriam nascer todos os domingos. Hoje é um bom dia para fugir de casa feito um menino travesso e sair passeando livre, leve e solto pela cidade atrás do inesperado que bem pode estar escondido atrás da curva da próxima esquina. Não como um ladrão, mas sob forma de um amigo com quem se pode matar as saudades e trocar conversas durantes horas perdidas. Por falar nisso, para minha triste surpresa, nenhum amigo me telefonou hoje para me dar somente boas noticias, contar-me alegres novidades. Faz-me uma falta sem par ouvir aquelas fraternas vozes que me falam direto ao coração. Todavia, não posso me queixar dessas ausências afetivas. Os amigos têm lá a sua vida própria, outros amigos também merecedores de sua atenção quanto este suburbano escriba.

No entanto, creio que já basta, já chega de entoar resmungos e queixumes, do contrário vou acabar me transformando no que não quero ser: um insuportável velhote mimado, enfezado, ranzinza e resmungão feito muitos que conheço por aí. Melhor aproveitar, em toda sua intensidade, a beleza desse dia que a natureza generosamente me ofertou. Mui principalmente porque não sei quando outro igual a esse virá bater a minha porta. E porque não sou o umbigo do mundo nem o centro do universo. Além do mais, essa minha solidão é muito mais aparente e ilusória do que propriamente real. Às vezes, é natural de mim por um pouco de exagero nas minhas emoções e sentimentos. Coisas de um incurável romântico sessentão, que ainda guarda dentro do coração um tantinho assim de meninice e um inolvidável sabor da longínqua infância. Feliz do homem que, apesar de envelhecer, jamais perde o infante moleque que o habita. Assim sou eu e assim o fui durante a existência inteira. Um Peter Pan que não virou Capitão Gancho quando ficou adulto.

Um homem pode embriagar-se de domingos? Claro que sim. Eu hoje estou liricamente embriagado do resplandecer desse domingo. Então, vem-me à lembrança um trecho de um poema de Baudelaire: “É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso, eis o único problema. Para não sentires o fardo horrível do tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis, sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtudes, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”. E como não concordar com Baudelaire nesse exato momento de deslumbramento dominical, embora eu me encontre completamente sóbrio às três horas em ponto da tarde? Mesmo sem beber uma só gota, bêbado estou com a beleza das coisas que ora me rodeiam. A meus olhos bêbados o mundo parece novo como se eu nunca o houvesse visto. A música que ouço, as palavras que leio me são desconhecidas. Menos as que escrevo.

Até minha cara no espelho me parece a cara de outro homem, sem vincos de amargura, despida das rugas de tristeza, os lábios entreabertos num sorriso, um brilho, um lume de indisfarçável alegria reluzindo no fundo das pupilas. Sem dúvida, estou bêbado desse domingo. Sinto-me tomado por uma embriaguez diferente das quais estava habituado. E com a vantagem de amanhã não despertar morrendo de ressaca, entre ânsias de vômito e de náuseas. Vontade de cantar canções antigas, de dançar boleros, de recitar poemas de uma velha crestomatia, de jogar bola no meio da rua, de comer algodão doce, de fazer amor com minha mulher, de beijar meus filhos, de confessar todos os meus pecados mortais e veniais, de rezar a Ave Maria às seis da tarde, de pensar que sou um homem bom como sempre desejei ser. E enquanto espero calmamente a noite chegar, anseio que essa minha embriaguez insólita não me abandone tão cedo para que eu consiga dormir, enfim, o sono dos justos e dos inocentes.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Airton Monte - Temporada de caça - 7 de Setembro 2011

Rezam as mais antigas lendas, que vão sendo passadas de pai para filho, geração empós geração, que não existe homem, nesse mundo velho sem porteiras, mais louco por mulher do que os viris cearenses. Ao que parece, pelo que andei descobrindo nos jornais da terra, tal alentada fama não passa de uma invenção exagerada do alencarino imaginário popular, de conversa pra boi dormir. Segundo dados fornecidos pela fidedigna Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, somente durante o transcorrer do primeiro semestre deste ano, cerca de cento e três espécimens do chamado belo sexo foram brutalmente assassinados nesta, digamos assim, pacífica Taba de Alencar. E pelos mais variados e tolos e torpes motivos, como o ciúme, por exemplo. Quer dizer, trocando em miúdos, tais estatísticas em verdade significam que muitos homens cearenses não gostam nenhum pouco de mulher. Eles gostam mesmo é de matar mulher, abatê-las como animais de corte num cotidiano matadouro.

Ora, meus amigos, pondo a mão na consciência, havemos de convir, sem sombra de dúvida, que centro e três mulheres mortas, vítimas de homicídio, covardemente trucidadas em apenas brevíssimos seis meses, é veramente um número aterrador de crimes praticados contra o indefeso mulherio. Não tem Lei Maria da penha que dê jeito ou amenize significativamente esta terrificante, bárbara e selvagem situação. Para mim, considero liberada e aberta a temporada de caça às femininas criaturas, de alto a baixo da nossa bela e civilizada pirâmide social. As mulheres estão sendo mortas feito bichos por qualquer dá cá aquela palha. Pelo andar da mortífera carruagem, chegamos ao ponto de que qualquer macho sente-se no seu pleno direito de por um fim na vida da mulher com quem se relaciona, seja marido, amante ou um mero namorado. E como defesa do seu ato hediondo, todos findam por usar a manjada desculpa de legítima defesa da honra. Durma-se com um barulho desses.

A meu ver, na minha modesta opinião de criminologista de botequim, cento e três mulheres exterminadas em apenas cento e oitenta dias já pode ser configurado como um pequeno genocídio. Ao que parece, os homens permanecem considerando a mulher como um simples objeto de sua propriedade, com o qual podem fazer o que bem lhes der na primitiva telha. Para esses trogloditas, mulher passa longe de ser gente igual a eles, inexiste como cidadã e como pessoa. Servem unicamente para satisfazer os seus desejos e prazeres, mesmo os mais estapafúrdios e sem razão de ser. Como por um decreto natural, as mulheres lhes devem uma tirânica obediência absoluta e ai daquela que ousar desobedecer as regras que lhe são impostas, ousar seguir o seu próprio caminho, tornar-se dona de seu nariz. Impiedosamente são sumariamente condenadas à morte sem direito de apelação e de defesa.

Que país é esse em que vivemos, onde os homens se arvoram em juiz e carrasco ao mesmo tempo? Cá por mim, jamais entrou na minha cabeça a paleolítica ideia de que a honra de um homem esteja entre as pernas de uma mulher. Da mesma maneira que sou incapaz de acreditar na veracidade de matar ou morrer por amor. Por amor não se morre nem se mata. Por amor se vive e se deixa viver. Sim, o amor, por vezes, transforma-se de uma bênção em uma maldição da vida. E daí? Se fomos feitos para amar e ser amados? Sim, o amor pode virar ódio e um ódio feroz e inextinguível. Eu mesmo já fui vítima dessa imprevisível mutação de sentimentos. Traímos e somos traídos, amamos e deixamos de amar certa pessoa. Será mesmo o ciúme o tempero do amor? Não sei, pois o amor encontra-se além da minha humana compreensão. Entanto, se não tomarmos rapidamente as devidas providências, dentro em breve o mais belo animal da criação divina estará certamente em vias de extinção. E que coisa mais sem graça será um mundo sem mulher.

Airton Monte - Inútil Conselho 6 de Setembro 2011

Airton Monte - Inútil Conselho 6 de Setembro 2011

Pode ser que muitos dos meus compatriotas ainda desconheçam que não é somente no futebol, na violência das grandes e pequenas cidades, nos índices alarmantes de corrupção generalizada que o nosso Brasil brilhe no cenário mundial. No disputado ranking dos biriteiros de todo o universo conhecido, nós, impávidos filhos desta nação sem jaça, também não chegamos a fazer feio em matéria de encher a cara. Pelo que sei de fontes as mais fidedignas, os brasileiros estão bebendo cada vez mais cerveja durante o passar dos últimos dez anos, iniciando-se nas lides etílicas(pasmem vocês que ora me leem)a partir da precoce idade das quinze primaveras. Nessa década, o consumo de cerveja sofreu um considerável aumento de trinta por cento por cabeça, o que pelo andar da carruagem, vai nos levando a alcançar, mais cedo ou mais tarde, o lugar mais alto do pódio entre os contumazes bebedores do “pão líquido”. Isso sem contar com os outros tipos de etílicas beberagens.
Por enquanto, vamos segurando, com certa galhardia, o décimo-sexto lugar, honroso por sinal, entre os povos cervejeiros, ficando atrás somente de gigantes da cervejagem como República Checa, Irlanda, Alemanha, Áustria, Austrália e outros candidatos fortíssimos à medalha de ouro nas olimpíadas biriteiras. Entanto, nos resta o honorável consolo de sermos, ainda, os eternos campeões no que diz respeito à ingestão da nossa popularíssima e tradicional cachacinha. É isso aí, moçada. Pra frente, Brasil, Brasil. E haja cachaceiro vicejando por todos os cantos e rincões dessa festejada e festiva Taba de Tupã. Eu particularmente acredito e tenho plena convicção de que o nosso Ceará também dá a sua importante contribuição nesse interminável campeonato de bebedores, participando ativamente e com louvor para que o Brasil haja alcançado tal digníssima posição no rol dos apreciadores da bebida sagrada dos faraós.

Claro que nada melhor para aliviar e fazer esquecer as costumeiras agruras da dureza do cotidiano citadino do que reunir-se com os amigos nos finais de semana para jogar conversa fora e beber umas tantas umas e outras. Existe até quem diga, não sei se em tom de blague ou expressando o que verdadeiramente pensa, que beber é bom, mas que beber todos os dias é muito melhor. Eu também achava isso e seguia ao pé da letra este tolo aforisma, sorvendo minha cervejinha diária em quantidades industriais, prática que por muito pouco não acabou com o meu precioso fígado, levando-me desta para pior antes do que eu desejava. Portanto, amigos meus, mirem-se no meu péssimo exemplo e vão mais devagar com o andor que o santo é frágil feito o barro e o pâncreas. E não aconselho nem ao meu pior e mais ferrenho dissidente afetivo a se arriscar a ver de perto a antipática face da morte. Garanto não ser uma visão muito aprazível.

Antigamente, no auge dos meus bons e saudosos tempos de boemia desregrada, quando eu varava noites seguidas pelos bares afora, costumava afirmar peremptoriamente que boêmio era boêmio e que alcóolatra era alcóolatra, sem me dar conta de que a fronteira entre boêmios e alcóolatras era sutil e tênue como jamais supunha a minha vã filosofia. Vã ilusão, mais tredo engano. Assim descobri quase muito tarde demais. Hoje, sei que os boêmios são, pela própria natureza, dotados de uma exacerbada tendência em tornar-se escravos vitalícios do seu próprio prazer. E que seu desmesurado amor pelo copo por vezes é capaz de superar, de vencer o seu instinto de sobrevivência. Por isso, amigos meus, eu lhes peço encarecidamente que bebam com sapiente moderação e amem mais as suas vidas do que o alcóolico produto. Bebam devagar e sempre porque nenhum fígado é de ferro nem blindado. E assim, poderão beber a vida inteira, celebrando Baco saudáveis e felizes por anos a fio. E lembrem-se de que é inútil tentar acabar com a bebida existente no mundo, pois quant mais se bebe, mais a turma dos produtores fabrica.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Airton Monte - Conversa Fiada - 5 de Setembro

Airton Monte - Conserva Fiada - 5 de Setembro

Hoje, assim que acordei de um sono estremunhado e sem sonhos, a manhã deu o ar de sua nublada graça com uma cara aborrecida de quem vai ficar gripado. Que nem eu. Havia um punhado de nuvens escuras flutuando lá por cima, ondo o voo dos pássaros não alcança. Felizmente, para meu gáudio, logo o sol apareceu iluminando o céu alencarino do jeitinho que eu gosto. Ah, doces artimanhas da mãe natureza, rainha de todas as imprevisibilidades, que costuma se divertir brincando com os desejos e quereres dos homens, atrapalhando ou facilitando as nossas vidas e nossos dias. Ainda não tenho a menor ideia do modo como vai transcorrer o meu cotidiano. Sei que haverá surpresas e previsibilidades à minha espera tal e qual sempre acontece. Haverá uma longa série de compromissos inadiáveis, impossíveis de serem evitados, obrigações a cumprir nos horários previamente marcados e, se a sorte me sorrir, serei premiado com alguns momentos de liberdade.

Não folheei as páginas dos jornais de hoje para ver as notícias e verificar o resultado da loteria acumulada para saber se sou o mais novo milionário desta Taba de Tupã, em que se fazem fortunas da noite para o dia. E por que não eu seria mais um desses sortudos contemplados pela roleta do destino? Pois então: um dia é de quem perde, o outro é do ganhador. E assim, como bom e legítimo brasileiro que sou, vou me enganando toda semana, arriscando o meu rico dinheirinho no cassino oficial pelas lotéricas da vida, insistindo, persistindo, jamais desistindo porque penso sinceramente que meu dia de tirar o pé da lama há de chegar, sem a menor dúvida. Quem não chora não mama e cobra que não anda não engole caçote. Os amigos, que também jogam nos mágicos números, me chamam de ingênuo por haver me tornado um assíduo jogador de um baralho viciado e por acreditar piamente que, mais cedo ou mais tarde, os volúveis ventos da fortuna soprarão para o meu lado.

E daí? Pergunto eu, o que seria de um homem sem seus mais acalentados sonhares? Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que de vez em quando, eles se transformem nos mais terríveis e apavorantes pesadelos. Sim, claramente reconheço que sou nada mais, nada menos do que uma máquina de desejar e de sonhar desde que me entendo por gente. E não vejo razão nenhuma para mudar, justamente agora que já adentrei os umbrais encanecidos da pior idade. E feito Cecília Meireles, sou dado a ver “pequenas borboletas brancas e amarelas apressando-se pelos ares e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende”. Assim costumo conversar comigo mesmo nos raros instantes em que estou sozinho, disposto a aturar minha própria companhia. Feito as borboletas de Cecília. Entanto, dias existem, e não são poucos, em que me eximo de conversar até com a minha sombra, seja noite, seja dia.

Prefiro ficar na minha, restar isolado num canto qualquer da casa e para isso, nada melhor do que trancar-me no banheiro, tentando inutilmente manter a teimosa cabeçona chata completamente vazia dos mais vagos e vadios pensamentos. Todavia, muito cedo acabei por descobrir ser impossível deixar de pensar um só segundo. Ah, que grande e original descoberta que fiz. É como se eu houvesse inventado novamente a roda. E rio de mim, da minha cara de palhaço de circo mambembe refletida no espelho. Pelo menos, trata-se de um hábito salutar rir de si mesmo, não se levar demasiado a sério em certos necessários momentos e ocasiões. Agora, me deu uma vontade danada de beber o vinho mais caro do mundo, de pé, no balcão sujo e desmazelado de um botequim pé-de-chinelo, misturado aos bêbados habituais que povoam as esquinas dos subúrbios. Decadência, sim. Mas com toda a elegância que me for possível.